terça-feira, 25 de outubro de 2016

Mergulho



Mergulho em mim mesma. E sufoco nos meandros do ser. Entre a pele e a muralha que a enrijece, como se temesse o agravo do que vem. Não sei se ela se ergue para te impedir de entrar ou para me impedir de sair.
Presa nos meandros de mim, percebo que só posso amar-me odiando o mundo. E que, se amar o mundo, o ódio se fará recuar até ao que fica dentro, no local onde sufoco.
Mergulho em mim. Há corais de todas as cores no fundo do oceano da minha alma. Mas muitos são negros como a noite. Ecoam a desgraça e o descontentamento. Libertam bolhas de mágoa e desespero. Cumprem as profecias do que nunca se fez ouvir entre os cantos inusitados das videntes.
Ouve-se a voz. Monstro. E mergulho. Tenho um fascínio fora de época por esse monstro que, preso nas profundezas de mim, vai fazendo a sua voz presente através da inusual compreensão do que me enrijece a muralha.
Não sei. Não sei se o muro é prisão. Talvez seja. Mas tão segura é esta prisão que não quero, não ambiciono, a liberdade.
Atrai-me a clausura independente que me afasta de tantos quantos ostentam mentiras nos rostos. Sorrisos. Ser triste é uma bênção. Ser só é uma bênção. A dor vem da expetativa da felicidade, do amor, de todas essas palavras que se despem e prostituem feito promessas.
Mergulho em mim. E sufoco no vislumbre do que trago dentro. Metade é cansaço e o resto é rarefeito. Reparto os sentidos em migalhas e sinto pouco mais do que apatia.
Há a muralha. Olhando para ela, há quem diga que não tenho nada. E agarro as palavras nas mãos como diamantes. Tenho isto. Sempre tive isto. E só.
Mergulho dentro de mim. É um sufoco que me agrada. Esse ódio que me mura a pele. Esse amor que não faz sentido.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet






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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Neuro B



São quatro paredes. E uma janela pequenina. Que dá para outra parede. E para o telhado. E para as árvores, lá ao longe, junto ao estacionamento. As árvores verdes. Todas menos uma. Vermelha. A anunciar o Outono. Chamando para si os olhos cansados das paredes e tetos. E dos sofrimentos. E das lágrimas que – como se quer – caem dentro da alma e não transparecem. Às vezes é preciso retardar o Outono em nós.
O suspiro nasce, entre os segundos de silêncio, sempre quebrados. Seja por um bip mecânico, por um grito ao longe, por uma conversa ocasional no corredor. E, lá ao fundo, orgulham-me os traços ciganos de dezenas de meninos e meninas, de senhores e senhoras, todos sentados à espera, com fé e sacos de comida. Nos olhos ciganos encontro algo de muito familiar. Como traços de uma mão que é minha. E sempre demoro a perceber porquê. É uma familiaridade reticente, de alguém que desviou o olhar. Mas sei. Sei onde vi aquele olhar cigano. Vi-o no espelho, pela manhã. Recheado da mesma preocupação, do mesmo medo, da mesma angústia. Cheio de rezas aos Deuses e de pedidos à Mãe. Cheios de desespero. Cheios de tudo o que me esvazia por dentro.
Encho-me de pontos finais. Para que, em vez de conclusos sejam apenas reticências, repetidas no limite louco da impaciência. E cada segundo é uma vitória. E cada vitória é um salto de fé. De um ponto para o outro. Sempre reticente. Sempre ali.
Da comida levada aos lábios. Da mão nas costas. Do beijo no rosto. Da palavra. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Acredita comigo. Monstro eu, que me debruço na cama, à procura de ver o que não se encontra senão no leito do amor que se deu toda a vida. E monstro a vida que me faz debruçar sobre os medos que me tingem o amor e o tornam dilacerante e atroz. O sumo pela palhinha. O lenço que pende. A voz que se arrasta num “ai”.
Ao lado, alguém que tem dores não tem família. Nem voz que diga mentiras alegres. Nem alguém que simplesmente se sente e olhe para as paredes e as árvores verdes e vermelhas. Ao lado, alguém morre só numa cama de hospital. Mas nunca importa verdadeiramente o quarto ao lado. Pois não? Os outros podem bem ser apenas o que não existe. Lembremos: para eles, os outros somos nós. Os fantasmas que povoam a assombração do quarto que não existe e no qual não fica deitada uma vida cheia de sentidos. Tão egoísta é o amor que nos perdemos a achar que o mundo começa e acaba na Sala 3, Cama 36. E, se não acaba o mundo inteiro, ao menos o meu permanece ali, deitado. Entre as paredes que me esmagam.
Sorrio. Por fora. Choro. Por dentro. Lá ao longe chamam-me as regras inusitadas e nauseabundas de um mundo que acha que as prioridades que me traçam a estrada não justificam os meios nem as causas. Também lá do longe quem olha vê “os outros”. A vida é mesmo assim. Querer que ela veja é querer que os olhos cegos das sepulturas mentais se abram ao mundo, libertando, não poeira, mas gotas de sanidade. Na sua falta, ficam os meus pés assentes. Entre quatro paredes. Junto à janela pequenina. Que dá para outra parede. E para o telhado. E para as árvores, lá ao longe, junto ao estacionamento.
E cada segundo é uma vitória. Cada colher de sopa é uma vitória. Cada palavra é uma vitória. Cada passo é uma vitória. Tenho visto a fé ganhar algumas batalhas. Saltos dados a custo. De um ponto para o outro. Sempre reticente. Não faz mal. Vamos devagar. Eu estou aqui. 


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 11 de outubro de 2016

A velha



Para a minha avó 

Disseste, e passo a citar: “ninguém gosta de passar tempo com uma velha!”. E eu, que nunca diria esta frase, fiquei a pensar sobre ela.
Eu era pequenina. Naquele tempo em que até a memória nos é escassa e o tempo parece uma eternidade. Dessa época guardo memórias esbatidas e imperfeitas, como se houvesse nevoeiro entre acontecimentos e vivências. O que lembro claramente? Lembro o calor, o colo, o carinho. As horas passadas ao redor de brincadeiras e canções e sonhos. Quem estava lá, nessas memórias, não era “a velha”. Era a minha segunda mãe, embalando-me, protegendo-me, acarinhando-me.
Mais tarde, veio a escola. E foram muitas as horas de estudo, em redor dos deveres, que se articulavam com ensinamentos de vida. Aprendi a somar, a subtrair, a multiplicar (e, mais ou menos, a dividir). Aprendi a escrever. Aprendi que não se deixa para amanhã o que se pode fazer hoje. Quem estava lá, nesses momentos, não era “a velha”. Era a minha educadora. A minha mentora. A professora paciente e incansável.
Com a escola, que avançava, viera as agruras da vida. Dos colegas que troçavam, dos rapazes que não me ligavam ou ligavam demais. E foram muitos os conselhos: “Isso é tudo por inveja!”; “Tens tempo para namorar, agora estuda para um dia seres alguém!”; “não há amigos para sempre!”; “não gosto de te ver triste!”. Tantas frases. Tantas palavras. Tantas certezas. Nessas horas, quem estava lá não era “a velha”, era a minha conselheira, o meu ombro, a minha força.
Depois da escola e de todas as suas – muitas – agruras, veio o trabalho. Com ele, a distância. Mas, todos os dias, há as palavras, as chamadas. Seja um dia bom ou mau, todos os dias, do outro lado da linha, encontro força e conforto. Cada chamada é como chegar a casa. Cada chamada é uma respiração profunda a aquecer a alma e a torná-la mais leve. Apenas com a voz de ternura e parcas palavras trocadas, sinto que o peso do mundo sai dos meus ombros e que o dia melhor está ali, na esquina, à minha espera. Cada chamada me acorda a criança que vive dentro com a história de encantar que mora num beijo de boa noite. Do outro lado da linha quem está não é “a velha”, é uma das minhas melhores amigas, a trazer-me força e a fazer-me sentir especial.
Talvez ninguém queira passar tempo com uma velha. Mas tu não és "uma velha". És um Universo de coisas, de momentos e de sentidos. E, contigo, se pudesse, eu passaria cada segundo da minha vida!

Marina Ferraz




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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Ficar



Fica no peito
Como a lua fica no céu
Dependente da luz
De um sol alheio…

Quero ser eu
Mas não sou minha
E permanece o anseio!

Se voar, sou andorinha…
Mas quem quer voar sozinha
Sem saber de onde veio?

Fico.
Ficar magoa e destrói
Um sentir de quem perdeu:
Permaneço e não sou eu…
Se é amor, por que é que dói?

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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sábado, 1 de outubro de 2016

O murinho


Para o meu avô


No murinho se sentava a minha muralha. Homem forte, embora a idade calejasse as mãos e arrastasse passos. Cada dia um pouco mais. Naquela nuance de invisibilidade cega que carregamos nos olhos. Mas íamos. Juntos. E trocávamos parcas palavras cheias de sentidos, à medida que ele se propunha a concretizar todos os meus desejos e eu lhe depositava nas mãos a irrealidade de sonhos que nunca viriam a ser. Íamos de mãos vazias. Dadas. E voltávamos com gelados. Sentávamo-nos. No murinho. Lá onde crescia o chorão. E onde se acumulavam as folhas, no final do Verão, quando o Outono batia à porta. Sentávamo-nos. E desfrutávamos do doce sentido da vida enquanto aproveitávamos os raios de sol poente. Depois de jantar. Depois do dia. Depois de não haver depois. No murinho. Este murinho. Tão cinzento que se esquece. Tão pequeno que nem se nota. Tão esquecível que as arestas lhe foram tomadas pelas ervas e as frestas lhe foram invadidas pelo musgo. Tão esquecível que os buracos alastraram sem que ninguém se lembre de o mandar arranjar.
No murinho se sentava a minha muralha. Sempre com um sorriso para dar, por entre as rugas que se formavam, simpáticas, nos limites dos olhos, e as manchas pequeninas, feito sardas, que lhe apareciam em pontos específicos do rosto. Tinha sempre um sorriso. Um sorriso que caía bem por entre a rijeza da postura idosa e idónea. E era bom sorrir de volta, semicerrando os olhos. Em criança, parecia-me sempre que havia uma juventude igual à minha no sorriso que lhe irradiava estrelas nos olhos. Companheiro de brincadeiras, de caminhadas, de sessões de cinema em casa. Companheiro do gelado que comíamos sentados no murinho.
Naquele murinho construímos a minha realidade. A que não existia. Aquela que vivia dentro da minha cabeça de menina, no topo das nuvens do meu coração. O sonho. Uma história ou outra sobre o dia na escola que se dizia de um fôlego e virava, com facilidade, mote para me encher a alma com a sensação plena do orgulho que ele tinha em mim. Naquele murinho, ao lado da minha muralha, construí muito do que me viria a tornar. E algo na postura suave e doce daquele homem, de cabelo ralo e branco, quase sempre com o típico boné tapando a careca, me dizia que, fizesse o que fizesse, ele havia de me proteger.
Eram conversas de chocolate quente. E gomos de maçã de conversa. E dedos mindinhos dentro do whisky forte e velho. E peças de dominó a chocar umas com as outras. E infinidades em segundos. E gelados. Gelados comidos no murinho. Nesse murinho. Aquele no qual, ao meu lado, se sentava a minha muralha.
Sobre o muro? Permanece lá. E, porque ninguém lhe liga, deteriora-se. E, porque ninguém nota, perde pedaços de cimento e apodrece. E, porque ninguém sabe, vai degradando aos poucos a ideia de que alguma muralha possa, um dia, ter encontrado momentos de repouso sobre si. Sobre ele? Não está aqui. Mas, porque ninguém liga, permanece. Mas, porque ninguém nota, ainda vive e sorri. Mas, porque ninguém sabe, toma nuances de eternidade e deixa no ar notas saudosas do tempo em que, no murinho, eu me sentava com o gelado ao lado da minha muralha.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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