Nem toda a gente que fala a minha língua, fala o meu idioma. Nem toda a gente que fala o meu idioma, fala o meu dialeto. Há multidões que são deserto. E pessoas que são teto em dia de tempestade.
Há pessoas que me ouvem e não escutam metade. Que me olham e não veem. Que me saboreiam e não me sabem. As pessoas seguem sendo sãs na insanidade da cegueira de dentro. São o seu próprio epicentro. Um pensamento lento. Um passo pachorrento. Parte feliz dos 85%. Solidão é estar com elas. Falar e não ser ouvido. Não ser entendido. Olhar e não ser olhado. Estar e não fazer sentido.
Eu tenho ido. Sobrevivido à agressão do alheamento. Tentado dizer menos, ser menos, do que trago no pensamento. Acomodar o sol dos outros no meu furacão. Recolher ao momento. E lamento tentar ser porque outros são. Eu devia ter dito não... algures... se a realidade me aflige. Não pensar em mim como o erro que nenhum bofetão corrige.
Nem toda a gente que fala a minha língua, fala o meu idioma. Nem toda a gente que fala o meu idioma, fala o meu dialeto. E, quando alguém o faz, parece certo. Depois, nessa vontade de estar perto, adormece o vazio... e, finalmente, desperto. É então que nasce o oásis no deserto.
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Sim, a relação com o outro é geralmente problemática. Seria preciso sair do nosso ovo, descascarmo-nos e colocarmo-nos no papel desse outro(a). E isso é sempre complexo porque o outro vê-nos com os seus olhos. Há sempre um certo grau de distância e alheamento (inevitável?). Mas sempre que desces ao profundo da essência, então acontece o encontro, a partilha, o momento em que o ser se realiza na síntese com o outro e a alienação é superada pela sinceridade, pela dádiva exposta. E os teus textos são isso mesmo. E se alguém não te ouve é porque nada tem a ver contigo. Como diz o Livro: quem tem ouvidos que ouça e quem tem olhos que veja. Alguns só se querem ver e ouvir a si próprios. Deixa-os, não valem nenhum dos teus cuidados. Fica bem, Marina querida. Beijo grande. Zé
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