Páginas

terça-feira, 31 de março de 2026

Leitura (não) obrigatória

 

Imagem retirada do Jornal Público

Tentarei ser breve.

Costumo ouvir isto de pessoas que se alongam. Não sei se é obrigatório ou não. A gramática está sempre a mudar e a introduzir regras parvas. Pelo sim, pelo não, mais vale fazer como se vê fazer. Então, tentarei ser breve.

 

Ontem, quando começou a falar-se de retirar a obra de Saramago das leituras obrigatórias no ensino português, levantou-se toda uma maré de indignação nas redes sociais... e eu fui bombardeada com perguntas sobre como me estava a sentir, como se, em vez de mera leitora (e discípula) de Saramago, eu fosse detentora de uma parcela dos direitos autorais ou uma artista patrocinada pela herança do homem. (Aos interessados, não sou!)

As perguntas sobre como tudo isto me fazia sentir foram mais rápidas do que os meus sentimentos. Porque, para que se sinta, é preciso entender. Sentimentos avulsos, impulsivos, trazem geralmente uma dose de superficialidade. Para vermos algo concretamente, penso, é preciso que olhemos essa mesma coisa de vários ângulos. Embora, geralmente, se cheira a censura, parece censura e diz que se chama censura... seja evidentemente uma tentativa abnegada do Estado para melhorar o sistema, a pensar no bem de todos os portugueses e portuguesas que compõem esta valente raça. 

 

Há indignação, primeiro. Claro que há. Quando o Nobel da Literatura português passa a ser uma sugestão de leitura, temos de nos indignar. Mas proponho que olhemos para isto de outra forma. Só por um bocadinho, pode ser?

 

Deixa de ser uma leitura obrigatória.

 A minha primeira é pergunta é: a leitura deveria ser obrigatória? Eu também andei na escola, o lugar por excelência onde se adjetivam livros como sendo uma seca, oh não e, não menos importante, veículos para os compêndios de resumos. Na era do livrinho amarelo, era giro ver alguns colegas passearem o Introdução Ao Estudo d' Os Maias – e elogio aqui o Professor Carlos Reis, que escreveu uma introdução que, para ser entendida, precisa de usar um descodificador chamado ter efetivamente lido o livro. Mas isto é raro. A maioria dos livros de resumos são o que se chama papinha feita, servem para pensar por quem não quer pensar. E, ao fazerem aquela coisa a que atualmente se chama dar spoiler não só retiram o prazer da escrita, como impedem toda a valorização linguística e cognitiva que, por norma, vem com um livro.

As pessoas não são preparadas para ler e muito menos para retirarem prazer efetivo das suas leituras.

A rapidez do digital torna o produto-livro mero ornamento de estante, porque amar um livro demora. Implica a calma de nos sentarmos com ele, não para falarmos, mas para ouvirmos. Se não o fazemos em conversas de café, vamos realmente permitir que um autor nos entre na cabeça e fale... só fale? Muitos não o fazem. Séries, filmes, reality shows, festas, concertos... tudo isto é mais rápido, menos invasivo. Acaba e acabou. Os livros são horríveis também por isso: não acabam quando acabam... porque no convívio diário com eles, mudam algo em nós, que fica e invade o pensamento de quando em vez.

 

Isto começa de pequenino. Com a criança criada por pais que também não têm o gosto da leitura ou, se o têm, não têm tempo nem cabeça para ler. Rotinas de corrida, de trânsito, de problemas financeiros, de stress e de exaustão. Os pais nem têm gosto pela maternidade e paternidade, quanto mais pelos livros. Não há tempo. Atira-se ao puto qualquer coisa que o distraia, dão-se prendas para substituir a atenção. E, conclusões de génio: não substitui!

 

As pessoas não deviam ser obrigadas a ler. Deviam construir, ao longo da vida, o desejo de fazê-lo. Na falta disto, porque – sejamos honestos – também não interessa que as pessoas queiram ler obras como as de Saramago, o processo de estupidificação está iniciado e de boa saúde. Pouco importa, na verdade, que peguem nos livros de Saramago – e isto justifica que eles se mantenham numa categoria de livros sugeridos – porque quem pegar no retangulozinho todo cheio de palavras já vem bem preparado para: um: desistir; dois: não entender; três: não questionar. E, para o garantirem, deixando que entre uma dose gigantesca de opinião pessoal, escolhem obras que promovem isso mesmo. Não se enganem. É claro que o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis são excelentes livros. São obras magníficas! Para leitores frequentes, que leem, que têm cultura geral, que se interessam, que têm um vocabulário mais extenso e uma capacidade interpretativa provinda de muitas leituras anteriores. Se os miúdos lessem, estas seriam obras perfeitas para o Ensino Secundário... mas, como não leem, são a sepultura onde a réstia de vontade de ler (se ainda havia alguma) vai para morrer. Eu não mando nada, não sou linguista, nem educadora, nem parte dessa elite das decisões... mas diria, com base nos (muitos) livros de Saramago que li, que talvez se tivesse mais sucesso com As Intermitências da Morte ou o Ensaio Sobre a Cegueira. Ou deverei dizer, para os efeitos pretendidos pelo Estado, menos sucesso?

 

E, depois, entramos na velhinha questão. O grupo que defende que isto já deveria ter sido feito, usando uma frase simples, mas que nos diz que aquela pessoa, tão proativa na defesa do pobre Governo, também não lê. Acho bem, ele nem usava vírgulas. Senhores. Vocês não só não leem, como nunca abriram um livro de Saramago. Rest my case!

 

Isto é sobre política. Nisto concordo com muitas das opiniões que li. Mas não é de agora. Isto faz parte de um ciclo. Isto faz parte de uma desumanização das pessoas para que não cultivem em si amor pelo saber. Primeiro faz-se com que não tenham tempo para ler, o que leva a que não gostem de ler. Depois, introduzem-se alternativa poucochinhas. Depois, obriga-se as pessoas a lerem coisas de que não gostam de ler... só porque o Ministério da Educação diz que tem de ser. Pessoas que não gostam de ler, ganham aversão à leitura. Depois, caridosamente, afasta-se o instrumento da tortura, o livro, e garante-se que seja só sugerido.

 

Imagino que, se Saramago fosse vivo e aqui estivesse, teria palavras para dizer em privado... e só muito dificilmente viria criticar a decisão em público. Talvez escrevesse (outra vez) sobre esse vazio das pessoas. Não me parece que se espantasse. Rir-se-ia? Gosto de pensar que sim.

 

Saramago escrevia. Não me parece que conseguisse conter todo o entendimento que tinha do mundo dentro do corpo magro. Fez-nos este favor: deixou que a obra viesse ao mundo. Mas só veio ao mundo para se dar àqueles que querem esse mundo. Que querem entender também. Para aqueles que querem ouvir o filósofo que residia nos seus ossos. Para aqueles que querem ouvir, mais do que falar... para aprenderem a não ser cegos.

 

Tenho uma imensa dívida de gratidão a Saramago. É por isso que lhe chamo Mestre. Muitas vezes sinto que ele escreveu para que eu o lesse. Muitas vezes me salva da vida e do mundo que, tal como ele dizia, é péssimo.

 

Adorava que toda a gente aceitasse a sugestão de ler Saramago. Adorava que não precisássemos de obrigar as pessoas a ler. 

Vivo de utopia sim. Como os autores dos livros que eu gosto de ler. E é para isso que leio. Para saber que não sonho sozinha nesta Jangada de Pedra que, por vezes, em vez de me afastar da Europa, me afasta de todos os outros.

 

Não fui breve. É a vida! Diz-me a experiência que este texto é longo demais para o digital e que a maior parte das pessoas não vai lê-lo. Também aqui acho que vou aprendendo com Saramago. Que se lixe. Eu quis escrevê-lo. Em todo o caso, não é de leitura obrigatória. Estão cheios de sorte!


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com


terça-feira, 24 de março de 2026

Idiomas

 


Nem toda a gente que fala a minha língua, fala o meu idioma. Nem toda a gente que fala o meu idioma, fala o meu dialeto. Há multidões que são deserto. E pessoas que são teto em dia de tempestade.

 

Há pessoas que me ouvem e não escutam metade. Que me olham e não veem. Que me saboreiam e não me sabem. As pessoas seguem sendo sãs na insanidade da cegueira de dentro. São o seu próprio epicentro. Um pensamento lento. Um passo pachorrento. Parte feliz dos 85%. Solidão é estar com elas. Falar e não ser ouvido. Não ser entendido. Olhar e não ser olhado. Estar e não fazer sentido.

 

Eu tenho ido. Sobrevivido à agressão do alheamento. Tentado dizer menos, ser menos, do que trago no pensamento. Acomodar o sol dos outros no meu furacão. Recolher ao momento. E lamento tentar ser porque outros são. Eu devia ter dito não... algures... se a realidade me aflige. Não pensar em mim como o erro que nenhum bofetão corrige.

 

Nem toda a gente que fala a minha língua, fala o meu idioma. Nem toda a gente que fala o meu idioma, fala o meu dialeto. E, quando alguém o faz, parece certo. Depois, nessa vontade de estar perto, adormece o vazio... e, finalmente, desperto. É então que nasce o oásis no deserto.


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com


terça-feira, 17 de março de 2026

Panteão

 

Imagem retirada do Pixabay

Tenho a sala cheia de mortos.

Gosto de os alinhar, de olhar para eles e planear com qual falarei a seguir.

Adoro as conversas matinais que mantemos. Nelas, contam-me histórias, filosofias, pensamentos. Falamos de tudo o que não se diz a ninguém. Estamos todos mortos. Não há o risco de virem os vivos, com as suas críticas, as suas guerras, as suas malsões.  

Os meus mortos dizem-me que não sou um defeito de fabrico, o ovo podre que eclodiu, a erva daninha que desfeia o jardim dos outros. Ou, quando dizem que o sou – também temos dias desses – acrescentam prontamente que o são também, que o são comigo, que desfeamos o mundo em conjunto. Fazem-me sentir que pertenço àquele alinhamento empoeirado, mesmo que me falte o requinte e a sabedoria para pertencer ao seu eclético núcleo. Não devia precisar deles para me sentir inteira, para sentir que pertenço, que sou gente... Eu sei! Não devia precisar deles... Mas, por favor, ninguém venha dizer que nunca acordou com a necessidade de misturar, no seu café, um pouco de amor.

 

Tenho a sala cheia de mortos.

Não têm todos a mesma idade. Não têm todos a mesma altura. Não têm todos o mesmo sexo. Não têm todos o mesmo género. Não têm todos o mesmo intento. Não têm todos a mesma voz. Nenhum deles quer saber destas diferenças! Contam-me histórias distintas. A maioria fala do tempo em que estava vivo. Alguns falam do agora, como se o tivessem vivido. As suas certeiras previsões atacam todos os meus medos. Eu choro. Eles choram comigo. O dolorido das suas lágrimas deixa, por vezes, marcas na minha pele e na deles. Peço desculpa por ser tão fraca. E eles respondem com todas as palavras, agitando-as num sopro. Tornam-se muralha. Tornam-se exército. E eu sobrevivo a mim mesma.

 

Tenho a sala cheia de mortos.

Gosto de todos eles, alinhados no repouso da estante, cada qual na sua sepultura feita de capas moles e folhas gastas. Gosto de todos eles, embora o coração tendencioso diga José e Vergílio com uma ternura que acorda as inseguranças dos outros.

Para os acalmar, gosto de lhes arejar os caixões. Abro-os e escuto o que têm para dizer.

Cada caixão tem a profundidade da cova, mas repousa na superfície da pele. Os mortos não se importam com o cultuar de Janus. Deixam-se ser eles mesmos e o seu contrário, na mais pura enantiossemia. Dizem palavras como esta, que quase ninguém conhece. E, realmente, não me parece que se importem de que os acusem de pedantismo. Dizem que há um espaço entre o eruditismo e a erudição, infelizmente perdido nas mentes mais rasas.

 

Tenho a sala cheia de mortos.

Olho para eles. Amo-os. Digo-lhes que tenho medo de estar viva. Já não há lugar para os vivos... Explico, seguindo mentalmente o fio do pensamento, mas em silêncio. Mesmo os mortos... parece que só sobrevivem em estantes como as minhas, frequentemente servindo de ornamento. Eles ouvem o que digo e o que calo. Acalmam os meus medos. Estarás morta um dia...

 

Tenho a sala cheia de mortos.

Vou perguntando se, um dia, serei também uma caridosa morta na sala de alguém, na estante de alguém. Se haverá alma que me areje o caixão. Eles não sabem responder-me. Mas contam-me a sua própria história. E, de alguma forma, é como se dissessem que é também a minha.

 

Tenho a sala cheia de mortos.

Em dias como o de hoje, só estes defuntos me entendem. Só eles me oferecem o silêncio de que preciso. As palavras de que preciso. Só eles sabem o valor da tranquilidade. Só eles sabem existir sem ocuparem o meu espaço. Estar sem me colonizarem.

 

Os vivos cansam-me.

Tenho a sala cheia de mortos.

Eles mantêm-me viva.

 

A minha sala é o Panteão Universal.

E na estante repousa o segredo da imortalidade.


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com

terça-feira, 10 de março de 2026

A doação dos lobos

 

Imagem retirada do Pixabay

– A senhora não quer, por gentileza, doar um euro com as suas compras para ajudar...

as vítimas das tempestades, os animais, os refugiados, as vítimas dos incêndios, os sem-abrigo, as famílias carenciadas, as crianças em risco, os doentes de cancro, os médicos sem fronteiras, os bombeiros, os centros de investigação de doenças raras, os idosos isolados, as vítimas de violência doméstica, os estudantes desfavorecidos, as florestas, a fundação A, a instituição B, o centro de apoio C, a agricultura local, ...

 

A voz que o diz é compassiva, embora venha rouca e cansada da repetição. Hoje em dia, ninguém paga compras sem responder a um inquérito.

 

– Não, não preciso de saco, obrigada. Não, não tenho o cartão da casa. Vales também não tenho. Não, não quero comprar a revista. Não, também não pretendo o chocolate da promoção. E, depois (ainda que antes do “não, não preciso de número de contribuinte), chega esta nova tendência: a de pedir a mísera doação de um euro – apenas um euro – para uma boa causa.

 

Na fila, esta segunda-feira, assisti a isto. Aguardando a minha vez, eu já tinha observado duas pessoas a passar pelo mesmo. Uma senhora idosa que, depois de olhar para a carteira, murmurejou um tímido para a próxima e um homem de meia idade, que olhou para a fila, constatando que estava a ser observado, e acedeu contrariado, com um encolher de ombros. Chegou a minha vez e passei pelo mesmo, negando o dito euro sem me justificar... mas fiquei a pensar sobre isto.

 

Quem me conhece sabe que sou – creio que serei para sempre – uma pessoa de causas. Defendo-as até ao tutano. Vou, faço, dou (geralmente sem dizer que vou, faço, dou... mas, neste caso, é inevitável) e insisto para que os outros vão, façam, deem. Então, porquê a recusa? Esta não foi tanto a pergunta que me fiz... mas é a que vos faço. E faço-a só para saber se sou a única que, neste rol de pedidos, ouve sempre a mesma coisa:

 

– A senhora desculpe, mas estou a ser forçada a fazer um conjunto de perguntas... e não quero ser despedida: não quer, por gentileza, doar um euro com as suas compras ao supermercado, para a empresa depois doar este valor para

» as vítimas das tempestades, os animais, os refugiados, as vítimas dos incêndios, os sem-abrigo, as famílias carenciadas, as crianças em risco, os doentes de cancro, os médicos sem fronteiras, os bombeiros, os centros de investigação de doenças raras, os idosos isolados, as vítimas de violência doméstica, os estudantes desfavorecidos, as florestas, a fundação A, a instituição B, o centro de apoio C, a agricultura local, ...

» Estará a contribuir para ajudar a que os meus patrões, com a sua cadeia multimilionária, tenham um maior valor de filantropia para deduzir no IRC.

 

Então, quando é para dar, eu prefiro dar diretamente. Às vítimas, crianças, doentes, bombeiros, entidades ou o que for. Diretamente. E até pode ser mais do que um euro. E até pode nem ser dinheiro... principalmente quando fazemos parte da lista dos que poderiam ser ajudados... A compaixão e a dádiva são maravilhas raras e que devem fomentar-se... mas tenho pouca vontade de ser generosa e compassiva com os ditadores grupos económicos que detêm as grandes superfícies comerciais.

 

Na verdade, por vezes, quase gostava de inverter papéis e de fazer eu um inquérito:

 

– A Senhora Grande Empresa Exploradora não quer, por gentileza, ter dois dedos de testa e ganhar vergonha na cara para ajudar...

» a idosa que conta os trocos da reforma, os desempregados, os cidadãos que recebem o salário mínimo e o deixam integralmente na renda, o sem-abrigo que juntou moedas para a sandes, as pessoas que estão com pressa, os consumidores que são vítimas de alguma coisa, os trabalhadores impacientes ao final da jornada, os operários exaustos, as mães fatigadas e todos os outros que, pura e simplesmente, não gostam, não querem (nem precisam) de ser coagidos a ser bons...

 

Diriam os meus avós: não é por vestir pele de cordeiro que o lobo deixa de ser lobo.


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com

terça-feira, 3 de março de 2026

Na tua sala de estar

 

Imagem retirada do Pixabay

Lá longe. Dizes. Aqui perto. Respondo. Desentendemo-nos ao falar da guerra. Criamos uma guerra aqui mesmo. Palavras não são munição. Dirias. E, no entanto, aqui estamos. Achas-me sempre muito filosófica. Eu acho-te sempre portador de uma mediocridade estreita, tacanha e desajustada. Mas nem tu me acusas de filosofia, nem eu te acuso de miopia intelectual. Em perspetiva, estamos os dois muito maduros. Parabéns aos nossos pais... (Os teus e os meus, entenda-se... que não queremos cá misturas estranhas que nos denotem uma fraternidade inexistente! Até porque podes bem ser alérgico à palavra, acusando-a de ser woke ou, pior ainda, comunista!) Parece que conseguiram criar-nos de forma a que, pertinho dos 40, consigamos censurar os insultos, guardá-los nos bolsos e fazer como se vivêssemos no tempo da outra senhora.

 

Não vivendo nesses tempos idos, parece que dele bebemos qualquer coisinha. Digestivos indigestos. Incluindo esse de limitadamente olharmos para o mundo como se ele tivesse a estreiteza das fronteiras. As da Europa. As do país. As da cidade. As da nossa casa. As do nosso corpo. As do nosso pensamento. E que pequeno é o espaço envolto nessa linha fronteiriça. Tão pequeno que se ouve, por aí, que há outra guerra. Desesperos desentendidos de uma realidade na qual a paz escasseia desde, provavelmente, o começo da história da humanidade. E tens o desplante de dizer lá longe. No tom de quem diz não interessa. Interessa, meu querido, acredita que interessa.

 

Pergunto-te, nestes longes e pertos discutidos em tom de confronto, onde raio achas que existe uma guerra. Falas-me da Rússia e da Ucrânia. De Israel. Da Palestina. Do Irão. Dos Estados Unidos. Começas com o debitar tosco do que leste, do que ouviste, do que viste. Espírito Santo de Orelha te proteja, livre e guarde. O Santo Jornalismo te ilumine. E eu deixo-te falar. Cinco minutos. Dez. Quinze. Deixo de te ouvir ao fim de vinte. Mas ainda vou deixando que fales. Toda a verborreia velha e gasta, em segunda mão, em terceira mão. Fala, criança, que para isso se fez Abril. Finalmente, depois de ditas e reditas todas as sentenças que sensatamente ignorei, habilmente disse o mesmo que poderia ter dito antes de começares. A guerra é na tua sala de estar. Nem acabei a frase quando tentas interromper-me. E eu esperava-o, pelo que continuei, marchando por cima das palavras que querias dizer, apaixonado eterno pela tua própria voz, como tanta gente o é... que a arte de falar sem nada para dizer é muito mais prolífera do que a de ouvir os outros. A guerra é na tua cozinha. No teu quarto. Provavelmente na tua casa de banho. Olhas-me como se fosse louca, mas eu sei que não sou. Onde há uma televisão e um telemóvel, tens essa guerra. E essa guerra nem é a guerra, mas a escolha ponderada da guerra que querem que tu aches que existe. E é justamente por isso que a situas lá longe.

 

Queres saber se sei algo sobre a guerra que não saibas. Se sou dona e senhora da verdade, com informação privilegiada sobre o que é a realidade por detrás do cenário montado pelos profissionais do ofício informativo. Asseguro-te que não. Que apenas encontro na cloaca noticiosa a certeza de que o mais importante não está a ser dito e pior... que o que está a ser dito está a ser dito porque interessa que se diga. Sei pouco da guerra. E sei que sei pouco da guerra. Tu sabes pouco da guerra e achas que sabes muito da guerra. Por isso me dizes: Lá longe. Por isso te respondo: Aqui perto.

 

No final do dia, a guerra que eu vejo é na sala de estar. É esta discussão que não leva a lado nenhum. É a incapacidade de ver além das imagens que nos mostram, somada à capacidade de olhar para corpos esventrados sem isso interromper uma colherada de sopa. A guerra que eu vejo é inação, inércia e falta de sentido crítico. Ainda não nos caiu uma bomba em cima e já estamos mortos. É como se estivéssemos mortos... Irrito-me, por isso, quando me dizes lá longe, enquanto olhas as sombras na parede da caverna, mesmo que inevitavelmente dê por mim a olhá-las a teu lado.

 

Sobre a guerra e as sombras, tenho o mesmo pensamento. Tantos anos de alegada evolução humana. E não aprendemos nada!


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)"

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com