terça-feira, 5 de agosto de 2014

Se morrer amanhã


Se eu morresse amanhã. O que seria eu se morresse amanhã? Um emaranhado de memórias soltas na memória de poucos. Uma presença ondeando pelos corredores, na forma de fantasma triste. Se eu morresse amanhã? O que seria eu, se morresse amanhã?
As pessoas conheceram-me triste e chorosa. Com os olhos cheios de lágrimas e o coração preenchido por amores e ódios. Não vivi uma vida de parcos sentidos. Creio que me lembrariam assim, como se eu própria tivesse sido a reencarnação dos sentimentos. Dirão que fui amor e ódio. Dirão que fui mágoa, saudade, cepticismo, pessimismo, muitas outras palavras cheias de "ades" e "ismos". O que seria eu, se morresse amanhã?
Levei a vida a chorar. Ainda assim, sonhando, gosto de imaginar que, em morrendo, não sou lágrimas. Que não sou o choro inusitado de quem por mim passou e foi tocado por esta ou aquela razão. Gostava que me sorrissem, quando o corpo liberto de alma já não puder sorrir. Gostava que me sorrissem as lágrimas choradas e que cantassem as mais belas canções de embalar, nesse meu sono eterno. E, talvez, embalada por essas canções, nesse sono, eu sorrisse também. Afinal. O que seria? O que seria eu, se morresse amanhã?
Não fiz sempre o bem nos passos sem pegadas que dei pela vida. Em alguns momentos fui crua e cruel, em alguns momentos fui louca e loucura. Discuti com o vento sobre tudo e nada. Atirei ao ar punhais de palavras que feriram sempre, certeiros, muitas pessoas que não o mereciam. Feri sempre mais quem me amava. Feri sempre mais aqueles que, de uma forma distorcida, eu própria queria mais. E afastei, com gestos e palavras muitos daqueles com quem queria partilhar a efémera eternidade humana. Mas o que é que isso faz de mim? O que seria eu se morresse amanhã?
Na mente de muitos não passei, talvez, da tonta que tentou demais. E talvez o tenha sido, sim. Foram muitas as tentativas vãs pela perfeição. O corpo perfeito, a alma perfeita, o coração perfeito, as palavras perfeitas, os resultados perfeitos. De que valeria tudo isto se eu morresse amanhã? De que valeriam as perfeições se, depois de tudo, eu for apenas a tonta que tentou o inalcançável, caminhando pela loucura imperfeita do descontentamento?
Se eu morresse amanhã. O que seria eu se morresse amanhã? O que seria eu para aqueles a quem, de uma ou outra forma, marquei a vida? O que lembrariam de mim? Passaria de um emaranhado de memórias soltas, difusas, descontentes? Não quero ser uma presença ondeando pelos corredores, qual fantasma triste. Não quero ser esse espectro imperfeito de luta constante pelo inalcançável. Não quero ser a louca que chorava. Não quero sê-lo... mas talvez o fosse. Tanta luta, tanto sofrimento. E para quê?
Amanhã ou num dos muitos amanhãs da vida virá a hora desse adeus sem retorno. E, hoje... hoje importa-me viver. Rir. Sorrir. Brincar. Amar. Ser imperfeitamente eu. Só assim não importa saber o que seria se morresse amanhã. Assim, mesmo sem o saber, sei o que sou hoje... e, hoje, sou feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Simplesmente o melhor hehe,está na minha lista de preferidos. O texto todo é incrível,me representa e... é tudo.
Parabéns querida.
Beijinhos Jenny ♥♥

Anónimo disse...

Muito bom texro,as palavras,a reflexão. Muito bom mesmo

Janice Adja disse...

Palmas pelo blogger.