segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Aos olhos da Lua


A Lua olhou para baixo. Outrora fora o seu encanto. O mundo dos homens fascinara-a, no tempo em que os homens eram do mundo. Lembrava-se concretamente de rios sem barragens, de florestas sem gruas, de vilas sem cimento. Lembrava-se concretamente do verde, do azul. Um diamante em bruto, cheio de vida, sempre que olhava para baixo.
O Sol tinha-a avisado: "Não te iludas! Um dia, quando te beijar, não vais olhar para baixo e sorrir. Há na aprendizagem humana todos os meios que levam ao caos.". Ela tinha-o ignorado. O Sol podia ser quente mas também era pessimista. Os humanos eram fascinantes. Honravam-nos com oferendas e flores, com cânticos e orações. A Deusa Lua, o Deus Sol. Honravam a Terra e a Água e o Ar e o Fogo. O Fogo... lembrava-lhes a alegria quando o tinham descoberto.
Em tempos fora o seu encanto: olhar para baixo e encontrar florestas virgens, rios indomados, mares sem portos, pessoas que sabiam qual a imensidão da Mãe Natureza.
Então, por força do hábito, a lua olhou para baixo. Olhou na busca de uma ilusão. Fitou primeiro os passeios cinzentos, depois a imensidão vermelha e negra dos telhados, depois as florestas de betão. Suspirou. Era triste olhar para o mundo, naqueles dias. Triste como imaginar uma noite sem o beijo do Sol. Uma noite de escuridão.
Desviou o olhar. Acima de si, apenas o negro, ao seu lado o seu eterno amante, debaixo de si a destruição. Queria chorar e não podia. Era uma das coisas que nenhum Deus tinha dado à Lua: olhos que chorassem a devastação que viam.
Lançou um olhar de soslaio ao Sol. Ele dormia, descansado, com o brilho colado ao seu rosto. Como podia ele dormir tão descansado? O mundo, abaixo deles, já não os honrava. As flores tinham dado lugar a estatuetas disformes. Os rios corriam, imundos, para um mar tóxico que ceifava a vida a tantos, tantos seres vivos.
A Lua olhou para baixo. Não porque houvesse algo que valesse a pena ver mas apenas porque o caos lhe puxava o olhar minguante para um infinito de nada. Desesperou nesse olhar, como tinha desesperado antes, tantas vezes. O que seria de si quando os monstros voltassem? Destruiriam a sua face com mais do que bandeiras e pegadas? E se, olhando para si, disforme como a Terra, o Sol já não viesse para lhe beijar o rosto?
A Lua olhou para baixo. Se houvesse uma gota de água nos seus mares, teria chorado. Como não havia, afastou-se um pouco do Sol e fez-se nova para que ninguém, naquele mundo destruído, olhasse o céu e percebesse como ela estava triste.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

7 comentários:

Ágatha Giivanna disse...

Retrata a realidade do mundo de hoje. Maravilhoso seu texto.
Parabéns. !

Fernanda Muniz disse...

Muito bem elaborado e muito bonito também.

Parabéns! Virei fã!

Beijinho!

BRANCA disse...

gostei muito e que admiro muito em teus textos poeticos e o parametro que fazes entre o mundo real fiticio embasado na vida e maravilhoso e tenho certeza que tu es uma revelação no mundo poeticos

Jennyfer Aguillar disse...

Muito lindo querida,gostei bastante,tem um tom muito poético que me encanta. :D
Parabéns,beijinhos Jenny ♥

Filomena Ferreira disse...

Parabéns :v :v
Um Poema que de certa maneira retrata o estado do coração humano!...(apaixonado; desencantado; óptimista; cauteloso!... renovado!...)
Obrigada
F.F.

Anónimo disse...

Tenho gosto por esse tipo de leitura,é muito bem elaborado.
Parabéns

Lirio do campo disse...

PASAM-SE OS ANOS E A POESIA E RENOVADA A CADA LEITURA E A OBRA DO POETA E RENOVADA A CADA LEITURA A CADA SUSPOIRO QUE NADA FARA APAGAR SUA EXENCI LITERARIA...INCRIVEL...