terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Todas as noites


Todas as noites ele chorava. E ela levantava-se de um pulo. Percorria o corredor em surdina. Entreva no quarto. Beijava-lhe o rosto. E perguntava: " O que foi, meu amor?". Ele sentava-se na cama. Contava-lhe a história. O sonho. E terminava com a frase. Sempre a mesma. "Tenho medo, mamã".
Pacientemente, ela sorria. Estendia-se na cama ao lado dele. "Isso é porque és corajoso", dizia-lhe "Sem medo, não pode existir coragem". Adormeciam os dois. Todas as noites.
Todas as manhãs lhe diziam. "Devias deixá-lo chorar. Assim, nunca vai habituar-se a dormir sozinho". Todas as manhãs ela selava o conselho com um beijo e um sorriso breve que prendia à total ausência de resposta.
E chegava a noite. O choro. A corrida. A história. O abraço. O sono. O aconchego contente do que é presente e completo.
Mas, um dia, o choro não veio no cair da noite. E ela, que pacientemente aguardava em silêncio, começou a ouvir o tic-tac de todos os relógios da casa, da rua, do mundo, procurando algum sinal de lágrimas no quarto ao lado.
O choro não veio. O tempo passava. E sentiu os olhos repletos de lágrimas. Ele estava a crescer.
"Por que choras?", foi a pergunta ensonada que ouviu. Não contou a história. O sonho. A forma como custava ver o seu bebé ser menino e saber que amanhã seria homem. Os adultos não eram bons a contar esses contos de enredo parco, todo escrito em linhas de luz pela mão da alma.
Tudo o que disse foi: "Tenho medo". E tinha. Então, levantou-se, percorreu o corredor em surdina. Entrou no quarto. Beijou-lhe o rosto adormecido. Estendeu-se na cama ao lado dele. E pensou: "sem medo, não pode existir coragem". Adormeceu com o medo. A coragem viria, talvez, amanhã.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Traição



Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. E soube, justamente por isso, que seria difícil encontrar quem aceitasse amar-me. Mas tinha tempo. Tempo para esperar por quem soubesse entender que, por mais que amasse a ideia do amor, não conseguiria ser a moça recatada que não se dá por aí. Eu nunca poderia estar numa relação de amor com quem não entendesse que as minhas necessidades me levavam de encontro a outros amores. E pode parecer errado em todas as formas, mas a verdade é esta: posso ser infiel mas não podem, ninguém pode, acusar-me de mentira.
A todos aqueles que quiseram amar-me, eu avisei. - Há noites em que me dou à escrita. Há dias em que permito que as palavras percorram a minha pele com as pontas dos dedos. Há dias em que conheço personagens e as deixo entrar em mim, à medida que me envolvo nos traços mais superficiais e mais profundos do seu eu. Por vezes, não vou querer estar contigo. Vou querer estar com ela. Com a escrita. E é com ela que vou adormecer. Em alguns dias, vou querer acordar nos abraços quentes que ela me dá. Vou beijá-la na boca, sentir-lhe o veneno doce da amargura e permitir que ela faça de mim o que quiser. - Sim, avisei-os a todos. E quase todos partiram. Não entenderam. Não souberam que essa traição ao amor fiel era a única forma de não trair quem eu sou. Até ele. Ele soube. Ele entendeu. Ele também não sabe estar numa relação sem trair. Dorme frequentemente com a música. Tem, com ela, quase uma segunda relação. E, de alguma forma, formamos os quatro uma família onde toda a gente se trai e ninguém se importa.
Houve um dia em que acordei sozinha. Percorri, com os pés nus, cada divisão da casa. Encontrei-os aos três. Amantes improváveis, conferenciando em frente ao piano da sala. Ele e a música e a escrita, falando-lhe na voz, cantada, insolente. Julguei, por momentos, que tinha acordado com o ciúme. Mas, olhando para a ternura daquele momento a três, não consegui sentir-me traída. Nesse dia, mais do que ele ou a escrita, aprendi a amar a música que os ligava, que nos ligava, que nos tornava um só. Não é coisa de menina de bons costumes, eu sei. Mas, nesse dia, convidei-os a fazerem parte de mim. Foi o último dia em que acordei sozinha. A minha cama ficou cheia. A minha vida também.
Há quem nasça para o amor singelo de um só e saiba amar sem ser amado. Há quem nasça para o amor a dois, sem espaço para mais nada, para mais ninguém. Há quem nasça sem amor para dar ou receber. Por todos, tenho respeito e aceitação. Mas eu não nasci para esses amores que acontecem no limite de paredes de ferro. Não nasci para os contratos. Não nasci para o espaço confinado da partilha. O amor que eu sei sentir não é somente humano. Não amo apenas o que vejo. Não amo apenas o que toco. Amo esta dimensão meio louca do que não é concreto mas toca, do que não é visível mas atormenta. E amo amar essa loucura incoerente. É um amor que trai. Trai as noções do que o amor deve ser. Trai as convenções, ditadas, escritas, impostas, tatuadas na sociedade. Mas não me trai a mim. Não o trai a ele. Não trai os nossos amores inconcretos. E faz de nós parte inegável um do outro.
Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. Ele também não. Precisámos de abrir espaço para amarmos os amores um do outro. Não queremos a fidelidade labiríntica de só estarmos nós e as paredes e os becos sem saída. Queremos dormir juntos e levar as nossas paixões para a cama, acordar do sono para o sonho. Acreditar nele. Fazer dele bandeira. Somos um do outro e da nossa arte e da nossa esperança. É impróprio e inadequado, indecoroso e lascivo. Mas é a maneira como devassamente nos propomos, todos os dias, a saber mais sobre o amor. Eu não o quero sem o seu outro amor. Ele não me quer sem o meu. E sabemos melhor do que ninguém que esta é uma traição à norma. Mas nós não amamos a norma. Amamo-nos um ao outro. E à música. E à escrita. Nunca poderíamos estar numa relação sem trair. É por isso que sabemos que seremos sempre fiéis a nós mesmos.

Marina Ferraz
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Os teus pensamentos


Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Imagino-os escritos, impressos, negros e delineados, nas folhas amarelecidos e gastas dos anos. Imagino-os ondeando por entre o aroma a papel antigo que paira nas alfarrabistas menos conhecidas. Não acho que os teus pensamentos pudessem fazer parte de outras obras. Acho que teriam a idade dessa alma velha que carregas dentro do recipiente jovem do corpo com o qual te encontrei - ou reencontrei,
Quando os teus olhos pousam em mim e eu não te devolvo o olhar, pelo que pensas que nem noto. É nesses momentos que gostava de folhear o teu pensamento. Saber como me vês, se me compreendes, se, secretamente, ponderas também como seria bom poderes ler o meu pensamento.
Não sei com que palavras pintas o retrato do que os teus olhos encontram nesse olhar subtil sobre o meu semblante. Sei como eles brilham. Porque é que brilham? Fico a perguntar se me vês ou se vês somente o retrato do que eu poderia ter sido. Não mereço o brilho dos teus olhos azuis. Mas, Deuses, dava uma vida para conhecer as nuances que te permeiam a mente quando olhas para mim.
Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Vê-los pontuados com exclamações e interrogações e reticências. Saber os tempos verbais e os complementos - oblíquos ou não - que os atravessam. De os respirar, compassando a leitura com o bater do meu coração caótico e arrítmico.
Talvez os teus pensamentos nem me dessem respostas firmes. Talvez fossem somente o incentivo de cem outras questões. Mas gostava de os ler. Lê-los seria como descobrir a escada para um segredo escondido num lugar distante. Uma consciência sã de que, se chegar a ti, talvez possa perceber-te até ao mais ínfimo grão de poeira.
Olho pela janela. Sinto os teus olhos presos em mim e sei que eles brilham. Não te devolvo o olhar. Deixo que olhes, perdido nesses pensamentos que só tu conheces.
Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Mas os pensamentos prendem-se em ti e perdem-se no vazio que nos separa. Ignoro-os. Aproximo-me. Bebo do brilho dos teus olhos. Faço dos meus pensamentos som. Digo que te amo. É um pensamento velho, como a tua alma e a minha. Mas nunca fica gasto. E isso é tudo o que importa.

Marina Ferraz
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ninguém



Eu não sou ninguém.
A vítima não era ninguém.
O assassino não era ninguém.
Ninguém é ninguém.
Somos todos o mesmo pedaço amorfo de coisa nenhuma. Mas fizeram-nos acreditar que somos. A todos. A mim. À vítima. Ao assassino. Fizeram-nos acreditar que, de alguma forma, por algum motivo, éramos gente. Criaturas cheias de direitos. Cheias de ideologias. Cheias de frases de boca cheia. Fizeram-nos acreditar. Acreditar que o mundo nos olha como se fossemos alguém. Mas não. Não somos. Somos todos um pedaço amorfo de nada. E, se desaparecêssemos todos, não haveria ninguém para sentir a nossa falta.
Insistem. Todos somos gente. Todos somos alguém. A criação da noção do divino de nós, da nossa unicidade, da nossa importância. Não somos divinos. Nem únicos. Nem importantes. Somos todos pedaços de carne ambulante, a não servir para nada, a servir os interesses uns dos outros, a viver nos interesses dos outros, a ser o interesse dos outros e, além dessa dimensão que nos une a espécie, não somos nada. Nunca vamos ser nada. E somos pior do que nada porque criamos a nossa unicidade na cópia uns dos outros. Não somos nada e não somos originais. Juntamo-nos a grupinhos e ideiazinhas que não passam de mais pedaços de nada na boca de ninguéns. Importantes? Porquê? Quando foi que trouxemos ao mundo algo que importe ao mundo? Trouxemos apenas o que nos importa a nós - os fragmentos de ninguém que povoam o espaço. O mundo foi o que destruímos e continuamos a destruir no processo.
Sim, encheram-nos de noções e de projectos e de supostos objectivos e metas e idealismo. Que bonito! Encheram-nos da noção de que a nossa vida importa. De que as nossas acções importam. De que, seja lá por que for, o "mundo" precisa de nós. É um erro enorme. Somos nós que precisamos do mundo. Do que não é humano. Apenas o que não é humano poderá ser alguma coisa. Mas encheram-nos de medos e medinhos... Vem aí um apocalipse qualquer. E as pessoas temem. A guerra. A profecia. O dia que bate com o mês e o ano. O atentado. E, porque somos ninguém, é difícil perceber a noção mais simples. O mundo não vai acabar. Poderemos acabar nós, os ninguéns, mas o mundo vai sobreviver. E talvez esteja melhor sem nós.
Pondero. E sei que as palavras são duras. Mas digo-as. Fizeram-me acreditar que sou alguém e que sou livre. Sei que não sou. Sei que a liberdade vem com as amarras - não as do mundo - a desta humanidade desumana. E sei que não sou ninguém. Mas fizeram-me acreditar que sim. Por isso escrevo.
O assassino, que agiu em nome da crença, acreditou que era alguém e matou.
A vítima, que era alguém para alguém, filha de alguém, pai de alguém, irmã de alguém, neto de alguém, não é ninguém e morreu.
E eu, que escrevo este texto, não sou ninguém. Não quero ser ninguém. Mato e morro todos os dias. E sou feliz. Porque, de alguma forma, sei que não é o mundo que está errado. O mundo vive. O mundo respira. O mundo não precisa de nós para nada. Somos ninguém. E este mar de preocupação humana é uma partícula minúscula de um mundo maior, é apenas a gaiola de mentiras onde nos prenderam a todos.

Marina Ferraz

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Já nos perdemos



Já nos perdemos.
Eu já te perdi. Tu já me perdeste. E, por entre um mundo cheio de acontecimentos e pessoas que se acontecem, pareceu que não mudou nada.
Mas mudou.
Pelas ruas, há quem o diga. Consciência universal, caminhando de boca em boca, passando de mão em mão.
Já nos perdemos. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. O mundo inteiro sabe. Toda a gente sabe. Menos tu e eu.
Tu és louco. E eu também. O mundo não. E é por isso que o mundo sabe de nós o que nem mesmo nós soubemos aprender.
Meu amor. É a triste verdade. Já nos perdemos. Eu a ti. Tua  mim. Tu a ti. Eu a mim. Estamos perdidos um do outro e nós mesmos, por entre a confusão das almas que fizemos corpo na entrega dos sentidos. Avançámos demais rumo ao desconhecido que ficava além da pele e do toque e das palavras vazias.
As pessoas não acreditam no amor. E nós sim. Talvez por isso elas saibam que nos perdemos enquanto nós continuamos - ingénuos e inocentes - a aclamar o para sempre, como se ele existisse só para nós.
Não é verdade. Já os perdemos. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. E, no mundo inteiro, só não o sabemos nós. Tu e eu. Talvez porque não nos tenhamos perdido apenas um do outro mas também um no outro. Talvez porque vejamos um reflexo de nós no brilho dos olhares devolvidos.
Mas dizem. Ouves? Já nos perdemos. Ontem . Ou hoje. Ou amanhã. Seja como for. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. Seja por desânimo ou desamor ou traição ou morte. Já te perdi. Já me perdeste. Já nos perdemos.
A verdade é dura. Magoa. Escondo-me dela. Em ti. No teu abraço. No meu canto.
Perco-me em ti.
Perdeste-te em mim.
Perdemo-nos um no outro.
Não sabemos que nos podemos perder de outra forma.
Somos loucos. Tu e eu. E na bênção desta loucura perdemos a noção. Não parece que possamos quebrar. Não por desânimo. Não por desamor. Não por traição. E a morte que tente. Mas eu não acredito.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Devolve



Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a leveza de alma com a qual acordava de manhã e que me fazia abrir a janela a cantar para dizer bom dia ao sol.
Devolve-me o sorriso com o qual caminhava nas ruas, desfilando um pouco de alegria pelo mundo e respondendo aos cumprimentos simpáticos de quem me sorria de volta.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a força que me mantinha de pé e me tornava uma cumpridora de metas. Devolve-me as metas. Essas que cultivei na redoma dos sonhos. Devolve-me os sonhos.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a vontade. Essa que me fazia caminhar sobre as dificuldades e fazer delas degraus. Devolve-me a inocência. A inocência que me fazia ver primeiro o melhor nas pessoas, acreditar nelas, ter fé. Devolve-me a fé.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a paz que me envolvia onde quer que fosse. Devolve-me a liberdade de poder ir a qualquer lugar. Devolve-me os lugares que, em tempos, tive por meus. O amor que tinha para dar a quem, no espelho, me olhava de volta. Devolve-me o meu reflexo. Aquele que tinha sorrisos tatuados.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos. Devolve-me o tempo que perdi em ti. Com ele quero escrever um romance que valha a pena.

Marina Ferraz

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Recordo-me dele


Recordo-me dele. Moço peculiar dos tempos modernos. Engravatadinho e com ar de senhor dos seus passos, com sola de couro paga pelo pai e roupa passada a ferro pela mãe que o via, certamente, pelo maternal filtro opaco e que se emocionava ao chamar-lhe doutor. Ainda não era doutor. Seria, mais tarde, quando o nariz, largando as nuvens, encontrou um equilíbrio paralelo ao chão e a sua atitude petulante amenizou.
Recordo-me dele. Era um moço com muitas opiniões. Tantas, que se formavam e desvaneciam na efemeridade dos momentos. Tinha, por exemplo, uma opinião ao pequeno-almoço, com os pais, mas outra surgia, na mesma temática, assim que lia o jornal matutino. Esta evoluía no caminho para a faculdade e mudava ou não, consoante a posição tomada pelo professor. No final do dia, tinha passado por três clubes de futebol e cinco partidos políticos. Mas sempre os defendia de forma igual. Irrepreensível. Cheia de opiniões concretas e justificadas com argumentos irrebatíveis.
Recordo-me dele. Moço galante. Durante o tempo em que o conheci, encontrou vinte vezes a sua alma gémea. Aquela que referia como "a tal", "a mais bonita do mundo", "aquela com quem havia de casar". Enfatizava-lhes sempre as características. Tinham os olhos mais belos. Da sua cor favorita que, em alguns dias, era azul; noutros verde; noutros castanho. Tinham gostos iguais aos seus, quer se dedicassem ao desporto ou à costura. E as meninas derretiam nas suas palavras. Acreditavam nelas com afecto e devoção.
Recordo-me dele. Moço de lida fácil e de simples trato. Tinha muitos amigos. E concordava sempre com todos, fosse qual fosse o tema ou a ideia. Parecia viver num equilíbrio perfeito com as mentes alheias. Nunca discordava de ninguém. Nem mesmo quando, no mesmo espaço, aqueciam os ânimos na enunciação bipolar das ideias geradoras de conflito. Nunca lhe faltavam argumentos amenizadores. Defendia, em simultâneo, todas as opções com palavras recheadas de confiança e convicção. E todos queriam o brinde das suas palavras, porque era nelas que depositavam derradeira confiança.
Recordo-me dele. Moço de educação cuidada. Dizia sempre "bom dia" ao entrar na sala. Pedia-me a bênção. E a sua mãe, minha mulher, dizia "estão-lhe destinadas grandes coisas". Estavam. Tinha a mente jovem e distorcida, maleável. Bons estudos pagos, a custo, do meu bolso, tantas vezes vazio. Tornou-se político. Anda por aí a pregar a importância da família e do trabalho. Vejo-o na televisão. Digo aos companheiros da casa de repouso que é o meu filho.
Recordo-me dele. Mas, de alguma forma, ele esqueceu. De alguma forma, ele já não se recorda de mim.

Marina Ferraz
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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Um dia



Tinham criado laços na infância. Daqueles que se desfazem nas voltas da vida, mas nunca quebram. E que deixam sempre um não-sei-quê de saudade colada à sola do sapato. Das brincadeiras no terraço, tinham passado à seriedade dos problemas. E, na maioria dos dias, não pensavam uns nos outros.
Vinham do mesmo lugar. Uma terra pequenina, plantada no interior. Os pais, que não eram os mesmos, tinham deixado que se tornassem irmãos, nas correrias junto ao ribeiro, nos saltos à corda, nas histórias aterradoras no acampamento improvisado nos jardins das casas pobres e mal sustentadas.
«Um dia...», a brincadeira mais usual. O sonho construído a três vozes, por entre a pobreza dos dias que a sina lhes tinha marcado.
«Um dia, vamos ter uma casa enorme, com um cercado e cavalos», sorriam. Anotavam tudo, a lápis de carvão, nas margens brancas do jornal do dia anterior.
«Um dia, vamos viajar pelo mundo», atrevia-se outro.
«Um dia, vamos mergulhar nas águas das Caraíbas à procura de tesouros», acrescentava alguém.
Dos sonhos comuns e dos que eram apenas de um ou de outro, fizeram pedrinhas para construir a estrada sinuosa que os separou. Seguiram rumos distintos. Cada um o seu. E deixaram para trás a aldeia e os pais camponeses, com lágrimas nos olhos e promessas de voltar. Foi a vez dos pais jogarem esse jogo de sonhos para amanhã.
«Um dia voltam». Não o escreveram. Nem a tinta. Nem a carvão. Não queriam o lembrete diário do que podia nunca acontecer.
A vida não lhes sorriu por igual. Nos recantos dos dias, tão diferentes, iam jogando, em surdina, dentro das suas cabeças, o jogo. «Um dia...». E, quando se lembravam uns dos outros, deixavam, ocasionalmente, mensagens e cartas e memórias pendendo nos espaços partilhados que a nova era abriu na distância pouco concreta dos mecanismos eléctricos e electrónicos.
Até que alguém lançou o desafio: «um dia, temos de nos juntar, como quando éramos crianças». E todos concordaram. E todos foram.
Da semelhança que os juntara, quando eram crianças, veio o choque da diferença, tão vincada quanto os caminhos seguidos, que os separava agora que eram adultos.
Um, trazia as roupas gastas, num rosto cheio de aceitação. Dizia crer num amanhã melhor. «Mas não está mal assim», insistia. Emprego certo, mas não muito bom. Para pagar as contas. Para viver os dias. Para voltar amanhã. E repetir. Casamento vulgar. Sem grande amor. Sem grande apego. Feito das rotinas usuais, à espera dos filhos que talvez o colorissem, um dia.
Outro, trazia olheiras negras marcadas no rosto. A incerteza do amanhã. Trocava com frequência de tudo. De emprego. De cidade. De namorada. Nunca ficava em lugar nenhum tempo suficiente para que algo fosse concreto. «Sou feliz assim», disse. Mas também isso lhe parecia incerto na voz.
O outro trazia histórias da casa grande com o cercado e os cavalos. Histórias das viagens e dos tesouros encontrados no fundo do mar das Caraíbas. E dos braços que o envolviam na casa grande. E das crianças que montavam os cavalos. E dos amigos que fizera em locais exóticos. E do horizonte além do mar.
Olhando uns para os outros, como estranhos que nunca tivessem partilhado acampamentos nos jardins, falaram sobre as conquistas e as tentativas.
«Eu sabia que não conseguia, por isso nunca tentei», disse o primeiro. E encolheu os ombros, afastando a ideia de que podia ter sido diferente.
«Eu sabia que não valia a pena, por isso, mesmo começando, nunca acabei.», disse o segundo. E havia um certo orgulho no desapego que o fazia nómada de si mesmo.
Depois, o silêncio de olhos postos no semblante crescido e realizado do terceiro. Também ele encolheu os ombros. Havia humildade no seu olhar, que ainda brilhava com os sonhos do «um dia». E, nessa simplicidade, disse somente: «Eu sabia o que queria, por isso nunca desisti».

Marina Ferraz
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terça-feira, 3 de novembro de 2015

É difícil namorar com uma mulher bonita


É difícil namorar com uma mulher bonita.
Uma mulher bonita vai olhar ao espelho e sorrir. Saber que não precisa de mais ninguém além de si mesma para ser feliz. Vai estar contigo por amor e não por necessidade. Vai querer ouvir que gostas do que ela aparenta ser, do que ela veste, da maquilhagem que põe sobre o rosto ou do seu look natural e desgrenhado pela manhã. Vai querer ouvi-lo. Mas não vai precisar de o ouvir. Por mais que goste dos teus elogios, não precisará deles. Uma mulher bonita nunca vai precisar que lhe digas nada para se auto-valorizar.
Uma mulher bonita vai andar ao teu lado. Talvez te dê a mão. Mas não vai importar-se que olhem para ela. Vai desfilar pelas ruas, estejas ali ou não. Sorrir a estranhos. Fazer gestos de apreciação à vida. E vai afastar-te quando tiveres gestos de pretenso ciúme. Não vai aceitar que sejas possessivo. Uma mulher bonita sabe-o: sabe que pertence a si mesma e a mais ninguém. Não é tua. Está contigo. E, aos olhos dela, é isso que significa amar. Uma mulher bonita não acredita na noção ancestral de que é preciso um homem nem pensa que o amor se mede pela aniquilação de si. Uma mulher bonita sabe que, se amar tudo o que é, poderá amar-te mais.
É difícil namorar com uma mulher bonita.
Uma mulher bonita não vai importar-se se chegar atrasada aos compromissos. Ou, se se importar, vai levantar-se duas horas mais cedo para garantir que tratou de si. Vai ligar a algumas coisas fúteis, como a cor do verniz e o tamanho dos saltos. Mas, porque se sabe bonita, vai descartar a futilidade muitas vezes. Ao lado de uma mulher bonita, precisarás de saber falar sobre emoções e sentimentos... mas também precisarás de saber dar atenção ao mundo, aos problemas sociais, aos acontecimentos da actualidade. Com algumas destas mulheres, darás por ti a falar de política, economia, futebol... irás espantar-te com a quantidade de conteúdo interessante que se gera nos meandros do pensamento deste tipo de mulher.
Namorar com uma mulher bonita vai exigir que vivas segundo um padrão de decência acima da média. Este é o tipo de mulher que não vai aceitar que mudes de ideias de um segundo para o outro e que vai sentir-se enjoada com a ideia de que estás a fazer algo que não queres apenas para lhe agradar. As mulheres bonitas sabem que o são e não precisam que lhes façam favores para as conquistarem. Não gostam que as objectifiquem e as reduzam à aparência nem que as façam passar por parvas, num momento ou outro. Para serem agradadas, exigirão de ti a única coisa que te foi negada incessantemente ao longo da vida: que sejas tu mesmo. E, se te parece simples, és um idiota! Não há nada mais difícil do que deixar cair a máscara... principalmente ao lado de quem é visivelmente tão perfeito. Mas uma mulher bonita vai estar farta da falsidade. Vai estar farta da máscara. Vai querer o teu lado feio. Vai querer saber os teus gostos. Vai querer que digas quando não te apetecer fazer algo que ela gosta.
É difícil namorar com uma mulher bonita.
E é impossível namorar com uma mulher feia.
Não há mulheres feias.
Por isso, se a tua namorada não se sente uma mulher bonita, provavelmente não devias estar com ela. Ela merece alguém que a faça saber quão bonita é. Porque quando ela souber... ah! Quando ela souber vai ser difícil namorar com ela... mas vai valer cada segundo!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Muitas coisas



Tu eras muitas coisas.  Mas não eras cruel. Fazias-me chorar. Odiavas-me o choro. Tentavas fazer-me rir. Nem sempre conseguias. Mas tentavas sempre. Nunca te encostaste na ombreira das coisas simples, pronto a desistir da minha felicidade. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Tu eras muitas coisas. Eras, talvez, dono da honestidade mais crua que algum dia conheci. Dizias a verdade dura, a verdade inconveniente, a verdade que despertava o medo no centro dos corações puros e impuros. Dizias o que pensavas. Mas tentavas sempre que, ao dizê-lo, passassem pelas tuas palavras os traços brancos da verdade e não os seus espinhos. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Tu eras muitas coisas. Em alguns dias, eras o herói que desafiava os ventos. Noutros, o monstro que tentava mudar-lhes a direcção. Vi-te bateres-te contra o destino. E ouvi-te despejar palavras indecorosas e obscenidades nessa eterna luta contra o imprevisto. Mas nunca, nem por uma vez, te vi fazê-lo a outra pessoa, como se culpasses os outros pelo que de pior te estava fadado. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Tu eras muitas coisas. Vi-te cair. Vi-te levantar. Vi-te no teu melhor e no teu pior. Descobri, por entre os meandros de ti, lugares negados aos outros e repletos de inconformidades presentes. Das quedas, vi-te as cicatrizes. Descobri a profundidade delas num vislumbre tosco da tua alma. Soube sempre que a vida te tinha ferido de uma forma mais densa do que o sorriso do rosto deixa adivinhar. E julguei sempre que, num momento ou outro, a frieza do mundo se espelharia em ti. Mas não. Meu amor, tu eras muitas coisas. Mas não eras cruel.

Meu amor. Cansaste-te de ser muitas coisas. Quiseste ser apenas tu. Tu sem mim. Somente tu. Gritaste coisas sem nexo. Quebraste-me o chão. Foste. Eu fiquei. Fiquei no chão quebrado. Aos meus olhos pareceu-me que, a cada passo, distorcias uma imagem de ti. E questionei quem era este homem que me abandonava, na certeza de que ele não podia ser o mesmo que amei.

Continuo à procura de uma razão...  não te reduzo os passos ao egoísmo nem ao desapego. Não sei quem és. Sei quem eras. E eras muitas coisas... Mas, meu amor, não eras cruel.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Amo-te muito. Amo-me mais.


Amo-te muito. Amo-me mais.
São estas as palavras que falhamos em dizer. Temos medo. Medo da sociedade que diz que devemos olhar os nossos defeitos e odiá-los, numa busca constantemente insatisfeita pela perfeição. Medo de um Deus que nos aponte o divino dedo para nos acusar de sermos egoístas e egocêntricos. Medo do olhar reprovador do espelho que, de uma forma sempre crítica, nos censura o desejo de amar o ser que ali se reflecte.
Falhamos em dizer estas palavras: Amo-te muito. Amo-me mais. E talvez devêssemos dizê-las todos os dias. Pela manhã. No intervalo do café. Nos bocejos lentos do enfado quotidiano. Devíamos temperar as nossas refeições com sal, pimenta e estas palavras: amo-te muito, amo-me mais. E devíamos fazer ecoar, em cada passo, o som que elas fazem, à medida que deixam de ser só palavras e passam a ser premissas reais e cheias de sentido.
Amo-te muito. Amo-me mais.
Não é um arredondamento brusco do egotismo que permeia as ruas. É uma necessidade consciente de auto apreço que devia criar raízes claras e profundas dentro de nós. Devíamos deixar-nos saber que nos amamos. Que nos bastamos. Que estamos lá para nós próprios. Que, venha o que vier, somos a força que nos mantém de pé; a rocha que nos segura; o fogo que nos aquece; a água que nos embala. Precisamos de saber: não estamos sós enquanto tivermos de nós um amor puro e completo. E é apenas depois deste amor, profundo e para dentro, que devíamos deixar-nos olhar além da fronteira de nós para amar alguém.
Amo-te muito. Amo-me mais.
Devíamos dizê-lo! Amo a tua presença, o teu carinho, os teus gestos, as tuas palavras, a forma como completas o que havia em branco nas linhas de mim. Amo. Amo-te as cores e as tonalidades. Amo-te o perfume, o riso, a companhia. Amo até a falta que me fazes. Devíamos dizê-lo e acrescentar. Mas amo-me mais a mim. Amo a minha força, a minha perseverança, a minha crença, a minha capacidade. Amo a minha rotina, os meus sóis, as minhas luas, os meus ciclos. Amo a minha resmunguice, o meu bom humor, a minha ternura, a minha raiva. Amo-me. E devíamos dizê-lo para sabermos que podemos aguentar, da vida, o melhor e o pior. Não há nada de errado em precisar dos outros. Vivemos na dependência constante de tudo. Mas não devíamos precisar de ninguém para sermos amados. Não devíamos precisar do amor dos outros. Devíamos querê-lo, recebê-lo, acarinhá-lo e saber o seu valor. Mas não devíamos fazer dele necessidade, como se fosse água ou ar ou alimento. Esse amor que é necessário à vida, devíamos ter em nós. O amor que recebemos devia simplesmente complementá-lo. Só assim se pode andar lado a lado no amor, em vez de se ir de arrasto, cravando unhas e dentes no medo de perder alguém. A lição é essa: amarmo-nos primeiro.
 Desconfio sempre de quem ama e não se ama. O que se dá aos outros é um fragmento do que trazemos connosco. Pedaços feitos da matéria que vem de dentro. E é por isso que acredito: quem tem ódio, dá ódio; quem tem negrume, dá negrume; quem tem amor, dá amor. Não podemos dar o que não temos. E precisamos de ter amor para podermos dá-lo. É uma aprendizagem difícil mas necessária. Seja a quem for, é preciso dizer: é em mim que cultivo o amor que te dou. Por isso, amo-te muito mas amo-me mais. E espero que me ames e te ames mais. Para podermos ir, lado a lado, como iguais, felizes e cheios de um amor que durará até que a vida nos seja tomada.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Poeira



"Somos poeira de estrelas." (Carl Sagan)

Poeira. Há apenas poeira no caminho. Memórias que se desintegram e vão no vento. Um passado desfiado, desfeito, reduzido a poeira.
O tempo. Andando sempre na mesma direcção. Fragmentado na sua plenitude. Incompreensível na sua linearidade. Parece que foi ontem. Parece que passaram mil anos. Respiro. Penso que morri. Será que morri? Poeira. Poeira lenta de ponteiros irrequietos. Poeira baça, tiquetaqueada, desajustada.
Fotografia. Sobre a mesa. Sob a camada densa de poeira que fica entre o olhar humedecido pela saudade e a incapacidade de estender a mão vazia. Os sorrisos. Poeira. Todos eles rasgados pelo adeus. E a fotografia. Poeira. Grão de poeira. Memória isolada de uma felicidade que não tem lugar.
O dia. Poeira. O nascer do sol por entre os buraquinhos ovais dos estores. Poeira. Cintilando como purpurina nos primeiros raios de sol. A minha insónia. O tempo. A fotografia. A luz do sol a rasgar-me a solidão acordada. Poeira.
Há apenas poeira. No chão, na cama, na mesa, na memória. No sono que não vem. No sonho que não vai. Poeira. Há apenas poeira.
Há perguntas sem resposta. Também elas são poeira. Ausências fugazes. Corações furtados na demora de tempos que não regressam. Instantes captados pela lente. Desfocados. Sorrisos empoeirados e vazios de sentido, abertos para dar a ideia de um mundo que nunca existiu fora da ilusão construída grão a grão. Com grãos de poeira.
Mentiras. Poeira. Atiram poeira para os olhos cegos. Tudo é ilusão. O tempo que passa. A memória que desvanece. O amor que cessou. A tua vida. A minha. Os sorrisos. O Universo. Poeira.
Fazemos todos parte de um tudo que não é nada. Não definimos o nada com medo das definições. Não concretizámos o tudo por mera incapacidade.
Poeira. Não há nada além de poeira no caminho que nos leva da vida à morte. E morrer é voltar para casa.
O tempo. O relógio. A fotografia. A memória. As perguntas. A mentira. A insónia que me faz ver a poeira esvoaçar no primeiro raio dourado do sol nascente.
Poeira. Há apenas poeira. Somos apenas poeira. Não significamos nada nos meandros da infinitude do Universo. Somos apenas poeira.
Não sou ninguém. Não és ninguém. Não somos nada. O tempo. A fotografia. A insónia. O coração que dói, macerado no peito. É apenas poeira. É tudo apenas poeira. Então, porque é que dói tanto?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sobre ela



Para a minha avó

Vou contar-vos sobre ela. Talvez não acreditem nos traços com os quais pinto a imagem. Mas vou contar-vos, ainda assim. Não a ilusão. Não a irrealidade. A verdade cândida, pura e imutável com a qual, desde menina, a vejo ser mulher. Se ler as minhas palavras, ela será a primeira a rebatê-las. Vai dizer que não me merece as palavras. Que não merece os elogios. Que não merece. E não será com falsa humildade que o fará. Será de lágrimas nos olhos e coração nas mãos. Ela é mesmo assim...

Vou contar-vos sobre ela. Nasceu noutros tempos. A época em que nasceu veio-lhe impressa na pele, na alma, nos traços todos de um feitio que ficou lá e nunca se adaptou aos dias de hoje. Reflete-se nos jeitos com os quais cumprimenta as pessoas, sempre cordial e simpática, sem deixar o hábito do "senhor doutor" e do "minha senhora". Reflecte-se nos agradecimentos frequentes e na forma como sempre demonstra aflição pelos pesares alheios. Reflecte-se na forma como se exalta com as mentiras políticas e com as maldades que se cometem pelo mundo todos os dias. Sim: ela não pertence ao nosso tempo. Chegou aqui ainda agarrada a conceitos e noções que ficaram para trás há décadas e décadas. Não evoluiu com o tempo. Muitos ririam dos seus jeitos e troçariam das suas noções sobre o mundo. Mas a verdade é que ela as trouxe, qual guia de orientação, e que foi desse livro nunca escrito que retirei muito do que me tornou eu. O passado diz muito sobre o lugar para onde o mundo deveria ir no futuro. Foi ela que me ensinou isto.

Vou contar-vos sobre ela. Não foi apenas sobre o passado que ela me ensinou. Ensinou-me, talvez antes de tudo, sobre a vida. Foi uma das minhas maiores professoras. Ensinou-me a ler, a escrever e, usando sempre a ameaça do "vou contar à tua mãe" (ameaça que nunca cumpriu com medo de me ver sofrer consequências), ensinou-me até a fazer as contas que sempre detestei. Acreditem ou não, chegou a passar horas seguidas, nas vésperas dos testes a fazer aquilo que ambas apelidámos de "pôr a matéria na cabeça". Dou-lhe o crédito por muitas das boas notas que tive e admiro-lhe a paciência incansável com a qual, por entre o cansaço das horas passadas, insistia comigo: "vá lá, vamos ver isto só mais uma vez.". Fosse no começo desta trama ou no seu final, ela acreditava sempre em mim. Não importava que eu não soubesse uma palavra para o teste de História ou que não tivesse aprendido, ainda, as conjugações e os tempos verbais que iam ser testados em Português. Ela olhava para o meu cansaço nervoso de menina, pousava a mão sobre a minha e dizia: "Vai correr bem... agora vai escrever isto cinco vezes e depois vem cá, que eu pergunto-te a lição". Com lágrimas nos olhos, eu ia. E, quando voltava, às vezes sabia, às vezes não. Hoje, isso não importa. Com o passar dos anos percebemos que o que importa é outra coisa: independentemente das tristezas, da preocupação, do cansaço e das tarefas que tinha para cumprir, ela pôs-me sempre em primeiro lugar. Nunca me falhou. Nunca me faltou. Esteve sempre lá para mim.

Vou contar-vos sobre ela. Tivemos muitos desacordos: sobre a forma como a vida deve ser, sobre a forma como o mundo deve ser, sobre a forma como uma menina deve ser. À medida que cresci, salientaram-se as diferenças de opinião. Discutimos bastante. Às vezes, porque ela insistia, na sua teimosia, em não ver a realidade do nosso século. Às vezes porque eu insistia, na minha teimosia, em viver crises parvas de adolescente intolerante. Fui injusta com ela muitas vezes. Cheguei a fazê-la chorar - não o choro usual de mulher sensível e emocional - o choro triste e magoado de quem não merece palavras duras e as ouviu. Arrependo-me disso. Mas ela não guarda ressentimento... ainda hoje não sente que eu precise de pedir desculpa. E nunca sentiu. No final dessas brigas, convidava-me para lanchar, para ir comer um gelado ou, quando cresci, para ir beber um café. De todas as pessoas que conheço ela é a que melhor aprendeu a perdoar. O amor que tem guardado dentro de si chegaria para colmatar o enorme buraco negro que o mundo tem no seu centro e dar alguma esperança à humanidade dormente que nele vive.

Vou contar-vos sobre ela. Acredita em Deus com fervor. Defenderia a sua fé perante tudo e todos. No entanto, quando lhe contei que a minha fé não era a mesma, ela olhou para mim, fez duas ou três perguntas e disse-me: "sabes? Tinha um livro que dizia que, desde que seja para fazer o bem, todas as religiões são boas". Depois sorriu. E sabem os Deuses - o dela e os meus - que não houve sorriso mais bonito do que aquele, tão cheio de amor e aceitação. E, fosse sobre religião ou não, ela aceitou sempre. Aceitou-me sempre. Acreditou sempre em mim.

Sobre ela, posso contar isto e outras coisas. Um infinito de coisas. Posso contar como ela me faz rir com as suas histórias, como me faz deitar fumo a falar das notícias que passam na televisão, como faz por estar presente em todos os dias importantes. Posso contar como, mesmo hoje que já sou adulta, ela me telefona para me embalar com um beijinho de boa noite, todas as noites.

Ela é um mundo de coisas que podem ser contadas e um universo de coisas que não podem. Uma das melhores pessoas do mundo. Uma das minhas pessoas favoritas. E sei que, na sua humildade, sempre sincera e fora de época, ela diria que não. Mas é. Pelo menos, é-o aos meus olhos. Não sei o que se chama a uma mulher assim! Sabendo a sua história, alguns iriam chamar-lhe heroína, outros mentora, outros amiga... e eu poderia chamar-lhe tudo isso... mas, por força do hábito e honra do destino, chamo-me avó.

Marina Ferraz





quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O imortal



Para o meu avô

O telefone tocou. E, deitada na minha cama, eu fingi que não sabia. Mas há momentos assim. Em que sabemos. Se o telefone toca, principalmente na noite caída, traz apenas consigo o aviso das lágrimas por devir.
O telefone tocou. Como uma respiração mecânica. E deixou de tocar. E eu chorei. Foi a única altura em que chorei. O meu choro não foi visto por ninguém. Das lágrimas que caíram na almofada, ninguém teve aviso ou vislumbre. Ninguém soube delas. Por isso, foi exactamente como se eu não tivesse chorado. Para todos os outros, foi assim: o telefone tocou e eu não chorei.

De mãos dadas com a ilusão, decidi, mais do que senti, que não ia chorar. Decidi que era uma escolha minha. Criei ao meu lado uma realidade diferente. Melhor. Mais concreta. Dela, fiz navio. Mas mais ninguém embarcou. E ninguém soube. Tomaram-me, certamente, o rosto que não chorava por outra coisa qualquer. Disse baixinho para mim que não importava. A ti, disse outra coisa. Disse que te faria imortal. E, se de todos os outros retirei a incapacidade da compreensão, de ti retirei a resposta, na forma do vento e uma presença que ainda hoje se senta ao meu lado e me apoia no melhor e no pior da vida.

Tornar-te imortal tornou-se a meta dos meus olhos que não choravam. Eu sabia. Só morre de verdade quem é esquecido. Não acreditei que tinhas partido e, talvez por isso, não foste a nenhum lugar senão aquele que permanece sempre em mim. A morte não é o que leva a alma e deixa o corpo. A verdadeira morte é o esquecimento que o tempo traz. O tempo não ameniza dores. Esbate memórias. Alguns, ficam felizes de as ver esbater, justamente porque lembrar magoa. Mas eu tinha as promessas. Não ia chorar. Havia de te tornar imortal. E, em alguns dias, doeu a memória que ficava e me fazia lembrar da ausência. Mas não estavas ausente. Não chorei. Procurei sempre lembrar-me.

Lembrar-me significou escrever-te. Escrever sobre ti. Contar ao mundo sobre o nosso chocolate quente, o nosso dominó, a nossa partilha no tempo das vindimas. Significou dizer que fui uma menina a pedir copos de água, noite após noite, e que foste uma figura paciente a cruzar o corredor para me fazeres as vontades. Foi aos pouquinhos. Deste conta? As pessoas souberam de ti. Subitamente, já não vivias apenas na memória de quem te amou. Vivias também no espaço das gentes que não te conheceram. E permanecias, nas linhas, intocado, pontuado por reticências e exclamações que não podem ser apagados. Aos poucos e poucos, a memória tornou-se história. A história tornou-se livro. Tu tornaste-te imortal.

Do telefone que toca, já só guardo nuances de memória. Mas de ti, de ti guardo as memórias concretas e que não deixo esbater. Cada memória é um fragmento das asas com as quais construo a vida que vivo na demanda pela tua imortalidade. E ficas vivo, em mim e no mundo que deixaste, justamente porque as lágrimas que não verti fazem sentido. É o dom e a maldição das palavras - têm o poder de roubar à morte o padrão irreverente do esquecimento que ameniza; têm o poder de roubar aos Deuses a decisão de um fim concreto e sem retorno.

Não chorei. Tu não morreste. Ainda não. Não até eu morrer e te levar comigo nessa viagem sem retorno. Porque escolhi tornar-te parte de mim. E viver-te nestas linhas que ficarão muito depois de eu própria ter cedido. Não chorei porque chorar seria dizer adeus. E eu não disse. Em vez disso, prometi a mim mesma. Prometi-te a ti, num silêncio só nosso. Não irias morrer nunca. Não te deixaria morrer.

Odiavas ver pessoas chorar. E há quem chore. Não leves a mal. As pessoas pensam que morreste. Eu sei que és imortal. Hoje, sorrio-te, embora não te veja. E sei que me sorris de volta. Eternamente.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Luo-te



Não te amo.
Desculpa.

Sou-te luar. Não posso dizer que te luo. Posso? A lua não tem formas verbais. Conjugações. Mas é isso. Sou-te luar. Luo-te.

Luar é muito mais do que amar. O amor é redutor. Fizeram dele palavra de uso. E definiram-no, como se pudessem definir o cosmos, em palavrinhas tão pequenas que delas mal se retira um significado que valha a leitura.
Passa por coisa de brilho. Coisa de luz. O amor. A lua não. Sendo brilho e luz, a lua lembra que anoitece. Lembra que há fases. Que há escuridão nos meandros do tempo que avança. E lembra que o negrume aparece, alastra, se torna tão permanente que é como se não existisse salvação. Tudo, para depois lembrar que a salvação existe, que a luz retorna, que o brilho não se perdeu.

Somos assim. Tu e eu. Com as nossas fases boas. Com as nossas fases más. Com as nossas metástases de sonho, irradiadas pelo corpo e pela alma. Pelo coração pulsante. Pela garganta arranhada dos gritos e dos desassossegos. Temos dias bons. Temos dias maus. Às vezes, és o meu cavaleiro, protector e indestrutível contra as adversidades do mundo. Mas, em alguns dias, és menino, e eu visto a armadura e avanço rumo aos medos, pelos dois. Somos escada. Degraus da mesma escada. Subindo pelos mesmos objectivos. E, todas as vezes que me deparo com as sombras irradiadas pela dor penetrante de um adeus, sei (mais do que admito saber), não quero descobrir um mundo sem ti.

Somos o reflexo dos passados que vivemos e nunca superámos. Bichos isolados, temerosos, sempre à espera que nos seja infligido o sofrimento. Não deixamos ninguém passar da soleira da porta. Só deixámos uma vez. Passei a porta. Passaste a muralha. Passei a carapaça. Passaste a máscara. Entrámos na vida um do outro. No espaço um do outro. No lugar um do outro. No corpo um do outro. Na pele um do outro. E sabem os Deuses que entrámos, por vezes, à força de nos batermos contra pessoas, problemas, circunstâncias e fantasmas.

Obsessivamente, recuso-me a imaginar-me sem ti. E sinto, de ti, uma recusa igual. Passa o tempo. Passa a vida. E lá vêm os nossos quartos minguantes. A nossa escuridão. Procuro não dizer que também te quero o caos. Mas quero. Quero-te o sorriso. A mão. O calor. Mas também quero o nervosismo irado que embate nas paredes e me ataca, me desconsola, me atormenta.

Dirão - têm razão - não é amor! Não te amo. Luo-te. Em todas as tuas fases. Sinto-me sempre perder o olhar e a noção em ti. Sinto-me sempre contemplar a tua beleza, feita de metamorfoses. Luo-te. E, porque vejo nos teus olhos o reflexo dos meus, sei. Luo-te e sou-te luar.

Que se amem as figuras de livro que preenchem os romances e não vivem.
Que se amem as personagens de cinema, sempre tão banais e lineares.
E que continuem a fazer do amor um verbo conjugável em tempos que não fazem sentido.

A lua não tem presente. Nem futuro. Não é luz. Nem escuridão. Conjuga-se num tempo chamado eternidade e apenas nele se transforma sem mudar.
Desculpa se eu não te amo.

Mas o que temos não é amor. É luar.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Danças na floresta


O vento. Pagão. Incontrolável. Soprando por entre as árvores. Minhas irmãs. E o canto inaudível da Lua. Cheia. Olhando para nós e para as nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Movimento. Suor. Coração descompassado. Pergunto quem sou. Ao ar. À brisa que me acolhe os passos e os eleva do chão. E digo-lhe. Ao Ar, às sílfides, ao vento: Às vezes sou como tu. Às vezes, queria ser mais como tu. Ter a tua calma. O teu equilíbrio. Ele fala. Responde. Não são palavras que qualquer um possa ouvir. Mas eu ouço. "És como eu.", proclama. E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

O rio. Pagão. Seguindo cursos marcados. Concretos. Por entre as margens. Sobre as rochas. Debaixo do mesmo céu. E a chuva. Caindo em intervalos. Abençoando-nos e às nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Espaço. Amor. Coreografia. Pergunto quem sou. À Água. Ao rio, às sereias, ao mar. E digo-lhe: Queria ter a tua pureza e o teu rumo. Por vezes, gostava de saber onde vou. Ela fala. Responde. Muitos não ouviriam o seu canto. Mas eu ouço. "Tens em ti a pureza, tens em ti o rumo". E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

A fogueira. Pagã. Quente. Vida. Morte. Intervalo. Chama. Cinza. Gémea, dançando connosco esta valsa sem compasso, nem tempo, nem passos pensados. Iluminando os nossos passos e as nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Corpo. Paixão. Dar e receber. Sentir. Pergunto quem sou. Ao Fogo. Aos dragões. Às labaredas. E digo-lhe: Queria ter a tua força. A tua intensidade. Por vezes, gostava de ser dona de mim. Ele fala. Responde. A sua voz seria incompreensível para muitos. Mas eu ouço. "A chama mais forte brilha dentro e não se vê. Mas está.", acredita. E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

O chão. Pagão. Firme. Rochoso. Feito de grãos compactos. Sob os pés. Sob a Lua. Sob a fogueira. Recebe-nos os passos. Dá-nos o solo sobre o qual traçamos as linhas de sonho. Permanece. Fica por nós e pelas nossas danças na floresta.

Pergunto quem sou. Sem palavras. Gesto. Silhueta. Sombra de mim e sobre do que antes fui. Pergunto quem sou. À Terra. Aos elfos. Aos grãos de areia. E digo-lhe: Às vezes sou como tu. Mas queria a tua estabilidade. A força de ser pisada sem ceder. Ela fala. Ninguém a ouve. Eu escuto. "Não há força que não tenhas nem firmeza que te falte. És como eu". E eu sei que sim. Que é verdade. Danço. Ao redor da fogueira. Pergunto quem sou.

Quem sou? Sou o Ar. Sou o Fogo. Sou a Água. Sou a Terra. Anciã de espírito. Donzela de idade. Pagã como elas. Livre como elas. Dançando, descalça, ao redor da fogueira. Quem sou? Não sei. Não me conheço. Vou-me descobrindo, aos poucos, nestas danças na floresta.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Com a saudade



Um aperto no peito no despontar do dia. E uma mágoa que nasce no abrir dos olhos.
Hoje acordei com a saudade. Uma saudade sóbria e sem sentido. Acordei com saudade do caos, da dor. Acordei com saudade das palavras duras, despidas, atiradas ao ar como punhais. Acordei com saudade das lágrimas e do som dos silêncios a permear a quietude dos gritos.
Hoje acordei com a saudade.
Dei por mim à procura, pela casa, de algo que pudesse trazer de volta o caótico de ti. Procurei nas gavetas e nas prateleiras. Folheei os livros, esperando que caísse, de dentro deles, um pedaço concreto que me fizesse sentir mais perto de ti. Nas gavetas, somente roupa. Nas prateleiras, somente pó. Nos livros, uma sabedoria ancestral que nada tem de tua.
Procurei na despensa, debaixo da cama, dentro dos baús. Procurei neles palavras por dizer, fragmentos de um nós rasgado, queimado, reduzido a poeira.
Hoje acordei com a saudade.
Uma saudade louca. Uma saudade consciente. Saudade do sofrimento, da amargura, da mentira que nos destruiu e de todas as outras.
Procurei pela casa. Procurei nas rachas das paredes, debaixo do colchão, dentro da caixa do correio e da máquina de lavar. Procurei por instantes perdidos. Aqueles que planeámos e esquecemos como se fossem um "para sempre" qualquer.
Procurei nos frascos, sob os tapetes, na gaveta dos medicamentos. Procurei pela mais pequena nuance de demência. Pela sobra. Pela poeira de estrelas de nós.
E, sem encontrar mais do que vazios, enterrei a cabeça na almofada para encontrar o teu cheiro. O teu perfume tem o doce da mentira. O amadeirado da traição. Um travo a desgosto. Mas ainda é o teu cheiro. E acordei com a saudade.
Tento encontrar algo de bom nesse passado que nos pertenceu. Talvez ainda acredite. Talvez porque não queira ser a louca que sente falta de sofrer. Tento apanhar memórias, como quem apanha borboletas. Mas a felicidade é poeira. Passa por entre os espaços da rede, deixando apenas o concreto de tudo o que não deve deixar saudades.
Mas, subitamente, a dor não parece dor. A mágoa não parece mágoa. A mentira não parece mentira. Tudo parece nada. Tudo se oculta na saudade. E a saudade insiste: insiste que te quer. Insiste que a dor e a mágoa moram na cama vazia onde acordo. Insiste que o sofrimento é a única mentira e que a digo a mim mesma quando penso estar melhor sem ti.
Tento mergulhar na banheira. Suster a respiração. Lembrar como me sentia quando me sufocavas. Lembrar como era não poder falar, nem respirar, nem ser eu...
A saudade insiste. Pergunta para quem vou falar agora, de qualquer forma. Pergunta se vale a pena respirar sem ti. Pergunta quem sou, agora que não estás.
Enlouqueço. Acordei com a saudade. Saudade do caos plantado na minha alma pela caridade das tuas mãos.
E vou perguntando se é loucura ou masoquismo esta vontade de encontrar até o pior de nós por entre a mobília da casa.
Acordava contigo. Para sofrer. Para sentir o peso do mundo nos ombros. Para sentir a alma fragmentada. Para ver o coração estilhaçar, esmagado sob o teu peso.
Hoje acordei com a saudade... saudade de acordar contigo. Saudade de acordar com o caos que trazias para a nossa casa e a nossa vida.
Acordei para a loucura. E não há nada teu entre as páginas dos livros.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 1 de setembro de 2015

É



É na promessa quebrada,
na curva da estrada
que fere o olhar.
É na alma macerada
de quem não diz nada
mas fica a chorar.

No momento sem aviso,
nesse improviso
de ir e não voltar.
É no segundo conciso
em que o paraíso
decide mudar.

É no estender de uma mão,
no toque sem chão
que teima em quebrar.
É no eterno senão
e tantos virão
para o confirmar.

É no adeus, na demora,
no que fica agora:
saudade a queimar.
É no que fica de fora,
que reza e implora
sem ninguém escutar.

É no que fica em final,
triste e desigual,
sem ninguém notar.
Na chegada triunfal
de um amor de sal
que morreu no mar.

É onde vive esta gente
de rosto dormente,
sem pão pra trincar.
É no olhar indolente,
pobreza inocente
que 'inda tenta dar.

Eis onde mora o meu povo,
sem nada de novo
para se agarrar,
preso ao passado
onde 'inda é narrado
um sonho d' encantar.

Eis onde fica o lugar
que insiste em ficar
preso ao que nem sente.
Aqui, quem tenta ficar,
sabe que o luar
é tecto de gente.

É na esmola caída
que se compra a vida
de quem quer morrer.
Beco sem saída
onde, entristecida,
eu vivo a escrever.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dói



Dói. Como uma ferida aberta no centro da alma. Carcomida pelo tempo que tenta atingir a memória. Dói. Mãos dadas, perdidas, de dedos desenlaçados, arrancados, esgotados na demora dos pensamentos. Primaveras e Verões. Outonos e Invernos. Dói. A vida segue, o mundo avança, tudo muda. Nós não. Ficamos. O mesmo lugar. A mesma memória. A mesma mágoa. Dói. É ferida que alastra. Permanece. E o tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Foi ontem. Ou há mil anos. Beijo de fogo nos lábios. Risos prontos. Mãos fechadas noutras mãos. O toque por entre a noite. O desejo. A partilha incandescente dos corpos suados. O aroma a café, semeado na preguiça das manhãs de sol. Dói. A memória do sorriso dói. A felicidade dói. Tudo fere quando já foi e não retorna. A saudade. Medo. Medo de ter apenas saudade, onde antes se tinha o mundo inteiro. Dói. Como uma ferida aberta no coração pulsante.
A tua sobriedade. A tua sobriedade inebriada e louca, bebida de copos vazios. O som seco das promessas feitas nos brindes desajustados. O silêncio dos corpos dados. O grito da vontade carpida de viver. Dói. Perplexidade. Abandono. O ontem que se somou ao passado plural das minhas mil vidas. Dói. A ferida vai corroendo o tecido saudável do eu. Eu sou. Eu fui. Eu era. Quem? Dói. O desvanecer das ilusões. Da realidade. Do sentido. Dói. O tempo. Diz. Repete. Intitula. Enlouquece. O tempo passa. Tic-tac. Dói.
Linhas. Linhas traçadas sobre a mesa. Sobre a cama. Linhas no céu. Linhas nas mãos. Linhas. Linhas passando o fino espaço da agulha, tentando remendar o que não tem arranjo. Eternidade. Falha. A falha da linha. O toque ritmado do outro lado. Do adeus à ausência. Desistência pura. Dói. O teu toque que me falta, misturado no toque intermitente e compassado que insiste sem resposta. Dói. Linha desenhada. Palavra. Texto. Poema. Dói.
Inacabado. Este. Esse. O outro. Todos eles. Inacabado como nós. Assino. Data. Hora. Descrição. Não sei quem sou. Qual é o dia. Que números apontam os ponteiros. Dói. Dóis-me. O tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Dói. Chávena de café vazia. Ao sol. Sem o abraço da mão. Sem beijo tecido. Só com memória. Memória de café. Memória de sol. Memória. Saudade. Dói. Quero beber um copo de morte. Perder a tua sobriedade. A memória louca do que o tempo não pode curar. Leva. Leva-me. Basta. O tempo. Pergunta. Resposta. O tempo.
O tempo não é um poema. A dor é. E dói. Poema. Ilusão. Saudade. Olhos abertos. Semicerrados. Fechados. O suspiro. Último. Fumaça de anteontens. Despedida. Dói. Doeu. Doía. Agora já não...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A morte anunciada do amor



Escreveram nos jornais. Eu não sabia. O amor vai morrer.

Era o que dizia, em letras graúdas, na capa de todos os jornais. Abri um ao acaso. Logo à noite, dizia. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer.

Senti-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

A morte do amor virou manchete. Comenta-se por aí, à boca cheia. Ouço a notícia na voz de idosos que largam a mão da vida e na voz de crianças que sonham com contos de fadas. Ouço-a na voz de quem jura ter amado mil vezes e de quem acredita que o amor só acontece uma vez.

Houve quem marcasse uma vigília e, aleatoriamente, veem-se mantas negras nas janelas e lamparinas acesas à espera do cair da noite.

O conformismo apoderou-se da humanidade. O amor vai morrer. Dizem-no, como se falassem do tempo que faz lá fora. Do dia que avança. Da última novidade das revistas cor-de-rosa. O amor vai morrer. Organizou o seus afazeres. Assinou os documentos. Decidiu que não queria viver mais consigo próprio. Não explicou porquê. Há quem diga que é porque anda sempre de mãos dadas com o sofrimento. Há quem diga que tem mazelas impressas na alma, doenças de foro emocional e físico, crónicas e sem alívio possível. Mas ainda é o amor. Como pode o amor morrer? Como se mata um imortal?

Sinto-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

Onde quer que vá. Não há rua onde não se sinta o aroma pútrido da novidade. O amor vai morrer. Vê-se nos semáforos desligados e nas ruas despidas de carros e onde tão pouca gente caminha. O amor vai morrer. Fizeram cartazes de despedida. Eles gritam nas estruturas de metal. Adeus, amado amor. O cinismo do mundo. O amor não foi amado. Foi odiado, espezinhado, mal falado, mal tratado, usurpado e arrastado por aí como um trapo. Durante milénios, foi assim que trataram o amor do qual se despedem com tanta leviandade.

Todas as ruas têm o toque da morte do amor. Mas mais a tua. E caminho por ela, apenas para interiorizar o que já sei. O amor vai morrer. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Vai morrer.

Da tua janela pende um trapo negro. Dizes adeus ao amor. Talvez ao que me deste e que eu não quis devolver, na ânsia de chegar primeiro ao que era concreto e somente meu. Sinto as lágrimas penduradas nos recantos do olhar que se vidra. Sinto a saudade carregada no peito que acelera. Não vou encontrar o amor amanhã.

Escreveram nos jornais. Eu não sabia. Logo à noite, o amor vai morrer.

Devia ter-te amado ontem.


Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Podes ser



Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Imagino que verei, no teu rosto, menos lágrimas do que aquelas que limpei a mim mesma. Podes ser. Compreendo. Podes ser como todos eles. Como todas elas. Como todos esses. Gente. Plural singularizado. Podes ser. Dói menos.
Essas pessoas estão menos sós. Vão à frente. Vivem as suas vidas. Morrem as suas mortes. Ninguém se importa de sobremaneira. E não faz mal. Talvez estejam mais certas, essas gentes que se imitam e se regem pelas regras insatisfatórias que os tempos ditaram, sem outra razão que não a de não haver razões. Podes ser assim. Os Deuses sabem que, se pudesse, eu também teria sido. Mas nunca soube encaixar no espaço destinado. Nunca soube integrar a norma. Erro meu. Erro que veio, como marca de nascença, impresso na pele. Visível. Notório. Não sou igual aos outros. Nasci com um defeito de fabrico. Sempre fui uma peça fora do conjunto perfeitamente oleado da sociedade. E não é algo que se possa combater. O cheiro nauseabundo da diferença repele os que amam a marcha imperial das igualdades. Das desigualdades, diria eu. Mas quem sou eu para dizer? Sou só a peça que nunca encaixou em lugar nenhum.
Faço dos teus desejos a minha motivação. Desejo-te sorte. Sorte nessa demanda por seres espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Gente. Sim. Gente. Talvez te tratem como gente. Talvez te convidem a entrar nos jardins onde todos os canteiros têm as flores da mesma cor e todos os arbustos crescem à mesma altura. Talvez te cedam o espaço necessário para poderes, também tu, plantar a tua flor e regar o teu arbusto. E talvez seja verdadeiramente melhor essa versão comprimida e modelada de sanidade. Melhor do que a loucura que me faz caminhar no meio do mato, entre flores silvestres e flores do campo e flores venenosas. Melhor do que a loucura que me faz falar com as árvores que, numa loucura só sua, crescem cada uma à sua altura e se atropelam na busca do sol. Melhor do que com a loucura que me faz afastar, passo a passo, dos olhares reprovadores das pessoas que, por serem sãs, não compreendem. Sim. Fica com a sanidade. Talvez um dia, tal como os outros, olhes para mim de lado e não compreendas. Espero que sim. Que encaixes. Eu nunca encaixei.
Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Eu não pude. Mas tu podes. Não te noto, nos jeitos, o desequilíbrio que denunciou os meus defeitos. Acho que vão abrir-te as portas das salas, ceder-te o horário meticuloso dos dias, a ementa semanal, sempre preparada com minúcia. Quando eu tentei entrar, deram-me a porta fechada. Mas não vai ser assim para ti. Eu transpirava a diferença. Uma diferença que era, apesar de tudo, subtil. Maneiras de olhar, de estar, de acreditar. Mas fazia deles "a gente" e de mim "a outra". A diferença enojava-os. Fiquei do lado de fora, a vê-los, através do vidro baço e impermeável, dividida entre o "eu" que não podia ser como eles e o desejo incoerente de ser, tal como tu queres: Espelho. Reflexo. Cópia. Cliché.
Tu podes ser. Eu nunca pude. Porque eu sou espelho das águas que correm, sem barragens. Reflexo das florestas que crescem, sem barreiras. Cópia dos pássaros que voam, sem grilhetas. Cliché das minhas próprias frases feitas. Não sou, talvez, gente. Esse plural singularizado. Mas sou pessoa. E, do lado de fora do vidro, aprendi a olhar para dentro. Dentro de mim nada é organizado. Não há canteiros com flores nem arbustos com tamanho definido. Não há esquemas, nem agendas, nem ementas. Não sou um peão. Não irei, certamente, à frente de ninguém. Mas, no meu caminho, viverei mil vidas. Morrerei mil mortes.
Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Eu não pude. Hoje não quero. Há florestas além dos jardins. Mundos além das salas. E, felizmente, outros loucos como eu.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.



O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

A manhã nasceu cinzenta. Era o primeiro dia de Verão. O céu não parecia sabê-lo. Os solstícios, por vezes, são mesmo assim. Parecem importar mais às pessoas. Naquele dia, não importava ao próprio Sol, que se escondera sob um manto impenetrável de nuvens e smog. Mas importava-me a mim, por impulso ou teimosia. A manhã estava cinzenta. As ruas, igualmente cinzentas, mantinham a sua usual tonalidade suja. Mas insisti. Insisti que era Verão. E, no Verão, querem-se vestidos leves e floridos, frescos, esvoaçantes. Foi o que usei na manhã daquele naquele primeiro dia de Verão, cinzento e frio.
São coisas pequenas. Detalhes. Tão despidos de importância que facilmente se esquecem. Mas recordarei para sempre o que usei naquele primeiro dia de Verão. Tal como lembrarei a mesa de café onde me sentei. As ruas que percorri, de seguida. Os passos que ouvi atrás de mim. A respiração ofegante que me fez acelerar o passo. O toque leve no ombro junto à passadeira. As palavras...
"Desculpa... não quero assustar-te." - O olhar, azul num rosto lívido. - "É só que pensei para mim..." - A hesitação. - "Se morresse amanhã, hoje o Verão terias sido tu." O sorriso. O começo. O primeiro dia de Verão. Cinzento. O primeiro amor. Tão cheio das cores do arco-íris.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

No primeiro dia, o amor viu o meu vestido. O meu vestido florido e leve, fresco, que em tanto se afastava do Verão, que nascera cinzento. Acho que o Verão não sabia as nuances do meu amor. Se as soubesse, o Sol teria feito mais do que esconder-se sob as nuvens. Ter-lhes-ia dito que chorassem. Imagino que, por entre murmúrios, teria dito assim: "acaba de nascer um amor condenado à saudade...".  E as nuvens teriam chorado. E o Verão teria começado sob o som constante da chuva. Mas eu acho que, tal como eu, no primeiro dia, o Verão não sabia. O Sol não sabia. O único a saber era o portador daqueles olhos azuis. O dono daquela mão que me tocara o ombro. O senhor daquela voz que me conquistara com as mais belas palavras.
De pequenina, o meu pai tinha feito destas palavras lição: "só dois tipos de homem têm a coragem de dizer o que pensam, sem temor: aqueles que não têm sanidade mental e aqueles que, por alguma razão, já nada têm a perder". O meu pai, que era um homem velho e sem estudos - e do qual não me recordo de outra forma que não sendo velho, com o cabelo ralo e grisalho e um cigarro entre os dedos - era também o homem mais sábio que conheci. Era um homem com medos, claro. Medo das guerras nas quais combatera sem se fazer herói, medo de ter sobrevivido com memórias que não conseguia apagar, medo de morrer sem deixar memória de si. E era um homem com medo justamente porque a sua mente era sã e ainda tinha muito a perder.
Esse amor que conheci junto às linhas brancas da passadeira era detentor de uma coragem como eu nunca tinha visto. É preciso coragem para dizer a alguém "Se morresse amanhã, hoje o Verão terias sido tu.". Até àquele dia, eu só tinha amado um homem cobarde - o meu pai - nesse dia, aprendi a amar a coragem. Mas, talvez porque o meu pai conhecesse da vida mais do que se aprende por entre as letras e os números, as suas lições rasgavam a pedra que lhe cobria o túmulo e vinham a meu encontro, lembrando-me: só existiam dois tipos de homens com coragem. E assim era. A coragem dele era uma coragem feita na cobardia. E, se era loucura, posto que todo o amor é louco, não era ela que o fazia falar. Não tinha nada a perder. E eu, no meu vestido de Verão, num dia cinzento, não o sabia ainda.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Encheu-me o corpo de mimos. A casa de flores. A vida de amores maiores do que o tempo. Afagou-me a alma e o coração. E levou-me, nos braços, ao encontro de lugares onde eu nunca tinha estado e de lugares que aprendi a ver de forma diferente, porque nunca os tinha visitado com ele. Lembro que me beijou, pela primeira vez, em frente ao mar. E disse-me "Se morresse amanhã, hoje terias sido a minha vida inteira".
 Por muito tempo, falou do passado. Do presente. Evitou falar do futuro, deixando-me dúvidas e reticências sobre a validade do amor que cultivávamos. Mas matava-me sempre as dúvidas confessando, "Se morresse amanhã, poderia dizer que, pelo menos, amei".
Construímos juntos essa realidade feita de tudos e nadas. Dia após dia. Semana após semana. Até àquele dia, o dia do encontro. Mesa posta. Com os melhores pratos. Os melhores copos. Os melhores talheres. Velas. Perfume. Roupa passada a ferro. E a campainha que não tocava. O telemóvel que não tocava. A ausência de som que arrancasse dos meus ouvidos o desconforto do batimento cardíaco, pulsante e arrítmico. Não soube dele. Por dias. E foram lágrimas. Foram desassossegos. O meu homem de coragem pareceu-me, por fim, o maior cobarde de todos. E disse, para mim mesma, "o amor é cego".

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Bateu-me à porta de casa a meio da noite, uma semana mais tarde. Numa mão segurava dois balões com forma de coração. Na outra, um ramo de rosas rubras, grandes e aromáticas. Depositou-me nas mãos os presentes e nos lábios um beijo. No peito, depositou o medo. "Tenho uma coisa para te contar".
Contou. Desejei, muitas vezes, que não o tivesse feito. Mas fez. Contou-me a verdade sobre o homem que me tinha tocado no ombro, atraído pela leveza fresca do meu vestido de Verão. "Estou a morrer.". Não disse que estava doente. Disse-o assim. De forma directa e crua, como se tivesse medo que eu não entendesse as implicações das suas palavras. Talvez estivesse cansado de eufemismos. Talvez estivesse simplesmente cansado.
Foi nesse dia que soube que a coragem dele nascia onde, geralmente, as pessoas depositavam o maior dos medos. A morte, a mesma que assustou exércitos e os afugentou, levava aquele homem nos braços, rumo ao amanhã, se houvesse amanhã.
Agarrei-o junto ao peito. Agarrá-lo significou beber a coragem. Saber que amaria alguém que estava condenada a perder. E mais uma vez, pensei: "o amor é cego".

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Levou-me, certo dia, até um bairro degradado da cidade. "Quero mostrar-te uma coisa", disse. Segui-o. Por entre as ruas sujas e gentes que se debruçavam sobre os caixotes do lixo, regozijando-se quando encontravam um pedaço de pão. Por entre mendigos que mantinham a mão aberta, fechando os olhos, como se não esperassem que alguém pudesse prestar-lhes realmente auxílio. Por entre casas degradadas, com as portas abertas e as janelas partidas. Entrou numa dessas casas, arrastando-me pela mão. Tirou dos bolsos um maço de notas e depositou-o na mão de uma senhora idosa, beijando-lhe a mão de seguida. A senhora agarrou a mão dele contra o peito. Agradeceu-lhe, com lágrimas nos olhos. Fitou-me. Por largos momentos, não fez mais do que procurar nos recantos dos meus olhos algo que eu não sabia o que era. Depois, sorriu levemente. O sorriso enfatizou-lhe as rugas. "É um bom homem, não arranjas melhor... não, não... devias casar com ele."
Saímos. E, na saída, ele deixou uma moeda na mão de um mendigo. Não me disse nada, até estarmos longe. "Aquela mulher, que nada tem, alimenta quem pode. Não nega um prato de sopa a ninguém. Aquele mendigo, abandonou-o ali a família antes de se mudar para o estrangeiro. Não veem, o raio dos políticos. As campanhas passam ao largo destes bairros por medo que se pegue...". Parei, puxei-o para mim. Beijei-o. E, depois, dei razão à senhora velha. "Casa comigo", pedi-lhe. E ele sorriu, olhando para mim como se eu fosse a pessoa mais bonita do mundo e sem ver que a melhor pessoa era, na verdade, ele mesmo. "O amor é cego", tornei a pensar.

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Casámos. Foi uma cerimónia simples, no cartório. Eu, ele e uma testemunha. Não precisávamos da aprovação de nenhuma pessoa. Não precisávamos da aprovação de nenhum Deus. Fosse por quanto tempo fosse, deixámos o voto: "Serei teu até ao último suspiro e além dele, se houver memória", disse ele. Eu disse o mesmo. Mas sabia. Seria dele muito depois da morte o tomar nos braços. Talvez para sempre.
Dos dias, fizemos uma batalha contra o que se vê nos cantos das ruas. Aprendi a ver. A ver o que não se vê mesmo quando está em frente aos nossos olhos. A pobreza. A fome. O frio. A falta da dignidade que prometem que é para todos. Aprendi que os direitos iguais são um pregão tradicional que não se adequa à realidade das ruas. Para quem vive sem nada, os direitos não passam de um conto de fadas escrito pelos ricos. Ele não tinha muito dinheiro. Mas dizia com frequência: "O que tenho, para o túmulo não levo.". Dava. Sem fazer contas ao amanhã, porque sabia que a incerteza do amanhã começava hoje para muitos. E eu, ao lado dele, aprendi a riqueza que é não ter nada quando se dá aos outros o melhor de nós.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Foi no Inverno que aconteceu. E nem me lembro bem como. É uma nuvem dispersa de memórias sob o som odioso da sirene da ambulância e o cheiro do desinfectante do hospital. Lágrimas nos olhos. Uma mancha de sentidos e sentimentos e mágoas.
"Tens medo da morte?" perguntei-lhe. Deitado, na luz azulada do quarto, com o bip constante dos monitores, ele abanou levemente a cabeça. "Tinha medo, antes de ti."
"Eu tenho medo", confessei. "Medo de nunca mais ser feliz"
Olhou-me. O olhar mais cheio do mundo.
"É como o dia em que nos conhecemos, disse, estava frio mas tiveste fé no Verão e aconteceu este amor... eu sei que vai ser triste mas, se tiveres fé na felicidade, algo de bom virá."
Virá, talvez, mas ainda não veio. Tenho a saudade e a mágoa. Uma mágoa sem nome nem data de validade. E dói.
A igreja encheu-se de gente que não o conhece. Gente que o conheceu, em tempos, mas não o conhece agora.  Dizem sobre ele coisas vulgares, clichés, lugares comuns. Coisas que se dizem sobre homens cobardes. Mas ele, porque nada tinha a perder, era feito de coragem.
Andando pela rua, vejo traços da sua bondade em cada esquina. E tento dar de mim, como ele dava. Porque é essa a única forma que tenho de o amar. Ver. Ver o mundo como ele é. Sem eufemismos. E tentar fazer melhor.
É este homem que recordo. É este homem que amo. Talvez o digam... mas não é porque estou cega de amor que o vejo assim. Vejo-o assim porque ele abriu os meus olhos.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


Nota:  Este texto foi, também, a minha participação no 5º Concurso Literário da Editora Papel de Arroz, "Quando o amor é cego", tendo alcançado o terceiro lugar.
Deixo, mais uma vez, uma nota de agradecimento aos responsáveis da editora, por continuarem a desafiar e incentivar os seus autores. Aproveito, ainda, para dar os meus parabéns a todos os participantes do concurso.