terça-feira, 21 de junho de 2016

O casaco velho



Para a minha mãe

Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Se o viste, não lhe pegaste para te desfazeres dele. Se lhe tivesses pegado, com tal intenção, eu não teria deixado. Está velho, gasto, cheio de borboto. Fica-te largo... tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Tem a manga queimada na ponta e, na verdade, ambas o sabemos: já pusemos de lado peças de roupa em melhor estado.
O teu casaco não é bonito. No padrão desbotado, em tons de azul escuro, vermelho, bege e o que mais for, o teu casaco faz lembrar um filme antigo e realizado por pessoas sem olho para a moda. Refiro-me a ele como o teu casaco «"tricotiado" por um cego»... erro incluído, para sublinhar o facto de que, se tivesse sido simplesmente tricotado, não poderia ser tão malparecido.
O teu casaco parece ter sobrevivido, inválido e irreversivelmente condenado, a uma guerra qualquer. Olhando para ele, qualquer pessoa concordaria. Mas, se o dissessem, diriam com ironia. Não o diriam como eu. Porque eu sei (e tu também): aquele casaco sobreviveu a coisas piores do que a guerra. Sobreviveu a discussões, mágoas, tristezas, decisões amarguradas, conversas doloridas, notícias irreversíveis e penosas. Mas sobreviveu. Sobreviveu sempre.
O teu casaco viu-me crescer. De menina, a adolescente. De adolescente, a jovem. De jovem a adulta. Viu quando me aconselhaste. Viu quando me repreendeste. Viu quando me elogiaste. Ele sabe que acreditas mais em mim do que ninguém, embora também saiba que, por vezes, te inquietam as minhas decisões e as minhas atitudes. Ele estava lá. Envolveu-me muitas vezes, através do movimento ténue dos teus abraços. Absorveu muitas das minhas lágrimas. Deixou que nele pousasse a cabeça para me fazeres festinhas ao de leve sobre o cabelo rebelde.
O teu casaco acordou-me muitas manhãs. Sabe que não ligas a luz. Sabe porquê. O teu casaco ajudou-me a fazer trabalhos para a escola e para a universidade. Conhece a minha obra poética quase de cor, de tanto ouvir, ler, reouvir e reler textos e poemas. Por vezes, nessas penosas sessões literárias, julgou-te dona da maior paciência do mundo. Mas ele também já viu a tua paciência voar, quebrar, ser outra coisa. E, nas casas largas dos seus botões, aposto que já teve vontade de se esconder dos teus momentos de mau humor.
Não. Nunca te teria deixado dar o teu casaco-de-guerra. Tê-lo-ia resgatado. De todas as peças de roupa que acumulas no armário, não existe nenhuma que defendesse desta forma. Mas o teu casaco velho, gasto, cheio de borboto, largo e com a manga queimada na ponta... esse eu defendo!
Já te vi aperaltada: com as roupas mais bonitas, de saltos altos e até com maquilhagem. Já te vi no teu dia-a-dia: com o teu estilo clássico e casual, convidativo e elegante. Já te vi com roupa que cobicei (e até herdei). Mas a imagem que guardo de ti, quando na ausência te imagino, é a usares esse teu casaco velho. Porque essa imagem de ti, dentro do casaco feio, é a mais bonita de todas. É a imagem do conforto, da casa, do conselho amigo. É a imagem de um beijo, do sossego, do carinho. Essa imagem dá-me o aconchego de um abraço forte. Tem o teu cheiro. O teu calor.
Imagino-te na cozinha, meio contrariada, a enumerar as tarefas que ainda faltam para o dia ou a reclamares da falta que faz a ajuda que não queres nem aceitas. Imagino-te na sala, com os óculos na ponta do nariz a coser roupa, enquanto lanças à televisão olhares furtivos. Imagino-te sentada na minha cama, a ouvires os meus textos e poemas, enquanto ajeitas incessantemente as almofadas que, por mais direitas que estejam, nunca te fazem a vontade. Imagino-te a entrares no meu quarto, com um sorriso aberto, para me dares um beijo no nariz e dizeres "boa noite, até amanhã". É uma imagem verdadeiramente bonita de ti. Uma imagem que nunca fica velha, nem queimada, nem fora de moda. Uma imagem de amor incondicional, na qual, sei lá porquê, estás dentro desse casaco.
Eu sei. No seu âmago, o amor que tenho por ti não tem nada a ver com o casaco velho, largo, queimado nas mangas. Mas eu também sei que, se aquele casaco falasse, ele poderia dizer muito sobre este amor. E poderia fazê-lo justamente por isso: porque, à medida que desbotava, alargava e se estragava, ele estava lá. Esteve lá o tempo todo. Nos abraços, nos beijos, nas lágrimas, no consolo, nos serões de poesia, nas discussões intermináveis, nas decisões fundamentais. Estava lá no nosso melhor e no nosso pior. Viu, quando mais ninguém o poderia ter visto, que viesse o que viesse, independentemente de tudo, estávamos lá uma para a outra. Não éramos, nunca fomos, apenas mãe e filha. Para mim sempre foste o ombro, a amiga, o "para sempre" em que eu acreditava mesmo quando não sabia acreditar. E o casaco? O casaco não fez com nada disto fosse assim. Ele apenas viu. E, por ter visto, na sua passividade quieta, ele sabe mais sobre nós do que qualquer pessoa.
Assim, embora o casaco não esteja no centro do amor que tenho por ti; o amor que tenho por ti está cravado no padrão estranho desse casaco. E está lá por isso mesmo: Porque está velho, gasto, cheio de borboto. Porque te fica tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Porque, na verdade cabemos as duas dentro dele e estamos as duas dentro dele, nas memórias que ele traz de nós.
Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Está velho, gasto, cheio de borboto. Mas o que importa não é como ele está. Importa o que ele é. E ele é um bocadinho como o amor que nós sentimos: estará sempre lá, confortável e perfeito, para nos aquecer nos muitos Invernos da vida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Esse texto me deixou emocionada,muito sincero e transbordando amor,penso que não somente da mãe,mas de todas as pessoas que amamos,queremos aquela peça que nos remeta a ela,algo de que não abriremos mão mesmo quando muito tempo tiver passado,porque ela será a representante de tudo aquilo que é maravilhoso entre nós.
Não sei nem como descrever como esse texto ficou perfecto :D
Parabéns <3
Beijinhos,Jenny ^.^

Vera Ferreira disse...

Sempre com lições de vida, aprendizagem sempre .