quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Seguir


Não me vou dar ao trabalho de seguir... não até bateres a porta na minha cara, depois de dizeres que, desta vez, o adeus é para sempre. Já o fiz antes. Já me reservei o direito de forçar sorrisos. Já me dei ao trabalho de parecer feliz. Já  me forcei a atirar a vida para as mãos do destino, dizendo "faz o que quiseres!". E, de todas as vezes, entraste pela porta da frente do meu coração e derrubaste o trabalho árduo que eu tinha feito para tentar ser feliz sem ti. Roubaste-me a paz. Fizeste-o tantas vezes que cheguei à exaustão de mim. Chega. Agora chega.
Não me vou dar ao trabalho de seguir... Vou deixar os meus olhos serem o reino das lágrimas. Vou deixar o meu coração ser o mundo dos espinhos. Vou deixar a minha alma corroer no desejo de que regresses. Vou! Vou deixar-me morrer na dor, se é isso que é preciso para esperar por ti.
"Não é assim tão simples", dizem as vozes complacentes de tantos quantos acham que a mentira doce é melhor do que a verdade crua. Mas sim, é simples... simples como a desistência tácita de continuar a lutar contra os ventos e as marés e as tempestades. Não estão na minha mão, tal como o amor não está. Amar-te ou esquecer-te não são opções que possa cultivar em mim. Não é uma escolha que tenha. E se a tivesse? Quem sabe a resposta?
Não me vou dar ao trabalho de fingir. Fingir que a felicidade está num lugar onde não estás... fingir que as nuvens não estão no céu, que os rios não correm para o mar, que o sol gira em torno da Terra. Não me peças para acreditar em mentiras. Não me peças para mentir. Não há felicidade onde não estiveres. Há somente a ilusão de momentos às metades. Momentos que nunca serão completos ou bons. Momentos que pintarei com sorrisos inexpressivos e nos quais pintarei o vazio da minha alma com ilusões que não me cativam.
Não me vou dar ao trabalho de seguir. Não me vou atirar outra vez para a apatia crescente que se esconde atrás das máscaras de perfeição. Vou chorar. Vou gritar. Vou sofrer. Não vale a pena fazer isso atrás da fachada do sorriso. Não vale a pena dizer que estou bem.
Deixa-me sofrer em paz! Não tenho culpa de te amar. Não tenho forma de te amar menos ou de amar outra pessoa. Então, deixa-me... deixa-me viver na dor até o meu coração aprender a lição. Ele precisa que lhe ensinem a ser verdadeiro para consigo mesmo. Ele precisa que lhe expliquem que os sorrisos não alteram os factos e que a máscara não apaga o amor. Ele precisa de saber que é assim que viverá até desistir de bater.
Não tento mais. Para quê? Não vale a pena... não se pode lutar contra os ventos nem derrubar as marés. Não se pode impedir o coração de amar ao menos uma vez na vida...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Todas as cores do céu



Vi todas as cores do céu.
Chegaste. Azul celeste. Azul claro, transparente. Tinhas nos passos a alegria. E, andando, os passos sorriam. Azul. Como estava azul o céu nessa manhã em que chegaste. Tinhas nas mãos uma promessa de juventude que se concretizava no olhar. Azul. Azul como o céu nessa manhã em que chegaste, cheio de promessas caladas. E ouvi-as, sorrindo. No teu silêncio. No azul claro do céu soalheiro que teimava em beijar-nos os rostos. Os rostos que sorriam.
Vi todas as cores do céu.
As palavras. Cinzentas. Porquê? No adensar claro das parcas nuvens. No adensar da neblina leve, junto ao rio. O cinzento claro do céu. O cinzento das tuas mãos jovens que se moviam com desconforto. As palavras. Cinzentas, essas palavras. Falavas. E eu não entendia. Então, falavas de novo. Continuava a não entender. Creio que poderia não compreender jamais. Talvez não quisesse compreender, por querer que continuasses ali, a repeti-las, tentando que eu entendesse o incompreensível. As tuas palavras cinzentas formavam frases pardacentas. Borrões de tinta no centro da conversa que cobriam o céu nesse cinza de bruma. E eu não entendia. Repetias. Mas era tudo cinzento. Então, não entendi.
Vi todas as cores do céu.
A raiva. Vermelho. Querias que eu compreendesse. À medida que a neblina se levantava e o sol descia sobre o horizonte. Gritavas. O vermelho rabiscado do céu. As palavras de ódio. As palavras de mágoa. "Chega!", dizias. Mas era tudo encarnado. O teu rosto. O céu. Esse sentimento de revolta pelas coisas que eu não podia saber. Pelas coisas que eu não queria saber. Pelas coisas. Que coisas? Não sei! Vermelho. O céu estava vermelho. E as palavras cinzentas eram agora rubras, ensanguentadas pela morte do nosso amor. Morte? Porquê? Não entendia. Não podia entender. Vermelho. A raiva. O desespero. A quase violência dos gestos soltos. As tuas mãos movendo-se no ar, desenhando pinturas abstractas sobre como tudo foi um erro no teu percurso.
Vi todas as cores do céu.
O silêncio depois da raiva. O negro. O negro da desistência. O céu que com ela enegrecia também. Com a noite. Com o silêncio. Com o adeus. Com o teu corpo a erguer-se e a afastar-se de mim, a levar o toque e as promessas. Negro. O negro da distância que se anunciou entre nós. O negro da rua, antes da iluminação pública bruxulear e acender naquele tom amarelado e doentio por entre o negro do céu. Negro. A incompreensão. A ausência. O silêncio. A solidão. O céu. Negro. Anoiteceu-me o olhar. Anoiteceu-me a alma. Anoiteceu-me o coração vazio de ti, quebrado por ti, levado por ti. Anoiteci. Fundi-me com o negro da noite. Desapareci nele.
Vi todas as cores do céu.
Vi todas as cores do céu antes de me perguntar se havia um céu. Antes de perguntar se merecia o céu. Antes de perceber que eras o meu céu e que eu estava acorrentada à terra.
Vi todas as cores do chão. Ele era negro. Como o céu. Fiquei nele. E nunca mais amanheci.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Entre as ervas


Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Na simplicidade de um momento sem nome, ergueu-se da terra e subiu aos céus, abriu-se de beleza, deu-se ao mundo em tons plácidos e singelos, como se estivesse certa do seu destino. Como se o seu destino fosse ser flor entre as ervas daninhas.
Era pura, simples, bela. Pedaço intemporal da efemeridade do mundo, eternizada pela condição divina que a fez ser flor por entre as ervas e partilhar com elas o sol. Partilhar até esse beijo quente, qual irmã formosa dos seres mais vis.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Inesperadamente aguardada, não passou indiferente a ninguém. Todos a viram. Ali, destacando-se cada vez mais, por entre as folhas e os picos e as ervas secas e feias, ascendendo ao céu com uma simplicidade sem nome.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. À medida que o sol se erguia mais alto no céu, também ela se ergueu, espreguiçando-se para afastar os grãos e as máculas do solo onde nascera. E ergueu os braços no primeiro rebentar da alvorada. Feliz e leal, qual flor que não sabe que nasce nas imediações da morte. Qual flor que não se sabe rodeada pela inevitabilidade da mágoa.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Tomou, nessa condição, consciência de si e amou-se, na certeza de que, sem as ervas, não seria a mesma flor. Abençoou, na sua beleza pura, a envolvente verde e magoada que lhe dera cama. Flor entre as ervas, cresceu e fez-se melhor do que as flores que nascem na condição real de um jardim. E, quem passa e a nota, deseja-lhe melhor destino sem saber a sorte que é nascer uma flor entre as ervas daninhas.
Foi na simplicidade de um momento sem nome que se ergueu da terra e subiu aos céus. Foi entre as ervas e os espinhos que se deu ao mundo em tons plácidos e singelos, certa do seu destino: o seu destino que era ser flor, ainda que o fosse por entre ervas daninhas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Se morrer amanhã


Se eu morresse amanhã. O que seria eu se morresse amanhã? Um emaranhado de memórias soltas na memória de poucos. Uma presença ondeando pelos corredores, na forma de fantasma triste. Se eu morresse amanhã? O que seria eu, se morresse amanhã?
As pessoas conheceram-me triste e chorosa. Com os olhos cheios de lágrimas e o coração preenchido por amores e ódios. Não vivi uma vida de parcos sentidos. Creio que me lembrariam assim, como se eu própria tivesse sido a reencarnação dos sentimentos. Dirão que fui amor e ódio. Dirão que fui mágoa, saudade, cepticismo, pessimismo, muitas outras palavras cheias de "ades" e "ismos". O que seria eu, se morresse amanhã?
Levei a vida a chorar. Ainda assim, sonhando, gosto de imaginar que, em morrendo, não sou lágrimas. Que não sou o choro inusitado de quem por mim passou e foi tocado por esta ou aquela razão. Gostava que me sorrissem, quando o corpo liberto de alma já não puder sorrir. Gostava que me sorrissem as lágrimas choradas e que cantassem as mais belas canções de embalar, nesse meu sono eterno. E, talvez, embalada por essas canções, nesse sono, eu sorrisse também. Afinal. O que seria? O que seria eu, se morresse amanhã?
Não fiz sempre o bem nos passos sem pegadas que dei pela vida. Em alguns momentos fui crua e cruel, em alguns momentos fui louca e loucura. Discuti com o vento sobre tudo e nada. Atirei ao ar punhais de palavras que feriram sempre, certeiros, muitas pessoas que não o mereciam. Feri sempre mais quem me amava. Feri sempre mais aqueles que, de uma forma distorcida, eu própria queria mais. E afastei, com gestos e palavras muitos daqueles com quem queria partilhar a efémera eternidade humana. Mas o que é que isso faz de mim? O que seria eu se morresse amanhã?
Na mente de muitos não passei, talvez, da tonta que tentou demais. E talvez o tenha sido, sim. Foram muitas as tentativas vãs pela perfeição. O corpo perfeito, a alma perfeita, o coração perfeito, as palavras perfeitas, os resultados perfeitos. De que valeria tudo isto se eu morresse amanhã? De que valeriam as perfeições se, depois de tudo, eu for apenas a tonta que tentou o inalcançável, caminhando pela loucura imperfeita do descontentamento?
Se eu morresse amanhã. O que seria eu se morresse amanhã? O que seria eu para aqueles a quem, de uma ou outra forma, marquei a vida? O que lembrariam de mim? Passaria de um emaranhado de memórias soltas, difusas, descontentes? Não quero ser uma presença ondeando pelos corredores, qual fantasma triste. Não quero ser esse espectro imperfeito de luta constante pelo inalcançável. Não quero ser a louca que chorava. Não quero sê-lo... mas talvez o fosse. Tanta luta, tanto sofrimento. E para quê?
Amanhã ou num dos muitos amanhãs da vida virá a hora desse adeus sem retorno. E, hoje... hoje importa-me viver. Rir. Sorrir. Brincar. Amar. Ser imperfeitamente eu. Só assim não importa saber o que seria se morresse amanhã. Assim, mesmo sem o saber, sei o que sou hoje... e, hoje, sou feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet