segunda-feira, 28 de abril de 2014

Contra o vento



Aprendi a não lutar contra o vento. Se ele muda eu sigo. Vou com ele. Deixo-o abanar os alicerces da minha vida. Não preciso de o contrariar. De me agarrar à solidez dos passeios ou às muralhas de pedra firme. Se o vento muda, eu sigo. Vou com ele. Não vale a pena contrariar as suas vontades.

O vento soprou, durante milénios. Venceu exércitos e estradas e desfiladeiros, pela erosão das vontades incautas dos seus opressores. E nunca, em milhões de anos, deixou de seguir pelos caminhos que julga mais certos.

Se segue para o Norte ou para Sul, se para Este ou Oeste, fá-lo por sua vontade e contra quem quer que seja. Não tem medo e não tem pressa. Por entre os compromissos adiáveis, tem apenas a eternidade para ir onde quiser, no sentido que achar melhor.

Nesses caminhos, percorridos na constância inconstante do ser, deixa-se usar mas não deter. E faz girar as pás de mil moinhos e bater contra as paredes a roupa húmida, pendurada nas cordas de milhares de casas. Deixa-se usar na consciência de que homem algum poderia erguer um muro que lhe vedasse a passagem. Na consciência de que nada poderia alguma vez deter o seu intento ou travar o seu rumo.

E, se nem os penhascos e os desfiladeiros lhe travam o rumo, com a sua íngreme robustez de pedra, como poderia eu, ainda que tentasse, vencer-lhe o desejo, contrariar-lhe a rota, ir por outro caminho?

O vento muda e eu vou com ele. Sigo-o aonde ele vai. Sem olhar para os pontos cardeais dos meus desejos e sem segurar no peito a tenacidade intolerante que me faria seguir por outro caminho ou simplesmente ficar na estabilidade do local onde me sinto ganhar raízes.

Não tenho raízes mas apenas asas. Asas que abro e deixo que me levem onde quer que o vento vá, na crença inabalável de que ele sabe onde vai.

Aprendi a não lutar contra o vento. Se ele muda eu sigo. Vou com ele. E eu sei que, mudando, ele sopra em direcções que me podem levar de ti. É por isso que te estendo a mão. Não posso lutar contra o vento. Se ele muda, eu sigo. Mas podes segui-lo também. Podes vir comigo. Assim, mesmo que o vento mude, nunca haverá local onde não possamos estar juntos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vem


Tu disseste "vem" e eu fui. Fui, mesmo sabendo que me abandonarias a meio do caminho. Fui, mesmo sabendo que esse era um trilho sem retorno. Fui. Tu disseste "vem" e eu fui.

Fui ser feliz na ilusão inconsciente e triste na mágoa constante das coisas que, pela força da repetição, deixaram de se transformar em ilusões. Mas fui, mesmo assim. Entre ilusões mágicas e certezas cruas, levantei-me do conforto da solidão e fui... Fui porque, por entre o amargo do silêncio, disseste "vem" e eu quis ir.

Tu disseste "vem" e eu fui. Fui pelos trilhos mais árduos, pelas estradas mais longas. E deparei-me com as tuas falésias e as tuas muralhas. Fui, empunhando a força. Andando contra a corrente. E lutei contra os teus medos, mesmo quando espicaçavas os meus. Afastei os teus fantasmas, mesmo quando, zoando de mim, fazias ecoar no meu espírito as vozes da desconfiança e do apego triste a coisa nenhuma.

Tu disseste "vem" e eu fui. Fui, na loucura de mil passos descontentes, na consciência do fim perpétuo. Sabendo dos espinhos. Sabendo da queda. Sabendo da ferida aberta e das cicatrizes que ficam depois da ferida sarar. Fui. Disseste "vem" e eu fui.

Alguns diziam "não vás". Nunca achei que os devesse ouvir. Não ouvi. Fui. Fui porque a tua voz sozinha ecoava em mim mais alto do que as multidões. Fui, porque ouviria sempre um sussurro teu mais alto do que o grito do mundo. Dizias "vem". E eu fui...

Não foi um caminho muito longo, embora tenha durado tanto mais do que o tempo dos meus passos. Um dia, olhei para o lado e já não estavas. Olhei para trás, para os anos idos e as ilusões desfeitas. E sorri. Talvez um sorriso triste, talvez um sorriso de lágrimas na alma. Mas sorri, olhando para a estrada, olhando os pés cansados do caminho e o coração forte e magoado.

Fui. Tu disseste "vem" e eu fui. Fui e, de repente, não estavas lá. E talvez, no início, eu tenha vindo por ti. Mas o que importa não é o motivo que me fez caminhar até aqui. O que importa é que cheguei. Cheguei por entre mágoas e desilusões, a lugares que nem sabia que existiam antes de me dizeres "vem". E, afinal, nem era por ti.

Disseste "vem". Eu fui. E ainda bem...

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 15 de abril de 2014

Primeiro encontro



Hoje o sol escondeu-se. Envergonhado e sem jeito, puxou as nuvens, inocentemente, da mesma forma que eu puxo as mantas e escondeu-se sob elas, com um meio sorriso e um brilhozinho no olhar.
Espreitou somente uma vez ou duas, para nos beijar o rosto que sorria. Espreitou para nos fitar as mãos dadas e nos ouvir as conversas e os silêncios e as esperanças para amanhã. Mas voltou a esconder-se, sempre, como se se sentisse a mais. E as nuvens que o cobriam firmaram-se mais e mais no céu, tentando ocultar o meio sorriso do sol, que troçava da forma como olhávamos um para o outro. Os nossos olhares tinham um sol só seu, que fazia aquecer as almas com a subtileza de um verão só nosso.
E, à medida que as mãos se davam e as palavras se tornavam eternas por um segundo, as nuvens alinharam-se com as vontades do universo e permaneceram imóveis, cinzentas, sobre as nossas cabeças, cheias de sonhos de eternidade.
O sol estava escondido atrás das mantas cinzentas. E eu escondi-me atrás de um sorriso e olhei para ti. Olhando para ti, dei-me conta de que o sol não me faz saudades quando estás por perto. Tens nos olhos um céu maior do que o céu. Tens em ti um brilho que se espalha e aquece e demora na pele. E os dedos entrelaçaram-se e dançaram em abraços, enquanto o sol se escondia de nós e nós nos esquecíamos dele.
De mãos dadas, sob um céu cinzento, fomos um universo de cores e emoções. E senti, no bater descompassado dos nossos corações, que as estrelas se alinhavam com um sol amuado e esquecido e cochichavam, atrás das nuvens, sobre uma sina que nos unisse mais do que as mãos e as almas. Sobre uma sina que nos realizasse a plenitude dos sonhos e nos tornasse mais do que dois vultos sob um céu cinzento.
Mas, olhando dentro dos teus olhos, eu esqueci-me que o céu estava cinzento. Esqueci-me que havia céu. Que o céu tinha cor. Que havia alguma coisa além dos nossos olhares perdidos e das nossas mãos dadas.  Esqueci-me. Como se esquece uma lição há muito aprendida, esqueci que o sol se esconde sob a mantas para dar lugar a amarguras. Esqueci-me das amarguras. Sorri.
O sol escondeu-se atrás das nuvens. Eu escondi-me atrás do meu sorriso e mergulhei no teu.
O meu coração estava cheio de sol e as nuvens olharam para nós, ali perdidos em sorrisos, por entre as maldições do mundo.
Então, as nuvens ignoraram o sol que se escondera envergonhadamente sob elas e, como não tinham lábios que se curvassem num sorriso, choraram lágrimas de felicidade...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O meu país



O meu país está de luto. As pessoas já não se cumprimentam rua. Ninguém sorri. Os olhares sisudos e cinzentos perdem-se no sujo do passeio e os pensamentos vagueiam, em fossas tão profundas que se quedam nos olhares e trespassam as pedras da calçada.

O meu país de está de luto. Crianças pedem esmola perante os olhares indiferentes dos mendigos de classe média. E os ricos ficam em casa, na escravidão metálica do dinheiro porque é mais seguro assim.

O meu país está de luto. O meu povo vestiu as faces de negro e a alma de trevas. E não há cor nas expressões pesadas de quem se cruza connosco nas ruas da amargura.

Olhando para o meu país não vejo chegar Abril nem vejo cor nem cravos. Não vejo vontade. Mas também não vejo aceitação, esforço, solidariedade. Olhando para o meu país vejo apenas o negro de pessoas com olheiras negras a caminharem em ruas de iluminações cortadas por falta de verbas.

O meu país está de luto. Aprendeu a viver com os rostos fechados e as mãos abertas e vazias. Aprendeu a viver sem esperança e sem consolo. O meu país está de luto porque morreu a alegria de acordar de manhã. Porque morreram os sorrisos das crianças. Porque morreu a liberdade de escolha. Porque morreram os sonhos. Então, o meu país cinzento deixa pessoas cinzentas viver no negro de não saber o que vem depois.

Caminhando pelas ruas, é isso que vejo. Pessoas a afundarem-se no negro de si para não verem a escuridão alheia. Pessoas de sorrisos gastos que deixam os lábios desaparecer em linhas severas. Pessoas que já não sabem que são gente. E caminham todos no seu luto transparente de olhos no chão. O sol que brilha acima não os aquece. O horizonte ficou esquecido. O meu povo fundiu-se com o negro das ruas mal iluminadas. E o meu país?!... o meu país está de luto!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet



terça-feira, 1 de abril de 2014

À espera


Tu estás à espera do tempo. Como se o tempo fosse construir as pontes certas ou determinar um ponto na linha de começo de uma nova história. Estás à espera do momento em que as estrelas se alinhem e os planetas se cruzem, para o mapa ser certeiro e a hora exacta. Estás à espera que os ponteiros se alinhem com as vontades divinas e o horóscopo pendente de um jornal qualquer.

Tu estás à espera do tempo. À espera que a fortuna te bata à porta e que o sucesso te defina. À espera de te encontrares nas estradas do mundo e de esgotares todas as formas de divertimento. À espera de teres experimentado mais do que a vida tem, de teres conhecido mais pessoas e mais universos. Tu estás à espera que as marés te arrastem e os ventos te puxem numa direcção. E vives no medo de que os portos em que ancoras sejam na verdade as ilhas do naufrágio.

Tu estás à espera do tempo certo para parar. Como se a viagem não pudesse ser feita senão na solidão de companhias fúteis e descartáveis. Como se os teus passos se atrasassem no desejo de encontrar algo diferente do que aquilo que idealizaste. Tu estás à espera das vontades que superem a tua. Como se a tua vontade fosse sobre-humana mas não bastasse. Como se precisasses de umas mãos invisíveis que te pusessem no caminho do teu destino.

Mas eu vou contar-te uma coisa que ainda ninguém te contou: o destino é teu. O único lugar onde ele te vai levar, se estiveres à sua espera, é até ao ponto de partida de onde nunca saíste. Tu estás à espera do tempo. Eu estou à tua espera. E o tempo certo não existe. Algures, por entre esta confusão de esperas e desesperos, estamos os dois parados em lados opostos da estação, a ver passar a vida e o mundo.

Tu estás à espera do tempo e eu não tenho tempo para esperar nada da vida. Algures, entre palavras e tarefas, eu vivo no limiar entre a vida e outra coisa qualquer, que não é vida mas finge ser.

Tu estás à espera do tempo. Eu estou à espera de ti. E, enquanto o tempo não vem, vivemos neste compasso sem sentido, à espera do impossível. Quando dermos conta de nós, teremos os rostos marcados pelas linhas do Outono e as mãos cansadas de agarrar a esperança. Quando dermos por nós, estarás à espera que o tempo volte atrás e eu estarei à espera da morte.

Entre a espera e o desespero, neste Universo de sentidos que não fazem sentido, a guerra é ganha pelos ponteiros do relógio. Porque eles avançam. Não estão à espera de nada. Não estão à espera de ninguém. Eles sabem melhor do que nós que mais vale andar em círculos eternamente do que nunca ir a lado nenhum.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 25 de março de 2014

Casa da Sorte

Foto de Roberta Avillez


Toquei o azar às portas da casa da sorte. Mas as pessoas não ouviram. Passaram por aí, como passa o tempo. Passando. Na inevitabilidade infalível de quem pensa que não existe outra forma de passar. Com a indiferença de olhos postos no asfalto ou nas pedras sujas do chão.

Toquei. Toquei mas a música não encheu as ruas, demasiado atulhadas de coisa nenhuma. Por isso, embora tocasse, não tocava. Não toquei ninguém nem coisa alguma. Não havia espaço nas ruas para outro som que não o da apatia.

Toquei o azar às portas da casa da sorte. Alguns passaram. Alguns entraram. Alguns chocalharam nos bolsos uma pobreza igual à minha. Alguns iam vazios. Alguns iam cheios de nada. Outros cheios de si. Mas ninguém me ouviu. Eu era da cor das paredes, da cor do chão. E, embora tocasse, eu soava a nada porque ninguém parava para ouvir. Para me ouvir. Para se ouvir. As pessoas simplesmente passavam. Assim... passando. Haverá outra forma?

Toquei. E, embora os olhares de soslaio optasse por ser cegos, eu continuei a tocar. Chamaram-me mendigo, pedinte. Ouvi o rumor: "devia arranjar trabalho". Toquei. Apesar dos rumores e da indiferença e da surdez. Toquei para as pedras da calçada. Chamei-lhes irmãs. Toquei para elas porque apenas elas me conheciam a música e o destino de não ser mais do que pisado pela multidão alheia.

Toquei. Toquei o azar às portas da casa da sorte. As mãos dormentes do frio. A alma dormente da indiferença. As pessoas dormentes, não sei porquê. E, nas ruas cheias, pessoas vazias passavam, deixando-me aos pés o estojo vazio e o coração quebrado.

Olhando para as pessoas, senti o ímpeto de tocar para sempre. De tocar até que me ouvissem. De ficar ali até os dedos congelarem, entre sopros e o meu olhar vítreo virar pedra, calcificar.

E toquei. Toquei a dor e a amargura e o desespero nas ruas onde só passava, passando, quem não podia ouvir ou entender o que não ouvia. Toquei enquanto a música ecoava no  vazio de tanta gente. Toquei enquanto a rua se enchia de vazio e se esvaziava de novo.

Era noite. Toquei para as estrelas. Toquei para a lua. Toquei o azar às portas da casa da sorte.
As ruas vazias, onde pessoas vazias já não estavam. O estojo vazio. O estômago vazio. O sonho vazio de mim.

Arrumei as minhas coisas. Arrumei o sonho. Arrumei a esperança. Arrumei as gentes que povoavam as ruas. Tinha tocado o azar às portas da casa da sorte.

De meu, levava agora a música. E o estojo vazio, os bolsos vazios, o estômago vazio. Mas sorri. Não tenho a alma vazia, nem os olhos cegos, nem vou como o tempo, andando. Há estrelas no alto. E elas ouvem até quem toca o azar às portas da casa da sorte.

Marina Ferraz

segunda-feira, 17 de março de 2014

Deixa-me



Deixa-me ser feliz. Não digas, por aí, que as minhas paixões são loucura. Se não te serviu o meu amor, deixa ao menos que o viva da minha forma e em paz. Não me faças entristecer por entre palavras duras que não fiz por merecer. Se não te importas, deixa-me ser feliz.
Se a minha forma de ser feliz for de lágrimas nos olhos, não me combatas as lágrimas. E, se sou feliz por entre o verde de uma Natureza viva, não critiques o facto de eu falar com as árvores. Se sou feliz em textos que falam de amores perdidos e pessoas cruéis, não me peças que escreva sobre as maravilhas da humanidade. Se sou feliz entre monstros e fantasmas do passado, deixa-me ser... deixa-me ser feliz.
Eu não nasci para ser feliz como os outros. Não nasci para diálogos de imortalidade nem para desejar contas cheias e alma vazia. Eu não nasci para me colar às paredes da normalidade. Nasci para dançar livre, sobre soalhos de loucura. Deixa-me ser como sou. Deixa-me ser triste à minha maneira. Sou mais feliz assim.
Não te acuso da minha infelicidade. Fui feliz contigo. Ser feliz sem ti foi uma batalha de sensações e de sentidos, na qual a escuridão ganhou. Sem ver mais do que o negrume da noite e o império das trevas, deixei-me afundar nos abismos. Mas, acredita: é possível amar a noite e as trevas e os abismos. Talvez seja loucura amá-los. Mas, se não entendes, ao menos deixa-me ser feliz dentro de mim. Prefiro a minha escuridão à luz dos outros. Na minha escuridão brilho o bastante.
Se não me entendes, se não concordas comigo, se não achas que o meu caminho esteja certo, guarda para ti as palavras. Não estás aqui para me fazer feliz mas deixa-me... deixa-me ser feliz.
Preciso que compreendas. O abandono deixa marcas. A saudade deixa marcas. A mentira deixa marcas. E é difícil celebrar a vida de uma forma comum e leviana quando já nos abandonaram. Mas há outras formas de ser feliz. Esta é a minha. Não me atires palavras duras ao rosto e olhares reprovadores às costas. Se não te importares, deixa-me ser feliz...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 10 de março de 2014

Poetas (por aí)



"É querer abraçar-te, não podendo com os braços, com palavras." (Helder Godinho)

Andam por aí poetas. Passam por nós nas ruas. Frequentam os nossos cafés. Lêem os mesmos jornais. Têm empregos, como nós. E carregam as palavras às costas, invisíveis, qual saco de memórias fragmentadas, à procura de lugar para viver.
Andam por aí poetas. Passam à nossa porta. Às vezes batem. Às vezes convidamo-los a entrar. Têm mentes despertas e conturbadas. Têm sede de saber e pensam em rimas soltas de versos que nem o são. E, às vezes, dizem em voz alta poemas inteiros que tomamos por conversas naturais. Mas não o são. Nunca o são.
Caminhando pelas ruas onde nos fazemos gente, os poetas enlouquecem no devaneio das horas. Não sabem se alguém os ouve. Não sabem se alguém poderia alguma vez ouvi-los. Mas vão cantando as suas estrofes de ferro, inquebráveis e cheias de mágoa. Às vezes, nem as escrevem. Às vezes nem as dizem. Apenas as pensam. E ninguém lhes rasga o corpo em busca dessa loucura inconstante que fica além da barreira.
Andam por aí poetas. Aparentemente, não são diferentes de nenhuma das outras pessoas. Parecem normais. Sãos. Pessoas. Mas, na verdade, são os mendigos da arte. São os estudiosos do medo. São os indigentes do tempo. E, dentro das suas cabeças, há mais do que listas de compras e problemas quotidianos. Preocupam-se com os sentimentos, com os sentidos, com as emoções. Listam soluções. Tentam salvar os mundos. O nosso e os deles, tão maiores, tão mais cheios, tão mais completos.
Andam por aí poetas. Não os vemos, de os olhar. Não os entendemos, de os ouvir. Mas eles andam aí. E apaixonam-se, facilmente, por outros poetas, cujos corações, igualmente quebrados pela mágoa dos pensamentos dispersos, se quebram a tempo de se emendarem em conjunto.
Andam por aí poetas. Não os sabemos poetas. Muitas vezes, eles não se sabem poetas. Escrevem poesia sem rima nem verso. Escrevem poesia que não se escreve. Dizem a coisa certa, no momento certo ou no errado, porque não têm medo das palavras... E ouvimos, (quantas vezes em silêncio?!) sem sabermos que a poesia que cantam é a mesma que ecoa dentro de nós.
Andam por aí poetas. E, às vezes, não podendo abraçar os corpos, eles abraçam as almas, dão as palavras, os sentidos, as razões... Não os vemos e não sabemos quem eles são. Têm forma de gente e vidas iguais à nossa.... Não os notamos. Mas, quem por eles é tocado sabe: sabe que andam por aí poetas... e que é por isso que o mundo ainda tem algo de bom.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet


segunda-feira, 3 de março de 2014

Fada


Ergui os braços aos céus e rodopiei, com os pés assentes na areia húmida e fria. No céu cintilava um universo de estrelas e a lua reflectia, incompleta e crescente, no alvoroço de um oceano feito em lágrimas.
Não fiz caso das pessoas que passavam na rua, de sobrolho franzido, amaldiçoando o Inverno. E, talvez por isso, de alguma forma, elas também não perderam tempo a olhar para mim: criança adulta ou mulher inocente, dançando ao som das ondas. Feliz, completa. Tão, tão feliz.
A memória inconstante chegava e partia como as ondas, firmes e difusas, em marés de saudade. E o vento, vindo desse Norte agreste, veio dançar comigo, trazendo o aroma adocicado de terras distantes.
Um dia disseste-me para abrir as asas. Para as abrir com a simplicidade de ser eu. E isso significava que sabias que eu podia voar. Hoje danço, porque compreendi a verdade. Tive sempre as asas abertas, da mesma forma que te tive sempre, qual corrente de aço, agarrada aos pés. Com o tempo deixei de precisar de voar. Acorrentada à saudade, à solidão, ao medo, à dor… a todos esses sentimentos que deixam de ser tristes e me acolheram nos braços.
Antes, fiz da dor o meu Abrigo. Mas hoje danço. Ergo os braços aos céus e mergulho os pés na água fria do oceano. Danço. Danço de asas abertas e sem temor. Já não te tenho, qual grilhetas pesando. Tenho apenas as memórias sólidas e concretas. Distantes... desertas de ti.
E, rodopiando, de asas abertas, dou por mim a subir aos céus de possibilidades que nem sabia que havia em mim. Descubro que há uma beleza subtil na alma que julgava que não tinha. Descubro que o lugar vazio de onde arranquei o coração foi de súbito preenchido pela certeza de que poderei sempre amar. Talvez não ame da mesma forma. Mas posso amar com a mesma força, o mesmo alento, a mesma paixão. Posso amar tanto quanto o amor diz.
Fada de Inverno num conto misterioso chamado vida, descubro voando que viverei sempre na paz de ter cumprido todas as promessas que te fiz. Na paz de saber que não espero nem desejo que cumpras a tua.
De asas abertas, e sem olhar o chão distante, descubro que vale a pena ser a pessoa que ama, apesar da mágoa. Mesmo que não resulte. Mesmo que magoe. Vale a pena ser a pessoa cujo coração bate, cuja alma permanece intacta, cujos sentidos permanecem sólidos.
Esperei. Julguei que era por ti. Não era. Esperei pelas asas. Esperei por abrir as asas. E hoje sei que valeu o medo, o sofrimento, a mágoa. O mundo é mais bonito visto do alto... e só pode ter asas quem tem coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet




Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14, cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP. 
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Chora


Chora. Chora mas chora baixinho como quem finge que não tem lágrimas. Chora para dentro para que ninguém veja, para que ninguém saiba, para não fazeres mais ninguém chorar.
Chora. Mas chora como se sorrisses. Chora como se, dentro da alma, houvesse apenas o riso perdido de uma criança contente. Chora. Mas chora para ti. Não chores para o mundo. Não chores de forma a que mais alguém o veja.
Chora. Chora baixinho, em surdina, em silêncio. Chora de olhos secos. Não deixes que caia a muralha nessa chuva de olhar insensata e imatura. Chora. Mas chora sem ninguém saber.
Chora no teu cantinho da cama. Sem estremecer. Sem te deixares arrepiar ou gemer na queda insensata das lágrimas. Chora para ti, como se cada lágrima fosse uma página de diário secreta, selada, intransmissível. E não deixes que ninguém leia em ti essas folhas secas e impressas na tinta magoada da alma.
O teu choro tem algo de dor, algo de mágoa, algo de solidão. Mas a dor é tua. Guarda-a para ti. Chora onde não te roubem o orgulho, já que tudo o resto foi levado e te dá vontade de chorar. Guarda as tuas lágrimas, pequeninas, transparentes e brilhantes. Guarda-as no lugar secreto e sagrado onde ninguém imagina que existam.
E limpa os olhos, seca o rosto, ergue-o. Sai à rua de saltos, caminha de costas direitas e põe um sorriso maquilhado no rosto. Chora. Mas chora apenas dentro das paredes do teu mundo. Não deixes que vejam além dessa muralha fictícia que te leva pela vida, sorrindo.
Chora. Mas chora onde não te julguem fraca. Chora onde não precises de explicar a força que é precisa para se poder chorar. Chora sozinha, onde te podes confortar no teu tempo e à tua maneira.
Um dia vais entender. A tua dor importa. Mas essas lágrimas que mostras, descaradas, pelas ruas onde a vida se faz inferno, não são de amor, se as mostrares. Amar é querer ver bem até quem nos rasga a superfície incauta do coração. E, por isso, se fores chorar, chora baixinho, chora para ti, chora com os olhos secos. Se for por amor, chora assim.
Acredita em mim. É, talvez, a coisa mais importante sobre os sentidos da vida. Mais vale chorar em silêncio. Mais vale ser feliz em silêncio. Mais vale o silêncio. Há tanta gente vazia neste tempo sem contos de fadas que até a dor é roubada, na esperança de se encontrar algo.
Estás triste. Isso significa que sentes. Que há algo dentro de ti. E, por isso, sim: chora. Chora mas chora baixinho, como quem finge que não tem lágrimas. Chora de lágrimas secas. Chora baixinho, em surdina. Assim saberás quem te ama a ponto de ver as lágrimas que trazes no teu sorriso.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet







Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14,cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP.
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :)