quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sem mala



Se vais amá-la, vai sem mala.
Sem nenhum peso que te atrase
Ou que te arrase
Ou que te arraste
Se vais amá-la, vai sem mala.
Deixa a dor e a memória
Não leves glória.
Não leves história.
Se vais amá-la, vai sem mala.
Sem artifícios para mostrar
Nem anéis para dar
Nem promessas de encantar
Se vais amá-la, vai sem mala.
O que és deve bastar
E se não lhe chegar
Faz a mala, não a podes amar.

 Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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domingo, 18 de junho de 2017

Arde

Imagem de: LUSA

A minha terra arde.
Com ela, ardem
Os olhos das mães que perderam filhos;
Os olhos dos filhos que perderam pais;
Os olhos de quem fica e vê partir;
Os olhos de quem viu arder
A oportunidade de dizer “olá”,
Ceifada por um “adeus” de cinza e pranto.
Enlutam as árvores e as gentes:
A minha terra arde,
Com ela ardem os olhos
Que chovem.
Nestes dias,
Havia de ser o céu a chorar
Para que não ardesse a minha terra,
Nem a minha gente,
Nem os meus olhos.

Marina Ferraz


Imagem de: Reuters


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Cegueira



Passei por muita gente na vida. Alguns, passei-lhes pelas mãos. Outros pelos olhos. Passei quase sempre indiferente e invisível. Como um espetro numa dimensão alheia. Nas ruas somos todos pontos cardinais, devotados a ir do ponto A ao ponto B. Pelo caminho há montras e carros e pessoas. Pessoas que são carne e vida. Mas tratamos de as ignorar. Como aos carros e às montras. Elas passam. Como eu passei. Às vezes pelas mãos. Às vezes pelos olhos. Mas sempre com uma indiferença que pauta a distância entre um nós muito concreto e um outro que nunca se materializa além de um etéreo ideológico e cheio de transparências.
Passei por muita gente na vida. Alguns riam. Alguns choravam. Não lhes vi o riso nem as lágrimas. Talvez porque semicerrasse os olhos rindo. Talvez porque os toldasse chorando. Nas ruas, era mais um mono com duas pernas que podiam ser motor. Mais uma modelo envergando o tecido da vergonha sobre a pele nua. E, à medida que avançamos, todos nus e decadentes, é nas roupas que, volta em vez, focamos o olhar. Como se as roupas escondessem a verdade: estamos todos sozinhos num mundo que é sala de espera. Numa sala de espera que é linha de comboio e que leva apenas à morte. Mas nós ignoramos a morte. Como ignoramos as pessoas. Centramo-nos em nós. E só.
Passei por muita gente na vida. Alguns prostituíam-se. Alguns pregavam a palavra do Senhor. Passei por eles e não os vi. Foi sempre igual que me aliciassem para os prazeres da carne ou para os do divino. Nunca quis deles nada que não a distância. Do ponto A para o ponto B. Com milhares de ecos pelo meio, que não ouvi nem quis ouvir. Pedaços de poluição sonora que ora vinham das buzinas, ora das obras, ora das bocas. Era tudo igual. Um oceano feito de sons que se enterram nas vielas e não me perseguem. Que não me travam os passos. Nas ruas cheias, onde não há coisa nenhuma.
Passei por muita gente na vida. Alguns faziam banquetes. Alguns passavam fome. Questiono à frente de quantos passei, correndo para saciar a gula. Questiono à frente de quantos passei comendo os mais deliciosos petiscos. Não os notei. E eles não me notaram a mim. Porque o mundo é uma bola povoada por um só. Não há visão que abranja além de do ego. E, quem fala de amor, sabe-o melhor do que ninguém. Amamos aqueles que se ligam a nós, porque nos estendem. É difícil amar quem não nos diz. Porque está longe, ainda que esteja perto. Porque é inconcreto, invisível, ilusório.
Questiono muitas vezes: por quanta mágoa passei, sem a notar? Por quantas lágrimas passei, sem tentar limpá-las? Por quanta fome passei, sem a saciar? Por quanta pobreza passei, sem ajudar? Por quantas pessoas passei sem as ver?
É o pior tipo de cegueira. Somos todos culpados. E abrir os olhos seria morrer. Tornar mais concreta a dor. Fazer parte dela. Parar algures, entre o ponto A e o ponto B. Ser gente. Fazer sentido. Ter um propósito. Estar na estação à espera. Não do comboio que leva à morte. Mas das pessoas. E embarcar com elas. Não pelo destino. Mas pela viagem. 

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 6 de junho de 2017

Rosas



São. Rosas. Senhor. 
Sementes de bondade. É isso que se esconde nos bolsos das pessoas. Que obrigam o rosto a ser sério. E os passos a ser mecânicos. E o pensamento a ser mudo. Cavam nos bolsos espaços onde atiram. Sementes. De bondade. Ninguém quer ser bom. Toda a gente sabe que o mundo não é dos bons.
Folhas de empatia. É isso que se esconde nas algibeiras dos fatos. Empurrando suavemente a emoção para o recanto mais encardido, onde talvez se macule e esconda dos olhares. Passos dados na realidade de uma luta até à morte. Ganha sempre o eu. Em vez do outro. Além do outro. Apesar do outro. Por cima do outro. Não importa. Cada ombro é degrau na escada que se pisa na ascensão. E cada rosto é pegada atrás de nós. Importa chegar primeiro. Seja como for. E ficam na algibeira. Folhas. De empatia. Ninguém quer ser pôr-se no lugar do outro. Toda a gente sabe que o mundo não é de quem o faz.
Pétalas de sinceridade. É isso que se atira para o fundo das bolsas. E lá se esquece. À medida que se avança, mentira a mentira, passo a passo, na direção do que pode ser um amanhã melhor. O preço da realidade é a ilusão. E é na ilusão que pende esse teor mais ou menos imoral que se estende e parece tão certo. Dizer que não. Dizer que sim. O que convier. Porque toda a gente sabe o que é. Não importa o que é. Importa o que se quer que seja. O enfoque da beleza na decadência e da excelência na mediocridade. Digamos o que se deve. São políticas de correção. Mais velhas que o próprio tempo. E no fundo da mala. Pétalas. De sinceridade. Ninguém quer ser verdadeiro. Toda a gente sabe que o mundo não é dos sinceros.
Vagens de emoção. Regadas a gasolina e queimadas nas lixeiras. Com o cheiro nauseabundo do medo de que se agarrem à pele. Muros e muralhas constroem. Antagonizando essa tal de emoção que é destrutiva. Por vezes, fatal. E avança-se pelas ruas, escondendo qualquer nuance de sentir. Motivados, dedicados, autómatos programados para realizar em catadupa a mesma série mecânica de movimentos produtivos. Escaladas ascendentes e despidas de fogo. Promoções que são contratos onde se analisam as cláusulas com desprazer. Sem celebração. Ou com celebrações que são copos vertidos até a garganta se anestesiar e não sentir o ardor e as papilas gustativas dizerem que o acre do malte sabe bem. Em cinzas. Vagens. De emoção. Ninguém quer emocionar-se. Toda a gente sabe que o mundo não é de quem sente.
E quem tira dos bolsos a bondade. Quem revela traços de empatia, vertendo da algibeira. Quem rasga as malas para deixar fugir palavras de sinceridade. Quem rega as emoções com água em vez de gasolina. Não é deles o mundo. Somente a rosa. Uma rosa que é pão e que alimenta uma sociedade que morre de fome perante a tenacidade politicamente correta dos tempos das trevas.
Perguntam a esses. Onde pensam que vão. O que pensam que têm. E consta que nos lábios sinceros se esboça um sorriso. Que se estendem até ao lugar do não entendimento para compreender o incompreensível. Consta que toleram a crítica das palavras. E que estendem a mão.
São. Rosas. Senhor.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 31 de maio de 2017

E se



Fica – a incerteza. Prende-me ao chão. Sela-me os passos com ambiguidades. E elas parecem gelo. Ferro. Pregam-me à pedra. E dizem – fica – não querem que vá?
Fundo-me com o gesso. Das paredes. E com a cera. Das velas. E com o aroma florido. Do ar. Não sou primavera. E é aterrador. O som do vento. O cheiro das rosas. Peço, imploro. Em silêncio. Com medo que ouçam. Não! Não quero ir. Há um Universo pardacento de ses no caminho. Como espinhos. Como maldições. Estou descalça e tenho os pés presos ao chão. Não quero ir.
Vêm as vozes. Sempre cantadas. Num eco. E se. E se. E se. Abano a cabeça. Agarro-me a mim própria. Um abraço de dedos inusitados, cujas unhas furam as carnes meio flácidas dos braços, à procura do conforto. É um terror que não se explica. Que alastra. Perdura. Lamenta o invisível que vem depois.
E as vozes – Tenta. Podes falhar. Podes cair. Mas tenta. – Vou cair. Sei-o. Mas elas não. – As quedas não te põem só mais perto do chão. Também te põe mais perto do objetivo. – Talvez. Mas custa ir. Não sei o que vem. Não sei o que está. E se não chega? E se. E se E se.
Um mundo feito de dúvidas, lá à frente. E uma morte tão certa aqui. As questões que se levantam. E que não se respondem sozinhas. Nem acompanhadas. Nem de outra forma qualquer. Lançam-se cartas de vento sobre a minha mesa de terra. E fluo na sua direção. Tento encontrar calor nas suas revelações. Etéreas. Incertas. Ninguém sabe o amanhã. Ninguém sabe se amanhã o eco não se repete. E se. E se. E se.
Sinto o flagelo da dúvida a aguçar-me as feridas. E há demasiado passado no meu presente. Demasiado pouco presente na construção do futuro. E as vozes. – Tenta! – Talvez. Mas e se?
Mostram-me os pés. Pregados ao chão. E eles sangram. Tanto ou mais do que sangrariam num caminho de espinhos. Mostram-me as marcas das unhas na pele. – Não são abraços. – São ambiguidades. E mostram-me a dúvida. Que me prende a ferro e me confina ao espaço onde a morte é destino certo.
Rebento com o chão e com a parede. Num grito. E embate contra mim a pedra. Embate contra mim o fogo. Embate contra mim a vontade de ir. À procura do futuro. E do destino dos “e se”, seja ele qual for.
Vou. E se? Bem. Se eu tentar – é assustador – poderei encontrar a falha que me fará cair no mais fundo dos abismos. Mas se não tentar – esse é o pior destino – serei eternamente escrava da dúvida.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 23 de maio de 2017

Nas redes sociais



Olá. Esta sou eu. Eu e a minha vida perfeita. Com a minha casa perfeitamente organizada. E o sorriso sempre no rosto. Uso sempre maquilhagem. Diria mesmo que acordo assim. Com lábios ora rubros, ora rosa, sempre perfeitamente delineados, com cuidado e devoção. Tenho a relação perfeita. Com o homem perfeito. E, claro, ponho sempre sobre a mesa as maiores, melhores e mais saudáveis iguarias do mundo. Olá. Esta sou eu. Bem-vindo ao mundo das redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Tenho centenas de amigos, com os quais partilho uma vida ativamente devotada à diversão. Juntos somos um clã empreendedor e criamos as melhores coisas. Temos dias dedicados à cerveja e dias dedicados à filantropia. Somos tudo aquilo que quem não é quer ser e muito mais. Somos sorrisos que se juntam e se exibem. E arte que se faz e publica. Vamos a todo o lado. Somos sempre os convidados de honra. E cada vitória tem a maciez da promessa. Amanhã há mais. Procurem nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Adotei três gatas, ao longo dos anos. E todas são pequenos pedaços de paraíso. Dormem sossegadamente. Fazem expressões engraçadas. Perseguem as imagens da televisão e caçam peluches. Há fotos e vídeos. Confirmem. Elas são verdadeiras estrelas em ascensão no mundo digital. Elas são perfeitas. Nunca fazem nada que não devam. Podem conferir. Está estampado nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Eu e a minha vida perfeita.
Bem-vindo ao mundo das redes sociais.
Olá. Esta sou eu. A minha vida não é perfeita. Tenho três trabalhos e nem sempre consigo geri-los. Muito menos consigo geri-los e ter a casa organizada. Sorrio muito. E choro muito também. Sou menina de choro fácil. Quando estou triste, quando estou cansada, quando me irrito. Choro. E isso limpa muitas vezes a maquilhagem que insisto em pôr no rosto, por nem sempre conseguir lidar com a cara lavada onde se imprimem olheiras e sardas de verão. Tenho uma relação com o homem dos meus sonhos. O meu melhor amigo. E, com ele, vivo dias melhores e dias piores, como toda a gente. Às vezes não conseguimos parar de nos abraçar. Às vezes não conseguimos parar de discutir. E não! Na minha mesa não há só iguarias de aspeto invejável. Também erro receitas. Também parto bolos ao desenformá-los. Também cedo ao desejo de comprar pizas congeladas para o jantar. Olá. Esta sou eu. Além do que se vê nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Que consiga contar agora, de repente, (e se não contarmos com a minha mãe e o meu companheiro), tenho menos amigos do que dedos das mãos. Raramente estou com os que tenho. Sou bicho-do-mato. Odeio cerveja. A minha última boa ação deve ter sido comprar alguma coisa mínima para o banco alimentar. E não o fiz com os meus amigos. Fiz sozinha e a correr. Não duvido que algumas pessoas quisessem ser eu. Mas duvido muito que a troca lhes fosse favorável ou que as animasse. As vitórias têm um preço hoje. E outro amanhã. Um que não está nas redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Tenho três gatas. Amo-as de paixão. Apesar do pêlo que não pára de cair, dos cabos que não param de roer, da comida que roubam sempre que não a ponho a descongelar dentro do forno. Uma delas tem tendências violentas e não a posso juntar com as outras. Outra, por trauma ou teimosia, só vai ao caixote uma vez por festa. Outra obriga-me a mudar tudo para um patamar elevado para não ter cacos para varrer a cada dois segundos. Todos os dias a ginástica das portas fechadas para evitar que se matem drena a energia vital. E tratá-las em separado obriga-me a levantar mais cedo. E sim! São adoráveis, à parte disso. E também dormem. E também fazem expressões engraçadas. Mas não são sempre fáceis. Nem na maioria das vezes. Mas não se vê nas redes sociais.
A imperfeição contorna-se nos limites da moldura da foto. Eu e a minha maquilhagem e a minha refeição somos perfeitas. A minha vida social é perfeita. As minhas gatas são perfeitas. Vivemos nesse universo que cabe perfeitamente nas mãos de quem segura o telemóvel ou o computador. Perfeitos. Bem-vindo ao mundo das redes sociais.
Olá. Esta sou eu. Eu e a minha vida perfeita. Nas redes sociais.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 16 de maio de 2017

Opinião



Troca por troca. A minha opinião pela tua. A tua pela de alguém. Vice-versa. Troca o passo. Roda e bate palminhas. Opinião. A minha. A tua. A dele. A nossa. Façamos silêncio. Concordamos. Tu e eu. Tu e ele. Ele e alguém de quem eu discordo. Mas é só a minha opinião. E a tua. E a dele. Temos algo em comum.
A vulgarização do amor e do sexo não é nada demais quando comparada à vulgarização da opinião. Diria mesmo que o negócio mais falho do mundo é o do mercado de opiniões. Há quem pague o amor. Há quem pague o sexo. São mercados que vendem, nas ruas e no cinema, muito mais do que alimento. Mas ninguém compra opiniões. Porque toda a gente as dá. São mais vulgares do que o ar. E mais comuns do que a água potável ou não. São tão drasticamente cedidas que existe quem opine sobre a opinião feita sobre outra opinião qualquer. Toda a gente a dá e toda a gente a tem. Convenientemente há quem tenha mais do que uma. Sobre a mesma temática. Depende da opinião alheia.
Dá-se. Por aí. Gratuitamente e sem ninguém pedir. É muito mais do que uma prostituição mental. Porque se fosse prostituição valia alguma coisa. E não vale. Porque não é mais do que uma oferta cedida sem razão aparente. Uma espécie de conhecimento mas sem conteúdo. Uma espécie de malícia mas sem efeito. Uma espécie de espaço vazio mas onde não cabe nada.
Opinião. Construída sem peças. Ou com meias peças. Mas quase sempre sem que a peças. Porque quando se pede. Ai, quando se pede ninguém sabe. Ninguém viu. Ninguém tem. E faz o que quiseres, por favor, que não quero ser culpado dos teus infortúnios. Mas se não pedes. Deuses. Opiniões. Como gotas de chuva. Na maior das tempestades. Dilúvios de cloaca. Caídos dos céus da boca de alguém que sabe globalmente sobre todas as temáticas. Divinamente.
Mesmo quem nunca viu e não sabe. Ouviu dizer. Acha que. Qualquer terminação. Não importa. Porque é mais vergonhoso não ter opinião do que não ter razão. Porque é mais vergonhoso não ter opinião do que não ter vergonha. Pior mesmo é ter opinião e não querer dá-la. Porque a palavra é precisa e o mundo pode desalinhar no silêncio.
Troca por troca. A minha opinião pela tua. A tua pela de alguém. Vice-versa. Troca o passo. Roda e bate palminhas. Temos opinião. Devemos ser gente. Mas há quem seja da opinião que não somos. E quem tenha a opinião que essa opinião é parva. E quem tenha a opinião de que opinião não deve existir.
Existe. É o mercado mais falho de todos os tempos. Excepto para quem integra os mercados onde a opinião se difunde para criar opiniões. Aí chega-se a uma qualquer presidência opinativa e pode-se avançar para a apanha da roupa alheia nos quintais que são ruas onde as pessoas caminham cheias de opiniões. Mas fora isso. Não. A opinião não é mercado que funcione. Ninguém compra opiniões. Toda a gente as dá. Quem não a tem rouba aos outros. Repete. Tem por opinião que a opinião alheia serve o propósito da vida.
E quem pede silêncio? Opinativamente, por favor calem-se. Ouve logo. A opinião. E os direitos, senhor? E o direito de ter, de dizer, de mostrar que há opinião? Não! Não há espaço para silêncios no mundo da concretização opinativa.
Tenho para mim que a opinião é a matéria que conduz o espaço e que é por isso que andamos sempre à roda do sol. Não aprendemos outro movimento que não o circular. Opinativamente circular. Sempre à roda do mesmo. Vez após vez, após vez.
Talvez seja certo. Talvez faça sentido. Parece-me bastante rudimentar. Parece-me estúpido.
Mas, bem… é só a minha opinião!


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 9 de maio de 2017

Maiores de 18



Atentem, crianças. Está na hora de dormir. O que vem não é para os vossos olhos. Passou a hora dos desenhos animados sobre o herói que mata o vilão. E a hora das notícias. Já canta lá fora a coruja. Anuncia que vem um filme depois. Mas não é para vós. Não. Agora, é hora das pessoas crescidas tomarem o controlo da televisão. Que se faz tarde. O filme tem a rodinha vermelha no canto. E fala de envolvimento. Tem cenas recheadas de pudor. Ide. Ide dormir. Agora é só para maiores de 18.
Fica o silêncio. Enche-se de imagens. As imagens são o silêncio. De olhos colados à tela onde se fala de paixão. E os corpos acabam por se dar. Ocasionalmente despidos, em lençóis de linho. Há mãos a seguir as linhas da anca, lábios beijando a curva do pescoço, unhas cravadas nas costas… lascivo, devasso, sofregamente inadequado. Sussurros sobre amor eterno.
Ainda bem! Ainda bem que foram dormir. Sem ver. Sem ver esses corpos nus a digladiarem-se no leito, na procura da plenitude dos sentidos e dos sentimentos. Que vergonha. O amor não é para menores de 18.
Não! O amor não é como a guerra, que pode passar em horário nobre e encher de imagens banalizadas o ecrã onde os avisos sobre a intensidade do filme nada fazem senão de teaser para o que vem de seguida. Mas não faz mal. A guerra. Que vejam a guerra. O mundo não é um mar de rosas. Convém que todos saibam. Mesmo que o saibam com balas e poças de sangue no chão. Mesmo que o saibam com crianças cobertas de cinza a fitar o céu de olhares perdidos e sem luz. Mesmo que o saibam no cadáver ensanguentado do idoso morto à paulada por ter passado na rua errada, à hora errada. É o mundo em que vivemos. Convém que vejam. Em qualquer idade.
Mas o pivô despede-se. E leva a guerra consigo. E deixa o relógio juntamente com a rodinha vermelha no canto superior esquerdo, para ditar que não é hora de estarem acordados os mais jovens.  Não convém que vejam. Podem fazer perguntas. Causa desconforto explicar. Evite-se o desconforto de dizer que as pessoas se partilham para dar de si e receber do outro. Amor. E que é assim que as pessoas se fazem. Dando ao outro. É melhor que não haja explicações. Ide. Ide dormir, antes que o amor preencha a tela. Lascivo e eminentemente perigoso.
As imagens saltam. Subitamente, misturam-se umas com as outras. É a alça de cetim, que cai no braço. E a bala que voa e passa de raspão. E o toque dos dedos, a arrepiar a pele. E o lábio passado na lâmina que degola o inimigo e o deixa a esvair em sangue. E o grito de prazer. O grito de dor. A intensidade. A devastação. Tudo somado, assemelhando-se ao toque de um amante. Tudo somado, assemelhando-se ao arremessar de uma granada.
E as crianças vêem. Primeiro. E as crianças são mandadas para a cama. De seguida. Para não verem o que vem depois de terem visto o que já veio. E vão. Levam a guerra. E só. Porque lhes vedaram o amor.
É um universo construído pela atrocidade feita banal e a partilha feita tabu. Queremos mais amor e menos guerra. Mas fazer guerra causa menos embaraço do que fazer amor. E é por isso que mandamos as crianças para a cama. A guerra é para todos. O amor é para maiores de 18.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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domingo, 7 de maio de 2017

Legado


Para a minha avó e para a minha mãe


Carregaste a minha mãe no ventre
E, por legado, ela carregou-me a mim:
O início de uma história permanente,
Que se vinca em toda a gente
E que nunca tem um fim.

Carregámos, juntas, a amargura
Todas, três, segurando a imensidão
Na fraqueza, fui-me sentindo segura
No viver dessa ternura
Que sempre foi o meu chão.

Carregaste a minha mãe contigo
Por sorte, ela ensinou-me a amar.
No centro desse legado antigo,
Em cada conselho amigo
Eu aprendi a sonhar…

Carregaste em ti a minha mãe
Eis uma história sem fim
Um legado que hoje conheço bem
E que tento honrar também
Carregando-vos em mim…

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Morto



De corpo inerte,
Lábios azuis,
Olhar vítreo:
Finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.

Exangue, frio,
Deserto, estendido,
Na sombra verde do cipreste:
Finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.

Não pode rir,
Não pode chorar;
Nem sentir,
Nem acordar.
Finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.

A verdade é natural,
Óbvia de tanto estar escrita,
Mas ele finge que está vivo
Promete que vai ficar bem
E toda a gente acredita!
A mentira é mais bonita
e não faz sofrer ninguém...

De corpo inerte
Olhar perdido,
Estendido, além…
Ele finge que está vivo,
Promete que vai ficar bem.
O mundo acredita...
... e ele também!

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 25 de abril de 2017

Dona Liberdade



Levo balas cravadas no peito e cravos nas mãos. Trago canções nos lábios. Um quase nada fora de tom. Ninguém nota. E por ninguém notar sou livre. Livre nesta vontade de mostrar apenas os cravos e esconder as penas que, feito balas, continuam a avançar, devagarinho, na direção do meu coração.
Não quero tê-lo. O coração. Tenho o direito de não ter coração. E o direito de dizer que não o quero. E o direito de obrigar os outros a ouvirem-me. Roubando-lhes a liberdade de não ouvir. Mas não importa. Sou livre. Livre de não querer sentir. Livre de fechar os olhos à vida, que é feita de armas, e de os abrir para a ilusão, que é feita de cravos.
Deito-me sobre a cama desfeita pelas mãos de um soldado chamado Acaso. Ele tomou a liberdade de fazer a cama onde me deito sem me deixar escolher os lençóis ou a colcha. Temperou-me a noite com um colchão de espinhos e disse que era livre, livre de ter um sono tranquilo. Obrigada, liberdade, vou dormir então. Nesses lençóis de fel, nessa colcha de agrura, nesse colchão de espinhos. E há-de ser um sono suave. Cheio de sonhos tranquilos e de lágrimas contidas no riso tépido.
Levo balas cravadas no peito e cravos nas mãos. Ofereço as balas e vendo as flores. Ninguém quer o que é dado. Pagam-me os pés de flor. E deixam cada vez mais a nu a ferida do meu peito. As pessoas olham para a ferida. Mas não a vêem. Vêem as nódoas do avental perfurado. E é disso que falam, à medida que levam as flores. Aceno-lhes. Tenho a liberdade de acenar. E dizem que é sorte. Podia não ter mãos. Ou braços. Mas tenho. E aceno. Livre.
Já sem flores, fico só com as balas. E vou pelos caminhos ladrilhados das pedras às quais não perguntaram se queriam ser pisadas. Mas elas são livres. Livres de não terem um padrão definido na calçada. Como nós. Pelo caminho, vejo os mundos do mundo. Os sacos carregados de quem livremente se deixa deambular por entre montras ricas. Os potes vazios de quem livremente dorme sob as estrelas.
Os artistas tocam. Têm talento. E alguma fome. E a liberdade de cantar canções polémicas nos cantos das ruas, com o saco da guitarra aberta e meia dúzia de trocos para comprar um pão algures, no fim do dia.
Limpo as mãos ao avental, tentando retirar a camada de ironia que se amontoa nesta minha completa liberdade, que agradeço, por medo de que julguem que me inclino para os extremos da vida. Livre, mas não tanto, suponho eu. Só um bocadinho. Se calhar nem um bocadinho. Mas digamos que sim. Vamos fingir que sim. Senão…



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 18 de abril de 2017

Quando não merecer



Abraça-me quando eu for inconveniente. No meio das frases impensadas que te fazem perguntar qual a razão pela qual, no meio de tantas pessoas, me escolheste a mim. Abraça-me. Quando eu for intolerante. No centro dos gritos de descontrolo e das palavras de injustiça que te ferem a alma. Essa que é invisível e infinitamente grande. Abraça-me. Quando eu for impossível. No centro dos gestos descuidados de acusação. De violência. De ódio. De destruição. Abraça-me.
Beija-me quando eu for destrutiva. Por entre os traços cortantes da dor infligida que te faz questionar qual a razão do teu coração preferir a dor da minha presença ao desconforto pacato da solidão. Beija-me. Quando eu for egoísta. Quando, podendo pôr-nos à frente da batalha da vida, optar por me proteger nos recantos do meu silêncio, negando-te o acesso ao labirinto de mim. Beija-me. Quando te afastar, preferindo a companhia dos enganos e das mentiras que se assumem como verdades universais nos espaços brancos da minha imaturidade. Quando os meus lábios secarem de amargura, no centro das palavras que apenas trazem o azedume do ódio pela vida. Beija-me.
Deseja-me. Quando o meu corpo se afastar do teu, à procura do conforto da distância. Quando eu for amante da solidão e irmã da morte. Quando eu ceder ao cansaço e não te quiser. Deseja-me. Quando te recuso e nego; e te faço sentir rejeitado na ânsia de pertencer apenas aos meus anseios. Deseja-me.
Ama-me. Quando o pior de mim se anunciar à porta do olhar. Quando a minha acidez te fizer duvidar de mim e os espaços entre nós parecerem norma. Ama-me. Quando a minha loucura te gritar aos ouvidos que me abandones. Quando a minha alma nevoenta te indicar que deves deixar-me junto ao abismo do qual me salvaste. Quando a lógica te disser que me odeies. Ama-me. Quando não houver motivo. Quando não houver em mim nada para amar. Ama-me. Quando eu te der provas de que não mereço o teu amor. Amam-me. Sem razão. Sem motivo.
Ama-me. Assim. Quando não houver sentido no amor. Quando eu não merecer. O amor não precisa de razões… e eu preciso de ti. Todos os dias. Sempre. Sempre mais quando não mereço.
Abraça-me. Beija-me. Deseja-me. Ama-me.
Transforma a raiva em sorriso. Transforma a dor em esperança. Sê a luz na escuridão de mim.
Por favor. Sempre. Para sempre. Mesmo quando não merecer. Abraça-me. Beija-me. Deseja-me.
Ama-me.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 11 de abril de 2017

Conta-me os teus segredos




Conta-me os teus segredos.
Pedes. Em tom de ternura. E eu recuso sempre. Sempre. Porque me recordo dos segredos demasiado bem. Vejo-os expressos nas linhas do meu rosto como cicatrizes de mágoa, sobre os locais onde tinha passado antes de chegar até ti, com força suficiente para te ouvir pedir.
Conta-me os teus segredos.
Fico a olhar para as mãos. Tenho uma coleção de desgostos. Vou fazendo recortes e colando, um a um, cada momento de miséria na minha caderneta de sonhos. Acumulo-os. Mas não os digo. Não falo sobre eles. Ignoro-os. Faço de conta que não estão lá, sentados à nossa mesa, a olhar para nós com sorrisos lascivos, à espera da resposta, cada vez que me pedes.
Conta-me os teus segredos.
Reclamo dentro de mim a escuridão dos recantos inundados pelas lágrimas que chorei. Houve nascentes nos olhos que me desaguaram na alma. E fizeram mares que não secam. Nem mesmo perante o sol. Não secam e não aquecem. Talvez pela dimensão, talvez pela agrura. E mergulho nessas águas de gelo para descobrir que há um medo acutilante e presente, sempre que a tua voz se ergue. Sempre que ela o diz.
Conta-me os teus segredos.
Passado. Como uma agulha que se enlaça, fazendo nós em vez de pontos e querendo que o pano fique leve. E eu tento cortar, um a um, esses nós. Desfazer-me das memórias. Deixá-las pousadas num canto qualquer, onde ninguém vá e ninguém saiba. Mas as recordações são nós que se prendem ao tecido da minha pele e que enquistam no silêncio, cada vez que me pedes.
Conta-me os teus segredos.
Olho-te. Amo-te. Sou eu. Eu e os meus segredos que não digo. Não me roubes os meus segredos! Não me roubes de mim! Sou tudo o que tenho e não valho nada. Não me roubes com pedidos como esse.
Conta-me os teus segredos.
Aqui está um. Tenho medo. De contar. Os meus segredos. Depois vais embora e não vai haver ninguém para o dizer. Para o pedir.
Conta-me os teus segredos.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Guia de sobrevivência



Nota: Designa-se por Monstro todo o indivíduo que, de forma voluntária ou por influência de factores biológicos, anímicos ou externos ao mesmo, seja incapaz de se adaptar e/ou integrar na norma social e serve o presente guia para determinar as normas inerentes à conduta do mesmo. A correcta utilização deste guia, bem como a aplicação prática das suas propostas comportamentais poderá ser uma mais-valia no sentido de minorar o dano provocado pela diferença intrínseca do Monstro, ajudando-o a camuflar-se no seu meio social, simplificando, desta forma, a vivência das pessoas e reduzindo o risco de isolamento e segregação do indivíduo desviante.

1. Aceitação - Primeiramente, por forma a permitir a convivência com as pessoas do mundo, o Monstro deve aceitar a sua condição inferior e, assumir, na sequência desta aceitação, uma conduta de subalternidade. O Monstro deverá, portanto, ser o primeiro a ceder, levando, muitas vezes, a maior parte do trabalho e distribuindo o crédito do mesmo pelas pessoas com as quais, em dado momento, faz parceria. Embora o trabalho do Monstro possa ser (e muitas vezes seja) de qualidade igual ou superior ao de terceiros, este não deverá esperar igual reconhecimento ou recompensa. A qualidade do trabalho apresentado deverá constituir, por si só, motivo suficiente para ânimo e incentivo, sendo raro, por parte de uma pessoa, a valorização de trabalhos realizados por aqueles que constituem a minoria. Tratando-se de um ser socialmente estranho e marginal, o Monstro não deverá, em situação alguma, enfatizar os pontos nos quais se destaca, sob o risco de destacar também, durante esse ímpeto de vaidade, a diferença manifesta que o separa dos outros e de contribuir, portanto, para a sua própria segregação.

2. Cognoscência e opinião - O Monstro reserva-se o direito de pensar o que quiser, contando que o faça em silêncio. Os seus pensamentos devem ser recatados. Especialmente quando expressam opiniões divergentes e concretas, devem ser domados, confinados e mantidos nos recantos seguros das suas entranhas, onde não podem ferir susceptibilidades. A referência, ainda que velada, dos pensamentos que cria poderá originar fortes cesuras por parte das gentes circundantes uma vez que, frequentemente, as pessoas comunicam sob um conjunto reduzido e formatado de códigos lacónicos, lugares comuns e clichés sociais, nos quais opiniões concretas, dissidentes e reveladoras de qualquer tipo de personalidade não padronizada se excluem. Os pensamentos do Monstro deverão, portanto, ser dissimulados, por forma a criar um espaço de integração social para o mesmo.

3. Diagnóstico e dissimulação - O Monstro deve encarar a sua condição, reconhecendo a sua diferença intrínseca como sintoma crónico de uma doença cuja cura se encontra, ainda, em fase de desenvolvimento. Não podendo recorrer ao sistema de saúde para, através dele, obter uma qualquer vacina milagrosa, deverá ingerir, através dos meios tradicionais - revistas, jornais, televisão, rádio e Internet - modelos que o ajudem a compreender a norma e a imitá-la. A utilização frequente destes meios poderá ser um incentivo à integração social do Monstro, uma vez que revela frequentemente as prioridades sociais e reduz em grande medida o pensamento crítico. Ao conhecer melhor a fracção reduzida de opiniões e temáticas sob debate, o Monstro poderá construir um conjunto de respostas-base que servirão nas suas conversas quotidianas, afastando-o da mal-afamada honestidade o que caracteriza. Os meios referidos poderão ainda exercer um forte papel no sentido de orientar o Monstro no que respeita ao seu posicionamento político e religioso, ajudando-o a integrar as comunidades maioritárias e a criar, desta forma, um sentido de pertença. É ainda de salientar que, embora alguns livros sejam também um bom meio de aprendizagem e tratamento, estes se tratam de instrumentos mais perigosos do que os media tradicionais, uma vez que, por vezes, os seus autores se integram, também, na categoria "Monstro", inscrevendo nas suas obras ideias inovadoras e/ou críticas que, pelo risco de criarem inteligência, conhecimento e/ou estruturas desafiadoras da manutenção dos padrões, são fortemente desaconselhadas.

4. Direitos e deveres - Tratando-se o Monstro de um ser desviante, este deverá compreender que a sua vivência será também modelada segundo um conjunto diferente de direitos e deveres. Aos deveres que comummente se atribuem às pessoas, o Monstro soma um conjunto de outras. Essas "outras", orientadas para o fingimento e a adaptação criarão ou não, as estruturas necessárias para que o Monstro seja também detentor de algum tipo de direitos. Os direitos do Monstro serão, portanto, proporcionais à sua capacidade de camuflagem social e ao grau de diferença que mantém.

5. Essência ou isolamento - O Monstro deverá compreender que, seguindo os passos do guia, poderá, com facilidade, esbater a diferença que o separa das pessoas. No entanto, sendo essencialmente e como a própria identificação refere, um Monstro, é provável que o individuo desviante sinta uma profunda necessidade de se manter igual a si mesmo, enfrentando a sua própria identidade no sentido de a sustentar. No caso de total incapacidade de camuflar a sua real personalidade, o Monstro deverá, portanto, remeter-se à sua insignificância e criar um canto de isolamento. Esse canto, muitas vezes designado como "o seu mundinho" ou "um planeta aparte" será o seu espaço seguro e o único no qual poderá sentir-se integrado mas, ocasionalmente, o Monstro poderá também optar por agarrar no papel e, como eu, fazer dele confidente, apenas para relembrar ao mundo exterior e cheio de personalidades uniformes e vazias que, embora ele seja um Monstro, são as pessoas que são ridículas.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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quarta-feira, 29 de março de 2017

Adeus paredes e tectos



Adeus.
Há na partida segredos que ficam. Colados nas paredes como manchas de humidade e rachas. Não adianta esfregá-los com lixívia. Criam formas indefinidas sobre a vida que, acontecendo, ali se fixou. E permanecem.
Despeço-me do som retumbante da gráfica. Despeço-me do vento nas cadeiras. Despeço-me do bebé que chorava, metodicamente, no andar de cima e dos passos corridos dos pais que o mimam demais. Despeço-me da vizinha do lado – estereótipo disfuncional entre as mulheres e os carros – incapaz de estacionar sem ocupar três lugares. E do senhor do terceiro andar, que, feito estrela de cinema, sorri sempre e acena, como se alguma vez tivéssemos trocado palavras de apreço.
Despeço-me daquele piso que não serve para nada, no topo, dando para o telhado, onde nem o elevador chega. E das suas vistas sobre a serra e a cidade iluminada durante a noite. Despeço-me do chão desse piso que, manchado de sangue e lágrimas, me serviu de abrigo e me abraçou, maternamente, nos momentos de maior mágoa e solidão.
Adeus.
Marcado no chão do quarto, nas paredes do quarto, no tecto do quadro. Luxúria e magnetismo. Ausência de pudor. Dei-me e vendi-me em troca de prazer neste quarto. E, de tão deliciosamente lasciva, a forma como o fiz é de conhecimento público e cordialmente pouco reconhecida. Mas despeço-me com particular pesar do quarto. O primeiro quarto no qual despi mais do que a roupa, mas também os muros da alma. Aqui, imaginem só a loucura, deixei que me tocassem os recantos mais recônditos da alma e do coração. Até que não houvesse mais nada senão amor e intimidade. E foi por isso que, nos momentos em que a vida doeu, eu odiei que se imprimisse no espaço essa dor de momento, como se ela maculasse memórias intemporais de amor. Despeço-me do quarto. Com algum pesar. Porque nele percebi que o amor, não sendo uma coisa, também se faz. Literalmente. Fabrica-se, artesanalmente, num sem fim de acções que se consubstanciam no corpo mas não lhe pertencem.
E a cozinha. Aquela mancha pequenina na banca, do vinho derramado, que ele tenta limpar até arrancar a pele das mãos. E a mancha fica. Que maravilhosa a memória do vinho que ali se derramou, juntamente com o riso e a vontade cega de que o riso não termine. E passos de dança sobre o chão de azulejo. “Eu não sei dançar”. Sabe. Claro que sabe.
Lá fora, ao vento, dança o alecrim. Plantado no suor paterno que me uniu, por fim, às pontas soltas do que a juventude me não permitia. Plantei relações naquela “quintinha”, onde se enterraram oferendas no dia a seguir às festividades. E, se chegou lá fora o ruído de uma qualquer discussão, ele apagou-se no cantar das noites de fogo-de-artifício quando, agarrados e cheios de frio, pusemos os olhos no céu – e um no outro – e no céu outra vez. Havia cores e calor. Em nós. No céu também.
Adeus.
Esvaziam-se, aos poucos, os armários que ficam. Dão lugar aos caixotes que vão. Isto vai? É a pergunta lançada, segurando as memórias que se agarram às paredes e tectos. Vai! E também fica. Espero que fique para que alguém conte outra história com elas, imaginando desenhos de animação onde só há realmente espaços de vazio preenchidos de recordação.
Na parede da cozinha, fica a memória permanente de uma menina que descobriu o amor. Asas abertas. E sentidos de eternidade. Feitos a giz. E, se é fácil limpá-lo da parede, quero ver limpá-lo da alma… não vai. Ficará agarrado, lembrete constante de que nada nem ninguém pode partir de onde foi (in)feliz.
Adeus.
Adeus paredes e tectos. Adeus chão. Deixo-vos o que viram de amor e ira. De contentamento. De dor. De felicidade. E levo algumas memórias de como abraçaram momentos que se perpetuam em mim e não desvanecem com o último bater da porta.
Um último olhar.
Um último texto, nesse olhar.
Coisa estranha, esta memória que me faz julgar que apenas o bom foi real.
Levo apenas comigo o que foi bom, está bem? Espero que guardes o mesmo. Nas paredes. No tecto. No chão.
Antes de ir. Um olhar. Obrigada.
Adeus.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 21 de março de 2017

A pele



Vestiram-me a padecente pele
Sobre os ossos miúdos
E o coração poente

Na hora do sol-posto
A nudez caiu bem
Sobre os agasalhos da vida

Mas quando o sol nasceu
Havia espinhos e feras
No lugar da carne exposta

Acendi a lareira
E queimei as certezas
Na lenha do tempo

Despi a pele de cordeiro
E fui com a alcateia
Rumo ao amanhã

É rubra a memória das mãos
Que me vestiram a pele
Sobre os ossos miúdos

Mas vestisse-a eu por mais tempo
E o sangue que me tinge as garras
Seria o do meu coração.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 14 de março de 2017

Humor inteligente



Aviso: O texto que se segue contém linguagem forte que pode ser considerada imprópria e/ou obscena.



No riso fácil. A rir porque os outros riem. Sentam-se idiotas em cadeiras. Aplaudem de pé. No fim. E vão com sorrisos para casa. Se era humor? Era. Inteligente? Não sei. Porque foi fácil o riso descomprometido nas temáticas que se contorceram por entre as paredes de frases feitas e asneiras mais ou menos agressivas. Defendo. Hoje. Essa forma de humor. O humor para idiotas. Esse. Porque sejamos francos… ninguém entende o humor inteligente.
Claro que a desmistificação conceptual das ideias pré-feitas, pré-concebidas e pré-divulgadas causa um qualquer transtorno nas mentes pré-brilhantes. E é fácil o riso na ideia de que é ridículo. Quando olhamos as classes e as reduzimos a estereótipos. A loura burra. O preto ladrão. A fufa feminista. O gay afemininado. Tem piada. Para dez por cento da sala pelo senso completo de ridículo que medeia o estereótipo. Para noventa por cento da sala porque pensam “é mesmo assim”. E tem piada. Suponho eu. A menos que se seja loura, ou preto, ou fufa ou gay…
O humor inteligente fere. O humor para idiotas não. É muito engraçado falar na cona da Maria, que abre de segunda a sábado e fecha aos domingos para ir à missa. Claro que, para alguns, é engraçado pela noção beata do que se faz de hipocrisia pelo mundo da religião. E para a maioria é engraçado ouvir falar da cona da Maria.
Vamos caminhando. De mãos dadas. São muitos idiotas a acharem-se inteligentes e muitos inteligentes a acharem-se burros. Esta, em si, é uma piada que não se conta. Mas vive-se. Mesmo fora dos serões de anedotas. E as piadas sobem as paredes da nossa carne. Fazem piruetas nas nossas cabeças. E dizem alto. Em tom de enunciação. Rir é o melhor remédio.
Talvez seja. Rir. Um remédio. Mas o estereótipo é uma doença. E cada vez que nos rimos da loura que acha que dois testes de gravidez positivos significa que está grávida de gémeos; estamos a dizer a um patrão que, se contratar uma rapariga loura para secretária, terá, provavelmente, os envelopes arquivados e as cartas recicladas. Cada vez que nos rimos do gay no Titanic que não sabe se deve entrar no bote das mulheres ou no dos homens, estamos a obrigar a sociedade a confundir noções de sexo, género e sexualidade. Cada vez que nos rimos porque branco que corre é atleta e preto que corre está a fugir da polícia, perpetuamos o medo social com base na raça. Mas tem piada. Não tem? Claro que tem! Vamos todos rir muito alto. Desse remédio. Porque ele vicia. E nos protege das agressões quotidianas do bom senso, não vá ele penetrar a pele e atingir algum órgão vital!
Viva! O humor para idiotas! Esse que provoca convulsões no rosto e dores na barriga. E vivam os que não entendem a ironia dos seus sentidos mas gostam de ouvir a palavra “caralho” e “foda-se” no fim das frases.
O humor inteligente. Essa forma de piada que se esconde das pessoas. Francamente! Não posso defendê-lo. Vale apenas que todo o humor inteligente seja, também, humor para idiotas. Porque, esta é a maior piada de todas: o humor é só humor. Inteligentes e idiotas são as pessoas que o ouvem. Numa sala em peso que ri, não rimos todos do mesmo. E não levamos todos o mesmo para casa.
Alguns levam desconfortos colocados nos risos. Outros levam casualidade e palavrões nos lábios. Cada um leva, do outro, o que transportava já. E são muitos ódios, muitas noções falsas, muita leviandade carregada nos corações que riem.
Hoje defendo. O humor. Para idiotas. Uma salva de palmas a todas as “conas”, “caralhos” e “foda-se” que causam uma sensação de eufórico contentamento e impedem (algum)as pessoas de ler nas entrelinhas as coisas que não têm piada nenhuma. Como a morte da equidade. Em cada palavra.
Aplaudamos de pé!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 7 de março de 2017

Voyeurismo



Espreitam. Pelo buraco da fechadura. À medida que me cai aos pés a camisa de dormir e o pudor. E que as mãos se lançam na descoberta dos recantos da alma que se sobrepõe e provocam nas arestas baunilhadas da pele.
Espreitam. À medida que o sol me beija a nudez. Subindo pelos tornozelos até alumiar as curvas da anca e se perder no voluptuoso lugar das horas perdidas.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. Enquanto passo pelo corpo os cremes e os desejos, em igual quantidade e pelo mesmo motivo. A sede. Tenho a pele seca de amores e paixões. E passo-as, de luxúria, com as pontas untuosas dos dedos que querem sofregamente atingir a plenitude. Não tenho medo de mim e isso assusta os outros. Sou mulher e não quero ser outra coisa. Sou inteira e querem pedaços segmentados de mim. E há os dedos que se movem…
Espreitam. À medida que as costas se arqueiam e o braço se estende no infinito de uma busca. Lança-se na procura e traz de volta o segredo da nudez permanente. Vestir a alma. Sobre o corpo. Ali, exposta. Onde incomoda quem olha. E onde incomoda mais ainda que eu não me importe que olhem. Visto a alma. E a roupa lavada. Com aroma a sabão e à falta de falsidades. Contra a pele, parece senso comum a alegria incompleta das vestes. Mas não é! É apenas conforto.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. E eu ponho batom nos lábios. Negro nos olhos. Beijo o retrato do espelho. Apaixonadamente. Devotamente. E digo a mim mesma, em voz alta, que talvez seja a mulher mais bonita do mundo. Sou-o. Por dois segundos. Meus. Só meus. Não tem mal nenhum. Sê-lo. Ainda que seja apenas nos olhos assumidos do meu reflexo.
Espreitam. Não me acham bonita. Têm medo de mim. E eu calço os pés nus. Assumo a postura de guerreira. Vou buscar a mala e os óculos de sol.
Espreitam. Pelo buraco da fechadura. Abro a porta onde se encostam olhares. Sem cuidado, de rompante. Faço-lhes um aceno. Não me importo que olhem! Não me importo que julguem. Mas, por favor: se ficarem, deixem-me passar! Tenho pressa de ir ser feliz.

Marina Ferraz



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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carnavalesco



Foguetes, fogueiras, folclore. O meu povo gosta de palavras começadas por F. Há algo de carnavalesco nelas. Como se pudéssemos enunciar festividades, falando felizes das forças que movem este festejo.
Fogo! Pensar que há alguns anos, fatos e figuras e festejos me faziam feliz. Faz-me ficar parada, olhando as folhas finas com uma sensação de fugacidade.
Fico. Fico na fossa. Felicitando a fraca e frágil inocência fugidia que me fica da infância que foi. Não festejo. Festas e frivolidades começam a fazer-me pesar. Máscaras. Formas. Formas irregulares e toscas. Informes. Descoladas da realidade.
Faz falta ver. De frente. Com frontalidade. E firmeza. Nas ruas dos festejos há quem passe fome. Frio. Ficam a ver passar a festa. Com olhares frisados e testa franzida. Fazem de conta que festejam também. E ficam atentos ao filme ambulante de fracas figuras fingindo que rir do que é fraco faz bem. Se cai uma moeda, fixam o movimento e forçam o corpo, fraco e frágil, franzino, a furar a multidão. E fogem. De dia ganho. Felizes.
Foguetes, fogueiras, folclore. O meu povo gosta de palavras começadas por F. Há algo de carnavalesco nelas. Farsa. Facécia. Toda a gente gosta de riso fácil. E de samba nas ruas fechadas por senhores de farda. Fazem frente à pobreza. Para que fique de fora e não faça ficar feia a festa.
A fachada provisória fica até ao final. E ficam no chão serpentinas e frascos e imundície. Funcionários farão tudo fugir pela manhã. Num passo de mágica que se funde na paisagem que olvida festas e figuras e desfiles de fraca forma.
Foguetes, fogueiras, folclore. O meu povo gosta de palavras começadas por F. Tem algo a ver com a fama final do fino foco da epopeia. Fomos. Insistimos que fomos. Porque não somos. Mas fomos. Fortes. Famosos. Felizes. Fragmento de sonho comum e familiar, feito de ouro e mar.
Fomos. Hoje não. Ficamos pelos foguetes, fogueiras e folclore. Pela festa da cegueira frente a quem faz do frio e da fome uma firme realidade. Festejemos. Fomos. Vamos firmemente fechar o espaço da fala. Deixar que fique o silêncio. É mais fácil. Uma forma carnavalesca de fugir. Senão está tudo f…


Marina Ferraz



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