terça-feira, 11 de agosto de 2015

Podes ser



Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Imagino que verei, no teu rosto, menos lágrimas do que aquelas que limpei a mim mesma. Podes ser. Compreendo. Podes ser como todos eles. Como todas elas. Como todos esses. Gente. Plural singularizado. Podes ser. Dói menos.
Essas pessoas estão menos sós. Vão à frente. Vivem as suas vidas. Morrem as suas mortes. Ninguém se importa de sobremaneira. E não faz mal. Talvez estejam mais certas, essas gentes que se imitam e se regem pelas regras insatisfatórias que os tempos ditaram, sem outra razão que não a de não haver razões. Podes ser assim. Os Deuses sabem que, se pudesse, eu também teria sido. Mas nunca soube encaixar no espaço destinado. Nunca soube integrar a norma. Erro meu. Erro que veio, como marca de nascença, impresso na pele. Visível. Notório. Não sou igual aos outros. Nasci com um defeito de fabrico. Sempre fui uma peça fora do conjunto perfeitamente oleado da sociedade. E não é algo que se possa combater. O cheiro nauseabundo da diferença repele os que amam a marcha imperial das igualdades. Das desigualdades, diria eu. Mas quem sou eu para dizer? Sou só a peça que nunca encaixou em lugar nenhum.
Faço dos teus desejos a minha motivação. Desejo-te sorte. Sorte nessa demanda por seres espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Gente. Sim. Gente. Talvez te tratem como gente. Talvez te convidem a entrar nos jardins onde todos os canteiros têm as flores da mesma cor e todos os arbustos crescem à mesma altura. Talvez te cedam o espaço necessário para poderes, também tu, plantar a tua flor e regar o teu arbusto. E talvez seja verdadeiramente melhor essa versão comprimida e modelada de sanidade. Melhor do que a loucura que me faz caminhar no meio do mato, entre flores silvestres e flores do campo e flores venenosas. Melhor do que a loucura que me faz falar com as árvores que, numa loucura só sua, crescem cada uma à sua altura e se atropelam na busca do sol. Melhor do que com a loucura que me faz afastar, passo a passo, dos olhares reprovadores das pessoas que, por serem sãs, não compreendem. Sim. Fica com a sanidade. Talvez um dia, tal como os outros, olhes para mim de lado e não compreendas. Espero que sim. Que encaixes. Eu nunca encaixei.
Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Eu não pude. Mas tu podes. Não te noto, nos jeitos, o desequilíbrio que denunciou os meus defeitos. Acho que vão abrir-te as portas das salas, ceder-te o horário meticuloso dos dias, a ementa semanal, sempre preparada com minúcia. Quando eu tentei entrar, deram-me a porta fechada. Mas não vai ser assim para ti. Eu transpirava a diferença. Uma diferença que era, apesar de tudo, subtil. Maneiras de olhar, de estar, de acreditar. Mas fazia deles "a gente" e de mim "a outra". A diferença enojava-os. Fiquei do lado de fora, a vê-los, através do vidro baço e impermeável, dividida entre o "eu" que não podia ser como eles e o desejo incoerente de ser, tal como tu queres: Espelho. Reflexo. Cópia. Cliché.
Tu podes ser. Eu nunca pude. Porque eu sou espelho das águas que correm, sem barragens. Reflexo das florestas que crescem, sem barreiras. Cópia dos pássaros que voam, sem grilhetas. Cliché das minhas próprias frases feitas. Não sou, talvez, gente. Esse plural singularizado. Mas sou pessoa. E, do lado de fora do vidro, aprendi a olhar para dentro. Dentro de mim nada é organizado. Não há canteiros com flores nem arbustos com tamanho definido. Não há esquemas, nem agendas, nem ementas. Não sou um peão. Não irei, certamente, à frente de ninguém. Mas, no meu caminho, viverei mil vidas. Morrerei mil mortes.
Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Eu não pude. Hoje não quero. Há florestas além dos jardins. Mundos além das salas. E, felizmente, outros loucos como eu.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

2 comentários:

lirio Campo disse...

AI AMO MUITO LINDO ....BOM VIAJAR EM VERSOS E SONHA E PENSAR QUE TUDO E VERDADE...JA ESTAVA COM SAUDADE DE VIAJAR E TEUS SONHOS...

Mario Machado disse...

Mais um excelente texto 😊