terça-feira, 28 de junho de 2016

Era tudo perfeito



Era tudo perfeito. Um dia de Verão. Sem nuvens. Sem vento. Só o abraço gentil da brisa ocasional, que agitava os cabelos e as copas das árvores. Ele sorria. Ela sorria. Sorrisos feitos de serra. Sorrisos feitos de mar. Sorrisos feitos de amor. E, caminhando lado a lado, deixavam roçar, de volta em vez, as costas envergonhadas das mãos que queriam dar-se, mais e mais, no avanço da tarde.

Era tudo perfeito. Um toque de maresia no ar. Um toque de perfume no pulso. Um toque de brincadeira nos lábios que ainda não se beijavam. O som constante da inocência amigável de um amor sem compromisso, a querer comprometer-se para viver, depois, o dia a seguir e o resto da vida.
Era tudo perfeito. A pele queimada do sol, irradiando o brilho e a luz. Os olhares carentes, de relance, nas conversas mais ocasionais, cujos assuntos saltitavam e se faziam tema de canção. E ela amava-o. E ele amava-a. E o mundo, habitualmente tão cruel, estava ocupado a olhar para outro lado e não lhes perturbava o amor.

Era tudo perfeito. As mãos deram-se a medo, na proximidade do pôr-do-sol e o beijo alaranjado do fim de tarde selou-lhes o contrato escrito em olhares e promessas mudas. Abraçaram-se até que o abraço os uniu num corpo só. E pertenceram um ao outro, como ninguém pertence a ninguém. Eram finalmente livres. 

Era tudo perfeito. Tão perfeito que ninguém o sabe. Tão perfeito que ninguém o conta. Tão perfeito que nem sequer vale a pena escrevê-lo.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 21 de junho de 2016

O casaco velho



Para a minha mãe

Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Se o viste, não lhe pegaste para te desfazeres dele. Se lhe tivesses pegado, com tal intenção, eu não teria deixado. Está velho, gasto, cheio de borboto. Fica-te largo... tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Tem a manga queimada na ponta e, na verdade, ambas o sabemos: já pusemos de lado peças de roupa em melhor estado.
O teu casaco não é bonito. No padrão desbotado, em tons de azul escuro, vermelho, bege e o que mais for, o teu casaco faz lembrar um filme antigo e realizado por pessoas sem olho para a moda. Refiro-me a ele como o teu casaco «"tricotiado" por um cego»... erro incluído, para sublinhar o facto de que, se tivesse sido simplesmente tricotado, não poderia ser tão malparecido.
O teu casaco parece ter sobrevivido, inválido e irreversivelmente condenado, a uma guerra qualquer. Olhando para ele, qualquer pessoa concordaria. Mas, se o dissessem, diriam com ironia. Não o diriam como eu. Porque eu sei (e tu também): aquele casaco sobreviveu a coisas piores do que a guerra. Sobreviveu a discussões, mágoas, tristezas, decisões amarguradas, conversas doloridas, notícias irreversíveis e penosas. Mas sobreviveu. Sobreviveu sempre.
O teu casaco viu-me crescer. De menina, a adolescente. De adolescente, a jovem. De jovem a adulta. Viu quando me aconselhaste. Viu quando me repreendeste. Viu quando me elogiaste. Ele sabe que acreditas mais em mim do que ninguém, embora também saiba que, por vezes, te inquietam as minhas decisões e as minhas atitudes. Ele estava lá. Envolveu-me muitas vezes, através do movimento ténue dos teus abraços. Absorveu muitas das minhas lágrimas. Deixou que nele pousasse a cabeça para me fazeres festinhas ao de leve sobre o cabelo rebelde.
O teu casaco acordou-me muitas manhãs. Sabe que não ligas a luz. Sabe porquê. O teu casaco ajudou-me a fazer trabalhos para a escola e para a universidade. Conhece a minha obra poética quase de cor, de tanto ouvir, ler, reouvir e reler textos e poemas. Por vezes, nessas penosas sessões literárias, julgou-te dona da maior paciência do mundo. Mas ele também já viu a tua paciência voar, quebrar, ser outra coisa. E, nas casas largas dos seus botões, aposto que já teve vontade de se esconder dos teus momentos de mau humor.
Não. Nunca te teria deixado dar o teu casaco-de-guerra. Tê-lo-ia resgatado. De todas as peças de roupa que acumulas no armário, não existe nenhuma que defendesse desta forma. Mas o teu casaco velho, gasto, cheio de borboto, largo e com a manga queimada na ponta... esse eu defendo!
Já te vi aperaltada: com as roupas mais bonitas, de saltos altos e até com maquilhagem. Já te vi no teu dia-a-dia: com o teu estilo clássico e casual, convidativo e elegante. Já te vi com roupa que cobicei (e até herdei). Mas a imagem que guardo de ti, quando na ausência te imagino, é a usares esse teu casaco velho. Porque essa imagem de ti, dentro do casaco feio, é a mais bonita de todas. É a imagem do conforto, da casa, do conselho amigo. É a imagem de um beijo, do sossego, do carinho. Essa imagem dá-me o aconchego de um abraço forte. Tem o teu cheiro. O teu calor.
Imagino-te na cozinha, meio contrariada, a enumerar as tarefas que ainda faltam para o dia ou a reclamares da falta que faz a ajuda que não queres nem aceitas. Imagino-te na sala, com os óculos na ponta do nariz a coser roupa, enquanto lanças à televisão olhares furtivos. Imagino-te sentada na minha cama, a ouvires os meus textos e poemas, enquanto ajeitas incessantemente as almofadas que, por mais direitas que estejam, nunca te fazem a vontade. Imagino-te a entrares no meu quarto, com um sorriso aberto, para me dares um beijo no nariz e dizeres "boa noite, até amanhã". É uma imagem verdadeiramente bonita de ti. Uma imagem que nunca fica velha, nem queimada, nem fora de moda. Uma imagem de amor incondicional, na qual, sei lá porquê, estás dentro desse casaco.
Eu sei. No seu âmago, o amor que tenho por ti não tem nada a ver com o casaco velho, largo, queimado nas mangas. Mas eu também sei que, se aquele casaco falasse, ele poderia dizer muito sobre este amor. E poderia fazê-lo justamente por isso: porque, à medida que desbotava, alargava e se estragava, ele estava lá. Esteve lá o tempo todo. Nos abraços, nos beijos, nas lágrimas, no consolo, nos serões de poesia, nas discussões intermináveis, nas decisões fundamentais. Estava lá no nosso melhor e no nosso pior. Viu, quando mais ninguém o poderia ter visto, que viesse o que viesse, independentemente de tudo, estávamos lá uma para a outra. Não éramos, nunca fomos, apenas mãe e filha. Para mim sempre foste o ombro, a amiga, o "para sempre" em que eu acreditava mesmo quando não sabia acreditar. E o casaco? O casaco não fez com nada disto fosse assim. Ele apenas viu. E, por ter visto, na sua passividade quieta, ele sabe mais sobre nós do que qualquer pessoa.
Assim, embora o casaco não esteja no centro do amor que tenho por ti; o amor que tenho por ti está cravado no padrão estranho desse casaco. E está lá por isso mesmo: Porque está velho, gasto, cheio de borboto. Porque te fica tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Porque, na verdade cabemos as duas dentro dele e estamos as duas dentro dele, nas memórias que ele traz de nós.
Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Está velho, gasto, cheio de borboto. Mas o que importa não é como ele está. Importa o que ele é. E ele é um bocadinho como o amor que nós sentimos: estará sempre lá, confortável e perfeito, para nos aquecer nos muitos Invernos da vida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 14 de junho de 2016

As terras da igualdade



Vivo nas terras da igualdade. Aqui, não se olha a posses, nem a roupas, nem ao tamanho. Não se olha a nomes. Nem a distinções.
Vivo nas terras da igualdade. Dentro das suas fronteiras não há separações. No seu centro não se categorizam pessoas como se fossem objetos. Somos todos feitos da mesma matéria. Somos todos olhados da mesma maneira. Sem distinções.
Não duvidem: existem. São as terras da igualdade. Essa que se debate nos canais televisivos e que os sociólogos dizem ser impossível. Não é. Existe. Vivo lá. Nas terras da igualdade, onde não se usam separadores entre as pessoas, para as associar a este ou a outro grupo.
Vivo nas terras da igualdade. Seja rico ou pobre. Gordo ou magro. Branco, negro, mestiço. Saudável ou doente. Católico ou pagão. Nacional ou estrangeiro. Não importa. São todos iguais. Dizem mal de todos.
É verdade. Mal. Olham todos com o mesmo desprezo e de todos constroem histórias que contam, em surdina, assim que, de costas voltadas, fazem cessar o medo das represálias. E não medem a forma como dizem as palavras – essas que também são iguais, sejam verdade ou mentira. E vão por aí, sem fazer distinção. Dizem mal de todos. Na mesma medida. Frequentemente pelo mesmo motivo. Por vezes alterando, na semântica e no tom apenas algumas nuances para que não se denuncie a pequenez de espírito.
Vivo nas terras da igualdade. Ninguém escapa à rotina da palavra lançada em tom de boato. Não importa a condição nem a conduta. Espezinham-se gentes sob os pés alheios. Toda a gente é juiz. Toda a gente é vítima. Toda a gente é carrasco.
Sim. Elas existem: as terras da igualdade. São feitas desta linha de tear desgostos. E nelas se enlaçam mentiras e verdades, até que se fundem num único momento de aspereza onde todos são igualmente miseráveis.
Vivo nas terras da igualdade. Vivemos todos sob o olhar atento da censura. Morremos todos sob o olhar atento da cidade. E ganhamos todos, com a morte, uma condição de pureza que, em vida, nos foi negada.
Na minha terra é essa a excepção. Todos são maus. Todos são condenáveis. Todos merecem sofrer. Excepto o morto. O morto é a melhor pessoa do mundo.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 7 de junho de 2016

O monstro




Lembro-me concretamente das palavras que alguém disse à minha mãe: "Estás a criar um monstro."

O Monstro era eu.

Naqueles tempos, eu ainda era feliz. Não me lembro de não o ser. No canto poeirento da minha solidão, eu tinha castelos e amigos imaginários. Voava. Era uma sereia. Era uma fada. Era um universo tão cheio de coisas que não me apercebi. Não sabia que, por entre a fantasia e a ilusão, me podia estar destinada a mágoa. Não sabia que era um monstro.

Eu não sabia. Mas alguém soube. Disse-o à minha mãe. E ela, que me amava, discutiu mas não contradisse. Também sabia. Talvez soubesse porque, no fundo, éramos o mesmo tipo de monstro. Ou talvez o soubesse porque via em mim os traços que me afastavam do resto do mundo. Fosse como fosse, antes de eu saber, os outros já o diziam.

O Monstro era eu.

Nos lugares onde passei, ouvi-o. "Pareces um monstro", disseram-me alguns, em palavras que não estas. Disseram-mo enquanto troçavam da minha aparência, das minhas dificuldades, das minhas manias e dos traços que me faziam ser eu. As palavras mudavam mas a mensagem era essa. "Pareces um monstro". Atiravam-me as esperanças do amanhã para o fundo do poço. Varriam-nas para debaixo da cama. Tentei explicar mas troçaram também da explicação, por julgarem que o vazio morava nos traços das explicações. Ninguém ouve as palavras de um monstro.

Cresci. Crescer significou olhar ao espelho e ver o que me diziam que eu era. E tentei dizer a mim mesma: "Além de monstro, és pessoa. Não desistas de ti." Mas, em alguns momentos, desisti. Tentei loucamente ser como os outros. Tão loucamente que a loucura soou e se disse por aí que a minha estranheza me fazia ser um sem fim de coisas. Todas as coisas reduzidas, nos meus ouvidos, à mesma palavra de sempre. Monstro.

O Monstro era eu.

O meu coração tornou-se o meu melhor amigo. Disse ao meu coração, muitas vezes: "o amor vai resolver tudo." Acreditei profundamente nisso. Mas o amor não foi mais do que uma estrada para lugar nenhum. Apaixonei-me. Vezes sem fim. Na maioria das vezes, não houve quem retribuísse o que eu sentia. Houve apenas quem fizesse de mim criança outra vez e se risse no meu rosto.

Mas vivi o amor. Viver o amor significou cair. E imprimiu-se na minha pele. A dor. A mágoa. O abandono. A saudade. No espelho, devolvia-me o olhar alguém que não sabia sorrir. Alguém que não sabia sonhar. Alguém que não queria desistir do que sentia. Presa. Atada ao solo da realidade mais sórdida. O monstro precisava de amor.

O Monstro era eu.

Amanhece todos os dias, para toda a gente. Em alguns dias, o sol também nasceu para mim. Também me beijou. Fez-me sorrir. Descobri que há quem ame. Até os monstros.  Houve braços que me envolveram, mesmo sabendo quem eu era. Sim... algures, alguém descobriu. O monstro tem coração. Um coração que bate e sente e sofre. O monstro também é pessoa.

Toda a gente mo disse mas ninguém o sabe.

O Monstro sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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