terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A repreensão

 

Imagem do Pixabay

De passagem, ouvi-os. O menino não teria mais do que cinco anos e justificava-se, enaltecendo os seus feitos. E o pai, entre o revirar de olhos e o caminhar em passos cadenciados e certos, assertivamente lhe atirou: mas estavas distraído, a olhar para o lado.

 

Encolhi-me interiormente. Não creio que tenha mudado uma nuance da minha expressão. Mas, para mim, foi como se me encolhesse. Porque as palavras me catapultaram para uma famosa frase que sempre ficou a fazer-me comichão, numa outra ocasião triste em que a repreensão de uma mãe para outro menino, de tenra idade, tinha sido: não te portes como uma criança.

 

A repreensão gratuita parece coisa branda. Dura um segundo e não deixa marca na pele. Mas molda uma vida. De repente, temos adultos que não sabem brincar, porque não os deixaram ser crianças. Vão agarrados a conceitos de sucesso que se medem em euros. Agarrados à escravidão dos dias porque é do-mal-o-menos. Olham fixamente o mesmo ponto, com medo de olhar para o lado. Metem palas para que a visão periférica não abranja a realidade do mundo. Estão focados em evitar distrações, sem perceber que a própria vida segue distraída na roda perfeitamente oleada que enriquece os senhores disto tudo.

 

 

Hoje, o menino respondeu ao pai, com uma frase que não ouvi. Começou essa resposta com mas, pai e, logo, a distância me impediu de ouvir o resto.

 

Mas as marcas que ficam na pele responderam-me, porque também eu ouvi alguns sem mas, nem meio mas.

 

Distraí-me do que estava a pensar para ouvir estas conversas. E distraí-me de onde estava a ir para me perder nos pensamentos que agora vos trago. Neste olhar em redor, digo o evidente. O mundo estaria melhor se os adultos se distraíssem mais, se olhassem para o lado e se entreajudassem, se parassem de portar como gente tão madura que apodreceu. Há, nos adultos, o espelho da injustiça de que foram alvos... e o perpetuar de um ciclo de violência. Assim se faz o lubrificante do sistema, para que novos adultos sem sonhos trabalhem sem questionar...

 

Se uma repreensão pode fazer-se à gente grande é essa: não saber aprender com as crianças a arte da liberdade.


Marina Ferraz



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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carta aberta ao rio

 

Imagem da Sic Notícias

Mondego,

 

Esta carta é para ti, mas não é. Porque vens de um ciclo. E esse ciclo é maior do que tu. Então, embora me dirija às tuas águas, sabes que falo também do céu e das nuvens, dos ventos e das margens, das gentes e dos peixes. Falo-te como se fosses universo. Não te importes com isso! Não penses que, na tua pequenez de rio, não mereces essa condição infinita do que vai além do mundo. Acredita, já conheci pessoas infinitamente mais pequenas e que se julgam universo... Está tudo bem!

 

Algures, no fino fio do teu nascimento gelado, vieste correr país até te fazeres Atlântico. Eu venho da tua nascente e até à tua foz. Fiz-me gente neta de filhos do teu nascimento. Cresci na tua margem, nunca à margem de ti. Povoo ainda a tua foz, para me banhar na ideia de me corres dentro.

 

Da mesma forma que não és universo, mas rio... eu não sou humanidade, mas humana. Da mesma forma que te transformo no tanto que não és, deixo-me transformar no tanto que não sou... e que me parece tão pouco.

 

Devo-te, nessa condição de humanidade, um pedido de desculpas. Enquanto te domávamos e vilipendiávamos com a nossa ideia de superioridade. Enquanto engendrávamos caminhos que não tinhas, impúnhamos limites que não querias e travávamos o teu correr, tiranamente esquecemos a tua força.

 

À força quisemos ser mais do que tu. E elogiámos os nossos feitos, negando consequências que não víamos. Mas a tua força, infinitamente superior à nossa, é paciente: caraterística que tanto falta aos humanos, como eu. Diria que é o maior antagonismo entre Natureza e homem. A tua força demora, mas não falha. A nossa é rápida e só não falha em falhar.

 

Galgaste as margens e bebeste as casas. Lágrimas uniram-se ao teu leito e aumentaram-te o imenso caudal. Alguns dirão que nos deves um pedido de desculpas.

 

Mas não. Não é para cobrar essa dívida cogitada por gente que te escrevo. Escrevo porque nós te devemos um pedido de desculpa.

 

Por entre tanta dor e tanta destruição, não sei se alguém se lembrará de o fazer: de te pedir desculpa. Pelos olhos fechados, pela ambição excessiva, pelo jogo do humano divino que quer controlar até a Mãe. Não posso, como imaginas, ser humanidade a desculpar-me ao universo. Quem sou eu? Mas, agora entre mulher e rio, peço-te perdão pela cegueira e pela tirania.

 

Como tu, impõem-me caminhos e rotas, vedam-me passagens e determinam margens. Na maioria dos dias (sou) rio... e só me apetece chorar.

 

Se eu chorasse, tenho a certeza: também inundava o mundo.

 

 

Uma filha da tua margem


Marina Ferraz



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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Os dispensáveis

 

Imagem do Expresso

Todos são iguais. Exceto os que, por motivos de força maior (ou menor), são menos iguais. E os que, por razões várias, são simplesmente desiguais.

Assim se entende a desigualdade entre quem vota, quem não vota, quem podia votar e não votou e quem não podia votar, mas queria fazê-lo.

 

Quem me conhece sabe que sigo noites eleitorais de uma forma semelhante à de qualquer apostador desportivo na final da Champions. Quando chega a grande noite, já tenho a literatura toda. Li os programas dos partidos, vi os debates, procurei notícias nacionais, internacionais e siderais. Sei as sondagens (embora não lhes ligue muito) e, mesmo descrente de que a ação divina venha a alterar resultados, ponho uma velinha à esquerda... É a esperança de dizer paz à sua alma a uma tirania que segue viva.

Por norma, se é noite eleitoral, mesmo sem televisão, tenho um navegador web aberto, com sei-lá-eu-quantos separadores, para garantir que vou acompanhando a par e passo os números, as declarações, os comentários. Como qualquer bom adepto, neste caso do Clube da Liberdade, também me exalto, enervo e só não roo unhas porque nunca as tenho muito acima do sabugo.

Ainda assim, no domingo, não o fiz. Era, talvez, o momento de decisão mais importante dos últimos anos, mas não o fiz. O desconforto, tão presente em mim, fez-me sentir que não queria, não podia, fazer parte disto... Não quando 36 852 eleitores eram transformados em gente dispensável.

 

Voltemos atrás.

 

Eu votei no dia 1 de fevereiro, em mobilidade. As eleições, agendadas para dia 8, depois de duas tempestades agressivas e que devastaram parte do país, deixaram de fora algumas zonas afetadas, onde (e bem!) se adiou o sufrágio. Ficaram, então, os referidos 36 852 eleitores com as eleições proteladas para o próximo dia 15 de fevereiro. Ora, quando eu votei, não houve noite eleitoral. Faz sentido. A contagem, julguei eu, deveria ser feita com a totalidade dos votos e não com os votos antecipados. Votar, afinal, é um direito e um dever! Mas, para minha surpresa (e indignação), a noite eleitoral de dia 8 decorreu como se nada fosse. O vencedor e o vencido foram anunciados. Fizeram os seus discursos. Os media beberam de toda a narrativa, sempre dizendo que os votos de dia 15 não podem alterar o resultado, o que matematicamente faz sentido, mas...

 

Tudo bem! Esses votos não alteram o resultado. Digamos a esta gente, portanto, que é dispensável. Que ir votar ou não ir votar é igual. Que o seu voto não serve para decidir nada.

 

Ide lá agora dizer que todos são iguais. Porque eu insisto. Todos, exceto os que, por motivos de força maior (ou menor), são menos iguais e os que, por razões várias, são simplesmente desiguais.

 

O facto é que esta eleição, de resultado animador (dadas as opções) valorizou, a meu ver, um argumento que cabia ao vencido: há cidadãos de primeira e de segunda.

 

A mensagem que isto me passa é simples: cuidado minha gente! Se perderem tudo... provavelmente, perderão mais. Até a relevância da vossa cidadania. Até a relevância do vosso voto. Além de desalojados, serão dispensáveis...

 

Escrevo isto com tristeza.

 

E logo agora! Logo nestas eleições, nas quais o resultado poderia ter-me aliviado o espírito.


Marina Ferraz



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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O (falso) herói

 

Imagem retirada do jornal Expresso

Há uma frase que me acompanha desde menina. De tanto a escutar, não sei a origem. Sei que se me entranhou nos poros. Nada atrapalha mais quem faz do que aquele que nada faz. Expressão que toma também outras formas, que passo a citar para que não existam erros de interpretação, tão frequentes quando a verdade não convém: se não podes ajudar, não atrapalhes.

 

Bem-vindos à campanha eleitoral em tempo de destruição. É um bocadinho tipo amar em tempos de cólera, mas menos literário e mais corrosivo. Filme de comédia triste que ninguém pediu. Sequela de outros filmes. Quase se ouve o genérico: Dos mesmos produtores de “vou ali bater com um raminho num fogo extinto”, chega agora o emocionante “vou ali entregar três garrafinhas de água no meio dos escombros”. Corramos para o cinema, a sessão passa às 13h e às 20 nos canais nacionais e tem seguimento permanente nos canais incluídos nos serviços das principais operadoras de subscrição de TV.

 

Ali está, o herói. Rosto lívido, olheiras fundas. Nem dormiu a pensar que teria de usar a força braçal para transportar itens de primeira necessidade. E não pensemos que seja fácil ou leve. Não são garrafinhas de 250 ou 300 centilitros, nem de meio litro sequer! São de litro e meio, está bem? Tenham tento na língua antes de criticar! Agora sua, descendo escadas com o peso atroz dos produtos. Benze-se, porque todos sabemos que água benta hidrata mais. Aplauda-se o herói. Mas ele nega que o seja. Só um homem, sendo homem. E que importa isso da campanha? Aplauda-se o homem a ser homem, então. O salvador, descido pelos degraus de pedra como Cristo dos céus, ou assim se imagina que possa ser, para cumprir a missão divina que em outras ocasiões já revelou ao mundo. Deus lhe confiou uma missão. Palavras antigas, mas que assim se confirmam com o milagre da conceção de produtos potáveis à desgraçada gentinha.

 

As câmaras viradas para o herói ignoram temporariamente as aldeias remotas às quais nenhuma ajuda chega. E a cidade destruída. E a ausência de luz. E de rede. E de geradores. Voltará lá, porque dá audiências. Mas pára tudo! É preciso mostrar o heroísmo político das gentes da nossa raça. Exultar a gente da nossa raça. Que sabemos todos que se esta tempestade fosse uma Maria em vez de uma Kristin, estaria tudo em pé, como a azinheira de Fátima... mas vêm esses estrangeiros e já se sabe... pobres que são, tudo estragam. Eis a prova!

 

Largando o herói, que não direi quixotesco para não ofender D. Quixote, deixem-me focar os heróis reais. Gente saída à rua para ajudar. Voluntários. Bombeiros. Escuteiros. Pessoas que, mesmo com pouco, dão o que têm, nem que seja o corpo ao manifesto. Não haverá filme sobre eles, nem atenção na hora nobre da TV. Anónimos chegam e partem, fazendo o que podem: tanto, com tão pouco. Aceitando, com um simples revirar de olhos (ou nem isso) que a atenção do país seja voltada para o herói máximo, esse divino, das garrafinhas. Aceitando que os pedidos de ajuda sejam interrompidos para ouvir a sua retórica.

 

Comenta-se. Uns gritam, outros sussurram. Toda a gente consegue transportar duas garrafinhas de água e acenar para a câmera. Qualquer pessoa! Até uma criança de 3 anos!

 

Ouçamos esses gritos e sussurros.

Caríssimos salvadores divinos, rostos magnânimos da política portuguesa, transportadores de meia dúzia de mantimentos e palavras ocas.... por favor, se não forem para realmente ajudar, fiquem em casa, onde não atrapalham. Quem realmente quer trabalhar, agradece.


Marina Ferraz



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