quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ambiguidade


Ficar bem. Ser feliz. Encontrar um caminho. É tão simples! Tão banal como seguir um rumo, como alcançar um objectivo, como andar em frente sem olhar para trás.
De alguma maneira é simples. Simples como o esquecimento que não vem e a distância que não se pede. Simples como tatuar na pele uma nota a indicar que não se quer saber de nada nem de ninguém. Simples. Tão simples. E quem pode alcançar a simplicidade?!
É por isso que acho que pedir a alguém para ficar bem, quando o amor acaba é o mesmo que pedir a um pássaro que voe depois lhe partirem as asas. Sim! Ainda há céu. Ainda pode olhar para o céu. Ainda pode sonhar com o céu. Mas nunca mais fará parte dele. E, de alguma maneira, o céu dos meros mortais de asas e corações partidos é a felicidade... Está ali e existe. Podemos olhá-la, podemos sonhá-la. Mas nunca seremos parte dela... e ela nunca será parte de nós.
Haverá sempre a barreira inevitável da destruição. A destruição da vida que foi sonhada e não foi vivida. A destruição da crença de que se podia tocar na linha imaginária onde se cruza o mar e o céu. A destruição da certeza de que, um dia, tudo vai fazer sentido. E, quando tudo é quebrado pela barreira do adeus, fica somente a incerteza fria de que seja possível acordar sem desejar voltar atrás e morrer num dos momentos em que tivemos a plenitude.
A felicidade? Ela mora bem ali... na distância crua de tudo o que se conhece mas já não pode tocar, a exibir-se à frente dos olhos, numa parada de tortura, como se quisesse ter a certeza de se sofre o suficiente.
Mas solta-se o desejo: "fica bem!", "sê feliz", "encontra um caminho!". Porque ninguém é sincero o suficiente para admitir que "bem" é a distância do improvável, "feliz" é a certeza do impossível e que "um caminho" não significa um caminho mas antes outro caminho. Um caminho diferente do que teria sido desejado. Um caminho meio vazio, meio gasto, meio roubado, meio sofrido... cheio de meios, cheio de metades, completamente incompleto.
São as ambiguidades da vida. As ambiguidades que vêm da dor que nos é causada por tudo o que já nos fez feliz. As ambiguidades de haver infernos nos céus dos nossos desejos. E quantos de nós não somos pássaros de asas partidas, a olhar para o céu da felicidade? Quantos de nós não buscamos a força que não temos para bater as asas, mesmo partidas, numa tentativa de os alcançar, por mais que doa?
As asas quebradas com as quais pintamos as lágrimas também são simples. Tão simples que, quem olha para nós, ainda consegue dizer "fica bem". Tão simples que acabamos por aceitá-las e mentir a nós mesmos dizendo "fui eu que escolhi o chão".
Eis a ambiguidade da dor. Fere tanto que nos torna mais fortes!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

9 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito mesmo...
continue sempre escrevendo...

retrata um pouco da história de cada de nós...

:)

Mari Fernandes*
"Doce Amargura no olhar"

Evelyn disse...

Oi minha linda..
Amei esse texto, assim como todos os outros.
Realmente toda nossa vida tem um pouco de ambiguidade.
Mas uma vez me identifiquei com seu texto.

Continue sempre assim, te ajudarei no que for possivel!!

Beijos

disse...

Mana, o que te posso dizer é apenas agradecer-te por estes 5 anos em que me tens contemplado, não só com a tua presença mas também com a tua escrita.
Ainda me lembro do tempo em que não deixavas ninguém ler o que escrevias , apenas podíamos ouvir-te :)E desde esse curto espaço de tempo, já vivemos tanta coisa, já tivemos tantas conversas num cocktail de choros e gargalhadas...

Obrigada por ti!

E que a tua escrita continue a fazer sempre parte de todos!

(E tudo só para dizer que gostei muito do teu texto :P )

Adoro-te miúda :)

Bárbara Pinto

Anónimo disse...

Como falamos pelo silencio era provavel eu gostar deste texto. =)

Sim, gostei imenso. No fundo, quantos de nos nunca teve, pelo menos, uma asa partida? Mas, tambem acredito que um dia todos voltaremos a aprender a voar, existe sempre alguem que nos devolve uma asa nova, quero acreditar que essa asa nos completa o vazio e as marcas deixadas pelo passado.

Espero que continues a voar cada vez mais alto porque o teu talento e indicutivel. Ja tinhamos falado sobre isso, mas e incrivel como nos entendemos pelas palavras* =)

Tenho orgulho em ti*

bjinho

Lili

Di Mota - Pelo Avesso disse...

O blog ta lindo moça!!! Parabéns!!
E o texto... esse ta simplesmente delicioso de ler, apesar da tristeza duma separação... fez as colocações certas.

Beijooos... tô seguindo!

Luciana X. Z. disse...

adoreiiii.. Brigaduuu, continue postando Marina Ferraz! Parabénss!

Tânia disse...

A cada texto que leio penso para mim que não é possível escrever palavras ainda mais bonitas. No entanto, consegues sempre surpreender-me a cada nova leitura.
Sem dúvida este é um dos meus favoritos, muito real a todos os níveis.

Adorei*

Anónimo disse...

Cada texto que leio fico emocionada .LINDO!!!!!!!

Tânia disse...

Este texto tem muito significado na fase da minha vida que estou a viver. Já não sou, acho eu, um pássaro de asas quebradas, mas sim um pássaro dentro de uma gaiola, à espera de poder voar. Também eu olho os céus da felicidade e espero poder alcançá-los. Mas há sempre o medo - que descreveste tão bem e que se atiçou novamente em mim - de não poder, de não conseguir, de ficar de fora, vendo somente os outros a consegui-lo. Mas tenho mais esperança agora do que antes, e talvez isso valha de alguma coisa.

Tudo isto para te dizer que adorei o texto, e que as tuas palavras, mesmo as mais simples, são certeiras e quase mágicas. Espero que publiques muitos e muitos mais textos como este no futuro, porque te mostram no teu melhor como escritora! :D