quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Nos sopros da alvorada


Há dias em que a saudade entra, vagabunda, pelas frestas da janela e me acorda com um beijo. E, quando volto a dormir, já não vou só. A dor vem comigo.
É esse o peso das ausências que chegam no sopro da madrugada. O sopro inconstante que envolve e abraça, preenche e incomoda. O sopro que nos lembra que fica apenas o nada depois de tudo porque o próprio mundo se perde por entre as curvas cerradas do desejo de vencer o impossível.
De olhos fechados, vejo-me arrancada de sonhos mais doces, pela vontade de poder tornar reais essas mentiras que a minha alma inventa para me manter viva. E abrir os olhos é somente encontrar a verdade, envolta pelos sentimentos frios que tentei esconder no que há de mais profundo em mim.
A saudade. Esse sopro constante que me arrefece a alma e me gela o coração. Essa vaga de sentidos que me tolhe nas dores mais insensatas. É ela que me visita a cada manhã, por entre a luz morna da alvorada e o fim mal pressentido da escuridão. Luz e trevas. Memória e esquecimento. Desilusão cantada e despida de razões. É tudo isso que me acorda dos meus sonhos e me atira para as paradas de tortura lenta que me moem ao longo de todo o dia.
Mas, inconsciente do mal que causa, é a saudade que me aconchega e é ela que me canta uma canção de embalar para que durma um pouco mais. É ela que se entranha nos meus sonhos e me traz as visões mais belas de tudo o que foi e já não é. E é ela que me sorri quando o sono me toma nos braços e a dor atenua um pouco.
Há dias em que a saudade entra e me beija, me fere. E fico a pensar, entre o sono e a consciência que está tudo bem. Talvez, apesar de tudo, seja essa dor a única capacidade de sentir que me restou. Então, deixo a saudade entrar pelas frestas da janela e abraço-a junto a mim. Para sentir, não importa o quê. E adormecemos as duas na dor mas com um sorriso no rosto porque sabemos que, independentemente de tudo, somos uma da outra, para sempre!


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ajusta as Velas


Ajusta as velas, meu amor. Não podemos mudar o vento. Não podemos escolher um horizonte mais próximo. Não podemos ir contra as marés. Mas podemos ajustar as velas. E agradecer ao vento, fazer uma vénia ao horizonte e respeitar o mar que nos carrega nos braços. Podemos sempre fazer alguma coisa para aproximar a vida do que achamos que a vida deve ser.
O segredo estará sempre nas coisas que podemos mudar. Não vale a pena perder tempo com o impossível. Não vale a pena reclamar das coisas que não nos caíram aos pés. Temos de ajustar as velas e de erguer os punhos e de lutar contra os contratempos de cabeça erguida. Temos de saber quem somos e de respeitar o que há de mais real em nós, mesmo quando mais ninguém o vê. Temos de calar o medo, de lhe cantar uma canção de embalar e de o deixar adormecer, para seguirmos tranquilos mesmo por entre as tempestades.
Sim. Não o nego: há-de haver tempestades. Vai chover torrencialmente e as ondas vão atingir picos incontornáveis. Mas nós vamos recolher as velas e rezar baixinho. Metade, acredita em mim, está na fé. Na fé que temos no futuro. Na fé que temos no presente. Na fé que temos de não precisar do passado para navegar pelos mares da nossa vida.
Ajusta as velas e vem aqui. Olha para este céu e para este mar. Para a terra distante que não passa de um contorno. Olha para este mundo. E sorri. Esse sorriso que me ilumina e me aquece, como se pudesse chamar-se sol.
Não podemos mudar a história. Não podemos desenterrar da areia das profundezas os navios que afundaram. Mas podemos fazer isto. Podemos dar as mãos ao destino. Podemos ajustar-lhe levemente as velas, sem que ele se aperceba. E podemos fazer isto sem lágrimas e sem gritos. Podemos fazer isto com carinho e devoção. Podemos fazer isto com maturidade. Podemos fazer isto com a alma de uma criança que ainda não aprendeu a ser cruel.
Não é culpa do vento nem da maré. Não é culpa da tempestade. Se não atingirmos o porto, a culpa é nossa. Por isso, ajusta as velas. Ajusta-as e deixa que o horizonte, lá no fundo, seja o sonho. Deixa que a alma, cá dentro, seja a bússola. Somos os capitães da nossa vida e os senhores da nossa liberdade. Ajusta as velas. Vamos traçar a rota. Podemos ir onde quisermos. Nenhum vento é mais forte do que a vontade de um coração.


Marina Ferraz

* Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Máscara




Vá lá, por favor, só por hoje... tira a máscara. Não precisas de ser forte a tempo inteiro. Tira a máscara e chora as tuas lágrimas, mostra os teus medos, liberta-te da pressa sôfrega da perfeição. Só por um dia, só enquanto estiveres comigo, tira essa máscara e mostra-me o teu verdadeiro rosto.
Eu entendo! A vida feriu e o mundo pisou. As pessoas foram embora. Ficou o silêncio. Ficou a solidão. Ficou a dor. E tudo o resto desapareceu por entre os desertos da tua vida sem vida. Eu entendo, acredita em mim. Conheço as injustiças. Trato-as todas pelo nome próprio. Todas elas têm a chave para a minha alma. Mas hoje, só hoje, deixa cair a máscara de força, deixa amolecer essa carapaça dura e crua que trazes sempre contigo.
A tua máscara é assim: tem o formato de um sorriso aberto e um brilho de lágrimas nos olhos que ninguém vê. Tem a magia do "está tudo bem" e o oculto da tristeza. E, está descansada, ninguém sabe. Como poderiam? Como poderiam saber que estás de rastos quando caminhas firmemente, passo a passo, como quem desfila em paradas de felicidade? Como poderiam saber que estás quebrada se te mostras inteira e exibes as conquistas, deixando-as qual aroma no ar por onde passas? Como poderiam saber que tens a alma negra de dor, se mostras apenas a luz dos teus desejos, sem dizeres que sabes que todos eles são uma ilusão?
Deixa cair a tua máscara. Tira-a do rosto, só por hoje. Não precisas de ser forte a tempo inteiro. As tuas derrotas podem ser choradas. Os teus medos podem ser sofridos. As tuas desilusões podem ser reveladas. Ninguém devia ter de ser forte o tempo todo. Nem mesmo tu, que assumes as responsabilidades do Mundo e as carregas sobre os ombros!
Vá lá, por favor! Estamos sozinhas, por hoje, tu e eu. Deixa cair essa máscara de força. Deixa cair essa noção de que estás bem. Deixa cair as mentiras que contaste a ti mesma para te convenceres de que podias continuar a avançar, apesar das feridas abertas do teu coração. Só por hoje, deixa-te ser emotiva e tonta. Deixa-te chorar até te arderem os olhos e te doer a cabeça. Deixa-te divagar, gritar, soluçar.
A vida. É incrível como consegue entrar por becos e destruir-se a si mesma, sem pedir opiniões. E mais incrível é o entusiasmo com o qual o mundo aplaude e a forma como as pessoas fogem e se escondem nas suas supostas perfeições quando alguém se deixa cair. Sim, eu sei. A vida feriu-te e tu, tão criança na tua alma velha, tão menina no teu coração magoado, precisaste de uma força que não tinhas. Então, usa essa máscara de força. Mas não hoje. Não agora. Não aqui... Poderás sempre ser apenas tu comigo. Porque mesmo com as tuas lágrimas e a tua dor e o teu sofrimento, eu sei que és forte. Forte o suficiente para te levantares da cama a cada manhã e vestires a tua máscara de força. Forte o suficiente para gritares aos ventos que estás bem, mesmo de coração quebrado, sempre que alguém precisa do teu sorriso.
Vá lá. Por hoje, só por hoje, tira a máscara. Porque eu tenho a certeza que também és forte por entre as lágrimas e o sofrimento e essa mágoa que se entranhou na tua pele e que te corre nas veias, em vez de sangue. E tu também precisas de saber. Precisas de saber que, além da máscara, existe força em ti. Precisas de saber que, venha o que vier, hás-de ficar bem...
Então, tira essa máscara de força. Só por hoje... está bem?


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ambiguidade


Ficar bem. Ser feliz. Encontrar um caminho. É tão simples! Tão banal como seguir um rumo, como alcançar um objectivo, como andar em frente sem olhar para trás.
De alguma maneira é simples. Simples como o esquecimento que não vem e a distância que não se pede. Simples como tatuar na pele uma nota a indicar que não se quer saber de nada nem de ninguém. Simples. Tão simples. E quem pode alcançar a simplicidade?!
É por isso que acho que pedir a alguém para ficar bem, quando o amor acaba é o mesmo que pedir a um pássaro que voe depois lhe partirem as asas. Sim! Ainda há céu. Ainda pode olhar para o céu. Ainda pode sonhar com o céu. Mas nunca mais fará parte dele. E, de alguma maneira, o céu dos meros mortais de asas e corações partidos é a felicidade... Está ali e existe. Podemos olhá-la, podemos sonhá-la. Mas nunca seremos parte dela... e ela nunca será parte de nós.
Haverá sempre a barreira inevitável da destruição. A destruição da vida que foi sonhada e não foi vivida. A destruição da crença de que se podia tocar na linha imaginária onde se cruza o mar e o céu. A destruição da certeza de que, um dia, tudo vai fazer sentido. E, quando tudo é quebrado pela barreira do adeus, fica somente a incerteza fria de que seja possível acordar sem desejar voltar atrás e morrer num dos momentos em que tivemos a plenitude.
A felicidade? Ela mora bem ali... na distância crua de tudo o que se conhece mas já não pode tocar, a exibir-se à frente dos olhos, numa parada de tortura, como se quisesse ter a certeza de se sofre o suficiente.
Mas solta-se o desejo: "fica bem!", "sê feliz", "encontra um caminho!". Porque ninguém é sincero o suficiente para admitir que "bem" é a distância do improvável, "feliz" é a certeza do impossível e que "um caminho" não significa um caminho mas antes outro caminho. Um caminho diferente do que teria sido desejado. Um caminho meio vazio, meio gasto, meio roubado, meio sofrido... cheio de meios, cheio de metades, completamente incompleto.
São as ambiguidades da vida. As ambiguidades que vêm da dor que nos é causada por tudo o que já nos fez feliz. As ambiguidades de haver infernos nos céus dos nossos desejos. E quantos de nós não somos pássaros de asas partidas, a olhar para o céu da felicidade? Quantos de nós não buscamos a força que não temos para bater as asas, mesmo partidas, numa tentativa de os alcançar, por mais que doa?
As asas quebradas com as quais pintamos as lágrimas também são simples. Tão simples que, quem olha para nós, ainda consegue dizer "fica bem". Tão simples que acabamos por aceitá-las e mentir a nós mesmos dizendo "fui eu que escolhi o chão".
Eis a ambiguidade da dor. Fere tanto que nos torna mais fortes!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Segredos de um monstro


Vou contar-te um segredo. Deixa-me só fechar a porta e confirmar que mais ninguém me pode ouvir. E promete, promete aqui e agora, que não vais contar a ninguém! As promessas são sagradas, sabias? Então, promete. Acredito em ti, se me prometeres...
Está bem então. Dá-me as mãos e olha-me bem dentro dos olhos. Ouve com atenção. Não vou voltar a dizer estas palavras. E não fujas, está bem? Por favor...
É simplesmente isto: Sou sensível demais e rude, quando me magoam! Tenho as lágrimas sempre próximas dos olhos e não há nada de bonito no meu choro. Choro assim, literalmente baba e ranho, até ao nariz ficar vermelho e os olhos inchados. Sim, não digas a ninguém: mas é muito fácil magoarem-me. Também sou chata e vingativa. Não gosto que me firam de propósito. Não gosto que se aproximem de mim apenas para me beberem a paz. Não gosto que me tentem roubar os sonhos e não aceito que me digam que não existem contos de fadas.
Shiu! Não me repitas tão alto. Não quero que nos ouçam. Mas sim, eu acredito em contos de fadas e sim, em fadas também. Nunca as vi, é claro, mas gosto de acreditar que estão lá todas as noites, a aconchegarem-me as mantas e a rirem baixinho das minhas lágrimas para eu sorrir também e dormir melhor.
Mas é ainda pior do que isto! Eu também sou cruel. Choro, sofro, grito, respiro fundo. Porque não há nada de bom numa reacção apressada e, na maioria das vezes, não preciso de provocar a queda de ninguém. Mantenho-me simplesmente por perto, num lugar de honra, para aplaudir as quedas, quando as pessoas que me feriram caem por si só.
Além disto, acho que a Natureza é divina e por vezes, faço vénias às árvores e falo com elas. Podes chamar-me louca. Não serias o primeiro. Chama o que quiseres. Mas ficas a saber que às vezes, nem sempre, mas às vezes, elas respondem. E, quando o fazem, dizem coisas mais bonitas do que algum dia poderás ouvir.
Sou também uma escritora de alma. E isso não significa que tenho um dom mas que fiz uma escolha! Uma escolha que implicava seguir descalça por um caminho de espinhos, nua por entre desertos de gelo, sozinha por entre a multidão. Uma escolha que definiu o quanto seria capaz de amar, o quanto seria capaz de aguentar, o quanto seria capaz de esperar. Uma escolha que me fez olhar para dentro e procurar o melhor de todas as pessoas, confiar demais e demasiadas vezes. Uma escolha que definiu que a minha felicidade seria rara e que, quando existisse, seria privada das palavras. Sim: é verdade o que se diz por aí, os escritores são tristes. Só não dizem o fundamental... que vale a pena!
Por isso, sim! Eu sou cheia de segredos. Cada um deles feito em dor . Não contes a ninguém, está bem? Não contes porque não quero que tenham pena de mim. Não contes porque ninguém precisa de saber que, por entre tantos defeitos, ainda sou uma pessoa. Não contes a ninguém que eu sinto! Porque sim, é um segredo. Eu ser humana é um segredo. Se te perguntarem, conta apenas sobre o monstro. O monstro que não sofre e que não quer saber. O monstro que quer o mal de toda a gente. O monstro.
Contei-te o meu segredo. Eu sinto e sofro. E tu prometeste! Tu prometeste que não contavas. Então cumpre a tua promessa e segue a tua vida. Eu fico aqui. Monstro entre humanos. Porque só os monstros sentem a dor de ninguém querer saber da dor que sentem!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet (Yegin)