terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quinze anos


Havemos de vir aqui, daqui a quinze anos. Chorava. Havemos de olhar sobre esta cidade. De a deixar ser cidade sob a luz tremeluzente das ruas. Sob o negrume infinito dos céus. Chorava. Daqui a quinze anos, havemos de vir aqui.
Em que ano foi?
Ela tinha aquele jeito de sorriso na alma. E dor. Tanta dor. Chorava. Palavras tropeçando noutras palavras. Copo cheio. Meio vazio. Totalmente vazio entre as mãos. Havemos de vir aqui outra vez. Daqui a quinze anos. Vamos rir-nos disto.
O que lembro melhor nela é o sorriso. Um sorriso dançado. Nos lábios. No olhar. No rosto cheio de certezas. Ela tinha a força de um exército. A alma tinha vestido a armadura. Mas era suave e tinha um aroma doce, a baunilha ou morango ou afeição. O que fosse. Era uma dualidade infinita de coisas completas. Olhando para ela eu sabia. Sabia que ela era mais do que quase toda a gente e que podia ser tanto quanto quisesse.
Não naquela noite. Naquela noite era vulnerável. Havemos de vir aqui, daqui a quinze anos. Não te esqueças da data. Lágrimas e palavras soltas. Uma varanda sobre a cidade. Um frio que entrava nos ossos. Havemos de vir aqui, daqui a quinze anos.
Falou. Falou de coisas que eu não sabia. Falou do amor dado em corpos despidos. Da ferida aberta, a criar cicatrizes no coração que quer adormecer. Chorava. E ia dizendo, sob um céu negro e feito em smog: Havemos de voltar. Daqui a quinze anos.
Ela era tão bonita que era difícil não olhar para ela. Tão confiante que se tornava impossível não desejar ter um pouquinho do brilho que emanava do sorriso. Naquela noite, das lágrimas. A dor. Tanta dor. Porquê?
A história. Lembro-me da história. O soalho de madeira. Lembro. Lembro com saudade. Havemos de voltar, daqui a quinze anos. Amor. O sentimento espelhado, a escorrer no rosto que geralmente sorria. E a frase, sempre presente. Havemos de voltar. Quando?
Havemos de voltar daqui a quinze anos. Foi ditada a sentença que nunca se cumpriria. Mas relembro. Relembro as lágrimas caindo no rosto triste. Daqui a quinze anos. E, em pensamento, nesta varanda sobre a cidade adormecida, é com ela que eu estou. Lembro. Relembro-lhe as lágrimas. Mas principalmente os sorrisos. E a forma como gostava de partilhar as minhas próprias lágrimas e sorrisos com ela. Daqui a quinze anos, havemos de voltar.
Saudade. É isso que guardo, olhando a cidade que dorme. Saudade. Uma varanda sobre a cidade iluminada na luz intermitente da rua. Saudade. Daqui a quinze anos, havemos de voltar.
Não vamos voltar. Não agora. Não daqui a quinze anos. Mas lembro o sorriso. Sorrio. Daqui a quinze anos talvez eu seja uma figura solitária no topo da cidade. Daqui a quinze anos talvez aguarde, sozinha, no topo dessa memória. No topo do esquecimento. No topo do que fica pelos trilhos imprevisíveis da vida. Sim... a vida é mesmo assim. Mas tenho saudades.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Amor prostituído


As pessoas têm medo de falar de sexo. Fazem dele tabu. Dizem que não andam por aí, a dar-se e a vender-se nas esquinas. Condenam quem o faz. Riem de quem não tem pudor. E caminham pelas ruas de rosto erguido, alegando a pureza incansável do corpo imaculado que só se dá num silêncio censurado, de janela fechada e estores batidos. Mas que ama? Toda a gente diz que ama sem pudor, ame ou não. O vocábulo amor esvaziou-se de sentido e tornou-se palavra de uso. No meu tempo, é assim. As pessoas envergonham-se da partilha do corpo e escondem-na, enquanto a palavra amor se prostitui livremente nos recantos das conversas.
A palavra amor prostitui-se. Anda por aí nas ruas, nas esquinas. Entra em qualquer casa, de qualquer maneira, sem fazer caso de nada. Entranha-se nas promessas falsas, na vontade de uma companhia fácil, no desejo de luta contra a solidão. E não precisa de muito para se dar. Dá-se em troco de muito pouco. Em troca de quase nada. A palavra amor prostitui-se, neste tempo recatado, onde se julga de fácil qualquer pessoa que não tema o assumir do desejo.
Hoje em dia diz-se "amo-te" com a mesma facilidade com a qual se pede um copo de água. A palavra espalha-se, na voz de crianças que não têm idade para falar de amor, de adolescentes que não têm vontade de esperar, de adultos que não têm tempo para amar. E prostitui-se, assim, de uma forma simples e ligeira. A palavra amor é fácil, compra-se, vende-se, oferece-se. Prostitui-se. E ninguém lhe paga o suficiente.
Se, em tempos, poetas insistiam em definir o amor das formas mais complexas, sem encontrar respostas que julgassem aceitáveis, a verdade é que, hoje, é bem mais simples. "Amo-te", no nosso século, equivale a quase tudo. Tem sinónimos plurais, diversos, vazios. Em casos extraordinários e muito raros, "amo-te" significa "amo-te".  Mas, normalmente, amo-te significa "apetece-me dormir contigo",  "dá-me um jeitinho sentimental", "estou farto de estar sozinho" ou "acho que gosto de ti". Mas não se usam os sinónimos. Claro que não. "Amo-te" soa sempre bem. Soa sempre melhor do que as expressões unívocas.
É de amor que se deve falar, mesmo se o amor for luxurioso. Porque falar de sexo fica mal, não é próprio de uma menina, não é politicamente correto. E soma-se às incorrecções o desejo, o prazer, o estímulo. Fala-se de amor. Mesmo quando o amor é só carne e, sendo assim, não é amor. Mas fala-se de amor. Porque o amor (essa mentira que raras vezes se torna verdade) não causa transtorno a quem ouve nem embaraço a quem diz.
As pessoas envergonham-se de falar da partilha do corpo. Mesmo quando a fazem e a sentem e a querem. Mas falam abertamente de amor, quando, tantas, tantas vezes, ele não passa de uma mentira elaborada. No meu mundo, a verdade importa menos do que a convenção. E a palavra amor prostitui-se por aí. Torna-se obscena, ridícula e descabida. Perde-se-lhe o sentido nas esquinas do engano. Mas não faz mal. De amor, pode-se falar... pode-se falar de amor, mesmo se o amor for outra coisa, mesmo se o amor for a mentira inerente aos corpos que se perdem nos lençóis. De amor pode-se falar! Mas de sexo? De sexo não...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Carta de um soldado



Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha os olhos verdes. Inclinava a cabeça para a direita quando se ria. Falava sempre de forma mais cortês e mais formal com aqueles de quem não gostava. Usava a ironia com frequência mas nunca como arma de arremesso. Usava-a em tom de brincadeira, qual insinuação tola de criança grande. E fazia sorrir toda a gente com quem se cruzava.
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha casado com uma mulher ruiva, franzina, cheia de sardas acastanhadas junto ao nariz. Todas as noites, junto à fogueira, tirava a fotografia dela do bolso e dizia: "Eis a mulher mais bonita do mundo". Nunca a achei particularmente bonita mas, noite após noite, olhando a fotografia, iluminada pelo fogo, aprendi que a beleza era apenas um dos nomes da paixão. "É por ela que ainda vou voltar vivo para casa", dizia-me. E eu anuía.
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha uma fé mas nunca, nem por uma vez, o ouvi confessar o credo num tom de intolerância. Pouco falava de Deus. Era um homem, entre homens, na luta constante por ser um homem melhor. Dos céus, retirara a lição fundamental: o amor. E, desse amor, fizera crença. Dava-o a toda a gente. Mesmo àqueles que tomávamos por inimigos. Não odiava ninguém. Os nossos colegas diziam: "Estás no sitio errado". Eu nunca lho disse. Mas concordava. Podia ter-lhe dito: "Estás no mundo errado".
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. Um dia abriram fogo sobre o nosso campo. "Os outros". Era esse o nome que lhes davam. Tinham outra nacionalidade. Outra cor. Outra religião. Mas, à medida que se aproximavam, com armas nas mãos, eles não me pareciam "outros". Eram iguais a nós. Também tinham duas pernas, dois braços, dois olhos. E, nas mãos, como nós, tinham armas. Desde quando é que as armas eram uma parte de nós? Desde quando é que nós também eramos "os outros"? Questionei a violência. Bloqueei o instinto que me pedia para sobreviver. Baixei a arma. Dei o peito às balas.
Mas eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo protegeu-me com o próprio corpo. Quando caiu, tinha os olhos verdes abertos e sangue nos lábios. Numa mão, agarrava a fotografia da mulher mais bonita do mundo. Na outra, segurava a arma que nunca disparou. Não voltou para casa. E vieram palavras cruas, cheias de ódio. "Os outros, os outros". Mas a culpa não foi d' "os outros". A culpa foi de quem julga que podem travar-se guerras de poder sob o disfarce da diferença. Nós também somos "os outros". Somos todos "os outros". E não há "outros". Não somos uma nacionalidade. Não somos uma crença. Não somos um tom de pele. Somos humanos. Somos homens. Eramos homens, até nos fazermos monstros, atrás de armas de fogo.

Eu tinha um amigo. Chamam-lhe herói. Não era um herói. Era um homem bom e forte. Completo e cheio de vida. Diz-se por aí que, na guerra, caem primeiro os mais fracos. Eu discordo. Os primeiros a tombar são os justos, os bons, aqueles que faziam do mundo um lugar melhor.
Eu tinha um amigo.

Hoje tenho memórias. Palavras por dizer. Saudades.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


Música e Letra de Helder Godinho
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Jogo de Sorte


Era um jogo de sorte, aquele em que apostei o coração. Pousei-o. Arrastei-o, com as mãos firmes, para o centro da mesa. Levantei o olhar e encarei  todos os outros. Apostei o coração num jogo de sorte. Com ele, sem saber, apostava a vida inteira, com todos os seus anteontens e todos os seus amanhãs. Mas estava tão certa de mim, tão certa da sorte, que o apostei sem o mais leve temor. Apostei-o com a leveza de uma manhã de Verão. E sorri. Sorri, enquanto apostava o coração, abandonando-o, assim, no centro de uma mesa, ao alcance de qualquer pessoa.
O meu sorriso, despropositado e demente, foi encarado com perplexidade. Quem apostaria o coração num jogo de sorte? Quem poderia estar tão certo, a ponto de colocar no centro das apostas, a única coisa que se podia esperar que sobrasse, nos fins dos dias em que tudo se perde ou ganha, por entre escolhas inconsequentes.
Era um jogo de sorte, aquele em que apostei o coração. Podia ganhar ou perder. Com a mesma facilidade. Era um jogo de sorte. Daqueles em que se apostam os botões e as esmolas. Daqueles em que se aposta o anel de diamante e o segredo. Apostei o coração. Arrastei-o, qual bijuteria, para o centro da mesa. E ele batia calmamente, como se não fosse nada. Como se o centro da mesa não fosse um espaço mais indigno do que aquele que ocupava no meu peito. E foi a vê-lo bater assim, naquele quase-alivio de se ver longe de mim, que me perguntei. E se o perder?
Não se perdem corações em jogos de sorte. Nem mesmo quando se perde. O que se arruína nas mesas das apostas não são os corações arrastados para o centro das mesas. Mas perde-se a vida. Perdi a minha. Foi preciso perdê-la para compreender. Apostei o coração. Mas não era um jogo de sorte. Não havia sequer a mais breve nuance de sorte nesse tudo ou nada de loucura em que tinha apostado tanto. Era um jogo de azar.
Foi num jogo de azar que apostei o coração. Sob o olhar perplexo de quem não compreendia que não havia nada a perder. O coração. A vida. Olhavam para mim. Que coração? Que vida? Não olhariam para mim, com os olhos arregalados, se soubessem a resposta. Mas não sabiam. Apostei o coração nesse jogo de azar. E sorri.
Apostei o coração. Perdi tudo. Nunca se perde tudo num jogo de azar. Perde-se apenas o que se aposta. Mas eu perdi tudo, excepto o coração. Esse dei-o. Dei-o a quem não o queria. Dei-o a quem não o sabia cuidar. Não era um jogo de azar. Não era um jogo, sequer. Era azar, somente. O azar de ter, comigo, apenas o coração. O azar de o ter apostado. O azar de não poder arrancá-lo de mim para o arrastar para o centro da mesa.
Não perdi o coração. Guardei-o. Não havia forma de o perder. Fiquei com ele mas ele já não era meu. Foi assim que me perdi de mim. Foi assim que perdi a vida.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet