domingo, 22 de setembro de 2013

Sete


Sete. São sete. São sete as letras da palavra memória. E a memória permanece. Permanece intocada nos recantos de tudo o que, afinal, não era bom, não era para ser e nem tão pouco era real.
E falo da memória. Falo porque não tenho medo. Já não tenho medo. Tenho só memória. Uma memória que se estende e se levanta, revelando o que havia por detrás de um sentimento que nunca foi nosso mas apenas meu.
São sete. Sete letras da palavra memória que se prende a sete anos de espera. Esperar por ti foi simplesmente esperar pela morte. Estava à espera da morte e sabia-o. O que eu não sabia era que o amor andava aí, à minha procura, à minha espera, dizendo que, algures, entre as árvores e os monstros de pedra, alguém queria fazer-me feliz.
A memória diz que também me fizeste feliz. Momentos efémeros de uma felicidade que se lavou com anos de lágrimas e amarguras. A dor era uma parte incontornável de mim mas não era minha. Vinha dos teus silêncios, da tua crueldade, da forma como usavas de mim somente o que era simples para desapareceres nos ventos.
São sete. Sete anos. Sete anos que tiveram muitos dias. Em qualquer um desses dias poderias ter mudado a história para criares uma memória em que  pudesse retratar-te de outra forma. Mas escolheste assim. Escolheste ser alguém que nunca esteve e para quem eu estive sempre. Alguém que deixava as promessas por cumprir, aglomerando-as em estruturas de fel e pedra poida, para serem vendidas a preço de saldo.
Na minha memória os teus olhos já não brilham e o teu sorriso já não ilumina. Porque a pessoa que eu um dia amei não existe atrás deles. A pessoa que eu amei morreu há muito tempo atrás, deixando somente a concha vazia e oca onde havia um ser humano que eu soube ser bom, decente, apaixonado e completo. A pessoa que eu amei perdeu-se nos confins de tudo o que nunca poderia ter sido para ter algo que eu não posso nem quero compreender. E espero que tenha valido a pena.
Nunca soube tanto sobre o amor. Mas, pensando em ti, o presente do verbo amar é "morreste-me". Morreste-me a ponto de te tornares memória e da memória dizer que a espera foi inútil. A pessoa pela qual esperei não poderia ter voltado porque, se alguma vez existiu, não existe mais. Amei verdadeiramente a ilusão. Chorei verdadeiramente a perda. Não sei se a mágoa era feita de amor ou luto. Sei que a palavra memória tem sete letras e que durante sete anos vivi sete vidas que foram mortes acordadas.
Sete. Sete anos e tantos dias em que podias ter mudado a forma como te revejo nas sete letras da memória. Sete anos para aprender que o amor é feito de tudo o que eu nunca tinha tido.
Sete. São sete as letras da palavra memória. E a memória permanece. Permanece intocada nos recantos de tudo o que, afinal, não era bom, não era para ser e nem tão pouco era real. Mas não importa. Estou a cumprir a promessa, com a memória pousada ao de leve sobre um coração que pecou, talvez, por te ter querido tanto. Estou a cumprir a promessa. Estou finalmente a cumprir a promessa que não fiz. Abri as asas e o céu chama. Adeus.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Consulta



O que quer saber? Diga-me. Não tenho nada a esconder. Já superei o medo dos fantasmas. Já deixei de ter lágrimas quedadas na primeira sombra da memória. O que quer saber? Pergunte. Responderei a qualquer coisa.
Se me considero triste? É por aí que quer começar? Está bem! Eu falo sobre isso. Sim, acho que sou um pouquinho triste. Não como se as decepções tivessem corrompido a minha alma. Não como se a vida tivesse sido a pior das minhas inimigas. Mas sim, sou um pouquinho triste. Acho que nasci com esse dom. O dom de ser triste. Pede que explique? Porquê? Não se entende assim? Está bem. Eu explico melhor. É como o senhor, por exemplo, tem o dom de curar loucuras. O meu dom é ser triste e tem o mesmo sentido que o seu. Entenda: a minha tristeza escorre pela tinta da caneta e imprime textos. Gosto de pensar que esses textos curam... se não loucuras, ao menos mágoas.
Como é que a tristeza de um texto pode curar? Deixe-me rir. A tristeza alheia cura mais do que qualquer outra coisa. Não ponho em causa a bondade das pessoas nem os seus doces e altruístas corações. Não acho que a cura venha de uma felicidade pela dor dos outros. Acho que a mágoa cura porque as pessoas entendem que não estão sós. A solidão dói mais do que a mágoa, sabe?
Se sou sozinha? Não sei. Nunca pensei nisso. O que é estar sozinho? Vivemos no meio de multidões... Sinto-me sozinha às vezes, sim. Mas isso significa que o seja? Não, não acho que seja sozinha. Acho que sou uma pessoa que anda por aí acompanhada pela solidão.
Quer uma palavra que me defina? Não posso dizer. Não insista, por favor. Não posso... talvez se fossem duas... em duas poderia talvez escolher o amor e o sonho. Mas aí faltaria dizer palavra e escrita e saudade... eu não sou uma palavra. Eu sou um universo de palavras e, acredite em mim, nem todas boas.
Se desejo a morte? Tanto como uma vida melhor, suponho. Mas isso também depende do que a morte é para cada pessoa, não é? Como eu vejo a morte? Eu vejo-a como mais uma passagem da alma. Ela veio de algum lugar, ela vai para algum lugar. Não sei se desejo a morte mas sei que não a temo. Se for o fim de tudo? Mesmo que seja o fim. Não temo. Para quê? Não vivi vida que me faça temer um fim perpétuo do que quer que seja.
Não está aqui para me julgar. Eu ouvi. E também sei que o está a fazer. Está a julgar-me em olhares que tentam ser indiferentes e em palavrões científicos nesse seu bloquinho branco. Mas eu não me importo que me julgue. Dirá, em palavreado médico, que sou louca. Mas eu sei que o sou. Dirá que sou depressiva? Bipolar? Esquizofrénica? Tudo bem. Pense o que quiser. No fim, o senhor ficará com notas no caderno e eu ficarei comigo. O senhor pensará que eu preciso de drogas e eu pensarei que estou bem. E a maior das loucuras é que, quando sair dessa bata branca e a realidade se abater, também vai sofrer e também vai sentir-se só. Em momentos de desespero talvez deseje a morte. Mas vai engolir a loucura desses pensamentos, recalcá-los, ignorá-los. É assim ou não é? Nunca se sentiu desta forma? Pode afirmar que nunca se viu a erguer os braços numa oração pelo fim?
Eu incomodo-o. Sei que sim. Incomodo-o, não porque sou louca mas porque sou sincera. Porque assumo o que penso e o que sinto. Porque não tenho medo de pensar e de sentir seja o que for. Agora que respondi às suas perguntas, diga-me só, com honestidade... responderia às minhas?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não



O Universo disse "não" mas nós não o ouvimos. Estávamos ocupados a olhar um para o outro, em busca de tudo o que ficava dentro dos olhares oscilantes, viajando aos trambolhões pela nossa mente revolvida.
O Universo disse "não" mas nós não o ouvimos. As nossas mãos tocaram-se numa caricia subtil. E os nossos olhos caíram no encaixe perfeito das nossas mãos, como se ali encontrassem a resposta para um quebra-cabeças infinito, chamado vida.
Tínhamos muito mais a perder do que a ganhar. Mas não fizemos caso disso. Quando o Universo disse "não", tínhamos os olhares perdidos, as mãos dadas e um sorriso no rosto.
Ensurdecemos. Ouvíamos apenas os nossos corações descompassados a baterem em uníssono, criando uma melodia pura, que atravessava estrelas e perdia guerras contra o luar.
Quando o Universo disse "não" e nós não o ouvimos, já era tarde para escutar qualquer negação divina. Eu era tua. Tu eras meu. Independentemente do passado, do futuro ou da vontade do Universo que dizia "não".
Tínhamos muito a perder. Mas também tínhamos os olhares colados e as mãos dadas e os corações a baterem em uníssono.
Quando o Universo disse "não", ainda que o tivéssemos ouvido, não teríamos dito "não" um ao outro.
As mãos largam-se. Os olhares perdem-se. O coração pára. O Universo disse "não". Mas eu não acredito. Não acredito que os olhares esqueçam o que viram, que as mãos apaguem o toque, que o coração pare de bater em sincronia.
Não acredito que as mensagens que os nossos sorrisos passaram se lavem com lágrimas nem que sejamos condenados por nos darmos em toques de felicidade.
O Universo disse "não" mas nós não o ouvimos. Estávamos ocupados a ser felizes. Estávamos ocupados  a ouvir tudo o que fica nas entrelinhas dos nossos silêncios.
Quando o Universo se cansou de gritar palavras que eu nunca ouvi, foi o amor que me tocou no ombro: "O Universo disse que não", avisou-me, num meio sorriso que nos interrompeu o olhar.
Eu fitei o amor e encolhi os ombros. "Ele disse que não?", perguntei e o amor anuiu, em silêncio. "Pois eu digo: que se lixe o Universo. Estou ocupada a ser feliz..."

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Aos olhos da Lua


A Lua olhou para baixo. Outrora fora o seu encanto. O mundo dos homens fascinara-a, no tempo em que os homens eram do mundo. Lembrava-se concretamente de rios sem barragens, de florestas sem gruas, de vilas sem cimento. Lembrava-se concretamente do verde, do azul. Um diamante em bruto, cheio de vida, sempre que olhava para baixo.
O Sol tinha-a avisado: "Não te iludas! Um dia, quando te beijar, não vais olhar para baixo e sorrir. Há na aprendizagem humana todos os meios que levam ao caos.". Ela tinha-o ignorado. O Sol podia ser quente mas também era pessimista. Os humanos eram fascinantes. Honravam-nos com oferendas e flores, com cânticos e orações. A Deusa Lua, o Deus Sol. Honravam a Terra e a Água e o Ar e o Fogo. O Fogo... lembrava-lhes a alegria quando o tinham descoberto.
Em tempos fora o seu encanto: olhar para baixo e encontrar florestas virgens, rios indomados, mares sem portos, pessoas que sabiam qual a imensidão da Mãe Natureza.
Então, por força do hábito, a lua olhou para baixo. Olhou na busca de uma ilusão. Fitou primeiro os passeios cinzentos, depois a imensidão vermelha e negra dos telhados, depois as florestas de betão. Suspirou. Era triste olhar para o mundo, naqueles dias. Triste como imaginar uma noite sem o beijo do Sol. Uma noite de escuridão.
Desviou o olhar. Acima de si, apenas o negro, ao seu lado o seu eterno amante, debaixo de si a destruição. Queria chorar e não podia. Era uma das coisas que nenhum Deus tinha dado à Lua: olhos que chorassem a devastação que viam.
Lançou um olhar de soslaio ao Sol. Ele dormia, descansado, com o brilho colado ao seu rosto. Como podia ele dormir tão descansado? O mundo, abaixo deles, já não os honrava. As flores tinham dado lugar a estatuetas disformes. Os rios corriam, imundos, para um mar tóxico que ceifava a vida a tantos, tantos seres vivos.
A Lua olhou para baixo. Não porque houvesse algo que valesse a pena ver mas apenas porque o caos lhe puxava o olhar minguante para um infinito de nada. Desesperou nesse olhar, como tinha desesperado antes, tantas vezes. O que seria de si quando os monstros voltassem? Destruiriam a sua face com mais do que bandeiras e pegadas? E se, olhando para si, disforme como a Terra, o Sol já não viesse para lhe beijar o rosto?
A Lua olhou para baixo. Se houvesse uma gota de água nos seus mares, teria chorado. Como não havia, afastou-se um pouco do Sol e fez-se nova para que ninguém, naquele mundo destruído, olhasse o céu e percebesse como ela estava triste.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet