quarta-feira, 16 de agosto de 2017

(A)mar


Mar. Como a-mar. Um gelo que se desfaz e que tolhe sentidos. Que olha nos olhos e os mareja. De mágoa. E sal. De maresia.
São olhos marejados. De mar. Como a-mar. Um esmorecer do tempo e dos sentidos. Como vento. Como sombra. Como sobra.
Olhos magoados. Mágoa que se faz dor e mata. Mar. Maré. De ilusão poente, sob os raios do final da vida.
Mar. Como a-mar. Há mares no teu nome. E identidades frouxas entre os teus dedos por não os dares a ninguém. Como se os traços das mãos fossem desenhos criados pelos depojos do tempo e quisesses lê-los de trás para a frente, numa demanda por ouro e especiarias.
Mar. Como a-mar. Só que com ondas que se fazem espuma em vez de ansiedade. E agruras que dispersam. E algas em vez de alguéns. Algures. Além. Uma espécie de céu que se reflete e é só chuva e que se liberta apenas para se prender de novo nos enleios de insanidade.
Mar. Como a-mar. Uma infinitude desfeita. Que embate contra margens de concreto e nelas causa desgaste. O erodir da alma sob correntes frias de desolação. E nelas nadam promessas que não serão cumpridas, boatos que não serão verdade e opiniões que ninguém pediu. São corais secos, empetrecidos e cinzentos, que abrigam memórias e desalentos de tempos e histórias e tempos sem história e histórias sem tempo.
Mar. Como a-mar. Olho. Pergunto quem é. Mas não sei quem sou. E, como não há resposta, fico-me a perguntar se, lá no fundo do mar, há um espaço para mim. Para a-mar. Como em mar. Mas feliz.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Em nome da nossa Mãe




Caro Senhor Presidente,

Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. E afaga-me o rosto com a mão do vento, assegurando-me de que vai ficar tudo bem. Na sua suavidade primaveril, ela vai dizendo que nos ama. A mim e a si. E a todos os outros filhos, de forma igual.
Na noite, ela ainda me embala com a mesma canção lunar que também a si chega, sem cobranças nem palavras de ódio, nem ressentimentos. E, nos dias de sol, ela ainda nos beija a pele, dando-nos a dádiva dourada da felicidade estival.
A nossa mãe não deixou de o amar. Ainda é dela a respiração que lhe permite subir aos tronos onde se cultivam guindastes e se semeia betão. Ainda é dela o ar que faz vibrar as cordas vocais, permitindo que chovam torrentes de detrito orgânico que não servem nem os fins da fertilização dos campos agrícolas.
Ela não deixou de o amar. Mas eu disse-lhe: «Mãe, este homem que te ofende e te destrói não é meu irmão e não o amo». Pacientemente, ela fez-me olhar a distância. Perder as contas das estrelas e dos rasgos de luz no mar. Esquecer a mágoa nas clareiras das árvores. Aprender a cantar juntamente com as cotovias simplesmente porque amanhece. E, abrindo-me os olhos com uma suavidade só sua, respondeu. «Não semeies ódio, esperando que te cresça amor». E eu aprendi, aos pouquinhos, com uma paciência muito menor do que a da nossa mãe, a não o odiar.
Não lhe vou pedir que saia da sua mansão de pedra branca para visitar esta mãe que tanto o ama… porque sei que, provavelmente, lhe veria apenas o potencial rentável na destruição, qual filho que não quer mais do que herança que vem depois da morte. Mas escrevo, ainda assim. E faço-o porque a minha geração terá filhos, e os seus filhos terão filhos que serão também pais, mais tarde. E nesta história de nascimentos e vidas, a nossa mãe poderá começar a sentir a revolta que as suas mãos plantam – com ódio – esperando, não amor, mas lucro.
Não vou dizer para abrir os olhos. Não. Para quê? De olhos abertos, ainda será cego, no encadeamento desse ouro que não vai levar para a cova. Mas vou dizer que sei que, no final, no derradeiro final, vai cumprir o desejo da nossa mãe.
Senhor presidente. A terra que governa, têm-a por sua. Mas não o é. Não é a Terra que nos pertence. Somos nós que pertencemos à Terra. E a mãe que nos dá vida e nos abarca, recebe-nos num abraço que nos torna, também a nós Terra. Havemos de a fertilizar, com a nossa carne e os nossos ossos. Havemos ser unos com ela e uns com os outros.
Senhor presidente. Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. E gostaria de dizer que ela o condena. Mas não. Ela não precisa de si, nem do seu esforço, nem da sua redenção. Por mais que lhe tire, de forma abrupta e sem consideração, ela continuará a dar, sem pedir nada em troca.
Senhor presidente. Hoje planto palavras onde não quero silêncios. E falo em nome de uma mãe cuja voz soará muito depois de não se ouvirem os seus gritos no púlpito. Escute. Está em todo o lado. No sopro do vento. No toque da terra. No nascer do sol. E cada dia que nasce é uma vitória. Porque ela, que só lhe quer bem, fica um passo mais perto do abraço que, em medidas ilógicas, hoje não pode dar. Aquele abraço final que se dá na terra, à medida que nos arrefece o corpo e nos vinga alma. Aquele abraço que se dá quando nós próprios retornamos à origem e nos tornamos mais ricos do que a ganância humana.
Senhor presidente. Escrevo em nome da mãe. Da Natureza. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. Mas sei que anseia por o encontrar, para esse abraço final que vos tornará unos. Anseia. E todos nós, senhor presidente, talvez com um pouquinho mais de rancor no coração, ansiamos o mesmo.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O umbigo



Quando eu era pequena, os meus pais diziam-me, às vezes “não tens umbigo”. E eu, muito aborrecida, lá puxava para cima as camisolas interiores, exteriores, casacos e mais o que houvesse para puxar, apenas para provar que, no centro da minha barriga, estava esse buraquinho que eles diziam que não tinha.
Ser criança tem destas coisas.
De alguma forma, nessa fase, eu não dizia que tinha umbigo. Mostrava-o. Talvez porque a inteligência infantil nos faça saber que os adultos não acreditam em nada que não vejam. E, ao mostrá-lo, vinham risos e cócegas e mais risos. Que me distraíam daquela frase que me perturbava. “Não tens umbigo”.
Ser criança tem destas coisas.
Cresci a saber que o tinha – o umbigo. De alguma forma, assumi que, como eu, toda a gente tinha um, embora não fizesse muito caso disso. Era natural e pouco importante. Como quase tudo, na fase em que os sonhos – tão reais como o umbigo – se manifestam e traduzem em momentos de ilusão, fomentados pela televisão e aniquilados pelas escolas.
Ser criança tem destas coisas.
Talvez por não pensar muito nele, o umbigo nunca me incomodou. Até começar a perceber que ele podia, muito bem, ser o centro. Não o meu centro. O centro do mundo. E que, da mesma maneira, o umbigo dos outros podia ser, para eles, a mesma coisa.
Descobri com facilidade que, para muita gente, é mesmo assim. Nunca ninguém lhes tinha dito que não tinham umbigo. E, talvez por isso, exibiam com frequência e por necessidade demente essa parte de si.
Algumas pessoas que conheci passavam tanto tempo a olhar para o próprio umbigo que se esqueciam de tudo o resto. Até de quem estava perto. Até dos sonhos que deviam ter cultivado. Esqueciam. Olhavam apenas o próprio umbigo, com uma fascinação tão grande que era como se não soubessem antes que ele estava ali.
Encontrei dessas pessoas nas escolas, é verdade. Mas também no trabalho. Também nas filas dos supermercados. Até mesmo na tela da televisão, principalmente nos canais de discussão política.
Um verdadeiro programa do reino animal, com programação alargada e espetáculo ao vivo em cada recanto da rua. As pessoas fazem um reality show dos seus umbigos e é para eles que olham a tempo inteiro. Às vezes, sem mesmo precisarem de levantar as camisolas interiores e exteriores e os casacos. Descobrem-no e fascinam-se com ele. Torna-se um vício. Olhar para ele. E só.
Incapazes de viverem sem esse amor profundo que desenvolvem pelo próprio umbigo. Que, provavelmente, antes nem sabiam que tinham, as pessoas dedicam todos os seus passos ao mesmo. E todas as justificações são feitas em torno dele. Do umbigo.
Ser adulto tem destas coisas.
Fico feliz que me tenham dito que eu não tinha umbigo. Tornou-me consciente de que o tinha e livrou-me da necessidade de olhar constantemente para ele. Às vezes olho. E, num ou outro momento, também faço dele o centro do mundo. Mas não é sempre. Porque aprendi, em criança, que, provavelmente, não era só eu que tinha umbigo. E que o umbigo dos outros devia ser como o meu.
No olhar que às vezes lanço sobre o meu umbigo, sinto que perco paisagens do mundo e oportunidades. Então, faço por não olhar muitas vezes só para ele. Mas, quando os olhos me largam esse ponto epicêntrico da barriga, o cenário é simples: está toda a gente a olhar para o próprio umbigo.
Um fascínio que não se quebra com a constatação de que ele existe. O umbigo. E que move as pessoas. E que toma decisões pelas pessoas. E que faz as pessoas viver em torno de uma coisa só. O seu próprio umbigo.


Marina Ferraz


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Passos retos


Ele deu passos retos. Como lhe haviam ensinado os pais que, sendo gente sem posses, eram ainda assim exemplo nas teceduras da honestidade. Acreditara nas palavras que tinham ensinado, sempre em sotaques campestres e meio perdidos na formulação das ideias. "Faz o bem e bem te virá".
Ele deu passos retos. No dia de pagar as contas, o recibo sobre a mesa indicava que tudo se saldara. Mesmo no café usual, se acaso esquecia a carteira, nunca pedia fiado. Fazia os quilómetros que o separavam da casa, fizesse chuva ou sol, a pé, para ir buscar os cêntimos que lhe tinham faltado e, no regresso, deixava ainda a gorjeta em agradecimento pela compreensão demonstrada pela demora.
Ele deu passos retos. Nas caixas dos supermercados cedia passagem, não só a idosos, grávidas e deficientes. Cedia passagem à senhora que olhava para o relógio com medo de perder os transportes e à adolescente que levava apenas um snack para o lanche da manhã. E, chegando junto do funcionário desagradável, perguntava como ia a vida, esperava resposta e deixava, juntamente com o pagamento, duas palavras de alento para o dia.
Ele deu passos retos. Se ao passar na rua via no chão um papel, logo se curvava para o apanhar e o depositar no balde do lixo e, se acaso sabia que alguns metros mais à frente havia um contentor de reciclagem, avançava para ele, colocando com cuidado cada despojo no lugar que lhe cabia.
Ele deu passos retos. Quando chegava ao prédio, se acaso a empregada tinha acabado de passar esfregona, aguardava um pouco que o chão secasse. E nunca lhe dizia que era por isso. “Pode entrar, senhor Eduardo!”, mas ele não entrava. Dizia que aproveitar o sol lhe fazia bem aos ossos e aproveitava por perguntar à Dona Lurdes pelos filhos e os netos que moravam longe, na Alemanha. E ela sorria com os olhos e mostrava fotografias mal tiradas e amarrotadas que trazia no bolso do avental.
Ele deu passos retos. Um dia, andando na rua, encontrou um anel de diamante. Pensou que alguém estaria triste por ter perdido um anel de aspeto singelamente valioso. Desviou-se do seu caminho para passar na esquadra. Entregou o anel. O agente pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o chefe. O chefe pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o superior do chefe. Pediu que aguardasse. Aguardou. O anel tinha sido roubado. Disseram. Pediram que contasse a história. Contou. Uma vez. Duas. Três vezes. Acusaram-no de roubo. Disseram que deveria pagar uma coima ou que o tomariam em custódia. Não tinha dinheiro para a coima. Encarceraram-no.
Sentado na cela de paredes lisas, ele contou os dias. Traços retos. Quatro a quatro, cortados. Muitos. À espera da justiça. Cada um dos seus passos era agora um traço. E mais um, que fez sobre as palavras dos seus pais: "Faz o bem e bem te virá".
Era uma frase sábia mas fora de tempo.
E não havia mais tempo.
Esgotaram-se os passos.
Esgotaram-se os traços.
Esgotaram-se os dias.


Marina Ferraz


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terça-feira, 18 de julho de 2017

Número e medida



Tenho mãos. Elas são garras. Tenho feito, com elas, poemas e cicatrizes. Em igual número e medida, para que não pensem que sou gente e não digam que sou monstro. Mas, olhando para as minhas mãos, quase todos viram o monstro. Tu não. Tu viste gente.
Tenho olhos. Eles são balas. Tenho feito, com eles, apreciações do mundo e indignação. Pousando-o sempre no concreto das coisas e fechando-os sempre para sonhar. Faço-o para que não pensem que sou toda fantasia e não digam que finco no chão os pés que pisam gentia. Mas, olhando para os meus olhos, quase todos viram a mágoa. Tu não. Tu viste o Reino dos Sonhos, Quimera, pedras com feridas e fadas.
Tenho lábios. Eles são pedra. Tenho feito, com eles, frases de apreciação e críticas vorazes. Em igual número e medida, para que não pensem que sou doce e não digam que sou ácida. Mas, olhando para os meus lábios, quase todos viram o azedume. Tu não. Tu viste o nascer de um beijo, frutado e untado a mel.
Tenho pés. Eles são vento. Tenho feito, com eles, viagem que me levam às pessoas e corridas que me levam para longe delas. Em igual número, é verdade, para que não digam que vou sempre e não pensem que me quedo, estática, num lugar só. Mas, olhando para os meus pés, quase todos viram a partida. Tu não. Tu viste raízes e asas.
No centro de tudo o que és, dou por mim a querer fugir. Dos teus olhos. Desses que vêem o melhor de mim e não se assustam com o pior. Tentei fugir da loucura dos teus olhos. Que me olham. E me amam. E me acolhem. Ainda que as mãos sejam garras, e os olhos sejam balas, e os lábios sejam pedra e os pés sejam vento. Tentei ir. Mas batalhaste. Lutaste. Por mim. E bateu forte no peito, como a saudade, mas em forma de gente. Em forma de monstro. Em forma de nós.
Tenho coração. Ele é espada. Tenho feito, com ele, cortes irreversíveis e nomeações reais. Não em igual número. Não em igual medida. Matei muitos. Distingui um. Tu. Porque nunca ninguém me viu o coração. Mas tu viste. Porque os outros me fizeram rir ou chorar, mas nunca ambas. E porque és o único que consegue arruinar-me a maquilhagem com beijos e lágrimas e, ainda assim, fazer-me sentir a mulher mais bonita do mundo.
Tenho coração. Tinha coração. Tive coração. Ele era espada.
Hoje é teu.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 11 de julho de 2017

Les étoiles



Ele costumava chamar os meus olhos de “Les étoiles”. Dizia que eles cintilavam, de uma forma muito própria, no centro da escuridão da vida. E queria ser astrónomo, para poder olhar as estrelas eternamente. Essas dos meus olhos, aos quais chamava “Les étoiles”.
Passei muitas noites com as minhas estrelas presas no céu, ao lado dele. E apontávamos, rindo, as imagens imaginárias que as outras estrelas – as que não eram olhos - formavam, em pontos picotados no centro das noites sem luar.
O meu universo virava-se do avesso. E dava por mim inebriada pela incandescência solar de um desejo que ali nascia, mesmo debaixo do véu negro do céu, à medida que “Les étoiles” se fechavam para nos beijarmos.
Amanhecíamos. Eu e ele. E a rua. Algures, no centro da cidade poluída, encontrávamos carreiros de noite, onde idealizávamos um planeta sem pessoas, uma galáxia sem medos, um mundo só nosso. E ele falava do brilho dos meus olhos, nesses planos de utopia, tecidos finamente numa tela de irrealidades. “Les étoiles”. Uma exclamação que virava vento, partia e regressava com beijos nos lábios mornos do Verão.
Cada passo foi um ano. Mas poucos passos demos, nesta demanda de olhos postos no céu. Porque criávamos raízes no solo infértil de um mundo que gira em torno de uma única estrela, onde as pessoas olham muito mais em frente do que para cima e onde o brilho do sonho se troca com facilidade pelo concreto baço e pardacento. “Les étoiles”.
Continuei a olhar os céus. Nas noites sem lua. E a apontar desenhos nas estrelas. Eu dizia ver castelos e borboletas. Ele já não as via. Olhando o céu e esquecendo os meus olhos, ele dizia ver somente uma coisa. “Les étoiles”. E, com o tempo, deixou de se deitar ao meu lado para as ver. E, com o tempo, deixou de me olhar nos olhos. E, com o tempo, deixou de aparecer.
Ele costumava chamar os meus olhos de “Les étoiles”. Dizia que eles cintilavam, de uma forma muito própria, no centro da escuridão da vida. Quando foi, deixou-me o olhar negro. Levou “les étoiles”.
Hoje, as estrelas não cintilam.
As estrelas choram.


Marina Ferraz


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terça-feira, 4 de julho de 2017

No metro



A mão dele resvalou levemente. Acidentalmente. Escorregando pelo metal e encontrando a dela. Um toque envergonhado de segundos. Podia ser uma história de amor.

Manhã. Aquela hora de sol erguendo no horizonte e claridade a doer nos olhos que querem dormir. Avançamos todos para o subterrâneo. Como autómatos coordenados. Os nossos passos ganham um ritmo frenético, à medida que rugem os motores lá fora. E entramos na carruagem, onde se espremem e entalam pessoas, numa proximidade que, de tão indesejada, se torna doentia, repulsiva.
Lá nos encontramos todos, os desconhecidos. Tentamos olhar para um lugar qualquer onde não exista o risco de olhos encontrarem olhos. Não queremos ver, não queremos ouvir. Fica mal olhar. Então, enquanto metade se prende nos ecrãs do telemóvel ou faz chamadas desnecessárias à família inteira, a outra metade, de auriculares nos ouvidos, ouve música e agita levemente os cabelos mais ou menos penteados.
Ele entra. Devagar. Com a cadelinha simpática, que dá chicotadas leves nas pernas dos viajantes. Deixa-se guiar por ela. Fica ao meu lado, agarrando a barra de metal. Simpaticamente, a cadela cumprimenta-me. Noto que parece sorrir, à medida que me cheira de alto a baixo, tentando perceber qual a percentagem de humana e qual a percentagem de gato. Chega à conclusão de que sou um híbrido. Aceita-me assim e lambe-me a mão.
A senhora da frente olha para mim e ri-se do interesse da cadelinha no meu cheiro. Sorrio de volta e deposito no focinho da cadela uma festa de saudação. Só ela me cumprimenta, no metro cheio de gente. Cumprimentar é um ato irracional, como todos sabemos, aparentemente. E, de súbito, com olhos vagos e perdidos no infinito invisual, ele pergunta “aqui ninguém a pisa?”. Asseguro-o de que não. “Está segura entre nós”, ele sorri em resposta.
Como não vê, não precisa de se preocupar com o local onde lhe cai o olhar. Mas noto que os outros evitam olhá-lo, ali de pé, no metro, ao meu lado. Talvez tenham medo de que o olhar lhes fira a culpa de não se erguerem para ceder um lugar a quem, de direito, deveria tê-lo. E eu vou fazendo festinhas à simpática acompanhante de quatro patas, até que, num pedido meigo do dono, ela se deita aos nossos pés e ali permanece, sossegada, com um rabo dançante.
O metro travou numa estação. Quando o fez, a mão dele resvalou levemente. Acidentalmente. Escorregando pelo metal e encontrando a dela. Um toque envergonhado de segundos. Podia ser uma história de amor. Ele soltou um “peço desculpa”. Envergonhado e simpático. De olhar laço e perdido. Ela moveu a mão, como se o toque fosse um choque elétrico. Tinha auriculares nos ouvidos. Não deverá ter escutado. Se ouviu, não respondeu. Não o olhou. Limitou-se a afastar do toque.
Questionei se ela seria tão surda como ele era cego. Se seria tão cega como ele. Mas o metro parou de novo, sem confirmações.
Saímos na mesma estação. Ele foi, com a sua melhor amiga a abrir caminho e comigo atrás, em passos que não tentaram acompanhar a minha pressa. Subiu pelas escadas e fui com ele, em silêncio, até o ver passar as portinhas automáticas para a rua. Não sabia, sequer, se ele notava que eu o fazia. Não importava. No final, a cadelinha olhou para mim mais uma vez. Parecia sorrir. Ele também sorria. E eu. Mas não trocámos mais palavras.
A cegueira dele parecia-me ver-me melhor do que a multidão. E, pelo menos, não éramos surdos. Talvez por isso, nada havia que precisasse de ser dito.
Além disso, no centro do cinzento silencioso do asco humano, tínhamos o cumprimento mais simpático do metro. Talvez do mundo. Seguro entre nós. Para que ninguém o pise.



Marina Ferraz


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terça-feira, 27 de junho de 2017

Não te deixo morrer



Não te deixo morrer. Porque te amo. Calar a voz que me une a ti seria cortar os laços. Não os corto. Por mais que digam que é largando a imagem que se faz futuro. Não te deixo morrer. Porque te amo.
Dou o teu nome às estrelas. E às flores. E aos poemas. E sigo, passo após passo, nas pedras cinzentas das ruas que também te têm. Dou o teu nome a essas ruas e a essas pedras. Pouco importam os governadores e heróis que lhes marcam morada. Pouco fizeram pelo mundo. Nada fizeram por mim. Amo-te. E, por isso, não. Não te deixo morrer.
Fico a imaginar que o teu próprio conselho me diria: “vai, deixa-me e sê feliz.”. Mas eu sempre fui teimosa, irreverente, cheia de mim. Não vou! Ou, se for, levo-te comigo e dou o teu nome a outras ruas e outras pedras. Não te deixo. Não posso deixar-te e ser feliz.
Há cânticos na voz dos monges etéreos que regem o tempo. E o meu é cada vez mais escasso. O teu é eterno. E, juntos, somos ponteiros dissidentes, que insistem em andar de frente e para trás, sem cuidado, conforme lhes aprouver.
Tenho malte nos lábios que sequei de ideologias e conselhos dados sem que ninguém pedisse. Fiz mais mal do que bem na vida e a alma é mácula e sopro e descoberta. Fiz muito mal na vida. Matei e esqueci muita gente. Alguns, matei-os ao esquecê-los. Outros, matei-os porque os esqueci. O esquecimento é morte. Pior que a morte, talvez.
Ouve. Tu não. Tu és a luz que me faz livre e me sustenta. Não te deixarei morrer. Porque te amo. Não hoje. Não amanhã. Não até que seja eu a ser esquecida nos meandros do pensamento de alguém.
Mas enquanto houver uma folha, ela vai ter-te em memória, sejas fantasma de caligrafia ou impressão. Preto no branco. Branco no preto. Declarações que te façam sobreviver no centro da efemeridade deste mundo cada vez mais débil e insolente.
Dou o teu nome à tinta e ao papel. E à mão que escreve fora de mim, sem que eu pense no que faço. Dou o teu nome aos olhos de quem lê. E às suas lágrimas. E aos seus sorrisos.
Não te deixo morrer. Porque te amo. E é porque te amo que acontece o tecer da imortalidade. Ser eternamente jovem é criar laços que perdurem nos lábios alheios. Ser eternamente jovem é ter alguém que nos conte a história e nos faça estrela, rua, pedra da calçada.
A memória é a forma mais peculiar de manter alguém vivo. Frequentemente mantendo vivo apenas o melhor. E é ela que diz: Não te deixo morrer. Porque te amo.
A declaração mais pura de amor nasce na semente que repele o esquecimento. E, porque não esquecemos, sabemos que é amor. E como não podemos dizê-lo, damos nomes às estrelas e às ruas.
Insistimos.
Não.
Não te deixo morrer.
Porque te amo.
E, de repente, dizemos. As palavras proibidas, sem querer.
Porque te amei. Porque te amava.
E recomeça tudo… outra vez.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sem mala



Se vais amá-la, vai sem mala.
Sem nenhum peso que te atrase
Ou que te arrase
Ou que te arraste
Se vais amá-la, vai sem mala.
Deixa a dor e a memória
Não leves glória.
Não leves história.
Se vais amá-la, vai sem mala.
Sem artifícios para mostrar
Nem anéis para dar
Nem promessas de encantar
Se vais amá-la, vai sem mala.
O que és deve bastar
E se não lhe chegar
Faz a mala, não a podes amar.

 Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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domingo, 18 de junho de 2017

Arde

Imagem de: LUSA

A minha terra arde.
Com ela, ardem
Os olhos das mães que perderam filhos;
Os olhos dos filhos que perderam pais;
Os olhos de quem fica e vê partir;
Os olhos de quem viu arder
A oportunidade de dizer “olá”,
Ceifada por um “adeus” de cinza e pranto.
Enlutam as árvores e as gentes:
A minha terra arde,
Com ela ardem os olhos
Que chovem.
Nestes dias,
Havia de ser o céu a chorar
Para que não ardesse a minha terra,
Nem a minha gente,
Nem os meus olhos.

Marina Ferraz


Imagem de: Reuters


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Cegueira



Passei por muita gente na vida. Alguns, passei-lhes pelas mãos. Outros pelos olhos. Passei quase sempre indiferente e invisível. Como um espetro numa dimensão alheia. Nas ruas somos todos pontos cardinais, devotados a ir do ponto A ao ponto B. Pelo caminho há montras e carros e pessoas. Pessoas que são carne e vida. Mas tratamos de as ignorar. Como aos carros e às montras. Elas passam. Como eu passei. Às vezes pelas mãos. Às vezes pelos olhos. Mas sempre com uma indiferença que pauta a distância entre um nós muito concreto e um outro que nunca se materializa além de um etéreo ideológico e cheio de transparências.
Passei por muita gente na vida. Alguns riam. Alguns choravam. Não lhes vi o riso nem as lágrimas. Talvez porque semicerrasse os olhos rindo. Talvez porque os toldasse chorando. Nas ruas, era mais um mono com duas pernas que podiam ser motor. Mais uma modelo envergando o tecido da vergonha sobre a pele nua. E, à medida que avançamos, todos nus e decadentes, é nas roupas que, volta em vez, focamos o olhar. Como se as roupas escondessem a verdade: estamos todos sozinhos num mundo que é sala de espera. Numa sala de espera que é linha de comboio e que leva apenas à morte. Mas nós ignoramos a morte. Como ignoramos as pessoas. Centramo-nos em nós. E só.
Passei por muita gente na vida. Alguns prostituíam-se. Alguns pregavam a palavra do Senhor. Passei por eles e não os vi. Foi sempre igual que me aliciassem para os prazeres da carne ou para os do divino. Nunca quis deles nada que não a distância. Do ponto A para o ponto B. Com milhares de ecos pelo meio, que não ouvi nem quis ouvir. Pedaços de poluição sonora que ora vinham das buzinas, ora das obras, ora das bocas. Era tudo igual. Um oceano feito de sons que se enterram nas vielas e não me perseguem. Que não me travam os passos. Nas ruas cheias, onde não há coisa nenhuma.
Passei por muita gente na vida. Alguns faziam banquetes. Alguns passavam fome. Questiono à frente de quantos passei, correndo para saciar a gula. Questiono à frente de quantos passei comendo os mais deliciosos petiscos. Não os notei. E eles não me notaram a mim. Porque o mundo é uma bola povoada por um só. Não há visão que abranja além de do ego. E, quem fala de amor, sabe-o melhor do que ninguém. Amamos aqueles que se ligam a nós, porque nos estendem. É difícil amar quem não nos diz. Porque está longe, ainda que esteja perto. Porque é inconcreto, invisível, ilusório.
Questiono muitas vezes: por quanta mágoa passei, sem a notar? Por quantas lágrimas passei, sem tentar limpá-las? Por quanta fome passei, sem a saciar? Por quanta pobreza passei, sem ajudar? Por quantas pessoas passei sem as ver?
É o pior tipo de cegueira. Somos todos culpados. E abrir os olhos seria morrer. Tornar mais concreta a dor. Fazer parte dela. Parar algures, entre o ponto A e o ponto B. Ser gente. Fazer sentido. Ter um propósito. Estar na estação à espera. Não do comboio que leva à morte. Mas das pessoas. E embarcar com elas. Não pelo destino. Mas pela viagem. 

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 6 de junho de 2017

Rosas



São. Rosas. Senhor. 
Sementes de bondade. É isso que se esconde nos bolsos das pessoas. Que obrigam o rosto a ser sério. E os passos a ser mecânicos. E o pensamento a ser mudo. Cavam nos bolsos espaços onde atiram. Sementes. De bondade. Ninguém quer ser bom. Toda a gente sabe que o mundo não é dos bons.
Folhas de empatia. É isso que se esconde nas algibeiras dos fatos. Empurrando suavemente a emoção para o recanto mais encardido, onde talvez se macule e esconda dos olhares. Passos dados na realidade de uma luta até à morte. Ganha sempre o eu. Em vez do outro. Além do outro. Apesar do outro. Por cima do outro. Não importa. Cada ombro é degrau na escada que se pisa na ascensão. E cada rosto é pegada atrás de nós. Importa chegar primeiro. Seja como for. E ficam na algibeira. Folhas. De empatia. Ninguém quer ser pôr-se no lugar do outro. Toda a gente sabe que o mundo não é de quem o faz.
Pétalas de sinceridade. É isso que se atira para o fundo das bolsas. E lá se esquece. À medida que se avança, mentira a mentira, passo a passo, na direção do que pode ser um amanhã melhor. O preço da realidade é a ilusão. E é na ilusão que pende esse teor mais ou menos imoral que se estende e parece tão certo. Dizer que não. Dizer que sim. O que convier. Porque toda a gente sabe o que é. Não importa o que é. Importa o que se quer que seja. O enfoque da beleza na decadência e da excelência na mediocridade. Digamos o que se deve. São políticas de correção. Mais velhas que o próprio tempo. E no fundo da mala. Pétalas. De sinceridade. Ninguém quer ser verdadeiro. Toda a gente sabe que o mundo não é dos sinceros.
Vagens de emoção. Regadas a gasolina e queimadas nas lixeiras. Com o cheiro nauseabundo do medo de que se agarrem à pele. Muros e muralhas constroem. Antagonizando essa tal de emoção que é destrutiva. Por vezes, fatal. E avança-se pelas ruas, escondendo qualquer nuance de sentir. Motivados, dedicados, autómatos programados para realizar em catadupa a mesma série mecânica de movimentos produtivos. Escaladas ascendentes e despidas de fogo. Promoções que são contratos onde se analisam as cláusulas com desprazer. Sem celebração. Ou com celebrações que são copos vertidos até a garganta se anestesiar e não sentir o ardor e as papilas gustativas dizerem que o acre do malte sabe bem. Em cinzas. Vagens. De emoção. Ninguém quer emocionar-se. Toda a gente sabe que o mundo não é de quem sente.
E quem tira dos bolsos a bondade. Quem revela traços de empatia, vertendo da algibeira. Quem rasga as malas para deixar fugir palavras de sinceridade. Quem rega as emoções com água em vez de gasolina. Não é deles o mundo. Somente a rosa. Uma rosa que é pão e que alimenta uma sociedade que morre de fome perante a tenacidade politicamente correta dos tempos das trevas.
Perguntam a esses. Onde pensam que vão. O que pensam que têm. E consta que nos lábios sinceros se esboça um sorriso. Que se estendem até ao lugar do não entendimento para compreender o incompreensível. Consta que toleram a crítica das palavras. E que estendem a mão.
São. Rosas. Senhor.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 31 de maio de 2017

E se



Fica – a incerteza. Prende-me ao chão. Sela-me os passos com ambiguidades. E elas parecem gelo. Ferro. Pregam-me à pedra. E dizem – fica – não querem que vá?
Fundo-me com o gesso. Das paredes. E com a cera. Das velas. E com o aroma florido. Do ar. Não sou primavera. E é aterrador. O som do vento. O cheiro das rosas. Peço, imploro. Em silêncio. Com medo que ouçam. Não! Não quero ir. Há um Universo pardacento de ses no caminho. Como espinhos. Como maldições. Estou descalça e tenho os pés presos ao chão. Não quero ir.
Vêm as vozes. Sempre cantadas. Num eco. E se. E se. E se. Abano a cabeça. Agarro-me a mim própria. Um abraço de dedos inusitados, cujas unhas furam as carnes meio flácidas dos braços, à procura do conforto. É um terror que não se explica. Que alastra. Perdura. Lamenta o invisível que vem depois.
E as vozes – Tenta. Podes falhar. Podes cair. Mas tenta. – Vou cair. Sei-o. Mas elas não. – As quedas não te põem só mais perto do chão. Também te põe mais perto do objetivo. – Talvez. Mas custa ir. Não sei o que vem. Não sei o que está. E se não chega? E se. E se E se.
Um mundo feito de dúvidas, lá à frente. E uma morte tão certa aqui. As questões que se levantam. E que não se respondem sozinhas. Nem acompanhadas. Nem de outra forma qualquer. Lançam-se cartas de vento sobre a minha mesa de terra. E fluo na sua direção. Tento encontrar calor nas suas revelações. Etéreas. Incertas. Ninguém sabe o amanhã. Ninguém sabe se amanhã o eco não se repete. E se. E se. E se.
Sinto o flagelo da dúvida a aguçar-me as feridas. E há demasiado passado no meu presente. Demasiado pouco presente na construção do futuro. E as vozes. – Tenta! – Talvez. Mas e se?
Mostram-me os pés. Pregados ao chão. E eles sangram. Tanto ou mais do que sangrariam num caminho de espinhos. Mostram-me as marcas das unhas na pele. – Não são abraços. – São ambiguidades. E mostram-me a dúvida. Que me prende a ferro e me confina ao espaço onde a morte é destino certo.
Rebento com o chão e com a parede. Num grito. E embate contra mim a pedra. Embate contra mim o fogo. Embate contra mim a vontade de ir. À procura do futuro. E do destino dos “e se”, seja ele qual for.
Vou. E se? Bem. Se eu tentar – é assustador – poderei encontrar a falha que me fará cair no mais fundo dos abismos. Mas se não tentar – esse é o pior destino – serei eternamente escrava da dúvida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 23 de maio de 2017

Nas redes sociais



Olá. Esta sou eu. Eu e a minha vida perfeita. Com a minha casa perfeitamente organizada. E o sorriso sempre no rosto. Uso sempre maquilhagem. Diria mesmo que acordo assim. Com lábios ora rubros, ora rosa, sempre perfeitamente delineados, com cuidado e devoção. Tenho a relação perfeita. Com o homem perfeito. E, claro, ponho sempre sobre a mesa as maiores, melhores e mais saudáveis iguarias do mundo. Olá. Esta sou eu. Bem-vindo ao mundo das redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Tenho centenas de amigos, com os quais partilho uma vida ativamente devotada à diversão. Juntos somos um clã empreendedor e criamos as melhores coisas. Temos dias dedicados à cerveja e dias dedicados à filantropia. Somos tudo aquilo que quem não é quer ser e muito mais. Somos sorrisos que se juntam e se exibem. E arte que se faz e publica. Vamos a todo o lado. Somos sempre os convidados de honra. E cada vitória tem a maciez da promessa. Amanhã há mais. Procurem nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Adotei três gatas, ao longo dos anos. E todas são pequenos pedaços de paraíso. Dormem sossegadamente. Fazem expressões engraçadas. Perseguem as imagens da televisão e caçam peluches. Há fotos e vídeos. Confirmem. Elas são verdadeiras estrelas em ascensão no mundo digital. Elas são perfeitas. Nunca fazem nada que não devam. Podem conferir. Está estampado nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Eu e a minha vida perfeita.
Bem-vindo ao mundo das redes sociais.
Olá. Esta sou eu. A minha vida não é perfeita. Tenho três trabalhos e nem sempre consigo geri-los. Muito menos consigo geri-los e ter a casa organizada. Sorrio muito. E choro muito também. Sou menina de choro fácil. Quando estou triste, quando estou cansada, quando me irrito. Choro. E isso limpa muitas vezes a maquilhagem que insisto em pôr no rosto, por nem sempre conseguir lidar com a cara lavada onde se imprimem olheiras e sardas de verão. Tenho uma relação com o homem dos meus sonhos. O meu melhor amigo. E, com ele, vivo dias melhores e dias piores, como toda a gente. Às vezes não conseguimos parar de nos abraçar. Às vezes não conseguimos parar de discutir. E não! Na minha mesa não há só iguarias de aspeto invejável. Também erro receitas. Também parto bolos ao desenformá-los. Também cedo ao desejo de comprar pizas congeladas para o jantar. Olá. Esta sou eu. Além do que se vê nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Que consiga contar agora, de repente, (e se não contarmos com a minha mãe e o meu companheiro), tenho menos amigos do que dedos das mãos. Raramente estou com os que tenho. Sou bicho-do-mato. Odeio cerveja. A minha última boa ação deve ter sido comprar alguma coisa mínima para o banco alimentar. E não o fiz com os meus amigos. Fiz sozinha e a correr. Não duvido que algumas pessoas quisessem ser eu. Mas duvido muito que a troca lhes fosse favorável ou que as animasse. As vitórias têm um preço hoje. E outro amanhã. Um que não está nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Tenho três gatas. Amo-as de paixão. Apesar do pêlo que não pára de cair, dos cabos que não param de roer, da comida que roubam sempre que não a ponho a descongelar dentro do forno. Uma delas tem tendências violentas e não a posso juntar com as outras. Outra, por trauma ou teimosia, só vai ao caixote uma vez por festa. Outra obriga-me a mudar tudo para um patamar elevado para não ter cacos para varrer a cada dois segundos. Todos os dias a ginástica das portas fechadas para evitar que se matem drena a energia vital. E tratá-las em separado obriga-me a levantar mais cedo. E sim! São adoráveis, à parte disso. E também dormem. E também fazem expressões engraçadas. Mas não são sempre fáceis. Nem na maioria das vezes. Mas não se vê nas redes sociais.
A imperfeição contorna-se nos limites da moldura da foto. Eu e a minha maquilhagem e a minha refeição somos perfeitas. A minha vida social é perfeita. As minhas gatas são perfeitas. Vivemos nesse universo que cabe perfeitamente nas mãos de quem segura o telemóvel ou o computador. Perfeitos. Bem-vindo ao mundo das redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Eu e a minha vida perfeita. Nas redes sociais.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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#fakingperfect #nasredessociais

terça-feira, 16 de maio de 2017

Opinião



Troca por troca. A minha opinião pela tua. A tua pela de alguém. Vice-versa. Troca o passo. Roda e bate palminhas. Opinião. A minha. A tua. A dele. A nossa. Façamos silêncio. Concordamos. Tu e eu. Tu e ele. Ele e alguém de quem eu discordo. Mas é só a minha opinião. E a tua. E a dele. Temos algo em comum.
A vulgarização do amor e do sexo não é nada demais quando comparada à vulgarização da opinião. Diria mesmo que o negócio mais falho do mundo é o do mercado de opiniões. Há quem pague o amor. Há quem pague o sexo. São mercados que vendem, nas ruas e no cinema, muito mais do que alimento. Mas ninguém compra opiniões. Porque toda a gente as dá. São mais vulgares do que o ar. E mais comuns do que a água potável ou não. São tão drasticamente cedidas que existe quem opine sobre a opinião feita sobre outra opinião qualquer. Toda a gente a dá e toda a gente a tem. Convenientemente há quem tenha mais do que uma. Sobre a mesma temática. Depende da opinião alheia.
Dá-se. Por aí. Gratuitamente e sem ninguém pedir. É muito mais do que uma prostituição mental. Porque se fosse prostituição valia alguma coisa. E não vale. Porque não é mais do que uma oferta cedida sem razão aparente. Uma espécie de conhecimento mas sem conteúdo. Uma espécie de malícia mas sem efeito. Uma espécie de espaço vazio mas onde não cabe nada.
Opinião. Construída sem peças. Ou com meias peças. Mas quase sempre sem que a peças. Porque quando se pede. Ai, quando se pede ninguém sabe. Ninguém viu. Ninguém tem. E faz o que quiseres, por favor, que não quero ser culpado dos teus infortúnios. Mas se não pedes. Deuses. Opiniões. Como gotas de chuva. Na maior das tempestades. Dilúvios de cloaca. Caídos dos céus da boca de alguém que sabe globalmente sobre todas as temáticas. Divinamente.
Mesmo quem nunca viu e não sabe. Ouviu dizer. Acha que. Qualquer terminação. Não importa. Porque é mais vergonhoso não ter opinião do que não ter razão. Porque é mais vergonhoso não ter opinião do que não ter vergonha. Pior mesmo é ter opinião e não querer dá-la. Porque a palavra é precisa e o mundo pode desalinhar no silêncio.
Troca por troca. A minha opinião pela tua. A tua pela de alguém. Vice-versa. Troca o passo. Roda e bate palminhas. Temos opinião. Devemos ser gente. Mas há quem seja da opinião que não somos. E quem tenha a opinião que essa opinião é parva. E quem tenha a opinião de que opinião não deve existir.
Existe. É o mercado mais falho de todos os tempos. Excepto para quem integra os mercados onde a opinião se difunde para criar opiniões. Aí chega-se a uma qualquer presidência opinativa e pode-se avançar para a apanha da roupa alheia nos quintais que são ruas onde as pessoas caminham cheias de opiniões. Mas fora isso. Não. A opinião não é mercado que funcione. Ninguém compra opiniões. Toda a gente as dá. Quem não a tem rouba aos outros. Repete. Tem por opinião que a opinião alheia serve o propósito da vida.
E quem pede silêncio? Opinativamente, por favor calem-se. Ouve logo. A opinião. E os direitos, senhor? E o direito de ter, de dizer, de mostrar que há opinião? Não! Não há espaço para silêncios no mundo da concretização opinativa.
Tenho para mim que a opinião é a matéria que conduz o espaço e que é por isso que andamos sempre à roda do sol. Não aprendemos outro movimento que não o circular. Opinativamente circular. Sempre à roda do mesmo. Vez após vez, após vez.
Talvez seja certo. Talvez faça sentido. Parece-me bastante rudimentar. Parece-me estúpido.
Mas, bem… é só a minha opinião!


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 9 de maio de 2017

Maiores de 18



Atentem, crianças. Está na hora de dormir. O que vem não é para os vossos olhos. Passou a hora dos desenhos animados sobre o herói que mata o vilão. E a hora das notícias. Já canta lá fora a coruja. Anuncia que vem um filme depois. Mas não é para vós. Não. Agora, é hora das pessoas crescidas tomarem o controlo da televisão. Que se faz tarde. O filme tem a rodinha vermelha no canto. E fala de envolvimento. Tem cenas recheadas de pudor. Ide. Ide dormir. Agora é só para maiores de 18.
Fica o silêncio. Enche-se de imagens. As imagens são o silêncio. De olhos colados à tela onde se fala de paixão. E os corpos acabam por se dar. Ocasionalmente despidos, em lençóis de linho. Há mãos a seguir as linhas da anca, lábios beijando a curva do pescoço, unhas cravadas nas costas… lascivo, devasso, sofregamente inadequado. Sussurros sobre amor eterno.
Ainda bem! Ainda bem que foram dormir. Sem ver. Sem ver esses corpos nus a digladiarem-se no leito, na procura da plenitude dos sentidos e dos sentimentos. Que vergonha. O amor não é para menores de 18.
Não! O amor não é como a guerra, que pode passar em horário nobre e encher de imagens banalizadas o ecrã onde os avisos sobre a intensidade do filme nada fazem senão de teaser para o que vem de seguida. Mas não faz mal. A guerra. Que vejam a guerra. O mundo não é um mar de rosas. Convém que todos saibam. Mesmo que o saibam com balas e poças de sangue no chão. Mesmo que o saibam com crianças cobertas de cinza a fitar o céu de olhares perdidos e sem luz. Mesmo que o saibam no cadáver ensanguentado do idoso morto à paulada por ter passado na rua errada, à hora errada. É o mundo em que vivemos. Convém que vejam. Em qualquer idade.
Mas o pivô despede-se. E leva a guerra consigo. E deixa o relógio juntamente com a rodinha vermelha no canto superior esquerdo, para ditar que não é hora de estarem acordados os mais jovens.  Não convém que vejam. Podem fazer perguntas. Causa desconforto explicar. Evite-se o desconforto de dizer que as pessoas se partilham para dar de si e receber do outro. Amor. E que é assim que as pessoas se fazem. Dando ao outro. É melhor que não haja explicações. Ide. Ide dormir, antes que o amor preencha a tela. Lascivo e eminentemente perigoso.
As imagens saltam. Subitamente, misturam-se umas com as outras. É a alça de cetim, que cai no braço. E a bala que voa e passa de raspão. E o toque dos dedos, a arrepiar a pele. E o lábio passado na lâmina que degola o inimigo e o deixa a esvair em sangue. E o grito de prazer. O grito de dor. A intensidade. A devastação. Tudo somado, assemelhando-se ao toque de um amante. Tudo somado, assemelhando-se ao arremessar de uma granada.
E as crianças vêem. Primeiro. E as crianças são mandadas para a cama. De seguida. Para não verem o que vem depois de terem visto o que já veio. E vão. Levam a guerra. E só. Porque lhes vedaram o amor.
É um universo construído pela atrocidade feita banal e a partilha feita tabu. Queremos mais amor e menos guerra. Mas fazer guerra causa menos embaraço do que fazer amor. E é por isso que mandamos as crianças para a cama. A guerra é para todos. O amor é para maiores de 18.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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domingo, 7 de maio de 2017

Legado


Para a minha avó e para a minha mãe


Carregaste a minha mãe no ventre
E, por legado, ela carregou-me a mim:
O início de uma história permanente,
Que se vinca em toda a gente
E que nunca tem um fim.

Carregámos, juntas, a amargura
Todas, três, segurando a imensidão
Na fraqueza, fui-me sentindo segura
No viver dessa ternura
Que sempre foi o meu chão.

Carregaste a minha mãe contigo
Por sorte, ela ensinou-me a amar.
No centro desse legado antigo,
Em cada conselho amigo
Eu aprendi a sonhar…

Carregaste em ti a minha mãe
Eis uma história sem fim
Um legado que hoje conheço bem
E que tento honrar também
Carregando-vos em mim…

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Morto



De corpo inerte,
Lábios azuis,
Olhar vítreo:
Finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.

Exangue, frio,
Deserto, estendido,
Na sombra verde do cipreste:
Finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.

Não pode rir,
Não pode chorar;
Nem sentir,
Nem acordar.
Finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.

A verdade é natural,
Óbvia de tanto estar escrita,
Mas ele finge que está vivo
Promete que vai ficar bem
E toda a gente acredita!
A mentira é mais bonita
e não faz sofrer ninguém...

De corpo inerte
Olhar perdido,
Estendido, além…
Ele finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.
O mundo acredita...
... e ele também!

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 25 de abril de 2017

Dona Liberdade



Levo balas cravadas no peito e cravos nas mãos. Trago canções nos lábios. Um quase nada fora de tom. Ninguém nota. E por ninguém notar sou livre. Livre nesta vontade de mostrar apenas os cravos e esconder as penas que, feito balas, continuam a avançar, devagarinho, na direção do meu coração.
Não quero tê-lo. O coração. Tenho o direito de não ter coração. E o direito de dizer que não o quero. E o direito de obrigar os outros a ouvirem-me. Roubando-lhes a liberdade de não ouvir. Mas não importa. Sou livre. Livre de não querer sentir. Livre de fechar os olhos à vida, que é feita de armas, e de os abrir para a ilusão, que é feita de cravos.
Deito-me sobre a cama desfeita pelas mãos de um soldado chamado Acaso. Ele tomou a liberdade de fazer a cama onde me deito sem me deixar escolher os lençóis ou a colcha. Temperou-me a noite com um colchão de espinhos e disse que era livre, livre de ter um sono tranquilo. Obrigada, liberdade, vou dormir então. Nesses lençóis de fel, nessa colcha de agrura, nesse colchão de espinhos. E há-de ser um sono suave. Cheio de sonhos tranquilos e de lágrimas contidas no riso tépido.
Levo balas cravadas no peito e cravos nas mãos. Ofereço as balas e vendo as flores. Ninguém quer o que é dado. Pagam-me os pés de flor. E deixam cada vez mais a nu a ferida do meu peito. As pessoas olham para a ferida. Mas não a vêem. Vêem as nódoas do avental perfurado. E é disso que falam, à medida que levam as flores. Aceno-lhes. Tenho a liberdade de acenar. E dizem que é sorte. Podia não ter mãos. Ou braços. Mas tenho. E aceno. Livre.
Já sem flores, fico só com as balas. E vou pelos caminhos ladrilhados das pedras às quais não perguntaram se queriam ser pisadas. Mas elas são livres. Livres de não terem um padrão definido na calçada. Como nós. Pelo caminho, vejo os mundos do mundo. Os sacos carregados de quem livremente se deixa deambular por entre montras ricas. Os potes vazios de quem livremente dorme sob as estrelas.
Os artistas tocam. Têm talento. E alguma fome. E a liberdade de cantar canções polémicas nos cantos das ruas, com o saco da guitarra aberta e meia dúzia de trocos para comprar um pão algures, no fim do dia.
Limpo as mãos ao avental, tentando retirar a camada de ironia que se amontoa nesta minha completa liberdade, que agradeço, por medo de que julguem que me inclino para os extremos da vida. Livre, mas não tanto, suponho eu. Só um bocadinho. Se calhar nem um bocadinho. Mas digamos que sim. Vamos fingir que sim. Senão…



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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