quarta-feira, 29 de março de 2017

Adeus paredes e tectos



Adeus.
Há na partida segredos que ficam. Colados nas paredes como manchas de humidade e rachas. Não adianta esfregá-los com lixívia. Criam formas indefinidas sobre a vida que, acontecendo, ali se fixou. E permanecem.
Despeço-me do som retumbante da gráfica. Despeço-me do vento nas cadeiras. Despeço-me do bebé que chorava, metodicamente, no andar de cima e dos passos corridos dos pais que o mimam demais. Despeço-me da vizinha do lado – estereótipo disfuncional entre as mulheres e os carros – incapaz de estacionar sem ocupar três lugares. E do senhor do terceiro andar, que, feito estrela de cinema, sorri sempre e acena, como se alguma vez tivéssemos trocado palavras de apreço.
Despeço-me daquele piso que não serve para nada, no topo, dando para o telhado, onde nem o elevador chega. E das suas vistas sobre a serra e a cidade iluminada durante a noite. Despeço-me do chão desse piso que, manchado de sangue e lágrimas, me serviu de abrigo e me abraçou, maternamente, nos momentos de maior mágoa e solidão.
Adeus.
Marcado no chão do quarto, nas paredes do quarto, no tecto do quadro. Luxúria e magnetismo. Ausência de pudor. Dei-me e vendi-me em troca de prazer neste quarto. E, de tão deliciosamente lasciva, a forma como o fiz é de conhecimento público e cordialmente pouco reconhecida. Mas despeço-me com particular pesar do quarto. O primeiro quarto no qual despi mais do que a roupa, mas também os muros da alma. Aqui, imaginem só a loucura, deixei que me tocassem os recantos mais recônditos da alma e do coração. Até que não houvesse mais nada senão amor e intimidade. E foi por isso que, nos momentos em que a vida doeu, eu odiei que se imprimisse no espaço essa dor de momento, como se ela maculasse memórias intemporais de amor. Despeço-me do quarto. Com algum pesar. Porque nele percebi que o amor, não sendo uma coisa, também se faz. Literalmente. Fabrica-se, artesanalmente, num sem fim de acções que se consubstanciam no corpo mas não lhe pertencem.
E a cozinha. Aquela mancha pequenina na banca, do vinho derramado, que ele tenta limpar até arrancar a pele das mãos. E a mancha fica. Que maravilhosa a memória do vinho que ali se derramou, juntamente com o riso e a vontade cega de que o riso não termine. E passos de dança sobre o chão de azulejo. “Eu não sei dançar”. Sabe. Claro que sabe.
Lá fora, ao vento, dança o alecrim. Plantado no suor paterno que me uniu, por fim, às pontas soltas do que a juventude me não permitia. Plantei relações naquela “quintinha”, onde se enterraram oferendas no dia a seguir às festividades. E, se chegou lá fora o ruído de uma qualquer discussão, ele apagou-se no cantar das noites de fogo-de-artifício quando, agarrados e cheios de frio, pusemos os olhos no céu – e um no outro – e no céu outra vez. Havia cores e calor. Em nós. No céu também.
Adeus.
Esvaziam-se, aos poucos, os armários que ficam. Dão lugar aos caixotes que vão. Isto vai? É a pergunta lançada, segurando as memórias que se agarram às paredes e tectos. Vai! E também fica. Espero que fique para que alguém conte outra história com elas, imaginando desenhos de animação onde só há realmente espaços de vazio preenchidos de recordação.
Na parede da cozinha, fica a memória permanente de uma menina que descobriu o amor. Asas abertas. E sentidos de eternidade. Feitos a giz. E, se é fácil limpá-lo da parede, quero ver limpá-lo da alma… não vai. Ficará agarrado, lembrete constante de que nada nem ninguém pode partir de onde foi (in)feliz.
Adeus.
Adeus paredes e tectos. Adeus chão. Deixo-vos o que viram de amor e ira. De contentamento. De dor. De felicidade. E levo algumas memórias de como abraçaram momentos que se perpetuam em mim e não desvanecem com o último bater da porta.
Um último olhar.
Um último texto, nesse olhar.
Coisa estranha, esta memória que me faz julgar que apenas o bom foi real.
Levo apenas comigo o que foi bom, está bem? Espero que guardes o mesmo. Nas paredes. No tecto. No chão.
Antes de ir. Um olhar. Obrigada.
Adeus.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 21 de março de 2017

A pele



Vestiram-me a padecente pele
Sobre os ossos miúdos
E o coração poente

Na hora do sol-posto
A nudez caiu bem
Sobre os agasalhos da vida

Mas quando o sol nasceu
Havia espinhos e feras
No lugar da carne exposta

Acendi a lareira
E queimei as certezas
Na lenha do tempo

Despi a pele de cordeiro
E fui com a alcateia
Rumo ao amanhã

É rubra a memória das mãos
Que me vestiram a pele
Sobre os ossos miúdos

Mas vestisse-a eu por mais tempo
E o sangue que me tinge as garras
Seria o do meu coração.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 14 de março de 2017

Humor inteligente



Aviso: O texto que se segue contém linguagem forte que pode ser considerada imprópria e/ou obscena.



No riso fácil. A rir porque os outros riem. Sentam-se idiotas em cadeiras. Aplaudem de pé. No fim. E vão com sorrisos para casa. Se era humor? Era. Inteligente? Não sei. Porque foi fácil o riso descomprometido nas temáticas que se contorceram por entre as paredes de frases feitas e asneiras mais ou menos agressivas. Defendo. Hoje. Essa forma de humor. O humor para idiotas. Esse. Porque sejamos francos… ninguém entende o humor inteligente.
Claro que a desmistificação conceptual das ideias pré-feitas, pré-concebidas e pré-divulgadas causa um qualquer transtorno nas mentes pré-brilhantes. E é fácil o riso na ideia de que é ridículo. Quando olhamos as classes e as reduzimos a estereótipos. A loura burra. O preto ladrão. A fufa feminista. O gay afemininado. Tem piada. Para dez por cento da sala pelo senso completo de ridículo que medeia o estereótipo. Para noventa por cento da sala porque pensam “é mesmo assim”. E tem piada. Suponho eu. A menos que se seja loura, ou preto, ou fufa ou gay…
O humor inteligente fere. O humor para idiotas não. É muito engraçado falar na cona da Maria, que abre de segunda a sábado e fecha aos domingos para ir à missa. Claro que, para alguns, é engraçado pela noção beata do que se faz de hipocrisia pelo mundo da religião. E para a maioria é engraçado ouvir falar da cona da Maria.
Vamos caminhando. De mãos dadas. São muitos idiotas a acharem-se inteligentes e muitos inteligentes a acharem-se burros. Esta, em si, é uma piada que não se conta. Mas vive-se. Mesmo fora dos serões de anedotas. E as piadas sobem as paredes da nossa carne. Fazem piruetas nas nossas cabeças. E dizem alto. Em tom de enunciação. Rir é o melhor remédio.
Talvez seja. Rir. Um remédio. Mas o estereótipo é uma doença. E cada vez que nos rimos da loura que acha que dois testes de gravidez positivos significa que está grávida de gémeos; estamos a dizer a um patrão que, se contratar uma rapariga loura para secretária, terá, provavelmente, os envelopes arquivados e as cartas recicladas. Cada vez que nos rimos do gay no Titanic que não sabe se deve entrar no bote das mulheres ou no dos homens, estamos a obrigar a sociedade a confundir noções de sexo, género e sexualidade. Cada vez que nos rimos porque branco que corre é atleta e preto que corre está a fugir da polícia, perpetuamos o medo social com base na raça. Mas tem piada. Não tem? Claro que tem! Vamos todos rir muito alto. Desse remédio. Porque ele vicia. E nos protege das agressões quotidianas do bom senso, não vá ele penetrar a pele e atingir algum órgão vital!
Viva! O humor para idiotas! Esse que provoca convulsões no rosto e dores na barriga. E vivam os que não entendem a ironia dos seus sentidos mas gostam de ouvir a palavra “caralho” e “foda-se” no fim das frases.
O humor inteligente. Essa forma de piada que se esconde das pessoas. Francamente! Não posso defendê-lo. Vale apenas que todo o humor inteligente seja, também, humor para idiotas. Porque, esta é a maior piada de todas: o humor é só humor. Inteligentes e idiotas são as pessoas que o ouvem. Numa sala em peso que ri, não rimos todos do mesmo. E não levamos todos o mesmo para casa.
Alguns levam desconfortos colocados nos risos. Outros levam casualidade e palavrões nos lábios. Cada um leva, do outro, o que transportava já. E são muitos ódios, muitas noções falsas, muita leviandade carregada nos corações que riem.
Hoje defendo. O humor. Para idiotas. Uma salva de palmas a todas as “conas”, “caralhos” e “foda-se” que causam uma sensação de eufórico contentamento e impedem (algum)as pessoas de ler nas entrelinhas as coisas que não têm piada nenhuma. Como a morte da equidade. Em cada palavra.
Aplaudamos de pé!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 7 de março de 2017

Voyeurismo



Espreitam. Pelo buraco da fechadura. À medida que me cai aos pés a camisa de dormir e o pudor. E que as mãos se lançam na descoberta dos recantos da alma que se sobrepõe e provocam nas arestas baunilhadas da pele.
Espreitam. À medida que o sol me beija a nudez. Subindo pelos tornozelos até alumiar as curvas da anca e se perder no voluptuoso lugar das horas perdidas.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. Enquanto passo pelo corpo os cremes e os desejos, em igual quantidade e pelo mesmo motivo. A sede. Tenho a pele seca de amores e paixões. E passo-as, de luxúria, com as pontas untuosas dos dedos que querem sofregamente atingir a plenitude. Não tenho medo de mim e isso assusta os outros. Sou mulher e não quero ser outra coisa. Sou inteira e querem pedaços segmentados de mim. E há os dedos que se movem…
Espreitam. À medida que as costas se arqueiam e o braço se estende no infinito de uma busca. Lança-se na procura e traz de volta o segredo da nudez permanente. Vestir a alma. Sobre o corpo. Ali, exposta. Onde incomoda quem olha. E onde incomoda mais ainda que eu não me importe que olhem. Visto a alma. E a roupa lavada. Com aroma a sabão e à falta de falsidades. Contra a pele, parece senso comum a alegria incompleta das vestes. Mas não é! É apenas conforto.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. E eu ponho batom nos lábios. Negro nos olhos. Beijo o retrato do espelho. Apaixonadamente. Devotamente. E digo a mim mesma, em voz alta, que talvez seja a mulher mais bonita do mundo. Sou-o. Por dois segundos. Meus. Só meus. Não tem mal nenhum. Sê-lo. Ainda que seja apenas nos olhos assumidos do meu reflexo.
Espreitam. Não me acham bonita. Têm medo de mim. E eu calço os pés nus. Assumo a postura de guerreira. Vou buscar a mala e os óculos de sol.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. Abro a porta onde se encostam olhares. Sem cuidado, de rompante. Faço-lhes um aceno. Não me importo que olhem! Não me importo que julguem. Mas, por favor: se ficarem, deixem-me passar! Tenho pressa de ir ser feliz.

Marina Ferraz



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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carnavalesco



Foguetes, fogueiras, folclore. O meu povo gosta de palavras começadas por F. Há algo de carnavalesco nelas. Como se pudéssemos enunciar festividades, falando felizes das forças que movem este festejo.
Fogo! Pensar que há alguns anos, fatos e figuras e festejos me faziam feliz. Faz-me ficar parada, olhando as folhas finas com uma sensação de fugacidade.
Fico. Fico na fossa. Felicitando a fraca e frágil inocência fugidia que me fica da infância que foi. Não festejo. Festas e frivolidades começam a fazer-me pesar. Máscaras. Formas. Formas irregulares e toscas. Informes. Descoladas da realidade.
Faz falta ver. De frente. Com frontalidade. E firmeza. Nas ruas dos festejos há quem passe fome. Frio. Ficam a ver passar a festa. Com olhares frisados e testa franzida. Fazem de conta que festejam também. E ficam atentos ao filme ambulante de fracas figuras fingindo que rir do que é fraco faz bem. Se cai uma moeda, fixam o movimento e forçam o corpo, fraco e frágil, franzino, a furar a multidão. E fogem. De dia ganho. Felizes.
Foguetes, fogueiras, folclore. O meu povo gosta de palavras começadas por F. Há algo de carnavalesco nelas. Farsa. Facécia. Toda a gente gosta de riso fácil. E de samba nas ruas fechadas por senhores de farda. Fazem frente à pobreza. Para que fique de fora e não faça ficar feia a festa.
A fachada provisória fica até ao final. E ficam no chão serpentinas e frascos e imundície. Funcionários farão tudo fugir pela manhã. Num passo de mágica que se funde na paisagem que olvida festas e figuras e desfiles de fraca forma.
Foguetes, fogueiras, folclore. O meu povo gosta de palavras começadas por F. Tem algo a ver com a fama final do fino foco da epopeia. Fomos. Insistimos que fomos. Porque não somos. Mas fomos. Fortes. Famosos. Felizes. Fragmento de sonho comum e familiar, feito de ouro e mar.
Fomos. Hoje não. Ficamos pelos foguetes, fogueiras e folclore. Pela festa da cegueira frente a quem faz do frio e da fome uma firme realidade. Festejemos. Fomos. Vamos firmemente fechar o espaço da fala. Deixar que fique o silêncio. É mais fácil. Uma forma carnavalesca de fugir. Senão está tudo f…


Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Insatisfação



Ele entrou. Já não era o mesmo homem. Carregava sobre o casaco, que despia à entrada, o peso que lhe ficava nos ombros e que transportava porta adentro, por incapacidade de o deixar, também, pendurado no cabide. Selava, nos lábios dela, o beijo. Mas não um beijo de tentação e apego. O beijo do hábito, encostando os lábios aos dela como se apaticamente o fizesse num copo de cerveja, mas sem o mesmo prazer. E a pele cinzenta servia de moldura ao lugar onde os olhos, meio mortos, permaneciam presos ao anteontem e os lábios, na sua linha, cada vez mais fina e severa, desapareciam por entre a barba de dois dias.

Ela ouviu-o entrar. Já não era a mesma mulher. Escondia sob o avental, que nunca despia, o rasgo quente da raiva que, por mais que tapasse com sorrisos, lhe fazia doer o estômago, como uma azia onde os ácidos nada mais eram do que o refluxo da vida que odiava. E ele entrava – já sem casaco, só com o peso – e beijava-lhe os lábios. Um contacto de dois segundos que lhe parecia uma hora de penosa tortura nas catacumbas do mundo. Passava do beijo à tarefa, com uma profundíssima competência. Nunca uma panela de sopa era melhor mexida. A colher de pau dançando por entre o líquido amarelado, como se essa dança a distraísse da chegada dele. E os olhos dela, movendo-se com a colher, apreciando com agrado os riscos levemente mais escuros que ficavam na sua passagem, focando neles uma atenção pouco sadia e mergulhando neles à procura dos sonhos.

Sentavam-se os dois à mesa. Ela ligava a televisão para ver a novela. Ele abria o jornal para ler a secção de desporto. Mas nem ela ligava à novela nem ele a futebol. Queriam apenas a tranquilidade de não precisarem de se falar. Para não precisarem de falar sobre as formas como ele procurara mundos de luxúria e paixão onde, primeiro, devia ter havido amor. Sobre a forma como ela procurara realização e conforto onde, antes, devia ter havido amor. Sobre a forma como ambos se tinham esquecido, completamente, de amar-se – a si mesmos e um ao outro.

Um dia ele entrou. E pendurou o casaco. E beijou-a, ao de leve, sobre os lábios carentes. E sentou-se com ela à mesa. Naquele dia, ele não trouxera o jornal. Naquele dia, o serviço de televisão tinha sido cortado. No lugar do jornal ficava o espaço da madeira demasiado lustrada de uma mesa meio vazia. No monitor, o aviso saltitante da operadora dizendo que restauraria o serviço assim que possível. Havia o barulho das colheres a irem ao prato e um espaço de silêncio que pedia, implorava, por ser cortado. E os olhares fixos na sopa.

E foi naturalmente, para quebrar o silêncio, que se fizeram ecoar as palavras, como se fizessem sentido:
«Devíamos ter um bebé», disse ele.
«Devíamos ter um bebé», repetiu ela.
Não concordavam há tanto tempo… parecia fazer sentido!


Marina Ferraz



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sinergia



Para o meu "evidentemente"

Preciso de ti. Precisas de mim. Respiramos, juntos, o ar que o mundo dá. Eu por ti. Tu por mim. Sabendo que de pouco valeria a respiração se nos faltássemos.
Damos passos coordenados. Nem sempre sobre as mesmas pedras. Às vezes, vou à tua frente, puxando-te pelo braço. Às vezes, quedo-me atrás de ti e deixo que me arrastes. Pergunto onde vamos e nunca sabes dizer. A resposta vazia basta. Porque sei que vou contigo, seja lá onde for.
É o nosso universo. O meu. O teu. O nosso. No meu, moram as perguntas. No teu, a espontaneidade. No nosso, a confiança que se ancora no desejo do amanhã. Respiro-te. Respiras-me. Respiramos juntos o mesmo ar. O do mundo. Que não nos entende. Que não nos respeita.
Preciso de ti. E tu precisas de mim. Somos dois completos que se encaixam na perfeição. Sabes que me basto. Sei que te bastas. Mas não chega. Queremos mais da vida do que o completo no qual se fazem fórmulas de sobrevivência. Queremos o que mais ninguém tem.
Sejam palavras. Beijos. Abraços. Corpos dados sem pudor nas noites de lua cheia. Ou simplesmente filmes na tela da televisão. Queremos isto. Isto que ninguém tem. Não como nós.
Porque preciso de ti. Porque precisas de mim. Mas somos inteiramente completos no seio da necessidade que nos move.
Tenho vinte dedos nas mãos. Escrevo com eles canções de amor que não veriam a luz do dia se não tivesse dois corações. Não! O teu coração não é metade do meu. O meu não é metade do teu. São inteiros. Batendo em compassos ritmados que musicam a vida de uma forma muito peculiar.
O meu bate. O teu bate. Não há silêncios entre o bater do teu e o bater do meu. Rodas dentadas, movendo os ponteiros da paixão. O meu bate. O teu bate. E que o teu bata uma vez depois do meu, se puder ser.
Preciso de ti. E tu precisas de mim. Isto acontece sem acasos nem senãos. É uma necessidade desnecessária que se estende, fluída, por entre os espacinhos seguros nos quais ainda cabe algo além de nós. Antes amor do que ar. Antes amor do que água. Prefiro sufocar de excessos do que de vazios.
É um sufoco que me acorda da dormência inconstante e insaborosa dos tempos. Lembrando a plenitude do ar que respiramos juntos, na luta por uma coisa que é outra coisa. Diferente do permeável. Diferente do mundo.
Preciso de ti. E tu precisas de mim. Não me falta nada. Não te falta nada. Temos mãos. Mas queremos dá-las. Sabemos que, juntos, suportamos mais do que a soma das nossas forças. Uma imortalidade dispersa que move as mais pesadas montanhas de senso comum.
Temos corações. E eles batem. O meu bate. O teu bate. Na necessidade inexplicável, preenchem os silêncios como espaços de roda dentada. O meu bate. O teu bate. E, assim queiram os Deuses, possa o teu bater mais uma vez depois do último pulsar do meu.




Marina Ferraz



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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Hierarquia


Há gente. Há pessoas. E pessoinhas. E pessoinhas que se acham pessoas. E pessoas que se acham gente. E gente que é gente. Para destoar. Todos sabemos como é.
Na maioria das vezes as pessoas vão. Cumprem horários vastos. E seguem linhas detalhadas. Montadas. Disseminadas. Cuidadosamente tratadas e esmiuçadas. Pelas pessoinhas que se acham gente. E algumas que se fizeram gente. À conta da determinação das pessoas. Da gente. De quem precisa de pão na mesa. Ou de viver.
Às vezes, gente que é gente pede esmola na rua. Ouvi, senhores do alto, as preces. Da gente. Da gente que é gente e que tem a gentileza de pedir… porque roubar é viver da esmola gananciosa do que não nos mata a fome. As pessoinhas fazem festas e entram nos círculos mais elitistas. Comem para matar a gula. Engordam para encher as roupas. Cortam o que adiposamente se amontoa debaixo das peles para pagar a dívida da vaidade. E criam regulamentos. Nas horas vagas, entre a festa e o luxo.
Fazem cópias do regulamentado. Porque a lei é lei. Desde a Grécia. Desde a democracia. Demo. Cracia. A lei é a lei. Das horas de trabalho escravo, que somadas às assalariadas ainda não fazem um dia. Mas por sorte. Ou jeito. Ou defeito. Ninguém é louco de pedir vinte e cinco horas num dia. Mas o mundo é das pessoas que dão. A mais. Porque quem dá o que deve, dá pouco. E quem dá menos morre de fome.
Escalam-se degraus, deixando pedaços de moralidade atrás das costas. Porque pesam. E a escadaria é alta. E não é pior escrever o regulamento do que seguir-lhe à risca as regras. Até porque a vista cansa e o mais importante vem sempre nas letrinhas pequenas do fundo da página três mil. Às vezes é gente que começa a subir a escada. E quer-se crer que gente chegará ao topo, para que seja justo. Mais justo. Equilibrado, ao menos. Melhor?
Chega ao topo a pessoinha. E, ao fim de pouco tempo acha-se gente e esquece-se do tempo em que de mãos estendidas pedia esmola e se oferecia para ser escravo na base menos estruturada das pedras de calçada empresariais.
Há gente. Há pessoas. E pessoinhas. E pessoinhas que se acham pessoas. E pessoas que se acham gente. E gente que é gente. Para destoar. Todos sabemos como é.
Sabemos mas não sabemos. Porque não querem que saibamos. Está nos regulamentos. Façamos silêncio. É o que dizem. Mas calados. Porque dizê-lo pode ofender.
Hierarquia.
Hierar. Quia.
Hierarqu. Ia.
 Ia. Até ia. Mas não vou.
Tenho medo de subir os degraus. E de deixar de ser gente. E de passar a achar que o sou. Parece triste, olhando de baixo. Porque se acham sol. E só fazem sombra.



Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Amarige

Amarige
Aroma-Saudade



Todos os tons da saudade num frasco vazio.
E o desejo do abraço que falhou antes
E a almofada que humedece sob o rosto
E o medo que aperta de um amanhã mais frio.
Todos os tons da saudade num frasco vazio.
E a mentira de que ficam as coisas distantes
E o sabor acre da dor, do desgosto,
E o medo que aperta por tanto o sentir
Tenho as lágrimas, mas ainda sorrio,
Tenho este frasco, ainda que vazio,
E o aroma dela antes de dormir.


Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Governar o mundo


Deviam. Não têm de. Mas deviam. Pelo menos tentar. Ver. Talvez se surpreendessem. Eu acredito que sim!
Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Não! Não um homem de saias. Não uma senhora que cresceu a acreditar que só os homens podiam e a aprender a passar mais ou menos despercebida no meio deles, com os seus fatos engomados e conservadores. Não alguém cujo cérebro pensa no masculino. Não alguém cujo coração endureceu nas promessas mais ou menos realistas do enriquecimento pessoal. Uma mulher. Qualquer uma, posto que as mulheres são todas diferentes. Mas uma que o seja, de A a Z. Mulher.
Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Essa mulher deveria ser mãe. Não porque eu ache que uma mulher tem de ser mãe. A maternidade não define a feminilidade nem o valor de ninguém. Mas, para governar o mundo, eu acho que a mulher escolhida devia ser mãe. Daquelas que se levantam de noite para garantir que os filhos não estão descobertos e a apanhar frio. Daquelas que se sentam a olhar para os primeiros passos, agarrando-se ao sofá para se impedirem de correr para lhe ir amparar as eventuais quedas. Daquelas que se emocionam quando o filho entra na peça da escola, fazendo um papel menor no qual nem uma fala têm… mas que dizem a toda a gente, mostrando cem fotografias (todas iguais), como ele foi perfeito.
A mulher certa para governar o mundo devia ser este tipo de mãe. Aquela que não tem amas para cuidar dos filhos nos dias de folga e que não tira férias de o ser. Que passa a ferro ou que pede ao marido (ou esposa) que o faça. Que faz o almoço ou manda vir uma piza para não ter trabalho. Que limpa a casa, com um olho nas notícias e outro no ponteiro da balança. Que corre maratonas ou passeia pela avenida com o carrinho. Que ouve músicas românticas e adora, ama de paixão, filmes de ficção cientifica, de terror, de romance ou de drama.
Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Governar o mundo não é algo que a sociedade tenha preparado os homens para fazer. Infelizmente. Num lugar de dimensões mínimas, como uma casa, a maioria dos homens, se passam dois dias sozinhos, criam um espaço de caos. E se o filho chorar, é um caos com banda sonora. E se a panela verter, é um caos com banda sonora e aroma a queimado. Não é por falta de capacidade… que não faltam aos homens duas mãos, nem um coração, nem inteligência. Mas foram muitos séculos, milénios a dizerem aos homens que o espaço é para ser ocupado.
Às mulheres não. Historicamente, as mulheres não foram conquistadoras. Mas foram os pilares da construção, da manutenção e da paz. Os homens ganhavam a guerra e elas avançavam para as batalhas que seguiam a guerra. De uma forma leve e suave. Nem deram por elas.
E, senhores, é a má notícia: o mundo está descoberto e conquistado! Parabéns! Falta sustê-lo. Falta pegar na casa e fazer dela um lar. Um lar que se chame mundo.
Deviam. Não têm de. Mas deviam. Pelo menos tentar. Ver. Talvez se surpreendessem. Eu acredito que sim! Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Uma mulher que o limpasse como foi ensinada a fazer. Que o amasse como faz por instinto. Que o embalasse como a um filho. Uma mulher que não estivesse formatada para pensar que o mundo está assente num cifrão. Uma mulher que não estivesse lá para agradar aos homens mas antes para cumprir o seu papel. Uma mulher que conseguisse olhar para a pequenez das mentalidades como quem olha para um bebé recém-nascido, vendo já os grandes feitos presos nas nuances do seu potencial.
Onde iríamos se tentassem, só por uma vez, pôr uma mulher a governar o mundo?
Provavelmente não vamos saber. Provavelmente, se uma mulher chegar lá, será um homem de saias. Provavelmente.
É que, na falta de mundo para conquistar… os homens conquistam as mulheres. E elas deixam porque amam. Elas nem sabem que podiam governar o mundo.



Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Todas as histórias



Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Algumas são. Talvez a maioria seja. Já me perdi de mim tantas vezes. Não sei dizer. Não há muitas que me pareçam reais. Umas porque não me identifico com elas. Outras porque não quero ver nelas o espelho do meu negrume. E ainda outras por me fazerem esperar da vida mais do que o desalento.
Seja como for. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Algumas colocam-me em locais onde nunca estive e põe-me na boca palavras que nunca disse. Acredita. Se o disse, escrevi-o algures. Vasculha pelas minhas notas de amor e ódio. Verás. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade.
Acreditas em algumas. Da irracionalidade da crença eu já vi surgir as mais variadas respostas. Do ódio contemplativo aos olhares recheados de veneno, passando pelas palavras de ameaça e os gestos de violência. Sim! Eu estava lá. Se disserem que estava, é verdade. Essa é uma história legítima.
Estava lá. Eu e a minha maneira de estar, muito pouco adaptada ao mundo e às pessoas. Chata, inconveniente, repetitiva. Sou cansativa e os outros já o sabem há muito tempo. Contam histórias. Comédias ímpares e dramas sem hora. Fazem filmes a preto e branco onde eu apareço desfocada, como se fosse um fantasma de mim. Algumas histórias que contam sobre mim são verdade. Mas não todas.
Por exemplo. Fala-se muito da mentira onde eu disse verdades que as pessoas não queriam ouvir. Porque é mais fácil acusar-me de falsidade do que dizer que eu não meço as palavras na altura de as atirar, com a dureza da realidade, ao rosto de quem quer que seja. As pessoas têm problemas com a verdade. E têm-nos comigo, por arrasto. Mas eu falo. Quando é preciso. E não o faço de forma bonita. Não arranjo eufemismos e sonhos e alentos. Digo. Dizer a verdade já fez de mim “a mentirosa” tantas vezes que comecei a achar que a palavra vinha trocada nos dicionários e enciclopédias do mundo. Fui ver. Parece que tenho razão. Acho, por ter razão, que sou demasiado inteligente e que isso me custa pontos no jogo da vida. Será? Não sei! Talvez. Mas o ponto é este. Nem todas as histórias que se dizem sobre mim são verdade.
Algumas são. A história da depressão constante. Do olhar pesado. Das conversas sobre literatura nos serões de farra. Da procura pela inspiração no fundo de copos de vodka maçã. Das conversas longas com fantasmas mortos de figuras que nunca existiram. Da tomada de coragem no fundo de garrafas de vodka de baunilha e amora. Dos beijos molhados e proibidos na procura do amor. Enrolada na cama. Vestida de roupa e despida de pudores. A querer dar o que vem depois da alma a alguém que eu acho que me entende. Entenda ou não.
Não sou nenhum exemplo de retidão nem quero sê-lo. Mas também não sou a personagem que se cria em todas as histórias nas quais figuro como protagonista triste. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Algumas são.
Distinguir a verdade da mentira não importa muito, contando que se morra. Não sou imortal. Talvez alguma história diga que sim. Mas não sou. Vou morrer um dia, juntamente com a consciência de onde começa a verdade e onde acaba a mentira. E o que ficam são histórias nas quais figuro. Irreverente. Triste. Moralista. Ou simplesmente estúpida. Calculista. Mentirosa. O que vai importar? Ficam as histórias e eu não. Fica o meu eu, que não sou eu, mas apenas personagem de ficção em histórias que podem ou não ser verdade.
Adormeço. Tranquila. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Mas a história vira estória. E as estórias embalam o mundo rumo ao amanhã. E amanhã começa tudo outra vez no nascer do sol. E o sol sabe a verdade. É só isso que importa…



Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Domingo à tarde



Tu tens o drama. Todo ele. Sem o mais pequeno indício de gafe ou de lacuna. E o aspeto cuidado. As sombras e as nuances corretas. O desenho perfeito de um olhar de estrela. Não seria preciso muito. Se tivesses algum conteúdo, poderias ser um filme de Domingo à tarde.
Digo-o sem desprimor. Para os filmes de Domingo, isto é. Servem as gentes e enchem as horas. E criam sonhos comuns em pessoas comuns. Para que tudo mude. E tudo fique igual. Como tu.
Andando pelas rua, algumas pessoas hão-de deixar que se quede em teu redor um sem fim de pensamentos frouxos. Clichés. E de tanto sorrires à mesma amálgama vazia de assuntos insossos, os teus lábios tomarão o sabor de gomos de laranja amarga. Mas não te importes. Haverá quem os beije e quem deles sorva um desigual manto de amores perdidos. Também ele cheio de clichés informais. Tirados desses filmes. Os de Domingo à tarde.
Mas sonha. Nos teus passos dados de salto alto, a virar pés na calçada portuguesa. Sonha com o amor. Esse que nasce pelos belos olhos e as belas palavras. E que termina num coração quebrado que outro amor repara com a massa concreta da esperança. Deixa-te querer isso e mais nada. E dramatiza. Como fazes tão bem. Recorrendo às palavras mais baratas das revistas e atropelando-as com termos formais ouvidos aqui e além. Cultiva os termos como sementes, acreditando que eles fazem nascer na terra baldia e infértil das tuas frases algum tipo de rebento intelectual.
Minha querida. O olhar que se perde, vagando, à procura do amor é mais vazio quanto te é dito que o teu amor devias ser tu. Saltas de nuvem em nuvem pelo conceito, à procura da caixa perfeita onde ficas no espaço seguro que te mura a zona de conforto. Que para desconforto bastam os saltos e a ideia quem inventou a calçada desnivelada que tu pisas. E dizes que não. Nunca, nunca, nunca. Não vais ser feliz. Que tormento. Que impaciência. E o príncipe, lá longe. Se te visse. Se olhasse. Se ao menos…
Tu tens o drama. Todo ele. Sem o mais pequeno indício de gafe ou de lacuna. E o aspeto cuidado. As sombras e as nuances corretas. O desenho perfeito de um olhar de estrela. Fico a olhar para eles. Não sei se sinto pena de ti ou de mim, por não ser tu. Parece simples. Como respirar. Como um filme de Domingo à tarde. Mas mais elementar.
Vais. Virando os tornozelos que se endireitam num salto a cada tropeço, à espera da mão encantada do amor. E, se ele te ampara, é para a vida.
Que felicidade pulsante, caminhando pelas ruas citadinas onde me perco em pensamentos mil, formulando esquemas de compreensão do mundo. Que felicidade! Feixe de louca sedução pelo que se dá como certo. Inebria e luz! Quem me dera. Pode ser cliché. Mas quem me dera! Porque é que nunca tive paciência para os filmes de Domingo à tarde?

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Segredo



O meu segredo:
Ansiedade de mel agre.

Senhor de reinos de agonia
Sepultado sem nome
Esculpido na pedra.

Corda partida do tempo.
Dor talhada no peito.

O meu segredo:
Morte criada no devaneio
Das horas que ficam.

Toca a saudade
Badalada de medos
No santuário da dor.

De saudade, silêncio e solidão
Vive o meu segredo.

E neles morre
Devagarinho.


Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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sábado, 31 de dezembro de 2016

Carta ao defunto 2016



Quando se vira a página para descobrir a contracapa da agenda, define-se que é algo novo que começa. E celebra-se. Começa tão cedo a celebração que ainda é feita na cabeceira do ano moribundo. Chamam-lhe “velho”. Que desrespeito! E ele cala-se, recordando que nem toda a sua existência se pejou de dor.
As pessoas não querem saber! Procuram a novidade das páginas ainda virgens de um novo ano. Apregoam que nelas mora a mudança. E vestem-se de esperança. Falam de sonhos. À beira da cama onde definha o ano que acaba.
Levam cuecas azuis e chapéus com números e óculos ridículos (como as cartas de amor) para o meio da rua. E celebram. Como celebraram antes. O novo começo. O término do ano. “Bom ano novo!”, gritam de euforia, antes mesmo das badaladas. E todos se riem. Na cara do ano que termina. E, que os olha, complacente, despojado de dias que lhe provem o valor e de forças para defender os seus esforços.
Meu querido ano 2016. Não serei escrava das tuas memórias, mas tão pouco me juntarei à amálgama mais ou menos amorfa que te celebra a morte. Trago-te em mim para o ano que começa…
Enquanto morres, sento-me a teu lado. Para recordar aquele dia de Janeiro, no qual me sentei à mesa farta para celebrar o aniversário da Mariana e onde ri até chorar com as histórias. Amizade e plenitude e compreensão. Na voz doce do André, vinda do escritório, ouvi nascer parte do “Via” e, nas lojas de perfume, reforcei a minha capacidade de falar sem medo da minha própria voz. Esse Janeiro, vou levá-lo comigo.
Mas foi Fevereiro. O Fevereiro onde vi mais um livro nascer. Onde fiz maratonas pelos stands de automóveis para tentar arrendar um que não me drenasse a conta. Sem fazer muito caso, celebrei o amor com um jantar corrido no centro comercial no Dia dos Namorados. E recebi a exclusividade nas mãos, com a garantia de que seriam muitos os dias passados em Cascais…
Estavas lá, meu doce 2016, quando, em Março, celebrei o Dia do Pai à distância, vestindo o meu melhor sorriso em torno das maravilhas da Hermès. E acompanhaste-me na direta que fiz com o meu companheiro, enquanto eu trabalhava na escrita e ele fazia nascer “Os elementos”, à espera das 4 da manhã: a hora de levar os meus pais ao aeroporto e o meu sobrinho ao sonho infantil da Disney.
Foi um mês de encontros. Recebi, no mesmo aeroporto e com as mãos aquecidas em copos de café, o sorriso jovial do meu irmão. O mesmo que me anunciou, dias depois: “Vais ser tia!”.
Entrei em Abril com a notícia. Preparada para a receber como quem recebe a Primavera, que tardou a ser quente mas veio em flor. E, de Abril a Maio, o trabalho que me fez ausente, uma vez mais, no Dia da Mãe. Um dia adiado mas que não desmarcámos, apenas para que eu pudesse vencer e dobrar mais um dos meus objectivos pessoais. Ainda em Maio, deixaste-me, meu querido 2016, viver dias cor-de-rosa. Com um sorriso no rosto e um aroma a Omnia no ar.
Junho. O mês de mim. A pertença eterna que tenho a quem me fez, a quem me ama, a quem me quer. A tarde em família. A maluquice. A foto da praxe. E a noite com o Helder e a Tânia. Copos virados e riso nos lábios. Fogos coloridos no ar. Alegria. Depois, o orgulho na Leonor, que dançou como quem faz piqueniques no sol britânico.
Houve o mês em que viste o amor fazer anos. O meu Julho. Regado a sangria e francesinha e piza fora de horas. E a feira, feita na rua, com nome de alho e aroma frutado. Um aroma que me levou às cores da maquilhagem que se somava, por fim, às minhas qualificações, mesmo a tempo de Agosto… que chegou com a minha avó.
Conversas cheias e doces, sobre a mesa, ao pequeno-almoço. Café com leite e pão com manteiga. Noites de cinema em casa. O francês e o português, remexidos e atabalhoados. E o trabalho. Tanto. Da escrita. Dos perfumes. Do grupo de investigação. E os concertos que, em simultâneo, eram tocados pelas mãos dele. E os parcos dias a apanhar amêijoa como se fosse ouro na Foz do Arelho. Os dois banhos – um de piscina e um de mar. O sol.
A visita da Leonor, que fez morrer Agosto e nascer Setembro. O aniversário do Ramiro. O aniversário do Helder. A idade de quem nunca me envelhece. À medida que a minha mãe se afeiçoava a um gato, eu decidia adotar um. Uma. A Samhain. Menina de olhos doces e pelo negro que, em Outubro, cruzou a soleira da porta e se fez família. E, além da Samhain… o Samhain! O jantar, a festa, a celebração, os amigos, as preces. O apagar, no caldeirão, da mancha que fizera deste um mês passado na Neurologia B dos Hospitais de Coimbra. O agradecimento pela vida e pela permanência do amor.
Novembro. Trago de Novembro o sabor do aniversário da minha mãe e da minha sobrinha, então mais nova. E da conversa junto ao fogão. E do abraço. Que mudou tanto. É um sabor a cheesecake que amarga um pouco no final… numa nova ausência, no dia da Marisa… que se colmata em textos e mensagens e chamadas. Mas nunca basta.
De Novembro a Dezembro. Um esfumar de memórias no cansaço. Trabalho. Natal. Festas do pijama por entre fotografias. Mesa recheada de tudo. De quase todos. E a notícia de uma nova sobrinha na distância. Com os olhos verdes e o rosto dos pais. Celebrou-se tudo. Por entre trabalho e trabalho. Em redor da mesa, o amor. Um amor que vinha de trás e que se contemplou também em ti.
Sento-me à cabeceira. Vivi contigo tudo isto, meu querido 2016! Foi assim que me fizeste crescer. De permeio houve brigas e desentendimentos. Contas para pagar, dificuldades. Mão não te desejo a morte precoce nem quero que te substitua um ano melhor.
Quero que partas em paz. Sabendo do teu papel. E que deixes entrar o ano que nasce com orgulho nos teus feitos.
Foi um feliz ano novo. Tal como profetizava a morte de 2015. Foi um feliz ano novo. Porque, quando começou assim, novo, eu tratei de o fazer feliz.
Até sempre, meu querido 2016. E obrigada por me teres levado nesta louca aventura de 12 meses cheios e inesquecíveis.


Tua até às badaladas,


Marina Ferraz



*Imagens retirada da Internet



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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Nas terras altas


Ouvi dizer. Vai haver chuva nas terras altas. Nas… terras… altas. Nas terras do céu? Será lá, onde moram os Deuses? E, se chove nas terras divinas, o que podemos esperar nós, meros mortais, sem controlo nem razão? Ouvi dizer. Vai chover. Nas terras altas.
Vai chover. Mas quem é que controla a chuva? Se, sobre as cabeças etéreas do que se faz dogma se sente o cair das gotas do tempo, quem pode dizer que é rei do firmamento?
Vai chover. Nas terras altas. Sobre as casas. Sobre os carros. Sobre as árvores e os penedos e as rochas e os rios. Sobre as cabeças dos Deuses. Todos eles. Seja qual for o credo.
Talvez, sobre os divinos ombros, façam surgir um guarda-chuva feito de fio de ouro e raio de sol. E talvez não saiam molhados da tempestade. Mas não podem travá-la. Já disseram. Vai chover. Nas terras altas.
Ecoa o trovão. Soa. Ressoa. Penetra os meandros da cidade onde as raízes alicerçadas fazem crescer prédios e moradias. A floresta é de cimento e betão. Faz soar mais seco o raio, à medida que deixa de ser luz e passa a ser som. E, atrás dele, o murmúrio miúdo. Contínuo. O principiar invernal de uma cascata fina, feita de lágrimas-nuvem.
Todos nós. Homens e Mulheres. Sediados na morada que assenta em vales e montanhas. Orando aos Senhores das Terras Altas. Louvando os Senhores das Terras Altas. Mas disseram. Ouvi dizer. Vai chover. Nessas terras. Lançaram avisos e alertas. Dizem que vai ser pior lá. Nas terras altas.
Do outro lado. Fora da janela. Fora de mim. A chuva. O trovão. O aviso. O alerta. Gotas que se formam no vidro. Desenhos que se criam à medida que as gotas se acumulam e escorregam. Gotas. Rios. Pensamentos. Enclausurados atrás dos meus olhos. Loucos. Fixados na chuva que cai. Abertos. Demasiado abertos para não criarem estranheza entre os que se dizem normais e sãos.
Mas a louca quer saber: por que razão é que chove lá? Nas terras altas. E por que razão pedimos o impossível a quem não consegue, sequer, travar a chuva? Quem é este Deus, tão pequeno e susceptível à tempestade?
Pergunto. Ninguém responde. A voz da rádio insiste. Vai chover nas terras altas.

Talvez a chuva seja Deus. Um Deus que chora. Como eu. Um Deus que é louco e incontrolável. Um Deus que cai e ascende. Em todo o lado. Até nas terras divinas. Até nas terras do céu. Até nas terras altas.



Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Além do que se vê



Ela não parece ter grandes sonhos. Acorda impaciente e segue o dia desejando a hora de dormir. Não se olha ao espelho. Ou olha de relance, enquanto passa as mãos pelo cabelo de forma atabalhoada e sai pela porta. No seu rosto, quase nunca há maquilhagem. Costuma haver sorrisos. Alguns. Mas nem todos são verdade. Alguns são. Mas esses reservam-se para alguns momentos e algumas pessoas. E escondem mágoas. Se escondem… Escondem justamente os sonhos. Milhões de sonhos. Aqueles que ela não parece ter. Mas tem.
Ela não parece ter muita força. Avança pelas ruas, de mãos abertas e vazias. Gosta mais de dar do que de receber. Trata toda a gente com uma cordialidade que se faz formal na informalidade de palavras simples. Aponta as culpas às circunstâncias e diz que não mudaria nada. Não é exatamente verdade, embora também não seja mentira. Ela simplesmente convenceu a sua própria mente a acreditar. E avança. Pelas ruas. De mãos abertas e vazias. Sorrindo. Parece ter a idade do mundo e metade da idade que tem. Tudo ao mesmo tempo. Pesam-lhe nos ombros decisões e vontades. E medos. Ela tem muitos. Mas quase nunca os diz. Luta contra eles. Uma luta inglória que ganha, aos poucos, usando a força. A desmedida força. Aquela que ela não parece ter. Mas tem.
Ela não parece ter muita vontade. Em conversas que dizem pouco mais do que nada, ela desvia exércitos de perguntas e faz o mundo acreditar que o universo do que é comum lhe basta. A casa. O carro. A rotina. Levar os filhos. Fazer o jantar. Envolver-se em atividades. Faz toda a gente pensar: é o que lhe basta. E, num primeiro olhar é. Mas não. Não é! Nos pontos aperfeiçoados dos seus bordados há a vontade de romper grilhetas. E nas palavras de incentivo que deixa, em conselho, a quem pede, há a vontade de mudar o mundo. Ela contenta-se com pouco. Mas quer muito, na sua vontade. Naquela que ela não parece ter. Mas tem.
Ela não parece ser especial. Caminha pelas ruas, como qualquer pessoa. Segue a rotina. Envolve-se nas histórias da família. Molda a realidade das tarefas, ora com obsessão, ora com desapego. E vê televisão, deitada no sofá, debaixo da manta. E lê livros de fazer chorar. E ri com publicações idiotas das redes sociais. Como a maioria, camufla a dor debaixo de uma camada densa de apatia. Finge não se importar. É tudo um bocadinho cinzento. Mas é o mal dos monstros. Debaixo da camada cinzenta, correm sonhos e vontades, há mares de força e entendimento. Formam-se arco-íris de sentimentos e sensações. Debaixo do que se vê, ela vai desbravando mato, à procura do que nem todos sabem que existe. E olha ao espelho, para dizer a si mesma que se ama – ainda que não ame -; e olha para os filhos para dizer a si mesma que venceu; e olha para as tarefas para dizer a si mesma que, por um dia, o cansaço não levou a melhor. Em cada um dos seus pontos, ela faz mais do que desejar a quebra das cordas que a amarram. Ela rompe-as. E, por maior que seja a mágoa, ela levanta-se. Por maior que seja a dor, ela sorri. Por maior que seja a tristeza, ela dá o melhor de si a toda a gente. E é isso que a torna especial. Especial como ela não parece ser. Mas é!
Ela pode até não parecer especial. Até pode. Porque, no meio desta amálgama de gente que povoa o mundo, ninguém parece. Mas, Deuses, são os sonhos, a força e a vontade que ela não parece ter que lhe dão brilho. E é um brilho maior do que o Sol. Um brilho que ilumina as ruas onde ela caminha, de mãos abertas e vazias. Segurando os fios que tecem a ténue hipótese de, um dia, o mundo se tornar um lugar melhor para viver.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Quem o é


O primeiro foi por coragem louca,
O segundo porque pôde ser,
O terceiro porque tinha a liberdade
O quarto por direito,
O quinto por sentido de dever,

O sexto foi por imitação,
O sétimo, por influência,
O oitavo na pressão de ser,
O nono porque não pôde escolher,
O décimo foi por intimidação.

Veio quem fosse porque outros eram:
Foram vinte, foram trinta, foram cem...
O primeiro foi-o por coragem louca,
Hoje, quem o é, é coisa pouca;
Hoje, quem o é, não é ninguém!

Marina Ferraz

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