terça-feira, 17 de julho de 2018

Je suis perdu




Foi há muitos anos atrás. No seio frio de um país estranho. Acompanhada por duas crianças que ainda mal dominavam o português, que eu insisti, pela primeira vez, numa ideia: “Je suis portugaise et je ne parle pas français. Je suis perdu.”
Elas aprenderam as palavras, sem saberem bem o que significavam. Pela repetição. Como as crianças sempre aprendem. Mas e eu? Será que eu sabia o que elas significavam?


Dou por mim. Hoje. No seio do meu próprio país. Adulta – serei?! – e a pensar se domino palavras e emoções. Se compreendo, de facto, o que se esconde por detrás delas. O que as transforma em mais do que formas codificadas numa ilusão feita de papel.

Há, no meu peito, dimensões de inexplicável que são como uma língua estrangeira que eu não domino. E salta-me, nos ouvidos, novamente a expressão “Je suis perdu.”.

Compreendo hoje que não sabia, na altura, o que significava a frase que ensinei. Era só uma adulta a aprendê-la pela repetição, como se fosse criança, tentando ensiná-la para acautelar o medo do improvável.

Prevenir uma situação em aquelas crianças pudessem ficar em perigo tomou a forma de uma frase que eu não sabia entender. “Je suis portugaise”… eu sou portuguesa… “et je ne parle pas français”…  e eu não falo francês. Até aqui, eu entendia. Mas faltava-me a estrutura emocional para compreender o que significava o resto. Faltava-me o abalo que só a vida pode trazer para explicar verdadeiramente as palavras. Essas palavras. “Je suis perdu”.

Sinto-me, hoje, de pés postos no conhecimento dos dias, que me trespassa, qual idioma antigo e morto, um sentimento de alheamento a mim mesma. Como se os passos me afastassem de mim. De ti. Do sonho. Do que eu possa querer sonhar. Não sei bem de onde vim. Não faço ideia de como aqui cheguei. Sigo. E não sei para onde. Não sei porquê. Não sei por quem. Je suis perdu.

Pela primeira vez compreendo. Sem ninguém que me repita a frase, para que a decore. Intrinsecamente. Compreendo o que significa. Estar perdido. É como ser eu a criança nas ruas de Paris. Subitamente, não é como se não conhecesse a rua e não tivesse as mãos quentes dos meus pais. Subitamente, é como se não tivesse ruas. Como se Paris tivesse sido roubado debaixo dos meus pés e caminhasse na bruma etérea do Sena. Não falo esta língua. Não sei de onde sou. Peço ajuda. Je suis perdu. Je suis perdu. Mas ninguém ouve. Não há ninguém para ouvir.

Cada passo é uma queda no abismo. Je suis perdu. E cada abismo é um salto na esperança que se esgota. Je suis perdu. E cada palavra faz um sentido novo nesta senda de nada fazer sentido. Je suis perdu. Je suis perdu.


Foi há muitos anos atrás. No seio frio de um país estranho. Acompanhada por duas crianças que ainda mal dominavam o português, que eu insisti, pela primeira vez, numa ideia: “Je suis portugaise et je ne parle pas français. Je suis perdu.” Elas aprenderam as palavras, sem saberem bem o que significavam. E eu também não sabia. Não sabia o que significava. A frase. Essa frase. Je suis perdu. Agora sei. E quem me dera não saber.





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terça-feira, 10 de julho de 2018

Neste frio




Um frio que me entorpece. Beijo de água na pele. Beijo de sal na pele. Sorrio. Sorris de volta. E eu sinto a alma gritar. Será que vai ser sempre assim? Pergunto e ninguém responde. E há o frio. Que me entorpece. Beijo de água na pele. Beijo de sal na pele. Para que nela não cresçam agruras e cicatrizes.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Apetece-me fazer tudo o que eu não faria. Para me esquecer de que eu sou eu. Porque esse “eu” que te ama tem de encontrar em si um “eu” que não te ame. E não é fácil. Descubro, nos trilhos que eu não trilharia, que não só amo o caminho como amo as tuas pegadas e as nuances de Natureza que me recordam de ti.

Estás em toda a parte. Assombrando as águas e as marés. E os caminhos de terra. E os caminhos de alcatrão. Fumegando na cidade recheada de barulhos metálicos. Ouço-te, feito canção, e odeio tudo o que escrevo. Porque saltas nas palavras, carnívoro e canibal, alimentando-te das pontas dos meus dedos. Sinto-me roubada nas palavras. E odeio as palavras porque todas são o teu nome. E todas soam ao eco imortal do amor quente da tua voz. Nesse último “agarro” que se sumiu nas minhas noites.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Em alguns dias, a solidão tem a tua forma. E noutros não tem forma que se descreva. Entre uns e os outros não existem dias. Apenas negrumes imaginados sobre o que o futuro podia ser e não é. Escrevo milhares de notas de despedida na minha cabeça. Passatempo imoral, aos pés de quem me quer bem. E, ainda que mentalmente, rasgo as notas e a ideia de partir. E vou ficando, como ficam os restos no canto do prato depois do banquete. Quando tudo é sujidade e trabalho, misturado com cansaço e melancolia. Vou ficando. E nunca é por mim.

Anseio pela partida que não reclamo. Imagino-a como o único dia feliz que terei de agora em diante. E sei que é irracional. Mas é difícil ser racional quando metade de nós é dor e a outra metade se foi. Ficou um frio que me entorpece. Até nas ondas dos lençóis da única metade da cama que se desfaz. Até nas ondas do mar. Amantes frias. Que me beijam a pele saudosa e infiel. Essa pele que me trai com a necessidade de ti. Contigo ao lado e do outro lado do mundo.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Como quando não estás.

E quero agarrar-te num abraço. Desligar nele a humanidade tardia. E nunca mais ser.

Entorpecer neste frio. Pele de água e sal. Desaparecer neste frio. Deixar que me gele até o coração. Para não doer, ao menos por um bocadinho.

Para poder sorrir-te de volta. Quando me sinto morrer.




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quarta-feira, 4 de julho de 2018

O brilho dos teus olhos



Quem rouba o brilho dos teus olhos. Uma história de ódios sem nome, construídos na desonra do tempo que não passa e sempre retorna ao amanhã. Um sopro de dor. Que se veste de sonho. E se deixa cair na ilusão irregrada. Até não saberes. Até não veres. Até negares. Que o tens. Que alguma vez o tiveste. O brilho nos olhos.

Mas tu tiveste. Eu vi. Eu sei. Ainda que não vejas. Ainda que não saibas. E tenho medo. Por ti. Pelos teus olhos. Esses onde alguém insiste em beber luz. Drenando brilhos. Drenando sonhos. Transformando tudo em poeira. Baça. Macilenta. Cheia de nadas que se somam e se somem.

Dos espaços carregados entre dedos que se abraçam até embranquecerem. Com as lágrimas que se secam e se fazem chuva de verão. Com os poemas que se calam nos silêncios sossegados ou desassossegados do peito em chamas. Conceitos. Todos em forma de gente. Mas sem humanidade que reste. À medida que se alimentam, aos poucos, dos fragmentos desiludidos de ti e das tuas ilusões. Roubando. Tanto. Quase tudo. Juntamente com o brilho. Aquele que tinhas. E que trazias. Nos teus olhos.

Quem rouba o brilho dos teus olhos. Por falta de brilho; ou de brio; ou de coração. Uma história de morte que se dá nos batimentos de um coração. Que diz amar. Mas que ainda não aprendeu que o amor não existe senão numa partilha entre iguais. Que se querem. Que se completam. Que acendem o brilho nos olhos, em vez de o apagar.

Dói. Eu sei. É um entendimento que supera as palavras que nunca dizes. Um entendimento que só tem quem se espelha e reconhece, num rosto, outro rosto. Onde os olhos perderam o brilho.

Não tenho pena de ti. Nunca vou ter pena de ti, embora te saiba vítima de bestas e lanças de desamor. Porque te sei gente. Porque te sei forte. Porque sei que podes reacender o brilho dos teus olhos.

Não é hoje. Não é agora. O mundo peca mais por demoras do que por falta de ação. Mas virá. O dia. O dia no qual o brilho roubado será arma. Explosiva. Nuclear. Transformando as mãos que roubam num despojo ensanguentado e em cacos de carne pelo chão que pisas. E, delas, estrelas ascendentes serão luz. Voltando ao seu lugar. Na pureza de ti.

Preocupa-me que a hora tarde e os danos que a sua tardia prece deixa na mágoa de ti. E cria-se, por isso mesmo, um ódio muito simples por ela. Essa pessoa. Essa que rouba o brilho dos teus olhos.

Fico a pensar. E se os teus olhos, que eram todos brilho, não lembrarem mais? E se nunca mais seguirem a dança dos teus lábios? E se nunca mais sorrirem, feito pequenos sóis, no inverno das ruas sempre frias da humanidade? Mas não deixo que o medo me apague a fé da mesma forma que apagou o brilho. Esse. O dos teus olhos.

Levo em mim mil feitiços. Proteção desajustada de sal, sangue e sálvia. E prometo a minha alma ao sol, numa prece para que também os teus olhos o sejam. Abraço a honestidade das coisas frias e sei. Sei quem rouba o brilho dos teus olhos. E por isso sei que lhe hão-de queimar as mãos. Porque há coisas que não podem ser apagadas. Nem usadas. Nem manipuladas. Mesmo quando se roubam. É teu. Esteja onde estiver. O brilho. Esse dos teus olhos. Que alguém roubou.

Quando o quiseres, vai ser teu outra vez.

Até lá, meu amor, para que não te ensombrem os olhos que choram, fica com o meu.



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 26 de junho de 2018

Campo minado




As memórias são como minas terrestres.

E cada pegada é memória disso mesmo. Não eras o meu chão. Nem os meus pés. Talvez uma espécie da sapato.Com sola grossa e salto alto. Que me magoava e me torturava nos passos. Mas que, de alguma forma, também me engrandecia e fazia sentir mais bonita.

No campo minado de uma vida sem ti, meio deserta, meio arenosa, vou descobrindo que consigo andar. É verdade. Vou descobrindo que consigo correr. Vou descobrindo que consigo dançar. E é sempre num passo estável deste solo poeirento que descubro a força inevitável da decisão que é ser feliz.

Mas, de repente. Merda! De repente o pé assenta. Na memória. E explode tudo.

Pode ser pela agenda onde o teu nome ainda ondeia, em planos que não vão acontecer. Ou no estúpido do calendário que não sabe saltar do 5 para o 7. Ou no risotto de cogumelos e espargos que traz o teu sorriso pendurado no canto da panela.

De repente. O pé assenta na memória. Bang! Uma explosão que me arranca a alma e a dilacera. E uma nuvem de fumo que me deixa sem ar. Pedaços de mim por toda a parte. E vidro líquido, que escorre dos olhos e espelha passados.

As memórias são como minas terrestres.

Não existe passo que não seja incerto. Nem atalho que impeça os encontros. Está nas coisas mais pequenas. No elefante pousado no chão. No café matinal. No travo aveludado dos vinhos. No sabor do mar ao tocar a pele. Na posição adormecida que ainda entoa “agarra-me”. Na paisagem à porta de casa dos meus pais. “Não vás”.

O amor que acaba deixa de ser um campo florido e passa a ser um campo minado. Cada memória é uma mina terrestre. Quando se ama quem partiu, cada passo é risco de memória. É preciso ter cuidado com o local onde pomos os pés. Porque é a vida que nos pisa, quando tudo explode.

Não tenho medo de pensar em ti. Mas a recusa do sofrimento tem mais do que estradas de concreto. Assobiar melodias não apaga os perigos. E eles estão em todo o lado, porque, de alguma forma, durante muito tempo, reduzi os meus dias à ideia de nós. Esgotou-se o “nós” e fiquei eu. As memórias são como minas terrestres. E o caminho é longo.

Se podia parar? Podia. Mas eu nunca desisti de nada.
Não desisti de tentar.
Não desisti do amor.
Não desisti de ti.
E, certamente, não vou desistir de caminhar só porque a vida colocou no caminho recordações que se tornam explosivas com o som da tua desistência.

As memórias são como minas terrestres. O caminho é longo. Mas, se atrás deixo pegadas e sangue, faço-o pela possibilidade das memórias que ainda não criei.

Quem sabe. Talvez essas sejam flores.





*Imagem retirada da Internet



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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Nuvens à espera



Estou farta de te ter colado à sola das minhas sapatilhas como se tivesse pisado uma pastilha elástica. Sinto que aprendi a andar sozinha. Sinto que aprendi que posso voar. E ainda me colas ao chão. Há jardins de insanidade por explorar nas nuvens. Deixa-me ir.

É uma sensação estranha, feita de uma palavra que pulsa digitalmente e nunca se transfigura em carinho concreto. Mas que me cola os olhos ao ecrã. Até amanhã. No hoje. E no bom dia que não é bom. Pulsa. Pisca. Olá. E as nuvens à espera.

Estou farta de te ter na distância segura de poderes voltar. Como se um passo de proximidade assustasse e um passo a mais te roubasse o fôlego. Meu menino, acorda. Eu não sou ar para ninguém. Nunca fui. Sou sufoco. Será que tens saudades do fôlego que te roubava? Daquele perdido em beijos intensos, por entre o suor e as palavras de desejo? Ou daquele que quase te roubou a alma e te fez esquecer quem eras? Eu não sou ar. Não me respires. E não me impeças de respirar. Deixa-me ir. Há sonhos por sonhar. Nas nuvens.

Demoras o olhar quando pensas que eu não noto. E eu finjo que não noto até não notar. Algures, de garrafas nas mãos, sorrimos o fresco de gargantas humedecidas e doces, porque a vida já pouco tem de sabor, embora esteja refrigerada no limite do congelamento. E constatas o óbvio. E eu rio do óbvio. E as nuvens passam com o vento. À medida que os ponteiros troçam. Não usas relógio. Eu também não. Parámos na ideia do amanhã. E já passaram dezenas de amanhãs. A piada óbvia deles, somos nós. E deve ter mais piada do que as tuas e as minhas. Essas das quais as nuvens fogem.

Estou farta de te amar. Estou farta de te amar sem poder dizer que te amo. Como se tivesse engolido silêncios e vácuos em cima dos sentimentos. E me engasgasse neles cada vez que abro a boca. São passos calados. Passos calejados. Com pés que me colam ao chão. E que não sonham já voar até às nuvens.

Faço compromissos comigo mesma e estou presa a ti. E não penso que estou presa a ti, porque tenho esse compromisso comigo. E ando às voltas da história eterna do que eu não sou. Olhando as nuvens. Fechando as asas. Eternas possibilidades. Que não o são. Não contigo colado a mim.
Estou farta. Farta de te ter colado, feito pastilha elástica, à sola das minhas sapatilhas. Deixa-me em paz.

Descalço-me. De ti. Despeço-me. De ti. Adeus. As nuvens estão à espera. 

(E nunca me abandonaram).





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 12 de junho de 2018

A minha gata




Há uma presença na minha casa. Dá passos sofisticados e calmos. E passa despercebida a quem não sabe. Depressa se faz sombra num canto e desaparece. Depressa se deixa ficar adormecida num espaço qualquer ou se silencia, absorta, fixando o tudo e o nada, fora da janela. E tem sempre uma postura feliz. Seja na contemplação ou na brincadeira. Não fala e não escreve. Na maioria dos dias, simplesmente está e existe. Nesta simplicidade, ensinou-me muito sobre a vida.

Costumo sair cedo. Mais por hábito do que por obrigação. Deixo para trás uma taça cheia de água e outra com meia dose de comida. Despeço-me em voz alta, como se ela respondesse. E ela espreita-me, geralmente do quarto, girando a cabeça para o corredor e soltando um miado. Imagino que me diz “não vás”. E penso sempre que, no regresso, amuada e triste, por um qualquer tipo de despeito, me vai ignorar. Mas volto para ela. E ela espera-me à porta. Encosta-se às minhas pernas. E corre à minha frente, para onde quer que eu vá. Celebra a minha presença, incapaz de me guardar rancor pela ausência. E deita-se no meu colo, implora pelas minhas festas, devolve-as em lambidelas de lixa e com cabeçadas pontuais. Ela ensinou-me sobre o apego desinteressado. Sobre como receber alguém que se ama. Como cultivar afeto onde poderia haver ressentimento. E faz da minha casa um lar, cada vez que volto, à espera de encontrar paredes vazias e divisões silenciosas.

Eterna menina negra, ela não se deixa crescer. Dos brinquedos espalhados pela casa faz companheiros de viagem, que começam a ter nomes. E vai, desta forma, permitindo que me habitue a outros ritmos e outras vontades além da minha. Tropeçar em mini peluches e em collants rotos que ela não me deixou deitar fora torna-se comum na minha casa; tal como se torna frequente que eles me sejam depositados em cima das teclas do computador, para jogar “ao busca”. Tentei dizer-lhe que ela não é um cão. Mas ela não percebeu. Porque não conhece o preconceito nem os estereótipos. Quer apenas brincar “ao busca”. E, brincando com ela, eu aprendo que os rótulos são uma idiotice da nossa cultura.

Quando a vida atormenta, cansada e despida de energia, dou muitas vezes por mim a brindar a solidão com gotas de lágrima sobre a cama. Ou simplesmente no olhar seco sobre as paredes e as lombadas dos livros poeirentos. Talvez porque ouça muito mais do que fala ou porque se deixe sentir o outro e toda a sua energia, ela sabe quando eu não estou bem. E, logo ela, que me procura sempre por interesse próprio, seja para o carinho ou para a brincadeira, junta-se a mim apenas para dar, sem pedir nada. Traz todas as formas de ternura que conhece. Rodeia-me com os brinquedos dela, sem se mostrar interessada na brincadeira. Sobe-me para o colo e encosta a cabeça à minha. Ou simplesmente senta-se a meu lado, olhando para mim. E há mais entendimento do que dúvida nos seus olhos. Diz-me, sem qualquer palavra, que posso chorar ou não… mas que, de qualquer forma, não estou só. Com estas demonstrações de amizade, ela ensina-me que cuidar de alguém é simples.

Quando calha agitar-se, corre pela casa toda como se fugisse de assombrações, atira ao chão peças metálicas, entorna metade da água e mia em vários tons, volumes e intensidades. E não adianta dar-lhe mais água, mais comida, mais mimo. É um botão encravado no mio que só desliga quando ela quer. Certa vez, miei de volta e ela desapareceu durante meia hora. Foi também uma lição sobre como podemos ofender alguém se não conhecermos o seu idioma e não fizermos ideia do que estamos a dizer.

No final do dia, temo-nos uma à outra. Ela olha para mim como se tivesse sido um bom dia e faz-me sentir que o foi. Acabamos as duas relaxadamente a olhar para o nada. O pelo dela, entre os meus dedos, faz-me sentir que a suavidade da minha história ainda não terminou. Deitada aos meus pés, aquecendo o frio de um verão por chegar e de um sol que se apagou, ela mostra-me o toque da lealdade e do amor. E aprendo, com ela, que a felicidade se escolhe.

Do preto do seu pelo ao brilho da alma que eu sei que tem, não existe nada nela que me seja azar. Sinto, quando me espera à porta, que tenho uma razão para voltar para casa. E sinto, quando volto para casa, que a posso transformar num lar. É a minha companheira e a minha amiga. Torna-se família a meus olhos. Torna-se parte de mim. E, enquanto escrevo este texto, deitada no arranhador junto à janela, ela observa as árvores que se agitam. Não se importa com o vento frio deste Junho. Boceja e revira-se, olhando para mim. Faz um trejeito de miado que se perde a meio, num segundo bocejo, que termina com a língua e um dentinho de fora. Fecha os olhos com leveza. Tudo nela é tranquilidade. Ela ensina-me. Eu aceito aprender. Ser feliz é isto.




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terça-feira, 5 de junho de 2018

O meu erro




O meu erro nunca foi não ter amor. Foi ter um amor que não se esgota em ti. E tentar manter fechadas as asas e fingir que não era dona do céu e do meu destino.

O meu erro nunca foi o egoísmo. Foi dar-me demais e vezes demais, com uma intensidade que me tirava de mim. E precisar de me devolver a mim mesma ao final do dia, para tentar… ao menos tentar… sentir que sou gente.

O meu erro nunca foi não entender. Foi entender mais do que a realidade dos homens. Das mulheres. Dos humanos. Ver além do véu que separa o visível do oculto.

O meu erro nunca foi não mudar. Foi sempre a mudança, segundo a segundo, que se opera em mim, como se eu fosse duas, três, um milhão de pessoas distintas, dentro da mesma cabeça, cantando numa só alma.

O meu erro nunca foi a cobardia. Foi saber o que havia além das peças quebráveis que me tombavam das mãos e não ter medo dos cortes nem fingir que o tinha.

O meu erro nunca foi não saber falar. Foi conhecer a língua dos homens mas escolher a das árvores e falar no idioma das flores, por os achar mais justos e mais plenos.

O meu erro nunca foi a loucura. Foi sempre a sanidade encontrada nos meandros do incompreensível e nas esquinas da imperfeição. E o cuidado eterno pelo que não é linear e estanque. Pelo que é distinto, único, peculiar.

O meu erro nunca foi a falta de compreensão. Foi justamente as coisas que compreendia, mesmo sem saber, numa intuição tosca, modelada no centro do peito, qual plasticina.

O meu erro nunca foi o silêncio. Foi justamente estar cheia de palavras, metade das quais ninguém sabe, metade das quais ninguém pode entender.

O meu erro nunca foi não ser eu. Foi tentar pertencer-te, quando sei que pertenço à floresta.


O meu erro nunca foi um erro. Fui simplesmente eu. A ser eu. Como disseste que me querias.

Nem todas as mãos conseguem apanhar raios de luz.

Nem todos os corações conseguem abarcar raios de sombra.

O meu erro foi achar que tu conseguias.





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 29 de maio de 2018

Deixa rolar



Eu disse-lhe o que sentia. Este desespero de água que criava pressão no meu peito. A forma como parecia que mil punhais me afligiam, sempre pelas costas, tentando fazer buracos no centro das asas negras. O modo como continuava a tropeçar nos meus próprios pés. E como queria, sem conseguir, o tanto que desejo dar um passo. Atrás.

E ela olhou nos meus olhos. E disse. Deixa rolar.

Contei-lhe que me alicias para o abismo das memórias. Mesmo sem fazeres coisa alguma. E que, olhando para ti, encontro o som mudo da moeda de ouro que lancei ao lago na minha infância. Falei da mutilação. Essa que faço ao coração, cortando pedaços a sangue frio, avançando cegamente, tentando arrancar aquele pedaço que te abriga. E como corto sempre ao lado da fluidez do teu ser, que continua a contornar os limites agudos da lâmina e permanecem intactos no meu coração flagelado.

E ela olhou nos meus olhos. E disse. Deixa rolar.

Tentei explicar. A minha alma tem cores e espaços de vazio, que encaixam nos teus. Como se a tua existência fizesse da minha algo que mereça ser. E a minha passagem pelo mundo fosse melhor nos buraquinhos das tuas pegadas. E disse que aprendi a ser feliz com pouco. E que não fui feliz quando tinha tudo. Porque ser feliz era uma aprendizagem que me tinha tardado. Disse-lho assim: descobri que ser feliz era uma escolha quando já não tinha motivos para ser feliz e, quando os tinha, desdenhei na felicidade, com as mãos cheias de ouro e sem notar. E agora? O que faço agora com a felicidade, se ao escolhê-la de manhã sorrio às paredes e danço com o ar e a poeira?

E ela olhou nos meus olhos. E disse. Deixa rolar.

As palavras criavam abismos entre nós. E ela foi. Fiquei eu, com a felicidade escolhida no vazio. E a dor no peito que sorri. Ouvi-lhe o conselho. Deixei rolar.

E rolou. Rolaram. Lágrimas pelo meu rosto. E só.




*Imagem de Yuki Yuri




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quinta-feira, 24 de maio de 2018

De copa a copa




“Uma árvore, desde que localizada a uma distância entre copas de quatro metros de outras árvores (…), pode ser mantida.”

- Ana Fernandes, Jornal Público
(sobre a lei para limpeza de matas de 2018)



Hoje, a chuva que cai, magoa. E o sol que brilha não me aquece. Hoje, eu sou mais sombrio que a minha sombra. E ela? Ela permanece. No chão. Inerte. Ao lado desta sombra que espalho e odeio. E ninguém me pergunte porquê.
Sinto seiva nas veias de mim, a correr livre. E o vento a soprar levemente, passa-me por entre os dedos. E continuo de dedos erguidos ao céu. Pergunto eu porquê. Não quero saber a resposta. Sei a resposta. Tudo ao mesmo tempo.
É fácil dizer que amamos alguém quando esse alguém já não está. Mas o meu amor, este amor que honrei por séculos, não é um amor que se explique com os traços da morte. Ao lado deste meu amor, eu lutei contra o fogo e contra a água. Suportei as maiores tempestades. E todas as pestilentas infestações. E todas as secas. Ao lado deste meu amor, eu suportei os cunhos da igualdade e os da diferença. O meu amor sobreviveu a tudo. E era para ser eterno. Milenar, no mínimo. Até vir a provação que sempre nos condena. Aquela que nos abate. Aquela que nos sufoca. Aquela que nos afasta. E se ri depois.
Mas a minha história não começa no final. A minha história começa há muitos anos atrás. Séculos. No tempo em que eu não passava de semente e ela também. Lançadas, ao acaso sobre a terra, deixadas para apodrecer ou vingar, consoante a vontade dos Deuses. Caímos lado a lado. E não o soubemos. Até pormos um olho fora da terra e sacudirmos os seus grãos das nossas cabeças. E, quando o fizemos. Como explicar? Havia flores e nuvens brancas a sarapintar um céu azul. E havia um rio a correr perto. E havia pontos mágicos de poeira dourada no ar. Mas não vimos nada disto. O que vimos, de imediato, foi o toque, meio verde, meio envergonhado, um do outro. Senti que a seiva me ardia e podia ter dado um pulo logo ali. Mas não. Éramos apenas brotos. Ainda tão verdes. Ainda tão pequeninos. Olhámos um para o outro. Fizemos uma espécie de saudação, promovida pela aragem. E soubemos, sem palavras, que havíamos de estar sempre lado a lado.
Fomos crescendo juntos. Às vezes, ela acordava depois de mim. E eu olhava para ela. Primeiro moça, de tronco estreito e folha parca; mas imponente quando os anos de donzela deram lugar à firmeza de raízes fundas, de um peito cheio, de um espreguiçar constante na direção do céu. Um dia, ousadia minha, espreguicei-me também. As nossas mãos tocaram-se. Achei que era um instante. Mas ela enlaçou-se em mim. E, de ramos enlaçados, num abraço de madeira e verde, unimo-nos assim. E eu disse “para sempre”. E ela repetiu “para sempre". E o amor tomou forma. Os anjos honraram este amor. Na união das nossas mãos, fizeram ninho. E todos os anos nasciam novos anos, que ora piavam, ora comiam das bocas das mães, ora tentavam voar cedo demais.
Ela emocionava-se com os pássaros. Os seus eternos anjos. Contava-lhes histórias sobre as criaturas que lhes serviam de alimento e da forma como, junto aos seus pés, tantas rastejavam. Estas histórias ajudavam a manter os pequenotes no ninho e impedia-os de tentarem voar antes dos ossos se rechearem de ar e as asas de penas. E quando a mãe anjo voltava, agradecia. E ela ria. Estendia sempre mais as suas folhas para proteger do calor a penugem das pequenas crias. Era, também ela, mãe daqueles anjos. E eu aprendi a ser pai deles, apenas porque a amava.
Um esquilo, roubava-me ocasionalmente uma bolota. E corria para os braços dela. De cabelo puxado, resmungão, eu atirava palavrões e ameaças. Era ela que defendia o pequeno, dando-lhe abrigo num buraquinho do seu peito. “Vá lá, tens tantas, não sejas invejoso!”. Sim. Eu amava-a. E era, em parte, porque ela me ensinava a amar, não só o seu semblante, mas também os pássaros, e os esquilos ladrões, e o sol e as estrelas.
Vieram tempestades. E incêndios. De mãos dadas, aceitámos que morreríamos juntos. “É desta, meu amor.”, dizia-lhe eu. E ela respondia. “Agarra-me só a mão. Vai ficar tudo bem.”. E a tempestade parava. E o incêndio era apagado. Deixavam à nossa volta, com frequência, um rasto de destruição negra. Mas poupava-nos. Porque darmos as mãos era um segredo com milénios, que tornava mágica a partilha da seiva. E nos permitia continuar a dar abrigo aos anjos e aos esquilos do mundo.
 Até ontem, essa magia bastou. Para podermos amar-nos. Durante séculos e até ontem, foi suficiente. Mas ontem, vieram os homens. E as suas serras. E as suas carrinhas. E as suas palavras. Assustaram os pássaros e os esquilos à chegada. Assustaram-nos a nós também. Mas, de raízes postas na terra, a fuga não é possível. E eu senti. Disse-lhe. “É desta, meu amor”. E ela respondeu. “Agarra-me só a mão. Vai ficar tudo bem.”. Mas fechou os olhos.
Um dos homens disse. “Olha estas.”. E o outro respondeu: “quatro metros de copa a copa, mas basta uma!”. E o primeiro respondeu, “deixa o carvalho, então, os pinheiros dão mais problemas”. Ela entoou um cântico antigo, até cair. Deixou que a mão deslizasse da minha com suavidade, deixando para trás algumas folhas secas. Tombou. E eu quis fechar os olhos para não ver cada instante da sua tortura. Mas não consegui.
Deixaram-na ali. Aos meus pés. Cortaram-na em pedaços. E deixaram-na. Aos meus pés. O amor da minha vida. Aos meus pés. E, agora, quem vai proteger os esquilos? E, agora, quem vai contar histórias aos pardais? E, agora, quem vai dar-me a mão?
Ao lado deste meu amor, eu lutei contra o fogo e contra a água. Suportei as maiores tempestades. E todas as pestilentas infestações. E todas as secas. Ao lado deste meu amor, eu suportei os cunhos da igualdade e os da diferença. O meu amor sobreviveu a tudo. E era para ser eterno. Mas, hoje, a chuva que cai, magoa. E o sol que brilha não aquece. Hoje, eu sou mais sombrio que a minha sombra. E ela? Ela permanece. No chão. Inerte. Ao lado desta sombra que espalho e odeio. Porque a amo. E ela não está. E a razão pela qual não está é porque ousámos dar a mão… e não havia espaços abertos entre nós.




*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 15 de maio de 2018

Uma última carta



Eu escrevi-te uma última carta. À mão, como sempre achei que deviam escrever-se cartas de amor. O papel era todo branco. E escrevi a caneta, porque sabia que não quereria apagar uma única palavra.
Quando comecei a escrever a tua carta, questionei quais as razões de o fazer. Tu, com um pé fora da porta e eu, depois de me ter sido arrancado até a mais ínfima centelha de esperança. Parecia-me que se esgotavam as razões. Não haver razões pareceu-me uma boa razão. E, então, escrevi.
A primeira página da minha carta falava de nós e de elefantes. E da lua aqui ao lado. E da fogueira. E do fogo. Falava do olhar sobre um horizonte feito do teu passado todo. E de uma queda de água que nos roubou uma palavra de amor… a mim, pela primeira vez. Ler tudo isto fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te recordar do que foi. Mas eu não acho que te esqueceste. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do que correu mal. Da forma como nos dávamos, de raiva, a emoções que nem deviam ter existido, desejando, de alguma maneira, que a paixão do toque embriagado nos libertasse da falta de entendimento. E falei dos olhos na tela preta e branca. Dos cacos no chão e dentro de mim. Dentro de ti. Falei da poeira acumulada na madeira e do frio da noite onde palavras me sufocavam e não achavam forma de sair. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer a mim mesma que tinha de ser assim. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do futuro. Da forma como ainda te desejo cafés e paixões entregues na cama. De como te quero com olhos e céus azuis e soalheiros. Dizia, algures, que queria ser eu a entregar-te cafés e paixões. Um dia. Quando o teu relógio e o meu tivessem chegado a consenso. E o teu coração e o meu tivessem aprendido a lição. Acrescentei que há futuros feitos de passados que não se repetem E pedi que não tivesses medo de dar a volta. De voltar. Pedi que a honestidade do teu coração fosse mais forte do que o teu orgulho ou do que qualquer grau de intransigência virginiana. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te pedir que voltasses, fosse quando fosse. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Não a parei. Disse que te desejava o melhor do mundo e da vida. E que sabia que, dos teus pés de galinha até ao teu coração de diamante, não havia nada errado em ti. Desejei que encontrasses o que procuras e que te encontrasses. Que mantivesses a força e que a vida te tratasse com respeito. Desejei sorte para acompanhar o teu esforço, que é sempre tanto. E sol no rosto. E motivos para sorrires. Disse que nada do que foi e nada do que vem te mudaria aos meus olhos. Que eras das melhores pessoas que conheci e que há mares mais pequenos do que o teu coração. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer que te amo. E pareceu-me um excelente motivo para te escrever uma carta.
Então, peguei nela, dobrei-a em dois, rasguei-a e deitei-a fora.
Porque me apercebi de que não importa quão bom é o motivo nem quão puro é o amor. Continuava a ser uma folha. Já não estava em branco. Tinha palavras a caneta e pensamentos. A contar uma história que já não tinha mais páginas para escrever.
Não era uma carta. Era uma lágrima pendente. À espera da resposta que, se não viesse, seria para me ferir e, se chegasse, seria para me torturar.
Eu escrevi-te uma última carta. Escrevi-a com o coração rasgado. E rasguei-a também. Deitei-a fora. Sozinha. Mas só porque não sei aonde se reciclam corações.





*Imagem retirada da Internet


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