segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Não é suficiente


Não é suficiente. Desculpa. Não é. Por mais que eu tente. Por mais que eu procure. Para quê? Para quê continuar a mentir ao vento? Ele sabe a verdade. Tu também a sabes. E eu também. Não é suficiente. Nunca vai ser suficiente.
De manhã, acordo no teu abraço e, ainda ensonada, esboço um sorriso, por entre o escuro do quarto e a tua luz. Mas esse sorriso? Esse sorriso, escondido nas sombras da manhã, não é suficiente para te dizer como me fazes feliz.
Pelas ruas, dou-te a mão. Aperto a tua na minha, não para lhe roubar o calor, mas porque quero sentir-te perto. Mas a mão que te dou, pequena e fria, com as cicatrizes do tempo, da vida, das teimosias... a mão que te dou não é suficiente. Não chega para te deixar saber como quero enlaçar contigo, não só os dedos mas toda a vida.
Falo muito. Demais. Tantas palavras. Quantas delas escusadas? Quantas delas despropositadas? Mas falo. Falo-te. E o som da minha voz, diga o que diga, não é suficiente. Não basta para te explicar como as manobras do destino me deixaram com uma divida de gratidão aos Deuses. Não basta para explicar como me sinto feliz, honrada, completa por estares aí.
Então, não sendo suficientes as palavras ditas, os sorrisos esboçados, as mãos dadas, eu sento-me e escrevo. Escrevo sobre ti. Escrevo para ti. Mas nunca te escrevo a ti porque as palavras não são suficientes. Nunca é suficiente para te descrever o rosto perfeito, o sorriso perfeito, as mãos perfeitas, a alma perfeita... As minhas palavras não conhecem a perfeição. E, por isso, também não chegam, não bastam, não são suficientes para te explicar como és o meu tudo. Não são suficientes para te dizer como te amo.
Choro, por vezes. É mesmo assim. Choro por medo de não ser, também eu, suficiente. Choro por saber que quero merecer-te, que quero merecer o teu amor, que quero merecer a tua perfeição. Mas as lágrimas não são suficientes para apagar a certeza de que as palavras, os sorrisos, as mãos dadas não chegam para explicar...
E fico a sonhar com o hoje, com o amanhã. Mas assusto-me um pouquinho na perspectiva de que não basta... há tanto para vivermos lado a lado. Uma vida não é suficiente!
Por isso, não. Não é suficiente. Desculpa. Por mais que eu tente. Por mais que eu procure. Não é suficiente. Nenhuma palavra é suficiente para explicar o que sinto. Uma vida não é suficiente para tudo o que quero viver contigo.
Não é suficiente. Eu sei que não é. Mas, não o sendo, é o que posso dar-te: as minhas palavras, o meu coração, a minha vida...  então, eu dou. Entrego-me a esse sonho acordado e desejo baixinho que, por alguma razão, isso seja suficiente.
Ainda assim, na certeza de que não o é, sinto-me desesperar um pouco na conclusão de que o meu coração não é suficiente para albergar um amor tão grande. Tu também sabes que não. Por isso, dás-me o teu. E isso sim, é suficiente e basta para fazer um segundo valer pela eternidade.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Carta de Natal


Querido Pai Natal,

Eu queria escrever-te uma carta. Aposto que recebes muitas e que a minha será apenas mais uma sobre um monte infinito de outras, quase todas mais importantes e com pedidos mais urgentes. Mas peço-te que leias a minha primeiro. Preciso que a leias e que a faças seguir por aí. Porque só tenho um pedido. Apenas um.
Não me falta nada. Nunca faltou. Em criança, tive todas as prendas de que precisava e o meu quarto encheu-se de brinquedos. Com muitos deles, nem cheguei a brincar. Fui uma criança doente mas amada. Nunca me faltou quem me levasse ao médico, nunca me faltaram medicamentos, nunca me faltou, sequer, o amor e carinho de mil entes queridos. Fui muito afagada, muito cuidada, muito amada.
Sobre a mesa, fosse Natal ou não, houve sempre comida em abundância. Nunca passei fome, nunca passei frio, nunca me senti desamparada. E, mesmo assim, todos os anos te escrevi, pedindo coisas que não precisava, na esperança de encontrar no sapatinho, sob a árvore de Natal, um sem fim de extravagâncias tolas. Mas a minha família amava-me. Amava-me tanto que me oferecia, não apenas o necessário mas também esse supérfluo que me enchia o sapatinho de embrulhos perfeitos e coloridos. E, por isso, das coisas que te pedia nessas cartas, cheguei a ter quase todas.
Foi com o tempo que comecei a escrever mais e a escrever-te menos. Deixei de acreditar em ti bastante cedo, embora me tenham feito fingir que te acreditava até tarde. E eu fingia, por eles, porque era importante para eles que eu julgasse que, voando sobre os telhados, espalhavas prendas e alegria pelo mundo. Mas deixei de acreditar em ti cedo, quando os supermercados começaram a vender, não apenas as prendas mas também uma imagem de ti que não me fazia sentido, enquanto os telejornais espalhavam imagens de guerra, de miséria, de fome pelo mundo.
Não fui uma criança informada. Como quase todas, ignorava muito do que via. Mas, de alguma forma, olhava para o mundo com olhos críticos. E esse olhar fez com que de criança a jovem e de jovem a mulher, soubesse sempre que andava de mãos dadas com a sorte.
Nunca me faltou nada. Não me falta nada. Tenho família, amigos, um amor forte e persistente que me faz lutar pelo melhor de mim. E tenho estudos, tenho cultura, tenho mais livros nas prateleiras do que algumas bibliotecas. Tenho um sonho, tenho pessoas a apoiarem-me nesse sonho.
Nunca me faltou nada e continua a não me faltar coisa alguma. Mas pedi-te que lesses esta carta primeiro. Pedi-te que o fizesses porque preciso que compreendas que, quem te escreve, como eu te escrevia, muitas vezes tem uma vida de ouro nas mãos e a ilusão da necessidade. E, se calhar, não é importante que distribuas por aí brinquedos caros e instrumentos tecnológicos de última geração.
Este ano, mais de quinze anos depois de ter deixado de te incomodar com pedidos, envio-te esta carta. E preciso que a leias e que a faças seguir por aí com o único pedido que posso conceber fazer-te. E esse pedido é simples: oferece amor a quem está infeliz, conforto a quem não tem lar, comida a quem passa fome e agasalhos a quem passa frio. Oferece um abraço a quem está só e uma palavra a quem está triste. Oferece um futuro a quem está preso ao passado, uma oportunidade a quem está desesperado, um sonho a quem vive sem esperança. E, se está nas tuas mãos a possibilidade de ofertar tudo isto, peço-te que o faças o ano inteiro e não apenas no Natal.
Eu fui uma criança com sorte. Nunca me faltou nada. Mas, no mundo, há gente a quem falta quase tudo. Por isso, este ano, o meu pedido é para ti, sim, mas não só. Peço-te que leves esta carta a quem, como eu, teve tudo. Peço que a espalhes por aí e que faças com que ela seja lida e relida por aqueles que têm o poder para fazer a diferença. E peço-te que, este ano, quando conduzires o teu trenó sobre o mundo, espalhes um pouco de consciência e solidariedade sobre este meio de consumo onde se enfatiza cada vez mais o egoísmo e a cegueira.
Talvez esta seja a última carta que escrevo. Espero que não te importes. Não é por mal. É apenas porque não há mais nada a pedir e não quero que a minha carta, repetitiva e insistente, te desvie a atenção das milhares restantes, onde mais pessoas cheias de sorte te hão-de pedir coisas das quais não precisam, apenas porque é Natal...

Com os melhores cumprimentos,
 Marina Ferraz

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Outra mentira


Inventa outra mentira. Uma que me faça chorar. Uma que me faça virar costas e discutir com o sol. Uma que consiga tirar-me do sério, que me faça responder-te mal, com cinco pedras nas mãos e um "adeus" de corrida.
Inventa uma mentira melhor. Uma que me faça bater a porta. Uma que me faça fazer as malas e fugir de ti. Inventa uma mentira que me arranque o sorriso tonto da face, uma que me fira de uma forma tão profunda que eu sinta as lágrimas a correr nas veias em vez de sangue.
Inventa outra mentira. A que quiseres. Inventa a coisa mais simples, a mais complexa. Inventa algo com ou sem sentido. Imprime na voz o tom de certeza inabalável e mente-me, com os olhos firmes e o rosto expressivo de quem não mentiria jamais. 
Mente-me. Não vou pedir que sejas a verdade de ti. Não quero que aniquiles a tua natureza e que me digas somente a verdade a todo o momento. Mas, se fores mentir, inventa uma mentira melhor. Uma que eu não perceba. Uma que eu perceba e não me magoe. Uma que eu perceba e que me faça odiar-te. Tanto faz. Mente-me, se é o que queres mas, por favor, se for para me mentires, inventa uma mentira melhor do que essa com a qual me enches os dias e as noites e os ouvidos. Estou cansada. Inventa outra mentira. Qualquer outra, desde que eu não a queira ouvir.
"Amo-te!" é uma mentira injusta. É uma mentira que se faz verdade na sombra dos meus desejos. É uma mentira que faz vibrar o meu corpo e bater forte o meu coração. É uma mentira que dizes, naturalmente, mesmo sabendo que não é verdade. O teu amor morreu nos teus olhos. O teu amor morreu no teu toque. O teu amor morreu. Mas manténs viva a ideia desse amor nos teus lábios e sussurras-me ao ouvido, dizendo que me amas, porque sabes que o meu amor está vivo.
Por favor, inventa uma mentira melhor. Uma mentira que não me faça sentir especial. Uma mentira que eu não queira ouvir a cada segundo da eternidade. Uma que não me faça agarrar-te nos braços, prender os lábios aos teus, desejar que me mintas a tempo inteiro.
Inventa outra mentira. Uma mentira que não mova os meus dias na ilusão de uma vida que nunca vou ter. Uma mentira que, quando se revelar verdade, me faça ficar aborrecida e não derrotada. Uma mentira que, em sendo descoberta, me faça desejar o nosso fim e não o meu.
Se algum dia esse "amo-te", hoje tão cheio de indiferença, foi verdade, inventa uma mentira melhor. Eu ouço-te a mentira e sorrio. Sei que é mentira e aceito. E seguimos juntos este trilho onde sei tão bem que já estou só.
"Amo-te", a palavra ecoa, uma vez mais, mentida, vazia, sem um brilho no olhar. E faço de conta. Faço outra vez de conta que talvez, por detrás das camadas de indiferença, ela possa ser verdade. Então, recosto-me nos teus braços, sorrio e, inebriada pela tua mentira, digo a verdade e confesso que também te amo.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Alma gémea




A minha alma gémea é menina mas caminha já, com passos largos, para a mulher que será um dia. Tem o rosto carente e o olhar solitário. Chora com facilidade e nem sempre responde no tom mais educado do mundo. Além disso, intempestuosa e irritável, faz fita e grita contra os ventos antes de dar a quem quer que seja a hipótese de justificar porque é que a vida nem sempre corre como se espera.
A minha alma gémea é alta e esguia. Tem corpo de bailarina porque o trabalha assim, em passos e pontas. Faz-se de forte para esconder a sensibilidade. Faz-se de fraca para conquistar nos outros a simpatia.  É exigente com o mundo e ainda mais exigente para consigo. Não aceita as derrotas. Não aceita o segundo melhor lugar.
Ela ainda não fala de amor, embora o sinta. Sente-o, é claro, naquela dimensão infantil de "gosto de ti". Mas não fala de amor. Diz apenas "ohs" e "ah huns" que se transformam em sorrisos tímidos e ecoam pela casa, seguidos de risos nervosos. Ela não sabe se quer amar, talvez porque tenha aprendido, em olhares perspicazes, que, no amor, não há vencedores e vencidos, não há primeiros lugares.
A minha alma gémea gosta de música e filmes. Não entende de política e economia. Evita os telejornais e as conversas sérias, com um revirar de olhos e uma mudança de divisão. É vaidosa e pinta as unhas mais vezes do que as necessárias, de volta em vez, camada em cima de camada, um dedo de cada cor. E combina com os arcos-íris das suas mãos os brincos espampanantes que sobressaem e gritam por entre os caracóis louros e desfeitos que não consegue domar.
A minha alma gémea apaixona-se com facilidade pela imagem utópica de um futuro nas artes. E faz planos a dois, comigo, como se eu e ela pudéssemos ficar juntas para sempre. As frases para amanhã começam por "nós". Inclui-me, como quem não o nota, em cada plano. Não concebe que a realização dos seus sonhos possa estar num lugar onde eu não esteja. É dependente de mim. Não mais do que eu dela. Na mesma medida. É um contrato implícito: eu ensino-a a sonhar e ela dá-me um motivo para viver. Eu ajudo-a a viver e ela segura-me os sonhos quebrados, fazendo dos sonhos dela também os meus.
Ela não faz sentido. Passa da pessoa mais doce à pessoa mais cruel. Da pessoa mais educada à mais respondona. Da mais trabalhadora à mais preguiçosa. Passa do riso às lágrimas. Do choro ao sorriso. Intercala facetas e humores com uma agilidade tão louca que se torna impossível acompanhá-la.
A minha alma gémea quer tudo e quer tudo ao mesmo tempo. Não se contenta com fragmentos de felicidade. Não tolera a injustiça. Vive num caos muito próprio e entende-se nele como ninguém.
Não! A minha alma gémea nunca será entendida pelo mundo. Mas quando me vê abre um sorriso e quando sorri faz-me sorrir também. A minha alma gémea não é um rapaz qualquer que me conquistou o coração e partiu, deixando mil textos e mil tristezas. É uma menina, a caminhar em passos largos para a mulher que será um dia. E, timidamente, eu sigo-lhe os passos, à espera desse dia. Com a amargura velada de perder nela a criança, o orgulho desmedido de poder vê-la crescer e a certeza infinita de que ela será para sempre a minha alma gémea.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Metade



Foi sempre assim. Metade. Como se não houvesse forma de ser maior. Melhor. Completo. Foi sempre metade. Solidão acompanhada. Vitórias perdidas. Momentos entregues ao ar, para se dissiparem juntamente com a sensação de que nada estava certo. Metade.

Foi sempre assim. Olhar ao espelho e ver o corpo sem a alma. Estar triste e sentir uma alma sem corpo. Estar magoada e saber o coração sem vontade. Metades das metades de mim, divididas aos poucos, até não serem mais do que grãos de poeira a esvoaçarem pelo céu da minha vida, ocultando-me o sol da felicidade.

Nunca conheci outra coisa. Apenas metade. Metade da vida. Metade do contentamento. Metade da realização. Metade das metades sem fim que se acumulavam em nadas, em vazios, numa sensação eterna de que metade da vida era um caminho para a morte que tardava.

Foi sempre assim. Metade. Parcelas indefinidas de mim que não eram eu. Sonhos empilhados em poemas, que se somaram em livros e se empilharam em estantes onde metade dos sentimentos eram meia mentira. E metade dos sonhos ficaram esquecidos nas meias mentiras onde meias verdades dançavam valsas sem par.

Sem conhecer outra coisa, habituei-me ao espelho que me mostrava metade de mim. Habituei-me a ver metade do meu rosto chorando metade das lágrimas que me inundavam a alma e a sorrir meios sorrisos quando me cruzava com gente no meio da rua.

E metade dos sentidos ficaram presos nas metades indivisíveis do que nunca foi completo. Sem que houvesse mais do que cicatrizes na metade mais frágil da minha pele onde se cumpriu metade de uma profecia que fazia meias promessas de uma eternidade oca.

Foi sempre assim. Metade. Metade amor. Metade vazio. Metade alegria. Metade tristeza. Metade sorriso. Metade lágrima. Metade indolência. Metade euforia. E as metades somavam-se em mais e mais metades de vazio, que eram metade eco, metade vontade, metade de nada.

E eu caminhei, em meios passos por meias ruas onde pessoas às metades olhavam para mim e me viam inteira, como se eu pudesse sê-lo. E rasgava-se em mim a vontade da vida que seguia, andando de metade em metade, tentando emendar com costuras largas e mal feitas os espaços vagos das metades que sobravam e das que não havia em mim.

Andei pelos trilhos mais negros do que ficava no mais fundo. Procurei as metades certas que se uniam às minhas metades e me podiam tornar alguém com um principio, meio e fim. Procurei as metades que me dariam coerência, sorriso, felicidade. E cansei-me de olhar para dentro das minhas metades de vazio onde já não parecia haver metade de nada que valesse a pena.

Foi sempre assim. Metade. Como se não houvesse forma de ser maior. Melhor. Completo. Foi sempre metade. Solidão acompanhada. Vitórias perdidas. Momentos entregues ao ar, para se dissiparem juntamente com a sensação de que nada estava certo. Metade. Foi sempre assim. Sempre. Até eu descobrir, nos confins do meu coração, que és a metade que me faltava.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O tempo do tempo


"Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo." (Jorge Luís Borges)

Os minutos passaram, no compasso inadiável do relógio. Os minutos eram feitos de segundos. Os segundos foram séculos. Tu não estavas. E o tic-tac dos ponteiros ecoava lentamente pelos corredores, atormentando os recantos de mim com perguntas que não podem ser formuladas.
Avancei na escuridão do tempo. Apenas eu. Os ponteiros não se moviam com a prontidão louca da minha mente. Ter saudades era parar o tempo. E o tempo, fiel a princípios relativos, arrastou-se na minha saudade, cantando uma canção que não ouviste. Uma canção que pedia por ti, para me animares a alma e os ponteiros do relógio, então quase parado.
Devagarinho, como se tivessem medo do segundo a seguir, os ponteiros moveram-se. Levaram dias a passar uma só hora. Troçaram de mim. Mas eu não fiz caso. Olhei para cada movimento cortante dos ponteiros negros. Fixei cada oscilar do velho pêndulo. Ouvi cada "tic", cada "tac", separados por um infinito de segundos, como se os sons não quisessem juntar-se num ritmo lógico e real. Eles não queriam tocar as badaladas nem dar um pouco de paz à minha alma que se quebrava no parar do tempo.
Os minutos passaram. Eram feitos de segundos que duraram séculos. Tu não estavas. Eu não estava em mim. O tempo não avançava. E a alma, de massacrada pela distância, disse à saudade que olhasse para o nosso passado e não para um presente onde o relógio, quase parado, se recusava a trazer-me um futuro onde estivesses.
Lentamente, passo a passo, com movimentos que podiam nem se notar, o relógio deixou chegar, ao fim de eternidades de loucura, o momento de te ver. E, em tocando as badaladas, os teus passos trouxeram o animo que faltava. Sorri. A saudade morreu e eu sorri. A saudade morreu e o relógio avançou.
Os minutos passaram, no compasso inadiável do relógio. Os minutos eram feitos de segundos. Os segundos foram milésimas de segundo. Tu estavas. E o tic-tac dos ponteiros ecoava pelos corredores, numa correria louca, como se quisessem chegar primeiro, sei lá eu aonde.
Sem demoras, o tempo avançou, numa lógica irrealista que transformava alvoradas em pores do sol e noites sem estrelas em manhãs enevoadas. Correu. O tempo não soube andar. Correu. Tinha pressa, sei lá porquê. Amar era avançar o tempo. Tu estavas.
Entre os dias que pareceram segundos, chegou a hora do amor ser saudade. Chegou a hora do tempo adormecer. E chegou o momento em que um "adeus" apressado fazia os ponteiros parar a corrida rumo ao futuro para passarem a demorar-se, outra vez, na espera interminável do amanhã.
Foi entre as horas que passaram num bater de coração porque tu estavas e as horas que duraram eternidades na tua ausência que eu construí uma verdade sobre o tempo. E a verdade é esta: É o amor que move os ponteiros. É a saudade que os pára ou os demora. E és tu que me moves nesses tempos em que o tempo passa. Se ele passa depressa ou devagar, é uma incógnita que se desfaz em poeira. O tempo avança num ritmo que não é nosso. E não podemos detê-lo nem acelerá-lo. Mas temos tempo para o tempo. E, por entre essas horas que passaram num só segundo, já criámos eternidades que ninguém nos pode roubar.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Única maneira


É a única maneira de amar. Assim. Completamente. Loucamente. Incondicionalmente. É a única maneira de amar.
Poderia haver outras, é claro. Intermédios entre tudo e nada. Graus de amor. Esquemas e calendários. Mas se escolhermos amar mais ou amar menos. Amar apenas nas horas em que dá jeito. Amar apenas quando é bom. Se escolhermos esse amor que se mede e se converte em mil medidas de insensatez, então escolhemos um não amor. Escolhemos não amar. Escolhemos gastar do uso essa palavra, até a esvaziar de tudo o que lhe dá sentido, deixando-a oca e desbotada pelos lábios que não traduzem a alma. 
É assim! Infinitamente. Tanto que se funde em nós, nos arrebata, nos corre no sangue. Tanto que confiamos os dias, confiamos a alma, confiamos a vida. Tanto que a ideia da ausência seja mais dolorosa do que a ideia da morte. É essa a única maneira de amar.
O amor não nasce para ser simples. Não chega para ser linear. Não nos é posto na mão para ser moldado consoante o que nos aprouver. Ele vem, às vezes de onde não o víamos, às vezes de onde nem existia e complica todo um universo dentro de nós. Não é fácil mas vale a pena. Justamente porque é completo e louco e incondicional. Porque não há outro tipo de amor, além desse que se estende e fica. Porque não há outro amor além desse que é bipolar e ora fere, ora cura, ora magoa, ora acalma...
É a única maneira de amar. Assim. Com os sentidos do corpo que deseja. Com os sentidos do coração que acelera. Com os sentidos da alma que se funde noutra para estar completa. É a única maneira de amar. Aquela em que o amor, mais do que amor, se transforma em vida. Aquela em que nos esquecemos de como seria o mundo, se a pessoa amada não estivesse ali. Aquela em que estamos certos de que, em estando sós, o destino será pior do que o fim perpétuo dos dias.
Seria simples compor a ideia de que há outras formas de amar. Inventar que podemos amar às vezes. Inventar que podemos marcar na agenda o dia e a hora do amor. Que podemos sincronizar os desejos e gastá-los todos num tempinho livre que surge aqui e além. Supor que poderíamos amar mais amanhã do que hoje, mais no mês que vem do que no mês passado. Que podemos oscilar os sentimentos, amar mais quando o amor, mais do que um anseio, se torna uma necessidade.
Mas o amor é fome e paixão e entendimento. É sincronismo, simultaneidade, compreensão. É estar unido e ser uno. É dar e receber, ouvir e falar. É estar completo na partilha e ser-se feliz mesmo quando dói. Amar é não estar só. Porque quem ama tem sempre o amor consigo. É esta a única maneira de amar.
Plenamente. Irracionalmente. Sem definições. Sem normas explicativas. Sem pensamentos mudos. Sem palavras forçadas. Simples como a complexidade do mundo. Só há uma maneira de amar. Apenas uma. Esta. De coração, com toda a força da alma e para sempre.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Contigo



Pode ser uma lagoa ou uma praia ou um coreto. Pode ser o meio da rua, uma esquina qualquer, um banquinho de jardim já meio sem cor. Pode ser o topo da montanha, o vale mais profundo, a floresta mais inóspita. Pode ser uma cascata ou uma cidade suja, com casas cinzentas e pessoas cinzentas a viverem meias vidas. Pode ser um trilho por explorar ou uma ponte de betão. Não me importa aonde. Eu só quero estar contigo.
Já andei por entre flores sem ver mais do que o negrume da cidade. E já nadei em águas correntes sem sentir mais do que o frio e a vontade da morte. Já caminhei junto ao mar, desejando que o céu se abatesse. O lugar onde nós estamos realmente é o que fica dentro da alma. Não gosto do mundo sem ti. O mundo sem ti pode ter praias e cascatas e florestas. Mas não tem alma, não tem vida, não tem cor.
Por isso, pode ser aqui, pode ser aí, pode ser num lugar que não seja teu nem meu. Pode ser além da distância, por entre a podridão ou no centro da mais pura das essências. Não me importa aonde. Eu só quero estar contigo.
Não há mapas que me levem até ti. Mas olhando para encruzilhadas e caminhos, compreendo que és o único local onde quero estar. Há mais do que lagoas e praias e coretos no teu abraço. O teu abraço tem constelações e galáxias e universos que ficam além do universo. O teu abraço tem poemas que ainda não foram escritos e desejos de fazer corar as fadas que se escondem nos bosques da minha imaginação. Não me importa aonde. Eu só quero estar contigo.
Já andei por entre a desgraça de uma vida sem a notar. Já conheci terras que se amontoaram num sem fim de não-memórias. Mas notei-te a ti e guardei-te, qual história de encantar, no recanto mais explorado da minha mente. E relembro, como um filme, cada pormenor insensato de ti, como se gravar-te assim dentro do peito pudesse trazer-te de volta aos locais onde já não estamos. Não estamos mas eu quero estar. Num lugar qualquer. Não me importa aonde. Eu só quero estar contigo.
E ficam as ruas gastas dos meus passos vazios, à medida que avanço, sem pegadas nem alento. As pedras da calçada perguntam-me a onde vou. E, sorrindo-lhes, eu respondo que não sei. Onde vou? O que importa qual o destino dos meus passos? Avanço para ti. E não me importa aonde... eu só quero estar contigo!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Até amanhã



Disseste "vá, até amanhã". Casualmente. Como se a distância entre o hoje e o dia seguinte fosse um salto comum e óbvio. Mas não era. Eu sabia. Tu também. O teu amanhã não se tratava do dia que vinha a seguir. Lembro-me de pensar "não te vejo mais". Lembro-me de o pensar, cheia de certezas, enquanto repetias "até amanhã, até amanhã".
Disseste-o, sem pensar, andando às arrecuas na direcção do carro. E tinhas os olhos vazios, enquanto as mãos seguravam a chave com a força da decisão da partida. Mas eu tinha lágrimas nos olhos e tu tinhas pena de mim. Porque é que tinhas pena de mim? Não sou digna de dó. Eram só lágrimas, nas imediações do olhar, recusando a queda. Mas bastaram. Bastaram para que olhasses para mim e me dissesses, andando atabalhoadamente na direcção do teu carro "vá, até amanhã".
Havia uma promessa implícita nas tuas palavras. "Não vou a lado nenhum", dizia essa promessa de amanhãs. Mas estavas a ir. Deste conta que estavas a ir? Prometias-me uma presença enquanto avançavas para uma distância segura, onde não podia agarrar-te nos braços ou selar qualquer promessa com um beijo. Estavas a ir. Na promessa ousada de que não irias jamais, estavas a ir. Afastavas-te de mim, passo a passo, com medo de voltares as costas pela ideia de que eu poderia chorar se o fizesses. E se chorasse? Ficarias se eu chorasse? Era disso que tinhas medo? De ficar?
"Até amanhã, até amanhã". O teu olhar vazio preso em mim não tinha a mais pequena nuance do sentir. E, enquanto te afastavas, notava que ele ganhava luz, como se eu fosse sombra e te roubasse o sol. Mas ias dizendo "até amanhã". Porquê?
Não ias simplesmente, com a naturalidade de um amanhã. Fugias. Era isso que fazias, enquanto me abandonavas no passeio e me dizias "até amanhã", com o mesmo desapego com o qual se pisa uma pedra da calçada. E, fugindo, avançavas na direcção dos sonhos que não podias cultivar no meu negrume.
Alcançaste o carro e sorriste. "Até amanhã", atiraste-me, ao abrires o vidro. E eu respondi-te o mesmo. De lágrimas nos olhos mas com um sorriso no rosto, ouvi os meus lábios descrentes dizerem "até amanhã".
E depois o carro partiu e eu fiquei. Sombra entre pedras da calçada, murmurando entre dentes: "adeus, sei que não te vejo mais".

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Evidentemente


Está escondido atrás do meu sorriso, nos cantos dos meus olhos e da minha mente. Permanece no centro do meu pensamento, tentando inutilmente fazer-se despercebido.
Está aí. Onde transparece e grita, onde se nota e clama. E move-se de mansinho entre as paredes do labirinto de mim, eterno vagabundo sem outra casa ou outro intento de vida.
Está aí. Acorda-me de manhã sem me deixar dormir à noite e move-me, o dia inteiro, no desejo de que o dia se torne noite outra vez. Quando tento escapar-me, ele toca-me no ombro. Um aviso regular, que me faz revirar os olhos, tentar e desistir da busca pela coerência. Está aí. Como está o ar. Não há uma explicação lógica, não há uma agenda nem um motivo... nem precisa de haver.
Está oculto nos recantos de mim. E faz-me feliz mesmo quando choro. É desafortunado e difícil. É persistente e inevitável. Maduro e racional. Vive cheio de saudades do passado mas também tem saudades do que está por devir. E inventa histórias feitas de palavras ditas ou pensadas. Faz desenhos com essas histórias e deixa que a minha mente decida colori-las com tonalidades fortes e vibrantes. Transforma-me pensamentos em desejos. Desejos em sonhos. Sonhos em segredos que não se contam a ninguém.
Está aí. Inevitável como respirar ou como uma batida de coração. Não sei de onde veio. Não sei para onde vai. Mas sei que está. E tento contorná-lo, pé ante pé, algumas vezes, consciente de que me tapa a vontade do que é real e imediato. Mas ele não deixa. Avança comigo, cega-me um pouco e faz-me ver tanto...
Está escondido. Aí, escondido à vista de todos. E ninguém sabe. Ninguém vê. Ninguém sabe que fica atrás do meu sorriso, nos cantos dos meus olhos e da minha mente. Ninguém sabe que permanece no centro do meu pensamento. Mas ninguém precisa de saber... É esse o sentido do sentir. Acontece dentro de nós. Muda tudo em nós, sem nos mudar. E avança connosco, qual gigante invisível. Pode não ter nome. Pode não ser claro. Mas está lá, faz-me sempre sorrir, faz-me feliz... e é por ti, evidentemente.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet