terça-feira, 14 de agosto de 2018

A caixa




Têm tentado. Continuamente. Desde sempre. Rotular-me e pôr-me numa caixa. Limitada pelas suas paredes. Feitas de preconceito. Feitas de noções redutoras. Feitas das linhas do ar. E de betão.

Têm tentado. Justificar-me com ideias e frases feitas. Explicar-me com conceitos e limites. Como se um traço de mim aniquilasse o outro. Ou me definisse concretamente. Ou fizesse de mim uma coisa só.

Têm tentado. E têm descoberto que eu sou um ser sem filtro, com traços de luz e sombra. Com traços de riso. Com traços de depressão. E de alheamento. E de apreciação do mundo. Têm descoberto que eu sou beleza e feiura. Preguiça e tarefa e desporto. Escrita e silêncio e palavra dita. Têm descoberto que, sempre que me colocam numa caixa, eu intempestivamente a derrubo e salto para outra… e outra… e outra a seguir.

Irritam-se com os traços de mim. Que se colocam no espaço da menina e os seus livros, por um segundo. Para saltar para o espaço da futilidade e das roupas, por outro segundo. Para adentrar os universos da política e as discussões acesas do feminismo e da equidade, por mais um segundo. E para tocar nos nervosinhos que compõem a alma de cada um, por um segundo de eternidade que lhes baralha as ideias e os deixa sem saberem bem onde podem colocar-me.

Peço que não me coloquem numa caixa. Faço-o insistindo que não é esse o meu lugar. Mas insistem. Insistem em tentar fazer de mim objeto redutível à descomplexificação do eu. E a reduzir-me a uma das minhas partes. Porque será mais simples ver-me como um fragmento de mim. Ou simplesmente porque existem traços de inconsequência na divisão de parcelada de mim em milhares de fragmentos de poeira, que sejam catalogáveis e passíveis de colocar nas caixinhas mentais dos outros.

Não me coloquem numa caixa. Mesmo que cause estranheza que, pela manhã, eu seja atleta; pela tarde, artista; pelo crepúsculo, contestatária; e pela noite, bailarina de fogueiras nuas. Não me coloquem numa caixa. Tenho demasiada liberdade em mim para encaixar nos espaços determinados pelas mãos dos outros.

Podem colocar-me numa caixa. Quando eu morrer. Só quando eu morrer. Antes não. Ou, se puserem, vão ver que as caixas não me seguram. Que salto de uma para a outra. E que me completo com um pé em cada uma. Com uma mão em cada uma. Com um olhar estendido sobre tantas quantas o olhar me abarca.

Sim. Podem colocar-me numa caixa. Quando eu morrer. Só quando eu morrer. Aí podem. Prometo ficar dentro dela, se nela me depositarem. Mas, mesmo aí, devo confessar. Preferia ir livre na respiração do vento. E ficar um pouquinho em toda a parte. Com os rios. E com as flores. E com as árvores. Para lhes contar que faço parte da terra. E que o meu mundo se fez fora da caixa. Para voar. Outra vez. Livre.




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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Deitei fora a minha infância



No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância. Troquei-a pelos teus dedos na minha pele nua. Porque pensei que nua e no toque dos teus dedos o sonho também sobrevivesse.

Ser criança era querer fechar os olhos à realidade. Viver na imersão completa das minhas ilusões. Mergulhar na profundidade inóspita dos meus pensamentos e dançar com as cascatas e as flores, juntamente com as criaturas. Uma vinha e dava-me um medalhão. E ele permitia que respirasse sob as águas. E eu nadava. Lado a lado com as sereias do meu pensamento.

Ser criança era fazer jogos inocentes de apanhada. Correr com os ventos. Sentir a liberdade como um sopro e a adrenalina como uma dormência no nariz e um aperto no estômago. “Não me apanhas”. E fugir. Ser criança era fugir do tempo que me determinava os traços, cada vez mais patentes, de uma forma de estar construída em tudo o que ficava depois da fronteira de mim.

E as fadas perguntavam. Não queres amar? E as sereias perguntavam. Não queres amar. E as ninfas perguntavam. Não queres amar? E os faunos perguntavam. Não queres amar?
Ser criança era ser louca. Ser criança era responder-lhes que sim.

E tu vieste. Uma emoção feita de uma loucura maior do que a meninice dos meus jeitos. E as fadas sorriram. As sereias sorriram. As ninfas sorriram. Os faunos sorriram. Mas eu não os vi sorrir. Porque tu sorriste. E, subitamente, o teu sorriso era o único que iluminava os meus passos.

Todos os meus caminhos. Todas as minhas possibilidades. Todos os meus trilhos. Subitamente, tudo era uno e levava a ti. Senti o sopro do vento na tua direção. Senti o curso das águas na tua direção. Segui a corrente, despindo-me da infância no caminho para os teus braços. Neles, nua, achei que o toque dos teus dedos bastaria para manter vivos todos os meus sonhos.

Escolhi-te. Como te escolhi! Acima das selkies e das fadas e dos universos oníricos que, em tempos, tinham preenchido os meus dias. Fui tua como nunca fui deles. Fui tua como nunca fui minha. Fui tua como nunca julguei vir a ser de ninguém.

No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância. Orgulhei-me de ser mulher. Um orgulho vazio de quase tudo. Na esperança de que os teus dedos, na minha pele nua, mantivessem vivos os sonhos.

Cansados, talvez, da minha pele, os teus dedos acenaram em adeus. E fiquei só. Em meu redor, notei: não havia fada ou fauno que sorrisse. Havia vazio e descontentamento. E vontade de os afastar de mim. Ainda nua, percebi o frio dos dias. Ainda nua, percebi que cresci. Ainda nua, percebi que os teus dedos na minha pele não tinham servido para manter vivos os sonhos mas apenas para os roubar.

Escolhi-te. Deitei fora a minha infância. Quando te escolhi. Porque te escolhi. Não existe ser mágico que me pergunte. Não queres amar? Todos eles sabem que te amo. E nenhum deles está.

Estou sozinha. Sozinha e vazia da criança que sorria em mim. No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância.





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terça-feira, 31 de julho de 2018

Tudo (menos o meu coração)




Se eu morrer, peço que levem das minhas entranhas tudo o que ainda tiver proveito.

Se me funcionarem os rins que já não uso, ou os pulmões com os quais já não respiro, tirem-nos da minha carne antes de me fazerem em cinza.
Parto sabendo que alguém respira por mim. Que alguém suplantou a dor e viverá na utilidade do que já não me servia.

Doem os meus olhos. Fragmentos de osso. Pedaços indignos de pele. Rapem-me o cabelo. Doem tudo. Deixando a carcaça vazia do que, um dia, foi o meu corpo.
Parto sabendo que alguém sorri por mim. Que alguém combate a doença e recupera, aos poucos, já sem medo dos anos vindouros.

Levem das minhas entranhas o que ainda tiver proveito. Mas, peço: apenas o que ainda tiver proveito. Não doem o meu coração!

Macerado, massacrado, dolorido, iludido, incapaz, incompetente e cheio de negrumes, o meu coração não serve as sístoles e as diástoles sem falhar, a cada segundo, alguma batida. E dói, quando bate. Tanto que é como se ameaçasse não bater mais.

Não doem o meu coração. Temo que, noutro peito, ele continue insistentemente a assumir a postura contundente e agressiva que sempre lhe modelou a ação. Temo que, mesmo noutro peito, ele continue tirano e ditador, insistindo em ideias loucas, sem amor-próprio. Temo que ele permaneça masoquista e pesado, arrastando para o abismo, entre batimentos, qualquer um que o receba.

E que termine por ser carrasco de quem tem esperança. Maldição de quem ora pela bênção. Castigo de quem já sofreu demais.

Se eu morrer, peço que levem das minhas entranhas tudo o que ainda tiver proveito. Levem-me. E reduzam-me ao mínimo fundamental antes de me fazerem poeira ao vento na Pedra da Ferida.

Levem tudo de mim. Doem tudo o que possa ser, para alguém, um sopro quente de vida e um aclamar de esperança à beira-morte.

Mas o meu coração? Deixem que o coração permaneça e vire também poeira!

Foi usado ao limite. Está roto, rasgado, incapaz de amar, recheado de dores que não podem ser descritas. Já não tem uso que se lhe dê. Já não tem proveito.

Se eu morrer, peço que levem tudo das minhas entranhas, menos o coração. Não tentem reabilitá-lo. Não tentem transplantá-lo para um peito mais ajustado. Peço que lhe guardem uma réstia de respeito.

Antes de ser inútil, ele foi um bom coração. Já chega de batimentos doloridos e de esperanças desajustadas. Se eu morrer, peço que deixem o meu coração descansar. Ao menos dessa vez. Finalmente. E pela eternidade.




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quarta-feira, 25 de julho de 2018

Ode à agressão




Atentai, senhores. Dizemos todas. Preto no branco. Nas redes sociais. E nas sociais redes da vida. Atentai, senhores. Vede. Dizemos. Esta pessoa que me feriu. Esta pessoa que me diminuiu. Esta pessoa que me levou de rojo até que não me sentisse pessoa. Olhai. Eis aquele que amarei a vida toda.

Tenho trinta e duas mil imagens inspiradoras para o dizer. E mais alguns clichés para completar a ideia. Coloco-as em frases soltas, em cada uma das minhas fotografias. E faço partilhas ocasionais que falam sobre a intensidade desta vivência.

No caminho que nos levou da felicidade iludida ao desaparecimento súbito de tudo o que podia rotular-se como amor, eu guardei só o melhor. Vede. Atentai, senhores: ainda estou à espera. Dele. Daquele que me feriu até que sangrasse o lado esquerdo da alma macerada. Daquele que me fez dizer “desculpa” como ponto final, no final das frases. Aquele que me traiu e colocou, em cima dos meus ombros, a culpa de todas as suas traições. Atentai na sua perfeição e no meu desejo de o ver voltar. Atentai senhores.

Quando pára? Esta necessidade materna de ser eterna defensora da ideia desajustada que tivemos da vida com alguém? Esta vontade intensa de divinizar quem nos magoou? Onde acaba? Esta vitimização escusada? Este desejo de tudo, esbatido em espaços vazios e inconsequentes de neurose?

Dizemos todas. Numa partilha regular ou ocasional. Dói e é por isso que sei que te quero. Não sei quem sou desde que partiste. Chorei por ti e é por isso que te amo. Que se foda o amor, se o amor for choro e dor e desapego. Se o amor for isto, eu não quero amar.

Esta é para ti, menina. E para ti, mulher. E para ti, independentemente do teu género e orientação, que continuas a acarinhar e a honrar uma história que te queima as veias. Tu e eu somos iguais. Continuamente identificados com frases que alguém fez – e provavelmente nem sentiu. Apenas porque a ode à agressão é mais simples do que a verdade.

A verdade é esta. Um dia amámos alguém e essa pessoa fez-nos felizes. Primeiro fez-nos felizes. Mas depois não. Depois, tudo se transformou na miserável procura pela memória do que tinha sido. Um dia amámos alguém e o amor, que ardia, passou a queimar.

A melhor forma de honrar esse amor é seguir. Deixemos a ode à agressão para depois. Ainda estamos a tempo de viver.




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terça-feira, 17 de julho de 2018

Je suis perdu




Foi há muitos anos atrás. No seio frio de um país estranho. Acompanhada por duas crianças que ainda mal dominavam o português, que eu insisti, pela primeira vez, numa ideia: “Je suis portugaise et je ne parle pas français. Je suis perdu.”
Elas aprenderam as palavras, sem saberem bem o que significavam. Pela repetição. Como as crianças sempre aprendem. Mas e eu? Será que eu sabia o que elas significavam?


Dou por mim. Hoje. No seio do meu próprio país. Adulta – serei?! – e a pensar se domino palavras e emoções. Se compreendo, de facto, o que se esconde por detrás delas. O que as transforma em mais do que formas codificadas numa ilusão feita de papel.

Há, no meu peito, dimensões de inexplicável que são como uma língua estrangeira que eu não domino. E salta-me, nos ouvidos, novamente a expressão “Je suis perdu.”.

Compreendo hoje que não sabia, na altura, o que significava a frase que ensinei. Era só uma adulta a aprendê-la pela repetição, como se fosse criança, tentando ensiná-la para acautelar o medo do improvável.

Prevenir uma situação em aquelas crianças pudessem ficar em perigo tomou a forma de uma frase que eu não sabia entender. “Je suis portugaise”… eu sou portuguesa… “et je ne parle pas français”…  e eu não falo francês. Até aqui, eu entendia. Mas faltava-me a estrutura emocional para compreender o que significava o resto. Faltava-me o abalo que só a vida pode trazer para explicar verdadeiramente as palavras. Essas palavras. “Je suis perdu”.

Sinto-me, hoje, de pés postos no conhecimento dos dias, que me trespassa, qual idioma antigo e morto, um sentimento de alheamento a mim mesma. Como se os passos me afastassem de mim. De ti. Do sonho. Do que eu possa querer sonhar. Não sei bem de onde vim. Não faço ideia de como aqui cheguei. Sigo. E não sei para onde. Não sei porquê. Não sei por quem. Je suis perdu.

Pela primeira vez compreendo. Sem ninguém que me repita a frase, para que a decore. Intrinsecamente. Compreendo o que significa. Estar perdido. É como ser eu a criança nas ruas de Paris. Subitamente, não é como se não conhecesse a rua e não tivesse as mãos quentes dos meus pais. Subitamente, é como se não tivesse ruas. Como se Paris tivesse sido roubado debaixo dos meus pés e caminhasse na bruma etérea do Sena. Não falo esta língua. Não sei de onde sou. Peço ajuda. Je suis perdu. Je suis perdu. Mas ninguém ouve. Não há ninguém para ouvir.

Cada passo é uma queda no abismo. Je suis perdu. E cada abismo é um salto na esperança que se esgota. Je suis perdu. E cada palavra faz um sentido novo nesta senda de nada fazer sentido. Je suis perdu. Je suis perdu.


Foi há muitos anos atrás. No seio frio de um país estranho. Acompanhada por duas crianças que ainda mal dominavam o português, que eu insisti, pela primeira vez, numa ideia: “Je suis portugaise et je ne parle pas français. Je suis perdu.” Elas aprenderam as palavras, sem saberem bem o que significavam. E eu também não sabia. Não sabia o que significava. A frase. Essa frase. Je suis perdu. Agora sei. E quem me dera não saber.





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terça-feira, 10 de julho de 2018

Neste frio




Um frio que me entorpece. Beijo de água na pele. Beijo de sal na pele. Sorrio. Sorris de volta. E eu sinto a alma gritar. Será que vai ser sempre assim? Pergunto e ninguém responde. E há o frio. Que me entorpece. Beijo de água na pele. Beijo de sal na pele. Para que nela não cresçam agruras e cicatrizes.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Apetece-me fazer tudo o que eu não faria. Para me esquecer de que eu sou eu. Porque esse “eu” que te ama tem de encontrar em si um “eu” que não te ame. E não é fácil. Descubro, nos trilhos que eu não trilharia, que não só amo o caminho como amo as tuas pegadas e as nuances de Natureza que me recordam de ti.

Estás em toda a parte. Assombrando as águas e as marés. E os caminhos de terra. E os caminhos de alcatrão. Fumegando na cidade recheada de barulhos metálicos. Ouço-te, feito canção, e odeio tudo o que escrevo. Porque saltas nas palavras, carnívoro e canibal, alimentando-te das pontas dos meus dedos. Sinto-me roubada nas palavras. E odeio as palavras porque todas são o teu nome. E todas soam ao eco imortal do amor quente da tua voz. Nesse último “agarro” que se sumiu nas minhas noites.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Em alguns dias, a solidão tem a tua forma. E noutros não tem forma que se descreva. Entre uns e os outros não existem dias. Apenas negrumes imaginados sobre o que o futuro podia ser e não é. Escrevo milhares de notas de despedida na minha cabeça. Passatempo imoral, aos pés de quem me quer bem. E, ainda que mentalmente, rasgo as notas e a ideia de partir. E vou ficando, como ficam os restos no canto do prato depois do banquete. Quando tudo é sujidade e trabalho, misturado com cansaço e melancolia. Vou ficando. E nunca é por mim.

Anseio pela partida que não reclamo. Imagino-a como o único dia feliz que terei de agora em diante. E sei que é irracional. Mas é difícil ser racional quando metade de nós é dor e a outra metade se foi. Ficou um frio que me entorpece. Até nas ondas dos lençóis da única metade da cama que se desfaz. Até nas ondas do mar. Amantes frias. Que me beijam a pele saudosa e infiel. Essa pele que me trai com a necessidade de ti. Contigo ao lado e do outro lado do mundo.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Como quando não estás.

E quero agarrar-te num abraço. Desligar nele a humanidade tardia. E nunca mais ser.

Entorpecer neste frio. Pele de água e sal. Desaparecer neste frio. Deixar que me gele até o coração. Para não doer, ao menos por um bocadinho.

Para poder sorrir-te de volta. Quando me sinto morrer.




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quarta-feira, 4 de julho de 2018

O brilho dos teus olhos



Quem rouba o brilho dos teus olhos. Uma história de ódios sem nome, construídos na desonra do tempo que não passa e sempre retorna ao amanhã. Um sopro de dor. Que se veste de sonho. E se deixa cair na ilusão irregrada. Até não saberes. Até não veres. Até negares. Que o tens. Que alguma vez o tiveste. O brilho nos olhos.

Mas tu tiveste. Eu vi. Eu sei. Ainda que não vejas. Ainda que não saibas. E tenho medo. Por ti. Pelos teus olhos. Esses onde alguém insiste em beber luz. Drenando brilhos. Drenando sonhos. Transformando tudo em poeira. Baça. Macilenta. Cheia de nadas que se somam e se somem.

Dos espaços carregados entre dedos que se abraçam até embranquecerem. Com as lágrimas que se secam e se fazem chuva de verão. Com os poemas que se calam nos silêncios sossegados ou desassossegados do peito em chamas. Conceitos. Todos em forma de gente. Mas sem humanidade que reste. À medida que se alimentam, aos poucos, dos fragmentos desiludidos de ti e das tuas ilusões. Roubando. Tanto. Quase tudo. Juntamente com o brilho. Aquele que tinhas. E que trazias. Nos teus olhos.

Quem rouba o brilho dos teus olhos. Por falta de brilho; ou de brio; ou de coração. Uma história de morte que se dá nos batimentos de um coração. Que diz amar. Mas que ainda não aprendeu que o amor não existe senão numa partilha entre iguais. Que se querem. Que se completam. Que acendem o brilho nos olhos, em vez de o apagar.

Dói. Eu sei. É um entendimento que supera as palavras que nunca dizes. Um entendimento que só tem quem se espelha e reconhece, num rosto, outro rosto. Onde os olhos perderam o brilho.

Não tenho pena de ti. Nunca vou ter pena de ti, embora te saiba vítima de bestas e lanças de desamor. Porque te sei gente. Porque te sei forte. Porque sei que podes reacender o brilho dos teus olhos.

Não é hoje. Não é agora. O mundo peca mais por demoras do que por falta de ação. Mas virá. O dia. O dia no qual o brilho roubado será arma. Explosiva. Nuclear. Transformando as mãos que roubam num despojo ensanguentado e em cacos de carne pelo chão que pisas. E, delas, estrelas ascendentes serão luz. Voltando ao seu lugar. Na pureza de ti.

Preocupa-me que a hora tarde e os danos que a sua tardia prece deixa na mágoa de ti. E cria-se, por isso mesmo, um ódio muito simples por ela. Essa pessoa. Essa que rouba o brilho dos teus olhos.

Fico a pensar. E se os teus olhos, que eram todos brilho, não lembrarem mais? E se nunca mais seguirem a dança dos teus lábios? E se nunca mais sorrirem, feito pequenos sóis, no inverno das ruas sempre frias da humanidade? Mas não deixo que o medo me apague a fé da mesma forma que apagou o brilho. Esse. O dos teus olhos.

Levo em mim mil feitiços. Proteção desajustada de sal, sangue e sálvia. E prometo a minha alma ao sol, numa prece para que também os teus olhos o sejam. Abraço a honestidade das coisas frias e sei. Sei quem rouba o brilho dos teus olhos. E por isso sei que lhe hão-de queimar as mãos. Porque há coisas que não podem ser apagadas. Nem usadas. Nem manipuladas. Mesmo quando se roubam. É teu. Esteja onde estiver. O brilho. Esse dos teus olhos. Que alguém roubou.

Quando o quiseres, vai ser teu outra vez.

Até lá, meu amor, para que não te ensombrem os olhos que choram, fica com o meu.



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 26 de junho de 2018

Campo minado




As memórias são como minas terrestres.

E cada pegada é memória disso mesmo. Não eras o meu chão. Nem os meus pés. Talvez uma espécie da sapato.Com sola grossa e salto alto. Que me magoava e me torturava nos passos. Mas que, de alguma forma, também me engrandecia e fazia sentir mais bonita.

No campo minado de uma vida sem ti, meio deserta, meio arenosa, vou descobrindo que consigo andar. É verdade. Vou descobrindo que consigo correr. Vou descobrindo que consigo dançar. E é sempre num passo estável deste solo poeirento que descubro a força inevitável da decisão que é ser feliz.

Mas, de repente. Merda! De repente o pé assenta. Na memória. E explode tudo.

Pode ser pela agenda onde o teu nome ainda ondeia, em planos que não vão acontecer. Ou no estúpido do calendário que não sabe saltar do 5 para o 7. Ou no risotto de cogumelos e espargos que traz o teu sorriso pendurado no canto da panela.

De repente. O pé assenta na memória. Bang! Uma explosão que me arranca a alma e a dilacera. E uma nuvem de fumo que me deixa sem ar. Pedaços de mim por toda a parte. E vidro líquido, que escorre dos olhos e espelha passados.

As memórias são como minas terrestres.

Não existe passo que não seja incerto. Nem atalho que impeça os encontros. Está nas coisas mais pequenas. No elefante pousado no chão. No café matinal. No travo aveludado dos vinhos. No sabor do mar ao tocar a pele. Na posição adormecida que ainda entoa “agarra-me”. Na paisagem à porta de casa dos meus pais. “Não vás”.

O amor que acaba deixa de ser um campo florido e passa a ser um campo minado. Cada memória é uma mina terrestre. Quando se ama quem partiu, cada passo é risco de memória. É preciso ter cuidado com o local onde pomos os pés. Porque é a vida que nos pisa, quando tudo explode.

Não tenho medo de pensar em ti. Mas a recusa do sofrimento tem mais do que estradas de concreto. Assobiar melodias não apaga os perigos. E eles estão em todo o lado, porque, de alguma forma, durante muito tempo, reduzi os meus dias à ideia de nós. Esgotou-se o “nós” e fiquei eu. As memórias são como minas terrestres. E o caminho é longo.

Se podia parar? Podia. Mas eu nunca desisti de nada.
Não desisti de tentar.
Não desisti do amor.
Não desisti de ti.
E, certamente, não vou desistir de caminhar só porque a vida colocou no caminho recordações que se tornam explosivas com o som da tua desistência.

As memórias são como minas terrestres. O caminho é longo. Mas, se atrás deixo pegadas e sangue, faço-o pela possibilidade das memórias que ainda não criei.

Quem sabe. Talvez essas sejam flores.





*Imagem retirada da Internet



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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Nuvens à espera



Estou farta de te ter colado à sola das minhas sapatilhas como se tivesse pisado uma pastilha elástica. Sinto que aprendi a andar sozinha. Sinto que aprendi que posso voar. E ainda me colas ao chão. Há jardins de insanidade por explorar nas nuvens. Deixa-me ir.

É uma sensação estranha, feita de uma palavra que pulsa digitalmente e nunca se transfigura em carinho concreto. Mas que me cola os olhos ao ecrã. Até amanhã. No hoje. E no bom dia que não é bom. Pulsa. Pisca. Olá. E as nuvens à espera.

Estou farta de te ter na distância segura de poderes voltar. Como se um passo de proximidade assustasse e um passo a mais te roubasse o fôlego. Meu menino, acorda. Eu não sou ar para ninguém. Nunca fui. Sou sufoco. Será que tens saudades do fôlego que te roubava? Daquele perdido em beijos intensos, por entre o suor e as palavras de desejo? Ou daquele que quase te roubou a alma e te fez esquecer quem eras? Eu não sou ar. Não me respires. E não me impeças de respirar. Deixa-me ir. Há sonhos por sonhar. Nas nuvens.

Demoras o olhar quando pensas que eu não noto. E eu finjo que não noto até não notar. Algures, de garrafas nas mãos, sorrimos o fresco de gargantas humedecidas e doces, porque a vida já pouco tem de sabor, embora esteja refrigerada no limite do congelamento. E constatas o óbvio. E eu rio do óbvio. E as nuvens passam com o vento. À medida que os ponteiros troçam. Não usas relógio. Eu também não. Parámos na ideia do amanhã. E já passaram dezenas de amanhãs. A piada óbvia deles, somos nós. E deve ter mais piada do que as tuas e as minhas. Essas das quais as nuvens fogem.

Estou farta de te amar. Estou farta de te amar sem poder dizer que te amo. Como se tivesse engolido silêncios e vácuos em cima dos sentimentos. E me engasgasse neles cada vez que abro a boca. São passos calados. Passos calejados. Com pés que me colam ao chão. E que não sonham já voar até às nuvens.

Faço compromissos comigo mesma e estou presa a ti. E não penso que estou presa a ti, porque tenho esse compromisso comigo. E ando às voltas da história eterna do que eu não sou. Olhando as nuvens. Fechando as asas. Eternas possibilidades. Que não o são. Não contigo colado a mim.
Estou farta. Farta de te ter colado, feito pastilha elástica, à sola das minhas sapatilhas. Deixa-me em paz.

Descalço-me. De ti. Despeço-me. De ti. Adeus. As nuvens estão à espera. 

(E nunca me abandonaram).





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 12 de junho de 2018

A minha gata




Há uma presença na minha casa. Dá passos sofisticados e calmos. E passa despercebida a quem não sabe. Depressa se faz sombra num canto e desaparece. Depressa se deixa ficar adormecida num espaço qualquer ou se silencia, absorta, fixando o tudo e o nada, fora da janela. E tem sempre uma postura feliz. Seja na contemplação ou na brincadeira. Não fala e não escreve. Na maioria dos dias, simplesmente está e existe. Nesta simplicidade, ensinou-me muito sobre a vida.

Costumo sair cedo. Mais por hábito do que por obrigação. Deixo para trás uma taça cheia de água e outra com meia dose de comida. Despeço-me em voz alta, como se ela respondesse. E ela espreita-me, geralmente do quarto, girando a cabeça para o corredor e soltando um miado. Imagino que me diz “não vás”. E penso sempre que, no regresso, amuada e triste, por um qualquer tipo de despeito, me vai ignorar. Mas volto para ela. E ela espera-me à porta. Encosta-se às minhas pernas. E corre à minha frente, para onde quer que eu vá. Celebra a minha presença, incapaz de me guardar rancor pela ausência. E deita-se no meu colo, implora pelas minhas festas, devolve-as em lambidelas de lixa e com cabeçadas pontuais. Ela ensinou-me sobre o apego desinteressado. Sobre como receber alguém que se ama. Como cultivar afeto onde poderia haver ressentimento. E faz da minha casa um lar, cada vez que volto, à espera de encontrar paredes vazias e divisões silenciosas.

Eterna menina negra, ela não se deixa crescer. Dos brinquedos espalhados pela casa faz companheiros de viagem, que começam a ter nomes. E vai, desta forma, permitindo que me habitue a outros ritmos e outras vontades além da minha. Tropeçar em mini peluches e em collants rotos que ela não me deixou deitar fora torna-se comum na minha casa; tal como se torna frequente que eles me sejam depositados em cima das teclas do computador, para jogar “ao busca”. Tentei dizer-lhe que ela não é um cão. Mas ela não percebeu. Porque não conhece o preconceito nem os estereótipos. Quer apenas brincar “ao busca”. E, brincando com ela, eu aprendo que os rótulos são uma idiotice da nossa cultura.

Quando a vida atormenta, cansada e despida de energia, dou muitas vezes por mim a brindar a solidão com gotas de lágrima sobre a cama. Ou simplesmente no olhar seco sobre as paredes e as lombadas dos livros poeirentos. Talvez porque ouça muito mais do que fala ou porque se deixe sentir o outro e toda a sua energia, ela sabe quando eu não estou bem. E, logo ela, que me procura sempre por interesse próprio, seja para o carinho ou para a brincadeira, junta-se a mim apenas para dar, sem pedir nada. Traz todas as formas de ternura que conhece. Rodeia-me com os brinquedos dela, sem se mostrar interessada na brincadeira. Sobe-me para o colo e encosta a cabeça à minha. Ou simplesmente senta-se a meu lado, olhando para mim. E há mais entendimento do que dúvida nos seus olhos. Diz-me, sem qualquer palavra, que posso chorar ou não… mas que, de qualquer forma, não estou só. Com estas demonstrações de amizade, ela ensina-me que cuidar de alguém é simples.

Quando calha agitar-se, corre pela casa toda como se fugisse de assombrações, atira ao chão peças metálicas, entorna metade da água e mia em vários tons, volumes e intensidades. E não adianta dar-lhe mais água, mais comida, mais mimo. É um botão encravado no mio que só desliga quando ela quer. Certa vez, miei de volta e ela desapareceu durante meia hora. Foi também uma lição sobre como podemos ofender alguém se não conhecermos o seu idioma e não fizermos ideia do que estamos a dizer.

No final do dia, temo-nos uma à outra. Ela olha para mim como se tivesse sido um bom dia e faz-me sentir que o foi. Acabamos as duas relaxadamente a olhar para o nada. O pelo dela, entre os meus dedos, faz-me sentir que a suavidade da minha história ainda não terminou. Deitada aos meus pés, aquecendo o frio de um verão por chegar e de um sol que se apagou, ela mostra-me o toque da lealdade e do amor. E aprendo, com ela, que a felicidade se escolhe.

Do preto do seu pelo ao brilho da alma que eu sei que tem, não existe nada nela que me seja azar. Sinto, quando me espera à porta, que tenho uma razão para voltar para casa. E sinto, quando volto para casa, que a posso transformar num lar. É a minha companheira e a minha amiga. Torna-se família a meus olhos. Torna-se parte de mim. E, enquanto escrevo este texto, deitada no arranhador junto à janela, ela observa as árvores que se agitam. Não se importa com o vento frio deste Junho. Boceja e revira-se, olhando para mim. Faz um trejeito de miado que se perde a meio, num segundo bocejo, que termina com a língua e um dentinho de fora. Fecha os olhos com leveza. Tudo nela é tranquilidade. Ela ensina-me. Eu aceito aprender. Ser feliz é isto.




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