“Útil” é uma palavra que me irrita. Não nasci irritada com ela. Nasci como nascem os bebés, inútil e sem saber palavras, incluindo essa. Mas cresci e, com todas as ferramentas alegadamente úteis da escola, que queriam tornar-me útil para a sociedade e garantir que seria uma boa escrava ao longo das horas úteis dos dias úteis, desenvolvi um inútil rancor à palavra.
Úteis, diria a minha avó, eram os dicionários. Nestes, ensinou-me a pesquisar palavras. Útil: Que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso. Pois sim...
Vejamos alguns exemplos:
O dia útil é, frequentemente, aquele no qual não aproveitamos o dia para nada que nos preencha. Dias de trabalho, frequentemente em ambientes fechados, em gabinetes sem janelas, depois da hora de ponta da manhã e antes da hora de ponta da tarde.
A dica útil é, lembremos, aquele conselho não solicitado que alguém se lembrou de dar porque é sempre mais divertido metermo-nos na vida dos outros do que cuidar da nossa...
A vida útil é, frequentemente, o tempo do alegado bom funcionamento e raramente ultrapassa o tempo da garantia antes de um equipamento estourar.
Ou seja: não é que não seja útil, a questão é: útil para quem?
Ouvindo falar de voto útil, arrepio-me. Vou ao dicionário, como a minha avó me mandaria fazer, apenas para constatar que não me equivoquei quanto ao significado do termo. E lá está a confirmação: voto: ato de votar; votação; manifestação da vontade ou opinião numa eleição ou numa assembleia; ato de escolher por meio de votação; sufrágio.
Falar de voto útil é compactuar com o sistema, com os outros, com a narrativa em vigor, com o diz-que-disse, com a dica útil, com as sondagens e com a puta que as pariu a todas. Votar útil é não votar, porque não existe a real manifestação da vontade individual, nem o ato de escolha baseado na preferência do eleitor.
Sempre que alguém se faz útil, está a fazer-se útil aos que fazem dos outros mera ferramenta. Degrau para o palanque, que pisam a bel-prazer. E, por isso, encaro que o voto útil seja uma espécie de vénia muito rentinha ao chão, na qual esquecemos que o direito de escolher é algo que se perde com facilidade e demasiado valioso para que dele assim se abdique.
Votarei em quem quero e não em quem querem que eu queira. Votarei sabendo que a possibilidade de ver numa segunda volta a pessoa em quem voto é quase irrealista. E votarei sabendo que essa fantasia só o é porque muitas pessoas querem ser úteis. Votarei em quem perde, com orgulho, mas recusando-me a ser degrau para levar ao pódio as gentes úteis que não têm feito mais do que aproveitar-se da nossa utilidade para rechearem as próprias contas e atingirem interesses pessoais.
Há um tipo de voto ao qual chamam voto útil. Eu chamo-lhe voto fútil. Reflexo de uma sociedade embrutecida à conta do desgaste da cultura e da educação. Pensar nisto não seria útil... seria indispensável. Logo, não interessa...
Não creio que este seja um texto útil... mas talvez, assim, sirva para alguma coisa!
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