terça-feira, 27 de outubro de 2020

A melhor parte do meu coração II

 


Para a minha avó


Há um órgão muscular em nós. Ele bombeia o sangue e retira do ar o oxigénio que nos permite a vida. Dizem que é uno. Mas – já o disse - eu discordo!

 

A discordância não é gratuita. O meu coração está repartido. Rasgo-o e reparto-o. Noutros peitos. E é assim, com as peças dispersas do coração, que me sinto completa. No amor. Porque é ao amor que eu pertenço.

 

A incompletude das minhas aurículas e ventrículos raras vezes me incomodou. Sempre foi mais como o relógio que dá sinal na hora da mágoa. Com uma chamada, que atravessando linhas e satélites me caía no ouvido. Ainda que fosse por segundos. É um fenómeno estranho e quase surreal. As outras partes do meu coração sabem quando ele parte. Talvez, noutros peitos, sintam igual dor. Talvez, afinal, mesmo repartido, um coração nunca deixe de ser uno…

 

É só que…

 

Há muitas partes do meu coração a odiar as palavras. E eu escrevo.

 

É só que…

 

Uma respiração profunda, que dilacera. Punhais cortando o peito. Punhais rasgando a carne. E o sangue é translúcido. O sangue cai no rosto. O sangue não é sangue. O sangue é lágrima.

 

É só que…

 

Mágoa. Dor. Desespero. Mãos frias. Tão frias. A ausência aterradora de cheiro. A vontade do que é recíproco e não chega. Vozes embaraçadas. Palavras embasadas. Visões embaciadas. E uma sala inteiramente repleta de nada.

 

É só que a melhor parte do meu coração parou.

 

Os corações repartidos nunca sabem verdadeiramente que pode parar apenas uma das suas partes. Acreditam que, quando uma parar, pararão todas. E talvez eu tenha morrido e não saiba. E talvez eu tenha morrido e esteja viva.

 

A melhor parte do meu coração parou. Fiquei sem ninguém que me ensine os mais puros conceitos de amor, de família, de saudade e de perfeição. Os Deuses antigos ficaram mudos e as suas sinfonias foram substituídas pelo grito ensurdecedor do silêncio.

 

E, antes do silêncio, a chamada. A voz muda. O escutar de palavras minhas, mínimas, despidas de qualquer pedido e repletas de revelações que já tinham sido feitas um milhão de vezes. Estou aqui. Gosto de ti. Adoro-te.

 

Podia ter dito outra coisa. Aguenta. Não morras. Não vás. Mas, ouvindo na distância essa parte de mim, tive medo de sujeitá-la à dor. Porque essa parte – sem dúvida, a melhor do meu coração – teria certamente ficado apenas para me dar o que eu pedia, como me deu tudo o resto, ao longo de uma vida inteira.

 

Sem pedido que a agarrasse a este plano, a melhor parte do meu coração parou. Com ela, levou a mulher que me fez gente. A mentora que me deu todos os princípios da vida. A amiga que nunca me abandonou. Levou a linha que separa o estar sozinha de ser só.

 

As pessoas odeiam as palavras. Principalmente as duras, sem eufemismos. Como doença. Morte. Fim. Eu não. Mas odeio que não haja palavras duras o suficiente para explicar o que sinto. E que me sobre silêncio, enterrado debaixo de muitas camadas de terra e algumas flores.

 

A melhor parte do meu coração parou.

 

Tenho o coração repartido. E partido também.





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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Olhos verdes

 

Fotografia de Analua Zoé


Às vezes, os meus olhos ficam verdes. Os olhos verdes favorecem-me. Olho para eles e sinto-me mais bonita. Como se pudesse conquistar o mundo.

 

Acontece que os olhos verdes são um traço que, da infância para cá, tenho perdido. Nasci com os olhos castanhos. Clarinhos, um tom acima do da avelã. Mudam de cor. Mas é só o marejar do castanho dos meus olhos que os torna verdes. Quando a mágoa se transforma em água e transborda pelo recanto remelento do olhar.

 

Raramente verdes, os meus olhos aprenderam com a vida a engolir as cascatas. Foram secando, da infância até hoje. Ressecando-me a pele e a experiência do mundo. Deixando-me com os rebordos quebradiços e crestados, numa rispidez quase crónica que, cronicamente, me deixa só.

 

Aprender a não chorar com os desgostos é consequência dos próprios desgostos. E da idade. E da maldade do universo humano. Com o passar dos anos, cursos inteiros de teatro caseiros fazem da vida um palco constante. Aprendemos a sorrir às agruras como se elas não existissem. Exibimos essa mentira formal e socialmente aceite. Deixamos que nos escureçam os olhos. E o coração.

 

Sim! A vida tem tornado os olhos verdes muito raros em mim. No meu rosto existem, quase sempre, os olhos castanhos com que nasci. Raiados de sonhos que ninguém vê e de mágoas que poucos conhecem. Raramente choro e não gosto de chorar. Gosto de ter uma força titânica, toda feita de rocha e gelo. Ainda que isso me torne, também a mim, rocha e gelo. Desmerecedora de amor ou carinho alheio. Eternamente sozinha, caminhando descalça numa estrada enregelada e coberta de espinhos.

 

Inevitavelmente, contra todos os meus esforços, algo ou alguém me motiva as lágrimas que recuso. E eu choro. E, quando eu choro – essas raras vezes - fico com os olhos verdes. Mas eu já não acho que são os olhos que clareiam. Penso que é a alma que, livre desse negrume que acumulo sempre quando tento ser forte, se deixa aclarar até que o castanho seja avelã e a avelã seja verde-azeitona.

 

Já foi preciso muito pouco. Mas, hoje, para eu chorar, preciso de muito ou de alguém que me seja muito. Quando acontece, quando alguém tira isso de mim, recebe-me os olhos verdes. Tem a minha versão mais bonita. Porque eu sou mais bonita quando choro. Mais leve. Mais humana.

 

Tu tinhas um choro fácil. E sempre detestei ver-te chorar, por mais bonita que ficasses. Na ideia de perder-te, de repente, os meus olhos ficaram verdes. Os olhos verdes favorecem-me. Olho para eles e sei que devia sentir-me como se pudesse conquistar o mundo.

 

Os meus olhos estão verdes e eu devo estar bonita. Mas o meu mundo eras tu.

 

Os meus olhos estão verdes e eu devo estar bonita. Olho para eles, no reflexo do espelho.

 

Sou uma rapariga bonita de olhos verdes.

 

Mas como é que eu vou viver sem ti?

 

 Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de outubro de 2020

Morrer sem ti

 

Fotografia de Analua Zoé

Convido-te para a celebração do meu perecimento. Peço que, se guardas no teu peito réstia de amor por mim, possas reservar-me um momento e vir. Ver-me. Nesse dia. O do meu desaparecimento. Gostavas que lá estivesses quando eu morrer.

 

Perdoa este convite inesperado. Inusitado. Quebrando o silêncio-mãe que patenteaste e sobre o qual deténs todos os direitos de propriedade emocional. Perdoa o convite. Mas penso que seria triste morrer sem ti.

 

Pensa comigo. Nasci num dia de Verão e vivi sempre com frio. A regulação térmica do meu corpo e da minha alma sempre foi insuficiente para que eu conseguisse manter-me confortável. Ao longo dos anos, mal recordo calor nas noites senão aquele que bebi do teu corpo, quando me agarravas, puxando-me para ti como se abraçasses o mundo. Não era o corpo que me aquecia, embora aquecesse. Era algo que, internamente, se afogueava na ideia de um “para sempre” presunçoso e cheio de si, que nunca viria a ser. Então, nessa hora, a hora de arrefecer para sempre, gostava de ir com a sensação calorosa da tua presença. Por favor, se puderes, se conseguires, vem…

 

Seria triste morrer sem ti. Perpetuar essa rotina de todos os dias, que tem sido morrer, de-va-ga-rinho. Continuar a sentir as células na sua apoptose louca e desvairada. Senti-las a apagar, uma a uma, dizendo sempre, antes de se corromper, que foram felizes contigo.

 

É verdade. Morrer sempre foi um sonho. Até o sonho morrer. Mas descubro, a cada segundo, que não quero verdadeiramente morrer assim. Sem te ter por perto, para te olhar o rosto uma última vez. Não quero morrer sem ti. E, se te convido para a celebração do meu perecimento é tão só por isso: por querer encontrar novamente o desejo da morte. Uma morte melhor do que a vida. Como talvez todas as mortes sejam.

 

Vem. Peço-te. Penso que seria triste morrer sem ti. Tombar, por fim, no último suspiro, sem que lá estivesses. Sem poder olhar os teus olhos enquanto os meus perdem a luz, astros cadentes, carentes, de um sonho que nunca foi e sempre doeu.

 

Sim. Penso que seria triste morrer sem ti. Seria triste morrer como vivi. Olhando para o lado oco da cama, cheio de ecos. Mas a vida já não importa e nada te peço sobre ela. Mas penso que seria triste. Morrer sem ti. E peço que venhas.

 

Hoje, com tanto para contar, nesta narrativa de mil sóis postos na tela, eu imagino que todas as minhas mágoas tenham sido brandas ao lado desse destino. De todas as minhas sentenças, a pior seria essa. Morrer sem estares lá. Pior do que não te ter conhecido ou não poder encontrar-te nos recantos da vida ou não poder, contigo, partilhar o mundo. Morrer sem estares lá seria como nascer sem que a minha mãe lá estivesse. Vazio e inócuo e despropositado.

 

Penso que seria triste. O mais triste de todos os destinos. Morrer e não estares lá. Morrer no embalo da solidão. Morrer e não poder olhar-te nos olhos. Morrer e não estar lá quem nos matou.

 

    Marina Ferraz



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terça-feira, 6 de outubro de 2020

A melhor parte do meu coração

 



Para a minha avó


Há um órgão muscular em nós. Ele bombeia o sangue e retira do ar o oxigénio que nos permite a vida. Dizem que é uno. Dividido em quatro cavidades, é certo, mas uno. Insistem que é apenas num corpo que esse órgão cumpre funções. Mas eu discordo!

 

Eu, por exemplo, tenho o meu coração repartido. Ao longo da vida tenho cortado paredes coronárias, musculadas e inúteis, para as repartir noutros peitos. Escolho, usualmente, aqueles peitos aos quais gosto de me encostar, para receber bênçãos e abraços. Porque é assim que, por vezes, encaixo as peças dispersas, como legos cardíacos, encostando o meu peito a outro peito para sentir os batimentos coordenados do amor.

 

Aurículas e ventrículos aprenderam, em mim, a viver incompletos. Na verdade, reclamam, por vezes, daquelas partes mal empregues, deixadas em peitos que nunca mais se encostaram ao meu. Mas regozijam-se diariamente. Pelo menos duas vezes mas, na maioria, três. A primeira pela manhã, a segunda pelas cinco da tarde e a terceira às nove da noite. Nestas horas, a melhor parte do meu coração, se não se encosta a mim, costuma ligar. Um abraço distante mas que locomove as peças do meu peito, arranjando espaço para uma voz que completa, de alguma forma inusitada, os vazios que se formam naquele espaço intercostal onde a ponta cardíaca é mais forte.

 

Justificando plenamente a divisão muscular que, ao longo da vida, fui efetuando, essa parte do meu coração – que é, não duvido, a melhor delas – vai ensinando muito sobre a vida e os seus mistérios. Alguns dos conceitos que me deixa são tão preciosos que nenhum dicionário ousaria tê-los. Dá-me novos conceitos de amor, de família, de saudade e de perfeição.

 

Não duvidem. A melhor parte do meu coração é muito simples e totalmente perfeita. Mora num peito sem defeitos. Ali, onde bebés deitaram as cabeças de cheiro a caramelo e lágrimas se verteram e mãos crentes bateram levemente, ao Domingo, pedindo perdão sem ter pecado. A melhor parte do meu coração bebe do toque abnegado de uma mulher que é mãe de muitos filhos que não gerou, muitos dos quais nascidos da filha única, gerada e feita num amor que tudo tolerou.

 

Quando o telefone toca – pela manhã, às cinco e às nove – toca-me também essa plenitude de receber novamente o encaixe perfeito da melhor parte do meu coração. Um coração tão bom que não precisa de bater depressa para tocar uma sinfonia cantada na voz dos Deuses antigos.

 

Um dia – deixem que vos conte - esta parte do meu coração quase parou. 28 vezes por minuto, determinava um compasso assustador que me fez crer que, no dia seguinte, uma parte do meu coração pararia. Lento e fraco, sem capacidade para avigorar as células do corpo, esse coração, que mal batia, ainda dedicava 28 batimentos por minuto a todas as pessoas que amava. E ainda dizia, com voz débil, aos senhores de bata branca: a minha filha e as minhas netas estão lá fora. Como se dissesse: elas importam e eu não. A minha filha e as minhas netas estão lá fora.

 

Estávamos. Lá fora. Eu, com as sobras do meu coração partidas, num desvario de orações pagãs para que aquele pedaço de coração – a melhor parte do meu coração – encontrasse o ritmo do sonho do amanhã. E ela, tão cansada, podia facilmente ter adormecido o peito cadente nas horas dessa noite para descansar da vida e de todos os seus (muitos) desgostos. Mas, em vez disso, repetia aos senhores de bata branca: a minha filha e as minhas netas estão lá fora. E essa parte débil do meu coração acendeu-se novamente. Pelas filhas e as netas que aguardavam. Pelos outros. Como tinha feito – além de filha e dos netos - pelos pais, pelos irmãos, pelo marido, pelos estranhos, pelas pessoas que a maltratavam e pela ideia de Deus.

 

Encosto o meu peito ao dela. Dizem que há um órgão muscular em nós. Que é uno e vive apenas num corpo, cumprindo funções. Encosto o meu peito ao dela. E discordo. Ao longo da vida, tenho repartido o coração. Cortado paredes coronárias, musculadas e inúteis, para as repartir noutros peitos. Encosto o meu peito ao dela e sinto que completo o meu com a sua melhor parte.

 

Dentro desse peito que não é meu, hoje, uma parte do meu coração faz anos. A melhor parte do meu coração faz anos. E celebram-se os anos desse coração que bateu e bate ainda. Constantemente pelos outros.

 

Encostada a esse peito onde me mora a melhor parte do coração, ouço cantar nos ouvidos sentimentos e conceitos. Existem 90 anos de conselhos neste abraço. E a noção de plenitude. Aproveito os ensinamentos. Principalmente o conceito. Esse. Que não vem no dicionário e me faz celebrar, hoje, a vida. Esse. Perfeição: a grandiosidade escondida na simplicidade das coisas.




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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

As palavras por dizer

 



Ficou muita coisa por dizer.

 

Gostava de te ter dito, por exemplo, que as minhas recordações seriam construídas peça a peça, com o teu velho dominó, talhadas com a ponta aguçada da tua navalha e saciadas em todos os meus copos de água tardios.

 

Gostava de te ter dito que havia de gostar de whisky. Como tu. Puro. E não só de mindinho molhado no teu copo depois do jantar. Que o beberia raramente mas sempre com a inebriada vontade de trazer-te de volta. E que, sempre que o fizesse, declamaria ilusões secretamente, em silêncio, dentro de mim, como orações inventadas na hora sobre essa religião que tu e eu criámos, nos ramos da macieira.

 

Gostava de te ter dito que me deste o melhor conselho do mundo. E que, na letra meio tremida mas alinhada da avó, o conselho se imprimiu na minha pele. Saltando da pele para a vida, ele leva-me à infância numa máquina do tempo sem horas de regresso, onde, com um olhar liberto de sarcasmo ou ironia, de cigarro entre os dedos e levemente curvado sobre e mesa de madeira onde assentavas os cotovelos, me ouviste dizer, cheia de certezas “quando for grande quero ser escritora” e, em vez de teres rido, como todos os outros, me deste o parecer mais auspicioso de todos, cheio de sabedoria e erudição: “então, escreve!”.

 

Ficou muita coisa por dizer.

 

Gostava de te ter dito que o chocolate quente nunca mais saberia ao mesmo depois de ti. Que ele era melhor contigo, já que eras o senhor do meu segredo culinário: tão mau para os diabetes e tão bom para a alma. E que também o gelado perderia o sabor, ficando mais delicioso na memória daquele murinho onde perdíamos a noção do tempo e eramos simplesmente felizes.

 

Gostava de te ter dito que, mais tarde, me tornarias pagã. Pagã como eu já era, sem saber, enquanto podia dizer-to. E gostava de te ter dito que serias o precursor da minha fé, porque me ensinaste os prazeres da terra e do mosto e das mãos sujas nas muitas vindimas que suámos juntos.

 

Gostava de te ter dito que nunca iria fumar mas que, inevitavelmente, quando não me descascasses a fruta, lhe faltaria o sabor das tuas mãos - essas que sempre traziam agarrado, entranhado, esse traço fumado, por mais que as lavasses. E que deixaria, quase por completo, de comer maçãs porque me falta, na língua, a capacidade de escapar ao sabor da saudade sempre que me faltas para as cortar.

 

Ficou muita coisa por dizer.

 

Gostava de te ter dito que guardaria o amor para o amor. Que não o gastaria sazonalmente porque sei que ele é uma colheita de ano inteiro. E que isso havia de me fazer pensar em ti muitas vezes, admirando esse amor que te via nos olhos, quando olhavas para mim. Desejando o dia em que alguém possa olhar-me com metade dessa ternura.

 

Gostava de te ter dito que me fugiu da mente a imagem débil que quase sempre tentei recusar ver. Que recordo o homem do sonho, de boné e camisa, despedindo-se contente, no rumo das Terras do Verão. E gostava de pedir-te desculpa por, às vezes, ter pressa de te reencontrar. E agradecer por me dares a força de adiar o reencontro, com fé nessa mão estendida sob mim, na luz de uma proteção eterna, etérea, que tu e eu sabemos real.

 

As palavras por dizer acumulam como pó e sedimentam. Ficou muita coisa por dizer. Ou, se calhar, não foi muita coisa. Se calhar foi apenas uma. Essa que seria, em suma, todas as coisas que ficaram por dizer.

 

Gostava de te ter dito que te amava. Que te amo. Que ainda amarei amanhã, aconteça o que acontecer.

 

Os anos passam. Todos os dias tenho coisas que gostava de te dizer. Sirvo um copo de whisky. És, talvez, aquele raio de sol entre as nuvens carregadas. Digo isto: “Acho que amanhã vai chover”.

 

Lavo o rosto com a chuva de amanhã. E engulo, de um trago, as palavras por dizer.


 Marina Ferraz




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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Parir um português

 


"As mulheres que abortem no Serviço de Saúde Público, por razões que não sejam de perigo imediato para a sua saúde, cujo bebé não apresente malformações ou tenham sido vítimas de violação, devem ser retirados os ovários, como forma de retirar ao Estado o dever de matar recorrentemente portugueses por nascer, que não têm quem os defenda no quadro atual".

(Rui Roque in “Moção Estratégica Global para Portugal”)

 

 

Eu não quero parir um português, desculpem.

Da mesma forma que não quero andar de olhos no chão e bater no peito gritando “mea culpa” aos Domingos. Ou ir para a guerra, matar gente igual a mim. Ou perder um dia na fila das finanças ou na lista de espera para as finanças cuja primeira vaga é para daqui a longos meses.

 

Não quero. Como não quero ver os olhares de rogo sem fé nos olhos dos sem-abrigo que dormem junto aos Restauradores nem a fome encoberta de quem, a medo, se aproxima dos caixotes do lixo do Chiado para comer os restos quando a gula dos turistas é maior do que o estômago. E como não quero mãos sobre a boca perguntando, a cada texto, “queres mesmo publicar isso?”.

 

Quero. Publicar isto. Mas parir um português não! Não quero que me cresça no ventre e me rasgue as entranhas alguém que teria de transformar-se num autómato para ser aceite ou num monstro para sobreviver.

 

Eu não quero parir um português, desculpem.

Não quero pari-lo porque me encarregaria, estejam certos, de fazer com que crescesse livre e dono do seu arbítrio e de um cérebro que funcionasse a arte e educação, sem o encher de cloaca televisiva e noções pré-feitas. Não quero pari-lo porque ele poderia nascer com a intelectualidade de um génio ou a veia artística do maior talento. Porque poderia ter ambições e desejos e sonhos. Porque seria miserável dentro destas fronteiras pequeninas.

 

Eu não quero parir um português, desculpem. E, se engravidar dele, estejam certos de que o aborto. Porque prefiro que ele morra antes de lhe matarem os sonhos e de o condenarem, como aos outros, a uma vida precária e toda cheia de nadas. Ou, pior ainda, que se torne um ser falsamente e egoistamente político. Débil nos seus intentos, vil nas suas ações. Ignóbil e de mente pequena, fechada, contando os muitos euros do seu grande sucesso mas com vergonha de me chamar “mãe”.

 

Eu não quero parir um português, desculpem.

Talvez indigna dos ovários que carrego, eu sei que a sua maior falha não é ovular mas fazê-lo sob esta bandeira. Esta, onde as maiores atrocidades se propõem, se dizem, se difundem e o resultado é indignação pacata – até ao próximo derby – e duas palmadinhas nas costas de quem disse, por ter o direito de dizê-lo. E tem! Defendamos. O direito de dizê-lo. Como eu tenho o direito de gerar um português para o abortar, por não querer que nasça e possa ouvi-lo.

 

Eu não quero parir um português. Sinceramente, olhando o mundo, eu não quero parir um humano. Eu não quero parir de todo.

 

Mas, por favor, a menos que eu peça o contrário, deixem os meus ovários em paz.

Ainda preciso deles para sangrar todos os meses por esta dor que é querer ter orgulho num país que me oprime, me violenta, me diminui e me retira toda e qualquer vontade de ser mãe… e, muitas vezes, de estar viva.





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terça-feira, 22 de setembro de 2020

Quando há faísca

Fotografia: Márcio Martinho


Quando há faísca, já sabemos. Devíamos saber. Aquele ardor da pele, reação física e química a coisa quase nenhuma. Estamos destinados a alimentar-nos do ar à nossa volta e a consumi-lo. Com o calor das veias pulsantes ao ritmo do coração irrequieto. Tudo em nós acende. E aquece. E queima. Quando há faísca, já sabemos.

 

Houve faísca. Havia o meu vestido negro, rendado, com flores subtis. E as luzes, leves, acentuando a penumbra do espaço. E pessoas que desapareciam, à medida que, aproximando-me, eu sentia. A faísca. A música começava. E os teus dedos faziam com que eu quisesse ser a música tocada. E o coração parecia competir com todas as formas de precursão.

 

Para algumas pessoas - fabricadas, certamente, de um material pouco inflamável – isto poderá ser pouco, quase nada. Poderá não ser suficiente. Mas eu sou feita de madeira e fibra. De matérias auto-reagentes. De gasolina. Para mim bastou. A faísca. E já sabemos. Devíamos saber. Quando há faísca, começa. Arde. Aquece. Ilumina.

 

As veias são, subitamente, feitas de fogo. De Santelmo. De artifício. Fátuo. Facto. Fogo-facto de certezas maiores do que a vida. Ardendo. Consumindo o ar até nos deixar ofegantes, com desejo de partilhas maiores do que nós. Ardendo. Tornando o corpo insuficiente e desejando uma extensão que o preencha, que o complete. Ardendo. Tornando-nos mais pequenos do que nunca e maiores do que o universo inteiro. Nunca seremos tanto nem tão pouco do que no momento da faísca, quando ela vira brasido e fogueira.

 

Quando há faísca, já sabemos. Devíamos saber. Todo o processo da química em nós faz com que se acendam partes disfuncionais do cérebro. E, não nos iludamos: outras param. As lógicas de racionalidade tornam-se todas filhas da inconstância. O medo da morte oscila por segundos. Queremos que aquele momento seja eterno ou que acabe depressa mas, de preferência, que nos leve com ele, porque não queremos que a realidade se torne memória.

 

Acende e ilumina e aquece. Tudo é construção de inevitabilidades. Paixão que aprende a ser amor. Acende, inflama e escalda. Amor que aprende a ser caos e desordem. Amor que arde e queima.

 

Espanta-nos a inevitabilidade do que é certo no primeiro momento. Porque basta uma centelha, uma fagulha, uma chispa. Mas nunca ninguém se lembra que o que faz faísca só aquece até queimar. E ninguém se lembra que a queimadura dói. E ninguém se lembra que ficam corpos-cinza, incompletos para a eternidade, onde a brisa escasseia e a respiração é dolorosa no ar rarefeito. Quando há faísca, já sabemos. Devíamos saber. O que aquece, também destrói.

 

Quando damos conta, ardeu. E, claro, devíamos saber. Mas nunca ninguém se lembra. Não no momento da faísca, quando tudo é etéreo e possível: até o impossível. Ninguém se lembra.

 

No final, varre-se a cinza. Para debaixo das pedras da memória. Tentamos acreditar que, um dia, ressequida e seca, essa memória não vai doer. Que a floresta, outrora densa, dos nossos sonhos vai alimentar-se dos restos empoeirados do passado e ser fértil outra vez.

 

Tudo o que fica é vegetação rasteira do que fomos antes da faísca. E o desejo eterno do calor e da paixão. E a memória de que devíamos ter feito mais ou sido melhores. Um desejo de voltar atrás. Para alimentar o fogo. Para atiçar o fogo. Para o manter vivo, antes que ele nos levasse a vida.

 

Houve faísca. Havia o meu vestido negro, rendado, com flores subtis. E as luzes, leves, acentuando a penumbra do espaço. Agora nem a música toca nem o coração quer bater. Ficam mãos tentando segurar o pó, como relíquia do que podia ter sido. Tudo o que acende, queima. Tudo o que queima, dói. Às vezes, para sempre.

 

Ardeu. Quando há faísca, devíamos saber.

Devíamos saber. Mas não sabemos.





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terça-feira, 15 de setembro de 2020

A passadeira do ginásio

 


Aumenta velocidade. Aumenta inclinação. Anda. Aumenta velocidade. Anda. Mais depressa. Aumenta velocidade. Corre. Reduz velocidade. Anda depressa. Entra na recuperação. Abranda. Pára. Parabéns.

 

Deves estar a fazer algo certo. O coração bate no peito. Ainda estás viva. Estás a tentar ser o teu melhor eu. O coração bate no peito. Deves estar a fazer algo certo. Deves estar.

 

Ignoro os meus pensamentos para tentar ouvi-la. Sei que a passadeira do ginásio tem voz. A maior parte das pessoas não a ouve – e muitas vezes eu também não - porque a música está alta e o burburinho distrai. Mas ela tem voz. Deve ter. Para nos ir motivando com os seus numerozinhos, que avançam lentos, como se dissesse que hoje é dia de fazer melhor do que ontem. Queremos fazer melhor do que ontem. Então, se estivermos atentos, conseguimos ouvi-la a insistir para corrermos mais um minuto, para aumentarmos mais a inclinação do tapete, para voltarmos no dia a seguir.

 

Claro que é um ser estático e inanimado. E que não fala. Mas é como se falasse. Na minha cabeça, tem todo um discurso político enraizado na utilidade que pratica, recorrendo a toda a sua diligência para nos recordar que se encontra num patamar entre um aparelho clínico e um instrumento de tortura. E que devíamos. Devíamos mesmo. Fazer melhor do que ontem.

 

Desengane-se quem acha que isto é conversa motivacional. Ela não está a tentar enaltecer o “eu” que chega amanhã mas vexar o “eu” que hoje a pisa. Faz isso comigo, que pareço uma barata tonta quando corro mais do que um minuto, e com o atleta olímpico que depois de correr vinte minutos seguidos e sem ficar ofegante, ainda abana a cabeça aos resultados que vê.

 

Seja como for, os insultos da passadeira são o que, dela, menos me incomoda. Incomoda-me nela a similitude que tem com a vida.

 

Aumenta velocidade. Aumenta inclinação. Anda. Aumenta velocidade. Anda. Mais depressa. Aumenta velocidade. Corre. Reduz velocidade. Anda depressa. Entra na recuperação. Abranda. Pára. Parabéns. Não foste a lado nenhum.

 

Sim, a passadeira do ginásio é muito parecida com a minha vida. Que me deixa com dores nos músculos. Ora nos gémeos, ora nos glúteos, ora no coração. Tenho, com ambas, uma eterna relação de amor-ódio.

 

Mas nem é a dor que incomoda. No ginásio e na vida, se não doer nada, estás a fazer algo errado. Incomoda-me o andar sem que importe o nível de esforço, a velocidade ou quanto de mim ficou, em suor ou lágrimas. Incomoda-me que não importem as mil tentativas para ser melhor. Incomoda que tudo seja para descobrir que (já) não é o esforço que gera sucesso. Incomoda que, no fim, o ponto de chegada seja o ponto de partida.

 

Comento a dor. A residual, que fica depois. Da passadeira, isto é. Nunca ninguém fala verdadeiramente na dor residual da vida. Respondem-me que, com o tempo, nos habituamos. Sobre a passadeira. Nunca ninguém responderia desta forma para falar da vida. Falar assim da vida também dói. Evitam-se essas segundas dores como, por vezes, os alongamentos.

 

Já aumentei velocidade. A inclinação. Andei. Corri. Reduzi velocidade. Andei depressa. Recuperei. Abrandei. Parei. Não fui a lado nenhum.

 

No fim, o facto é: a vida - essa passadeira que nos tortura e faz o coração bater mais forte - deixa mazelas e dor, sem nos deixar ir onde os sonhos vão. A corrida da vida cansa-me muitas vezes. Não sair do mesmo lugar cansa mais. E dói. Disse-me alguém que, com o tempo, nos habituamos…

 

Estou aqui. Repito a mim mesma: Ainda estou viva. Estou a tentar ser o meu melhor eu. E corro. Na passadeira e na vida. Até doer. Até me habituar à dor. De olhos postos num ponto além.

 

Preciso de me habituar.

E de tomar banho.





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terça-feira, 8 de setembro de 2020

A (nova) Idade Média

 

Fotografia de Ricardo Torb


Penso que estamos a voltar à Idade Média. Sem monarquia e autos de fé, por agora, mas com outro tipo de reis e seus bobos, que lhes entretêm os estômagos cheios para que ignorem o povo pedinte.

 

Entrámos na máquina do tempo, com discursos políticos falsamente indulgentes, que nos motivam a acreditar que se perderam valores em nome da liberdade. O que nos dizem, com estas palavras – mas sem as dizer - é que querem que abdiquemos da liberdade em nome dos valores. Mas os valores, que tão definitivamente se comunicam como certos, são certos apenas para alguns. Para aqueles que, abrindo os estratos bancários, têm mais do que três dígitos na conta. Para aqueles que nasceram ao norte de uma linha imaginada no mundo. Para aqueles cujo tom da pele é claro e a sexualidade é normativa. Esses “normais” que continuam a sublinhar a mesma visão curta, sem verem que são, na verdade, uma minoria.

 

Nas ruas. Olhem bem. Até as epidemias voltaram. Usam agora o selo da novidade. Lê-se, nos supermercados, que se trata do “novo Coronavírus”. Questiono-me, honestamente, se eles seguem os mesmos valores notícia que me ensinaram e segundo os quais a atualidade é o que acontece neste instante e não o que já se perpetua há quase um ano. O selo da novidade, claro, acumula-se com o prefixo “pan” – pandemia - que nos tenta recordar de que o mundo é uno. Assim se criam os discursos políticos falsamente abnegados sobre a forma como todos estamos no mesmo barco. E estamos, provavelmente, um bocadinho como todos estavam no Titanic: uns em quartos de luxo e outros a dormir com os ratos; todos na direção do mesmo iceberg, que não é uma pandemia mas uma cegueira coletiva que nos está a levar direitinhos a um lugar pior do que a morte. Lembremos que o Titanic era “um barco inafundável” e que, agora, “vai ficar tudo bem”.

 

A Idade Média está à porta. Pagamos o tributo dos senhores sem questionar. Envoltos na narrativa de tantas vozes sobre como cada dia é uma luta pela sobrevivência, vemos o dinheiro ir e não sabemos para onde. Sabemos só que não dá para viver sem ele. E raramente pensamos que, se o mundo não reduz a quantia de dinheiro que existe e ela não está nas nossas mãos, deve estar nas mãos de alguém. Não sabemos de quem. Porque estamos ocupados a contar os trocos que sobram no banco, enquanto esses poucos alguéns nem notam se existe mais ou menos um milhão na conta. Não lhes faz diferença.

 

Os caixotes do lixo da cidade são vasculhados por gente de mãos sujas, em busca de alimento. As mesmas mãos imundas estendem-se para pedir esmola. Animais de companhia bebem água engarrafada e têm coleiras da Swarovsky pelas mãos que os aconchegam mas negam as outras… não exista um vírus pendente à espreita.

 

Nas notícias, o que não se vê e não se fala é sempre mais grave do que a narrativa vigente. Não interessa que se fale do apedrejamento das mulheres, da mutilação genital das crianças, das famílias soterradas em atentados ao redor do mundo. A OMS fez um comunicado qualquer sobre cuidados sanitários e os poderosos laboratórios querem que se lancem vacinas milagrosas e obrigatórias para uma doença cujo índice de imunidade parece ascender ou superar os 70% da população. Entretanto, os recursos naturais da Terra esgotaram novamente em Agosto e as máscaras descartáveis matam ecossistemas inteiros. Falemos de futebol, por favor…

 

Estamos a voltar à Idade Média. E nem sequer é à boa fase da Idade Média onde se honrava a Natureza, se cultuavam as florestas e as danças sem contacto poderiam, pelo menos, renovar-nos alegrias. É a uma Idade Média tecnológica, onde somos prisioneiros do que a televisão nos manda pensar e vivemos socialmente conectados por quadradinhos em ecrãs maiores ou menores. Uma idade geométrica onde as mentes quadradas tentam organizar-se num Tétris cuidadosamente criado com uma só cor de peça, para não ofender ninguém. Enquanto teorias sobre a Terra Plana atenuam o linguarejar das bestas quadradas que andam em círculos. Levando-nos da Esquerda à Direita – literalmente – sem que ninguém note.

 

Podiam dizer que não há Inquisição. Chamam-lhe outra coisa. Os olhos abertos sabem que existe perseguição. Alguma escondida, pela calada e outra explicitamente, ainda que abafada por notícias “mais prementes, pertinentes e interessantes”. Talvez aqui seja ainda moderadamente invisível. Por agora. Mas estamos, aos poucos, a ir. Cegos a anuir, de bocas tapadas porque a lei obriga. Estamos a ir. Nessa máquina do tempo estranha e digital. Construindo uma Idade Média que talvez seja nova, como o vírus.

 

Penso que estamos a voltar à Idade Média. Sem monarquia e autos de fé, por agora. Mas estou a assustar-me com os braços ao longo do corpo, com os rebanhos de insanidade e, acima de tudo, com a forma como a narrativa de saúde faz toda a gente anuir, de forma similar aos antigos cãezinhos de bagageira. Estamos a andar para trás. Andamos a passos largos para as ideologias que – afirmámos – não sabíamos como poderiam ter sido acatadas. Estamos a voltar atrás, ofertando a liberdade e hipotecando o futuro. O nosso e o dos outros.

 

Estamos presos à carroça que nos arrasta. A tentar andar contra multidões. Presos a uma crença que em tudo parece lógica… mas ninguém vê. Desculpem. Eu nasci com um defeito de fabrico que me provoca sinapses. Estamos a voltar à Idade Média. Quem o vê poderá ser a última esperança. Por mim, tudo bem. Voltemos à Idade Média. Mas, se assim for, por favor, vamos de olhos abertos e mãos em punho, prontos para lutar. Vamos acordados. Estão a atear o fogo e andamos no seu encalço. Penso que estamos a voltar à Idade Média. E, se é para arder, que seja para defendermos o que é certo. Se é para voltar, desta vez, que ganhem as bruxas!





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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Voltar para casa

 


Há poeira no chão. E módulos acumulados, formando gigantes de mobiliário junto às paredes. Os vidros estão sujos. Gotículas de tinta salpicando, aqui e ali, o imaginário de uma perfeição idealizada.

 

Sinto o cheiro de verniz e tinta, misturado com cola seca no sol. Ninguém abriu uma janela por tanto tempo, que as janelas são, agora, apenas vidro opaco, que nos reflete o cansaço quando a noite cai e a luz se liga.

 

O som da sala é oco. Gruta enegrecida pelo espanto que a imaginou maior. Com um fatídico e odioso sofá, demasiado confortável, demasiado cheio de memórias e onde já só se sentam os fantasmas.

 

Sento-me no chão e olho em redor. Penso que coloquei demasiado peso nas costas de uma casa vazia. Podes ser um lar? Perguntei-lhe. Mas os lares não se constroem e não se corrigem com obras. Os lares não se roubam de outros lares nem se edificam sobre mentiras e segredos. Desenganei-me da ideia de que a remoção de sujidade pudesse, também, revelá-lo. Não é. Não é assim que se constrói um lar. É de outra maneira.

 

E ali estás tu.

Merda.

Ali estás tu.

 

Deixo-me deitar num chão branco de pó de obras, fitando um teto mais perto do céu, numa casa cujas bases são feitas de humidade tosca e desumanidade que se expressa por correio eletrónico. A minha toca. Um sítio como outro qualquer para viver de arrependimentos e sentir falta do que, por estar no passado, não tem lugar amanhã.

 

Estou um passo mais perto do céu, penso. Dois andares mais perto do céu. E, de repente, queria que o teto caísse para poder ver estrelas e colocar nos olhos esses anéis de Saturno, casando-os com o infinito bélico do Universo.

 

Tenho a certeza de que, algures, em alguma galáxia, alguém pensa o mesmo. Talvez, algures, neste planeta, alguém se deite no chão empoeirado, mais perto do céu, e pense o mesmo. Há sempre alguém que pensa o mesmo.

 

Os dedos correm teclas. Incompetentes com as notas musicais, escolhem a eterna precursão das letras do teclado. E, se alguém lhes gravasse a fúria, poderia compor, certamente, uma canção de heavy metal. Uma balada, talvez. Daquelas que teriam sentido se alguém conseguisse perceber a letra por entre a voz enrouquecida e gritante do vocalista que me preenche os espaços brancos do pensamento, quando preciso de silêncio e paz.

 

Há muito barulho na solidão de uma casa vazia. Principalmente quando as obras param e se fica só com o pó e o gigante de mobiliário junto à parede. Há muito barulho. Tanto que o som dos grilos no eucaliptal se abafa. E o vento nas gruas se transforma num assobio suave.

 

Queria ter um pensamento profundo qualquer. Dizer que voltar para casa é o que nunca vai ser. O meu peito quer vomitar palavras sobre perfeição e esperança. Sacudir a poeira que tem acumulado e o gigante de mobiliário que também se encosta às suas paredes, dificultando sístoles e diástoles. De todas as vezes.

 

Queria ter um pensamento profundo qualquer. Mas estou vazia de pensamentos profundos. Derreada pela casa, dois andares mais perto do céu, que é mais pequena do que a imaginação a pintou.

 

O gigante no meu peito agita-se.

Incomoda-se com o pó e espirra.

 

À medida que a poeira levanta, nesse sopro, existe clareza em mim. Pelo menos até que tudo acalme e o pó assente de novo, escondendo o óbvio. São apenas alguns segundos mas bastam. Entendo.

 

Nunca vou voltar para casa.

A minha casa és tu.





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