Outros Textos

Amor de Bigodes (e Quatro Patas)


Lembro-me do meu primeiro dia com ela. E, de nesse dia, raquítica e mal apresentada - a mais pequena da ninhada - ela ser mais pulgas do que gato. E lembro-me de tratarmos dela. E de a alimentarmos. E de a pormos apresentável.
Lembro-me de lhe dar nome. O nome. Tiara.
Lembro-me do primeiro cio dela. Da maneira engraçada como parecia falar quando miava. De a ver a acender as luzes todas pela casa.
Lembro-me de - por ser criança - querer que ela passasse mais tempo comigo. E de ela querer estar no canto dela, sossegada. Lembro-me do olhar de "deixa-me dormir em paz". E de lá se conformar com dormir ao colo.
Lembro-me do mau feitio com o qual recebeu o companheiro com o qual passou o resto da vida. E do mau feitio com as pessoas. E do mau feitio em geral. Lembro-me que o mau feitio se misturava numa doçura só sua, que não dava sempre nem a toda a gente. Mas que dava no momentos certos e a quem julgava merecedor.
Lembro-me de a achar parecida comigo: pela maneira como procurava carinho quando o queria - mas só quando o queria - resmungando e fugindo das festas que não havia pedido como se fossem ataques pessoais.
Lembro-me da tranquilidade com a qual dormia no banco do jardim. Das orelhas que se levantavam quando ouviam as guloseimas agitando-se no saco. Da corrida para as guloseimas. Da felicidade. Da cauda hirta em tom de contentamento.
Lembro-me da espera, atenta e expectante, quando se cozia peixe lá em casa. E da alegria quando chegava a sua vez de provar o petisco.
Lembro-me da forma como, perante a sofreguidão que levava o companheiro a ocupar a taça inteira no momento de lhe servirmos a comida, ela aprendeu a tirar comida da taça com a pata e levá-la à boca, sempre com um ar altivo e superior que parecia dizer "francamente". Traços humanizados com os quais arrancava sempre um sorriso a toda a gente.
Lembro-me que, se acaso eu estava triste, ela se aproximava. Como se sentisse. Como se soubesse. Lembro-me que isso me fazia sentir melhor.
Lembro-me de muitas coisas. E lembro-me já com saudades.


Tiara, minha amiga de bigodes e quatro patas, obrigada por estes 16 anos e pelas memórias que me ficam para a vida! Vou sentir a tua falta!

Marina Ferraz
Fevereiro 2016


Slipping through my heart
Artigo de opinião sobre a música Slipping de Helder Godinho

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De música não sei muito. O meu entendimento em pouco ultrapassa a vulgar barreira da opinião. Mas gosto de pensar que entendo da vida. Que entendo do mundo. Que entendo de sentidos, de sentimentos, de emoções
A "Slipping", por isso, é uma música que me sinto capaz de descrever, ainda que não - nunca - de uma forma musicalmente informada e crítica. Sinto-me capaz de a descrever pelo que me faz sentir, pelo que me dá, pelo que arranca de mim. Sinto-me capaz de a descrever porque a sinto como se fosse minha, porque me inquieta a alma e me apazigua o coração. Sinto-me capaz de a descrever porque me faz chorar, porque me faz sorrir, porque entra em mim, me descreve e me completa.
Então, embora não possa falar com conhecimentos eruditos de música ou qualquer  análise estrutural, posso descrevê-la. E o que posso dizer sobre ela é isto: enquanto escritora, a "Slipping" tem a letra que eu gostava de ter escrito; enquanto bailarina, tem a melodia sobre a qual gostaria de ter dançado; enquanto pessoa exemplifica a forma como, desde de menina, sonho ser amada. Quando a ouço, sinto que posso tocar o meu passado com as pontas dos dedos,  como se fosse presente; acredito que a minha alma se expande e quase a vejo a ondar, juntamente com o som que me invade o quarto, a casa, o coração.
A "Slipping" é a música que ouço quando preciso de me acalmar. E é a música que me faz sorrir nos momentos (mais) tristes. "I want to be close when you can't sleep and need a heart/I give you mine, please have mine". A letra segue e eu acredito. É uma música que me rouba a solidão e que me dá um abraço. É uma música que me faz lembrar o aconchego quente dos amigos e dos amores por entre as deceções da vida. E, assim, é uma música que me lembra que, mesmo nos piores momentos, há sempre alguém que está lá para nos amar incondicionalmente, pelo que somos, mesmo que a vida ou as nossas escolhas nos façam escorregar para os locais mais negros que guardamos em nós.
Não é uma música que fique pela melodia. Não é uma música que fique pela letra. Não é uma música que fique pela voz suave e cheia que lhe dá vida. É uma música que tem narrativa. Uma música que tem mil narrativas diferentes. E eu apaixono-me por todas elas cada vez que a ouço.
Na "Slipping", Helder Godinho fez, a meu ver, o que milhares de artistas tentam (e falham em) fazer todos os dias. Entra na alma de quem ouve, preenchendo o coração. Subitamente, ele constata "you keep slipping" mas, ao ouvir, a verdade é que não escorregamos mais para as falésias da tristeza. As feridas fecham. As cicatrizes ficam escondidas. E resta a memória de termos andado por esses mundos de amargura.
É assim que defino a "slipping". Defino-a como se fosse sobre mim. E, definindo-a assim, vejo-a como a música que me cura a alma. A música que me limpa o coração. A música que me faz (sempre) continuar a acreditar no amor e num mundo melhor.
De música não sei muito, é verdade. Mas, ainda assim, sei isto: se os corações feridos tivessem voz, a "slipping" era a música que eles escolheriam cantar.

Marina Ferraz
21 de Novembro de 2013


O(s) dia(s) da mulher
Texto temático sobre o dia da mulher



Para mim, pessoalmente, todos os dias são dias da mulher.
Temos 365 dias por ano de luta por uma igualdade que não vem.
Temos 365 dias por ano de esforço no trabalho, em casa.
Muitas de nós conciliam, diariamente, horários infernais e mal pagos para chegar a casa e ter um emprego não remunerado a cuidar das tarefas domésticas ou dos filhos.
Durante 365 dias lutamos para sermos as melhores profissionais, namoradas/esposas, filhas/mães/avós.
E durante 365 dias, mesmo agora que a sociedade se diz igualitária, temos que esmiuçar cada pedaço de nós mesmas para sermos tidas em igual consideração, para não nos verem como se fossemos fracas e emotivas, para saberem que a nossa força existe e persiste, apesar de tudo.
Por 365 dias somos mulheres. Excepto quando, de quatro em quatro anos, o somos por 366.
O dia da mulher não é o dia em que se celebra o facto de sermos mulheres mas tão só o dia, o único dia de 365 dias, em que o mundo pára e olha para nós, reconhecendo a maravilha da nossa condição. Para reconhecer uma condição que devia ser reconhecida e valorizada todos os dias.
Sou mulher e hoje é o Dia Internacional da Mulher. Mas, hoje, eu olho para mim e para todas as mulheres do mundo da mesma forma que olhei ontem e que olharei amanhã. Somos guerreiras do dia-a-dia e não guerreiras do dia corrente. Então, para todas vocês, mulheres que o são no quotidiano, desejo que este seja mais um feliz dia da mulher. E que amanhã seja outro. E que outro venha depois. E depois. Que possam celebrar sempre o que sabem que são, mesmo nos dias em que o mundo não sabe reconhecer a maravilha da feminilidade.

Marina Ferraz
8 de Março de 2013



As cores do arco-íris
Tema proposto por Tânia Silva

Para alguns é violência,
Para outros é paixão.
Vermelho é inconsistência,
É desejo e atracção.
  
Euforia compassada
Numa vida de alegria,
Laranja é a cor usada
Pra nos trazer energia.

Amarelo é flor de vida,
É sol de felicidade,
Energia não vencida
Que nos toca e nos invade.

Verde, esperança e leveza
De uma harmonia sem fim.
É a cor da Natureza,
Da estabilidade em mim.
    
Azul é noite e verdade,
Sabedoria, entendimento.
É a cor da lealdade,
Da cura do sentimento.

 Índigo é magia pura,
Cor de respeito e piedade,
Cor de devoção e cura,
Cor de mudança e verdade.

Violeta é nobreza,
É respeito e poder.
A mudança e a leveza
Que envolve cada ser.
    
E em cada cor batida
Num arco-íris distante
Fala-se do que há na vida,
Diz-se a vida num instante. 

Marina Ferraz
8 de Dezembro de 2012



De encontro ao esquecimento
Tema proposto por Galega e seus livros

Passaste por mim sem o que o meu amor tivesse passado. Um sorriso educado nos lábios, um brilho estranho e cativante no olhar frágil e imaturo. Dois beijos na face. "Como estás?" - a pergunta soou assim, como se te importasses realmente com a resposta. Mas não fez sentido. Se quisesses a resposta, a verdadeira resposta, ela não seria feita num encontro casual.
Queria ter dito. "Estou apaixonada por ti. Ainda. Apesar de tudo o que se passou." Mas, olhando para ti, tudo o que fiz foi engolir a mágoa.
"Estou bem. E tu?" - eu queria ouvir a resposta. A resposta verdadeira. A resposta honesta, por uma vez. Mas ouvi-te a mentira, igual à minha. "Eu também".
Falaste sobre o trabalho frustrante, sobre o parco ordenado e a vida descoordenada que levavas, sempre com o sorriso a garantir que, por detrás de tudo isso estavas bem. E eu falei-te sobre o filme que vi e que pensei que fosses gostar.
"Não mudaste nada, Ana". Doeu cá dentro. Quis perguntar "quem é a Ana?". Quis perguntar se eu tinha importado tão pouco que até o meu nome deixaste desvanecer por entre as memórias do passado. E para mim era ainda tão recente. O teu nome ecoava, tal como a tua voz e os teus gestos. Como podias ter-te esquecido assim?
"É verdade" - respondi, antes de me despedir e me afastar, em fuga, com lágrimas nos olhos.
Mas eu tinha mudado. Tinha mudado naquele segundo, quando percebi que nunca tinha sido nada na tua vida. E, daí em diante, foste um estranho. Porque a pessoa que eu conheci, a pessoa que eu amei, essa pessoa jamais esqueceria o meu nome. Porque eu nunca seria um nome atirado ao ar para alguém que amei tanto. Não valeria tão pouco para ela. Pois não? A pergunta fica, entre lágrimas e aceitação: Como podes ter esquecido o meu nome quando o sussurraste ao meu ouvido tantas vezes? Como podes ter-te esquecido de mim?

Marina Ferraz
26 de Novembro de 2012

Poema dos signos
Tema proposto por Histórias que podiam ser

Gémeos é estabilidade.
Dual ser com dual face:
Social pela metade,
Triste sem que o mostrasse.

Caranguejo é assim:
Sensível sem poder mais,
A viver até ao fim
Em mil sonhos irreais.

Leão é o corajoso,
Pensa tudo e tudo diz.
Sempre atento e orgulhoso
É mais mestre qu' aprendiz.

Virgem é pormenor,
Tudo em tempo compassado,
Com agenda e com rigor,
Num passo só seu marcado.

Balança é comedimento,
Tudo tem peso e medida.
Tem sempre o melhor intento,
Nem sempre a melhor saída.

Escorpião é complicado
Tudo é como ele quer!
Há-de ir a todo o lado,
Faça ele o que fizer...

Sagitário é fogo incerto
Que jamais sabe dizer
Qual o caminho correto,
Como deverá viver.

Capricórnio é pés na terra
Com a cabeça no ar,
Nunca sabe quando erra,
Nunca se cansa d' errar.

Aquário não tem medo.
Destemido até mais não
Segue, sem fazer segredo,
O que diz o coração.

Peixes é romantismo
Dor, tormento e alegria.
É, por si, o eufemismo
De tudo o que se diria.

Carneiro é pensamento,
Lógica e sanidade.
Sabe tudo num momento,
Deixa tudo na metade.

Touro é força, indecisão
Mas também trabalho, vida,
Mil tamanhos de paixão
E uma alma destemida.

Marina Ferraz
18 de Novembro de 2012

1 comentário:

Gisela Rego disse...

Em relação ao poema dos signos achei-o bastante original e criativo.