terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Insatisfação



Ele entrou. Já não era o mesmo homem. Carregava sobre o casaco, que despia à entrada, o peso que lhe ficava nos ombros e que transportava porta adentro, por incapacidade de o deixar, também, pendurado no cabide. Selava, nos lábios dela, o beijo. Mas não um beijo de tentação e apego. O beijo do hábito, encostando os lábios aos dela como se apaticamente o fizesse num copo de cerveja, mas sem o mesmo prazer. E a pele cinzenta servia de moldura ao lugar onde os olhos, meio mortos, permaneciam presos ao anteontem e os lábios, na sua linha, cada vez mais fina e severa, desapareciam por entre a barba de dois dias.

Ela ouviu-o entrar. Já não era a mesma mulher. Escondia sob o avental, que nunca despia, o rasgo quente da raiva que, por mais que tapasse com sorrisos, lhe fazia doer o estômago, como uma azia onde os ácidos nada mais eram do que o refluxo da vida que odiava. E ele entrava – já sem casaco, só com o peso – e beijava-lhe os lábios. Um contacto de dois segundos que lhe parecia uma hora de penosa tortura nas catacumbas do mundo. Passava do beijo à tarefa, com uma profundíssima competência. Nunca uma panela de sopa era melhor mexida. A colher de pau dançando por entre o líquido amarelado, como se essa dança a distraísse da chegada dele. E os olhos dela, movendo-se com a colher, apreciando com agrado os riscos levemente mais escuros que ficavam na sua passagem, focando neles uma atenção pouco sadia e mergulhando neles à procura dos sonhos.

Sentavam-se os dois à mesa. Ela ligava a televisão para ver a novela. Ele abria o jornal para ler a secção de desporto. Mas nem ela ligava à novela nem ele a futebol. Queriam apenas a tranquilidade de não precisarem de se falar. Para não precisarem de falar sobre as formas como ele procurara mundos de luxúria e paixão onde, primeiro, devia ter havido amor. Sobre a forma como ela procurara realização e conforto onde, antes, devia ter havido amor. Sobre a forma como ambos se tinham esquecido, completamente, de amar-se – a si mesmos e um ao outro.

Um dia ele entrou. E pendurou o casaco. E beijou-a, ao de leve, sobre os lábios carentes. E sentou-se com ela à mesa. Naquele dia, ele não trouxera o jornal. Naquele dia, o serviço de televisão tinha sido cortado. No lugar do jornal ficava o espaço da madeira demasiado lustrada de uma mesa meio vazia. No monitor, o aviso saltitante da operadora dizendo que restauraria o serviço assim que possível. Havia o barulho das colheres a irem ao prato e um espaço de silêncio que pedia, implorava, por ser cortado. E os olhares fixos na sopa.

E foi naturalmente, para quebrar o silêncio, que se fizeram ecoar as palavras, como se fizessem sentido:
«Devíamos ter um bebé», disse ele.
«Devíamos ter um bebé», repetiu ela.
Não concordavam há tanto tempo… parecia fazer sentido!


Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sinergia



Para o meu "evidentemente"

Preciso de ti. Precisas de mim. Respiramos, juntos, o ar que o mundo dá. Eu por ti. Tu por mim. Sabendo que de pouco valeria a respiração se nos faltássemos.
Damos passos coordenados. Nem sempre sobre as mesmas pedras. Às vezes, vou à tua frente, puxando-te pelo braço. Às vezes, quedo-me atrás de ti e deixo que me arrastes. Pergunto onde vamos e nunca sabes dizer. A resposta vazia basta. Porque sei que vou contigo, seja lá onde for.
É o nosso universo. O meu. O teu. O nosso. No meu, moram as perguntas. No teu, a espontaneidade. No nosso, a confiança que se ancora no desejo do amanhã. Respiro-te. Respiras-me. Respiramos juntos o mesmo ar. O do mundo. Que não nos entende. Que não nos respeita.
Preciso de ti. E tu precisas de mim. Somos dois completos que se encaixam na perfeição. Sabes que me basto. Sei que te bastas. Mas não chega. Queremos mais da vida do que o completo no qual se fazem fórmulas de sobrevivência. Queremos o que mais ninguém tem.
Sejam palavras. Beijos. Abraços. Corpos dados sem pudor nas noites de lua cheia. Ou simplesmente filmes na tela da televisão. Queremos isto. Isto que ninguém tem. Não como nós.
Porque preciso de ti. Porque precisas de mim. Mas somos inteiramente completos no seio da necessidade que nos move.
Tenho vinte dedos nas mãos. Escrevo com eles canções de amor que não veriam a luz do dia se não tivesse dois corações. Não! O teu coração não é metade do meu. O meu não é metade do teu. São inteiros. Batendo em compassos ritmados que musicam a vida de uma forma muito peculiar.
O meu bate. O teu bate. Não há silêncios entre o bater do teu e o bater do meu. Rodas dentadas, movendo os ponteiros da paixão. O meu bate. O teu bate. E que o teu bata uma vez depois do meu, se puder ser.
Preciso de ti. E tu precisas de mim. Isto acontece sem acasos nem senãos. É uma necessidade desnecessária que se estende, fluída, por entre os espacinhos seguros nos quais ainda cabe algo além de nós. Antes amor do que ar. Antes amor do que água. Prefiro sufocar de excessos do que de vazios.
É um sufoco que me acorda da dormência inconstante e insaborosa dos tempos. Lembrando a plenitude do ar que respiramos juntos, na luta por uma coisa que é outra coisa. Diferente do permeável. Diferente do mundo.
Preciso de ti. E tu precisas de mim. Não me falta nada. Não te falta nada. Temos mãos. Mas queremos dá-las. Sabemos que, juntos, suportamos mais do que a soma das nossas forças. Uma imortalidade dispersa que move as mais pesadas montanhas de senso comum.
Temos corações. E eles batem. O meu bate. O teu bate. Na necessidade inexplicável, preenchem os silêncios como espaços de roda dentada. O meu bate. O teu bate. E, assim queiram os Deuses, possa o teu bater mais uma vez depois do último pulsar do meu.




Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Hierarquia


Há gente. Há pessoas. E pessoinhas. E pessoinhas que se acham pessoas. E pessoas que se acham gente. E gente que é gente. Para destoar. Todos sabemos como é.
Na maioria das vezes as pessoas vão. Cumprem horários vastos. E seguem linhas detalhadas. Montadas. Disseminadas. Cuidadosamente tratadas e esmiuçadas. Pelas pessoinhas que se acham gente. E algumas que se fizeram gente. À conta da determinação das pessoas. Da gente. De quem precisa de pão na mesa. Ou de viver.
Às vezes, gente que é gente pede esmola na rua. Ouvi, senhores do alto, as preces. Da gente. Da gente que é gente e que tem a gentileza de pedir… porque roubar é viver da esmola gananciosa do que não nos mata a fome. As pessoinhas fazem festas e entram nos círculos mais elitistas. Comem para matar a gula. Engordam para encher as roupas. Cortam o que adiposamente se amontoa debaixo das peles para pagar a dívida da vaidade. E criam regulamentos. Nas horas vagas, entre a festa e o luxo.
Fazem cópias do regulamentado. Porque a lei é lei. Desde a Grécia. Desde a democracia. Demo. Cracia. A lei é a lei. Das horas de trabalho escravo, que somadas às assalariadas ainda não fazem um dia. Mas por sorte. Ou jeito. Ou defeito. Ninguém é louco de pedir vinte e cinco horas num dia. Mas o mundo é das pessoas que dão. A mais. Porque quem dá o que deve, dá pouco. E quem dá menos morre de fome.
Escalam-se degraus, deixando pedaços de moralidade atrás das costas. Porque pesam. E a escadaria é alta. E não é pior escrever o regulamento do que seguir-lhe à risca as regras. Até porque a vista cansa e o mais importante vem sempre nas letrinhas pequenas do fundo da página três mil. Às vezes é gente que começa a subir a escada. E quer-se crer que gente chegará ao topo, para que seja justo. Mais justo. Equilibrado, ao menos. Melhor?
Chega ao topo a pessoinha. E, ao fim de pouco tempo acha-se gente e esquece-se do tempo em que de mãos estendidas pedia esmola e se oferecia para ser escravo na base menos estruturada das pedras de calçada empresariais.
Há gente. Há pessoas. E pessoinhas. E pessoinhas que se acham pessoas. E pessoas que se acham gente. E gente que é gente. Para destoar. Todos sabemos como é.
Sabemos mas não sabemos. Porque não querem que saibamos. Está nos regulamentos. Façamos silêncio. É o que dizem. Mas calados. Porque dizê-lo pode ofender.
Hierarquia.
Hierar. Quia.
Hierarqu. Ia.
 Ia. Até ia. Mas não vou.
Tenho medo de subir os degraus. E de deixar de ser gente. E de passar a achar que o sou. Parece triste, olhando de baixo. Porque se acham sol. E só fazem sombra.



Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Amarige

Amarige
Aroma-Saudade



Todos os tons da saudade num frasco vazio.
E o desejo do abraço que falhou antes
E a almofada que humedece sob o rosto
E o medo que aperta de um amanhã mais frio.
Todos os tons da saudade num frasco vazio.
E a mentira de que ficam as coisas distantes
E o sabor acre da dor, do desgosto,
E o medo que aperta por tanto o sentir
Tenho as lágrimas, mas ainda sorrio,
Tenho este frasco, ainda que vazio,
E o aroma dela antes de dormir.


Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Governar o mundo


Deviam. Não têm de. Mas deviam. Pelo menos tentar. Ver. Talvez se surpreendessem. Eu acredito que sim!
Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Não! Não um homem de saias. Não uma senhora que cresceu a acreditar que só os homens podiam e a aprender a passar mais ou menos despercebida no meio deles, com os seus fatos engomados e conservadores. Não alguém cujo cérebro pensa no masculino. Não alguém cujo coração endureceu nas promessas mais ou menos realistas do enriquecimento pessoal. Uma mulher. Qualquer uma, posto que as mulheres são todas diferentes. Mas uma que o seja, de A a Z. Mulher.
Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Essa mulher deveria ser mãe. Não porque eu ache que uma mulher tem de ser mãe. A maternidade não define a feminilidade nem o valor de ninguém. Mas, para governar o mundo, eu acho que a mulher escolhida devia ser mãe. Daquelas que se levantam de noite para garantir que os filhos não estão descobertos e a apanhar frio. Daquelas que se sentam a olhar para os primeiros passos, agarrando-se ao sofá para se impedirem de correr para lhe ir amparar as eventuais quedas. Daquelas que se emocionam quando o filho entra na peça da escola, fazendo um papel menor no qual nem uma fala têm… mas que dizem a toda a gente, mostrando cem fotografias (todas iguais), como ele foi perfeito.
A mulher certa para governar o mundo devia ser este tipo de mãe. Aquela que não tem amas para cuidar dos filhos nos dias de folga e que não tira férias de o ser. Que passa a ferro ou que pede ao marido (ou esposa) que o faça. Que faz o almoço ou manda vir uma piza para não ter trabalho. Que limpa a casa, com um olho nas notícias e outro no ponteiro da balança. Que corre maratonas ou passeia pela avenida com o carrinho. Que ouve músicas românticas e adora, ama de paixão, filmes de ficção cientifica, de terror, de romance ou de drama.
Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Governar o mundo não é algo que a sociedade tenha preparado os homens para fazer. Infelizmente. Num lugar de dimensões mínimas, como uma casa, a maioria dos homens, se passam dois dias sozinhos, criam um espaço de caos. E se o filho chorar, é um caos com banda sonora. E se a panela verter, é um caos com banda sonora e aroma a queimado. Não é por falta de capacidade… que não faltam aos homens duas mãos, nem um coração, nem inteligência. Mas foram muitos séculos, milénios a dizerem aos homens que o espaço é para ser ocupado.
Às mulheres não. Historicamente, as mulheres não foram conquistadoras. Mas foram os pilares da construção, da manutenção e da paz. Os homens ganhavam a guerra e elas avançavam para as batalhas que seguiam a guerra. De uma forma leve e suave. Nem deram por elas.
E, senhores, é a má notícia: o mundo está descoberto e conquistado! Parabéns! Falta sustê-lo. Falta pegar na casa e fazer dela um lar. Um lar que se chame mundo.
Deviam. Não têm de. Mas deviam. Pelo menos tentar. Ver. Talvez se surpreendessem. Eu acredito que sim! Um dia, deviam pôr uma mulher a governar o mundo!
Uma mulher que o limpasse como foi ensinada a fazer. Que o amasse como faz por instinto. Que o embalasse como a um filho. Uma mulher que não estivesse formatada para pensar que o mundo está assente num cifrão. Uma mulher que não estivesse lá para agradar aos homens mas antes para cumprir o seu papel. Uma mulher que conseguisse olhar para a pequenez das mentalidades como quem olha para um bebé recém-nascido, vendo já os grandes feitos presos nas nuances do seu potencial.
Onde iríamos se tentassem, só por uma vez, pôr uma mulher a governar o mundo?
Provavelmente não vamos saber. Provavelmente, se uma mulher chegar lá, será um homem de saias. Provavelmente.
É que, na falta de mundo para conquistar… os homens conquistam as mulheres. E elas deixam porque amam. Elas nem sabem que podiam governar o mundo.



Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Todas as histórias



Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Algumas são. Talvez a maioria seja. Já me perdi de mim tantas vezes. Não sei dizer. Não há muitas que me pareçam reais. Umas porque não me identifico com elas. Outras porque não quero ver nelas o espelho do meu negrume. E ainda outras por me fazerem esperar da vida mais do que o desalento.
Seja como for. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Algumas colocam-me em locais onde nunca estive e põe-me na boca palavras que nunca disse. Acredita. Se o disse, escrevi-o algures. Vasculha pelas minhas notas de amor e ódio. Verás. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade.
Acreditas em algumas. Da irracionalidade da crença eu já vi surgir as mais variadas respostas. Do ódio contemplativo aos olhares recheados de veneno, passando pelas palavras de ameaça e os gestos de violência. Sim! Eu estava lá. Se disserem que estava, é verdade. Essa é uma história legítima.
Estava lá. Eu e a minha maneira de estar, muito pouco adaptada ao mundo e às pessoas. Chata, inconveniente, repetitiva. Sou cansativa e os outros já o sabem há muito tempo. Contam histórias. Comédias ímpares e dramas sem hora. Fazem filmes a preto e branco onde eu apareço desfocada, como se fosse um fantasma de mim. Algumas histórias que contam sobre mim são verdade. Mas não todas.
Por exemplo. Fala-se muito da mentira onde eu disse verdades que as pessoas não queriam ouvir. Porque é mais fácil acusar-me de falsidade do que dizer que eu não meço as palavras na altura de as atirar, com a dureza da realidade, ao rosto de quem quer que seja. As pessoas têm problemas com a verdade. E têm-nos comigo, por arrasto. Mas eu falo. Quando é preciso. E não o faço de forma bonita. Não arranjo eufemismos e sonhos e alentos. Digo. Dizer a verdade já fez de mim “a mentirosa” tantas vezes que comecei a achar que a palavra vinha trocada nos dicionários e enciclopédias do mundo. Fui ver. Parece que tenho razão. Acho, por ter razão, que sou demasiado inteligente e que isso me custa pontos no jogo da vida. Será? Não sei! Talvez. Mas o ponto é este. Nem todas as histórias que se dizem sobre mim são verdade.
Algumas são. A história da depressão constante. Do olhar pesado. Das conversas sobre literatura nos serões de farra. Da procura pela inspiração no fundo de copos de vodka maçã. Das conversas longas com fantasmas mortos de figuras que nunca existiram. Da tomada de coragem no fundo de garrafas de vodka de baunilha e amora. Dos beijos molhados e proibidos na procura do amor. Enrolada na cama. Vestida de roupa e despida de pudores. A querer dar o que vem depois da alma a alguém que eu acho que me entende. Entenda ou não.
Não sou nenhum exemplo de retidão nem quero sê-lo. Mas também não sou a personagem que se cria em todas as histórias nas quais figuro como protagonista triste. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Algumas são.
Distinguir a verdade da mentira não importa muito, contando que se morra. Não sou imortal. Talvez alguma história diga que sim. Mas não sou. Vou morrer um dia, juntamente com a consciência de onde começa a verdade e onde acaba a mentira. E o que ficam são histórias nas quais figuro. Irreverente. Triste. Moralista. Ou simplesmente estúpida. Calculista. Mentirosa. O que vai importar? Ficam as histórias e eu não. Fica o meu eu, que não sou eu, mas apenas personagem de ficção em histórias que podem ou não ser verdade.
Adormeço. Tranquila. Nem todas as histórias que se contam sobre mim são verdade. Mas a história vira estória. E as estórias embalam o mundo rumo ao amanhã. E amanhã começa tudo outra vez no nascer do sol. E o sol sabe a verdade. É só isso que importa…



Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Domingo à tarde



Tu tens o drama. Todo ele. Sem o mais pequeno indício de gafe ou de lacuna. E o aspeto cuidado. As sombras e as nuances corretas. O desenho perfeito de um olhar de estrela. Não seria preciso muito. Se tivesses algum conteúdo, poderias ser um filme de Domingo à tarde.
Digo-o sem desprimor. Para os filmes de Domingo, isto é. Servem as gentes e enchem as horas. E criam sonhos comuns em pessoas comuns. Para que tudo mude. E tudo fique igual. Como tu.
Andando pelas rua, algumas pessoas hão-de deixar que se quede em teu redor um sem fim de pensamentos frouxos. Clichés. E de tanto sorrires à mesma amálgama vazia de assuntos insossos, os teus lábios tomarão o sabor de gomos de laranja amarga. Mas não te importes. Haverá quem os beije e quem deles sorva um desigual manto de amores perdidos. Também ele cheio de clichés informais. Tirados desses filmes. Os de Domingo à tarde.
Mas sonha. Nos teus passos dados de salto alto, a virar pés na calçada portuguesa. Sonha com o amor. Esse que nasce pelos belos olhos e as belas palavras. E que termina num coração quebrado que outro amor repara com a massa concreta da esperança. Deixa-te querer isso e mais nada. E dramatiza. Como fazes tão bem. Recorrendo às palavras mais baratas das revistas e atropelando-as com termos formais ouvidos aqui e além. Cultiva os termos como sementes, acreditando que eles fazem nascer na terra baldia e infértil das tuas frases algum tipo de rebento intelectual.
Minha querida. O olhar que se perde, vagando, à procura do amor é mais vazio quanto te é dito que o teu amor devias ser tu. Saltas de nuvem em nuvem pelo conceito, à procura da caixa perfeita onde ficas no espaço seguro que te mura a zona de conforto. Que para desconforto bastam os saltos e a ideia quem inventou a calçada desnivelada que tu pisas. E dizes que não. Nunca, nunca, nunca. Não vais ser feliz. Que tormento. Que impaciência. E o príncipe, lá longe. Se te visse. Se olhasse. Se ao menos…
Tu tens o drama. Todo ele. Sem o mais pequeno indício de gafe ou de lacuna. E o aspeto cuidado. As sombras e as nuances corretas. O desenho perfeito de um olhar de estrela. Fico a olhar para eles. Não sei se sinto pena de ti ou de mim, por não ser tu. Parece simples. Como respirar. Como um filme de Domingo à tarde. Mas mais elementar.
Vais. Virando os tornozelos que se endireitam num salto a cada tropeço, à espera da mão encantada do amor. E, se ele te ampara, é para a vida.
Que felicidade pulsante, caminhando pelas ruas citadinas onde me perco em pensamentos mil, formulando esquemas de compreensão do mundo. Que felicidade! Feixe de louca sedução pelo que se dá como certo. Inebria e luz! Quem me dera. Pode ser cliché. Mas quem me dera! Porque é que nunca tive paciência para os filmes de Domingo à tarde?

Marina Ferraz



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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Segredo



O meu segredo:
Ansiedade de mel agre.

Senhor de reinos de agonia
Sepultado sem nome
Esculpido na pedra.

Corda partida do tempo.
Dor talhada no peito.

O meu segredo:
Morte criada no devaneio
Das horas que ficam.

Toca a saudade
Badalada de medos
No santuário da dor.

De saudade, silêncio e solidão
Vive o meu segredo.

E neles morre
Devagarinho.


Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet



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sábado, 31 de dezembro de 2016

Carta ao defunto 2016



Quando se vira a página para descobrir a contracapa da agenda, define-se que é algo novo que começa. E celebra-se. Começa tão cedo a celebração que ainda é feita na cabeceira do ano moribundo. Chamam-lhe “velho”. Que desrespeito! E ele cala-se, recordando que nem toda a sua existência se pejou de dor.
As pessoas não querem saber! Procuram a novidade das páginas ainda virgens de um novo ano. Apregoam que nelas mora a mudança. E vestem-se de esperança. Falam de sonhos. À beira da cama onde definha o ano que acaba.
Levam cuecas azuis e chapéus com números e óculos ridículos (como as cartas de amor) para o meio da rua. E celebram. Como celebraram antes. O novo começo. O término do ano. “Bom ano novo!”, gritam de euforia, antes mesmo das badaladas. E todos se riem. Na cara do ano que termina. E, que os olha, complacente, despojado de dias que lhe provem o valor e de forças para defender os seus esforços.
Meu querido ano 2016. Não serei escrava das tuas memórias, mas tão pouco me juntarei à amálgama mais ou menos amorfa que te celebra a morte. Trago-te em mim para o ano que começa…
Enquanto morres, sento-me a teu lado. Para recordar aquele dia de Janeiro, no qual me sentei à mesa farta para celebrar o aniversário da Mariana e onde ri até chorar com as histórias. Amizade e plenitude e compreensão. Na voz doce do André, vinda do escritório, ouvi nascer parte do “Via” e, nas lojas de perfume, reforcei a minha capacidade de falar sem medo da minha própria voz. Esse Janeiro, vou levá-lo comigo.
Mas foi Fevereiro. O Fevereiro onde vi mais um livro nascer. Onde fiz maratonas pelos stands de automóveis para tentar arrendar um que não me drenasse a conta. Sem fazer muito caso, celebrei o amor com um jantar corrido no centro comercial no Dia dos Namorados. E recebi a exclusividade nas mãos, com a garantia de que seriam muitos os dias passados em Cascais…
Estavas lá, meu doce 2016, quando, em Março, celebrei o Dia do Pai à distância, vestindo o meu melhor sorriso em torno das maravilhas da Hermès. E acompanhaste-me na direta que fiz com o meu companheiro, enquanto eu trabalhava na escrita e ele fazia nascer “Os elementos”, à espera das 4 da manhã: a hora de levar os meus pais ao aeroporto e o meu sobrinho ao sonho infantil da Disney.
Foi um mês de encontros. Recebi, no mesmo aeroporto e com as mãos aquecidas em copos de café, o sorriso jovial do meu irmão. O mesmo que me anunciou, dias depois: “Vais ser tia!”.
Entrei em Abril com a notícia. Preparada para a receber como quem recebe a Primavera, que tardou a ser quente mas veio em flor. E, de Abril a Maio, o trabalho que me fez ausente, uma vez mais, no Dia da Mãe. Um dia adiado mas que não desmarcámos, apenas para que eu pudesse vencer e dobrar mais um dos meus objectivos pessoais. Ainda em Maio, deixaste-me, meu querido 2016, viver dias cor-de-rosa. Com um sorriso no rosto e um aroma a Omnia no ar.
Junho. O mês de mim. A pertença eterna que tenho a quem me fez, a quem me ama, a quem me quer. A tarde em família. A maluquice. A foto da praxe. E a noite com o Helder e a Tânia. Copos virados e riso nos lábios. Fogos coloridos no ar. Alegria. Depois, o orgulho na Leonor, que dançou como quem faz piqueniques no sol britânico.
Houve o mês em que viste o amor fazer anos. O meu Julho. Regado a sangria e francesinha e piza fora de horas. E a feira, feita na rua, com nome de alho e aroma frutado. Um aroma que me levou às cores da maquilhagem que se somava, por fim, às minhas qualificações, mesmo a tempo de Agosto… que chegou com a minha avó.
Conversas cheias e doces, sobre a mesa, ao pequeno-almoço. Café com leite e pão com manteiga. Noites de cinema em casa. O francês e o português, remexidos e atabalhoados. E o trabalho. Tanto. Da escrita. Dos perfumes. Do grupo de investigação. E os concertos que, em simultâneo, eram tocados pelas mãos dele. E os parcos dias a apanhar amêijoa como se fosse ouro na Foz do Arelho. Os dois banhos – um de piscina e um de mar. O sol.
A visita da Leonor, que fez morrer Agosto e nascer Setembro. O aniversário do Ramiro. O aniversário do Helder. A idade de quem nunca me envelhece. À medida que a minha mãe se afeiçoava a um gato, eu decidia adotar um. Uma. A Samhain. Menina de olhos doces e pelo negro que, em Outubro, cruzou a soleira da porta e se fez família. E, além da Samhain… o Samhain! O jantar, a festa, a celebração, os amigos, as preces. O apagar, no caldeirão, da mancha que fizera deste um mês passado na Neurologia B dos Hospitais de Coimbra. O agradecimento pela vida e pela permanência do amor.
Novembro. Trago de Novembro o sabor do aniversário da minha mãe e da minha sobrinha, então mais nova. E da conversa junto ao fogão. E do abraço. Que mudou tanto. É um sabor a cheesecake que amarga um pouco no final… numa nova ausência, no dia da Marisa… que se colmata em textos e mensagens e chamadas. Mas nunca basta.
De Novembro a Dezembro. Um esfumar de memórias no cansaço. Trabalho. Natal. Festas do pijama por entre fotografias. Mesa recheada de tudo. De quase todos. E a notícia de uma nova sobrinha na distância. Com os olhos verdes e o rosto dos pais. Celebrou-se tudo. Por entre trabalho e trabalho. Em redor da mesa, o amor. Um amor que vinha de trás e que se contemplou também em ti.
Sento-me à cabeceira. Vivi contigo tudo isto, meu querido 2016! Foi assim que me fizeste crescer. De permeio houve brigas e desentendimentos. Contas para pagar, dificuldades. Mão não te desejo a morte precoce nem quero que te substitua um ano melhor.
Quero que partas em paz. Sabendo do teu papel. E que deixes entrar o ano que nasce com orgulho nos teus feitos.
Foi um feliz ano novo. Tal como profetizava a morte de 2015. Foi um feliz ano novo. Porque, quando começou assim, novo, eu tratei de o fazer feliz.
Até sempre, meu querido 2016. E obrigada por me teres levado nesta louca aventura de 12 meses cheios e inesquecíveis.


Tua até às badaladas,


Marina Ferraz



*Imagens retirada da Internet



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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Nas terras altas


Ouvi dizer. Vai haver chuva nas terras altas. Nas… terras… altas. Nas terras do céu? Será lá, onde moram os Deuses? E, se chove nas terras divinas, o que podemos esperar nós, meros mortais, sem controlo nem razão? Ouvi dizer. Vai chover. Nas terras altas.
Vai chover. Mas quem é que controla a chuva? Se, sobre as cabeças etéreas do que se faz dogma se sente o cair das gotas do tempo, quem pode dizer que é rei do firmamento?
Vai chover. Nas terras altas. Sobre as casas. Sobre os carros. Sobre as árvores e os penedos e as rochas e os rios. Sobre as cabeças dos Deuses. Todos eles. Seja qual for o credo.
Talvez, sobre os divinos ombros, façam surgir um guarda-chuva feito de fio de ouro e raio de sol. E talvez não saiam molhados da tempestade. Mas não podem travá-la. Já disseram. Vai chover. Nas terras altas.
Ecoa o trovão. Soa. Ressoa. Penetra os meandros da cidade onde as raízes alicerçadas fazem crescer prédios e moradias. A floresta é de cimento e betão. Faz soar mais seco o raio, à medida que deixa de ser luz e passa a ser som. E, atrás dele, o murmúrio miúdo. Contínuo. O principiar invernal de uma cascata fina, feita de lágrimas-nuvem.
Todos nós. Homens e Mulheres. Sediados na morada que assenta em vales e montanhas. Orando aos Senhores das Terras Altas. Louvando os Senhores das Terras Altas. Mas disseram. Ouvi dizer. Vai chover. Nessas terras. Lançaram avisos e alertas. Dizem que vai ser pior lá. Nas terras altas.
Do outro lado. Fora da janela. Fora de mim. A chuva. O trovão. O aviso. O alerta. Gotas que se formam no vidro. Desenhos que se criam à medida que as gotas se acumulam e escorregam. Gotas. Rios. Pensamentos. Enclausurados atrás dos meus olhos. Loucos. Fixados na chuva que cai. Abertos. Demasiado abertos para não criarem estranheza entre os que se dizem normais e sãos.
Mas a louca quer saber: por que razão é que chove lá? Nas terras altas. E por que razão pedimos o impossível a quem não consegue, sequer, travar a chuva? Quem é este Deus, tão pequeno e susceptível à tempestade?
Pergunto. Ninguém responde. A voz da rádio insiste. Vai chover nas terras altas.

Talvez a chuva seja Deus. Um Deus que chora. Como eu. Um Deus que é louco e incontrolável. Um Deus que cai e ascende. Em todo o lado. Até nas terras divinas. Até nas terras do céu. Até nas terras altas.



Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Além do que se vê



Ela não parece ter grandes sonhos. Acorda impaciente e segue o dia desejando a hora de dormir. Não se olha ao espelho. Ou olha de relance, enquanto passa as mãos pelo cabelo de forma atabalhoada e sai pela porta. No seu rosto, quase nunca há maquilhagem. Costuma haver sorrisos. Alguns. Mas nem todos são verdade. Alguns são. Mas esses reservam-se para alguns momentos e algumas pessoas. E escondem mágoas. Se escondem… Escondem justamente os sonhos. Milhões de sonhos. Aqueles que ela não parece ter. Mas tem.
Ela não parece ter muita força. Avança pelas ruas, de mãos abertas e vazias. Gosta mais de dar do que de receber. Trata toda a gente com uma cordialidade que se faz formal na informalidade de palavras simples. Aponta as culpas às circunstâncias e diz que não mudaria nada. Não é exatamente verdade, embora também não seja mentira. Ela simplesmente convenceu a sua própria mente a acreditar. E avança. Pelas ruas. De mãos abertas e vazias. Sorrindo. Parece ter a idade do mundo e metade da idade que tem. Tudo ao mesmo tempo. Pesam-lhe nos ombros decisões e vontades. E medos. Ela tem muitos. Mas quase nunca os diz. Luta contra eles. Uma luta inglória que ganha, aos poucos, usando a força. A desmedida força. Aquela que ela não parece ter. Mas tem.
Ela não parece ter muita vontade. Em conversas que dizem pouco mais do que nada, ela desvia exércitos de perguntas e faz o mundo acreditar que o universo do que é comum lhe basta. A casa. O carro. A rotina. Levar os filhos. Fazer o jantar. Envolver-se em atividades. Faz toda a gente pensar: é o que lhe basta. E, num primeiro olhar é. Mas não. Não é! Nos pontos aperfeiçoados dos seus bordados há a vontade de romper grilhetas. E nas palavras de incentivo que deixa, em conselho, a quem pede, há a vontade de mudar o mundo. Ela contenta-se com pouco. Mas quer muito, na sua vontade. Naquela que ela não parece ter. Mas tem.
Ela não parece ser especial. Caminha pelas ruas, como qualquer pessoa. Segue a rotina. Envolve-se nas histórias da família. Molda a realidade das tarefas, ora com obsessão, ora com desapego. E vê televisão, deitada no sofá, debaixo da manta. E lê livros de fazer chorar. E ri com publicações idiotas das redes sociais. Como a maioria, camufla a dor debaixo de uma camada densa de apatia. Finge não se importar. É tudo um bocadinho cinzento. Mas é o mal dos monstros. Debaixo da camada cinzenta, correm sonhos e vontades, há mares de força e entendimento. Formam-se arco-íris de sentimentos e sensações. Debaixo do que se vê, ela vai desbravando mato, à procura do que nem todos sabem que existe. E olha ao espelho, para dizer a si mesma que se ama – ainda que não ame -; e olha para os filhos para dizer a si mesma que venceu; e olha para as tarefas para dizer a si mesma que, por um dia, o cansaço não levou a melhor. Em cada um dos seus pontos, ela faz mais do que desejar a quebra das cordas que a amarram. Ela rompe-as. E, por maior que seja a mágoa, ela levanta-se. Por maior que seja a dor, ela sorri. Por maior que seja a tristeza, ela dá o melhor de si a toda a gente. E é isso que a torna especial. Especial como ela não parece ser. Mas é!
Ela pode até não parecer especial. Até pode. Porque, no meio desta amálgama de gente que povoa o mundo, ninguém parece. Mas, Deuses, são os sonhos, a força e a vontade que ela não parece ter que lhe dão brilho. E é um brilho maior do que o Sol. Um brilho que ilumina as ruas onde ela caminha, de mãos abertas e vazias. Segurando os fios que tecem a ténue hipótese de, um dia, o mundo se tornar um lugar melhor para viver.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Quem o é


O primeiro foi por coragem louca,
O segundo porque pôde ser,
O terceiro porque tinha a liberdade
O quarto por direito,
O quinto por sentido de dever,

O sexto foi por imitação,
O sétimo, por influência,
O oitavo na pressão de ser,
O nono porque não pôde escolher,
O décimo foi por intimidação.

Veio quem fosse porque outros eram:
Foram vinte, foram trinta, foram cem...
O primeiro foi-o por coragem louca,
Hoje, quem o é, é coisa pouca;
Hoje, quem o é, não é ninguém!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Costurei





Costurei. Na minha condição. De bicho. De mulher. É para isso que servem as mulheres. Para costurar.
Comecei por bordar a ponto pé-de-flor o sonho de não ser. Porque o sonho de ser estava estampado de origem no tecido de mim. Bordei o sonho de não ser essa mulher que é apenas o que se diz que a mulher pode ser.
Ponto a ponto. Vai à frente e volta atrás. Recusando-me a ser flor. Recusando-me a ser ponto. Recusando-me a ficar aos pés de seja lá quem for.
Mas bordar a ponto pé-de-flor esse sonho de não ser não foi suficiente. Bordei a cheio o desejo de não ficar no vazio convencional das coisas limitadas. E não! Não mantive o ponto dentro das fronteiras. Ultrapassei-as de propósito. Farta de barreiras. Farta de normas. Farta de limites.
Borde a recusa a ponto cheio. Um basta. Um chega. Não quero estar vazia!
Bordei. Bordei a rechelieu o grito que traçou as minhas próprias fronteiras. Em redor das minhas formas e dos meus vazios. Em redor das minhas próprias convenções, que se faziam ervas daninhas e proliferavam no centro das histórias que também era eu a criar.
Bordei. A ponto cruz. Fiz cruz sobre as coisas atiradas, insistidas, dissimuladas, intrínsecas e estapafúrdias. Tracei. Cruz atrás de cruz, feito rasura sobre o que se dizia que eu devia ser. E de cada cruz fiz estandarte. Não! Não sou essa mulher que se diz! Não sou essa mulher que se limita! Sou outra coisa… Sou algo que nasce e ascende, que cria novos limites. Sou quem quiser ser.
Costurei. Como se quer que uma mulher faça. Só que à minha maneira. O que descobri? A agulha é uma espada. E o que está roto, a precisar de remendo, é a sociedade.




 Marina Ferraz

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Cumplicidade



Para a minha irmã

“- What if I fall?
- Oh, darling… what if you fly?”
(Autor Desconhecido)

Foste a primeira a fazer-me voar. Pouco importa que tenha sido irresponsável. Pouco importa que tenha sido um voo breve, sobre a sala e na direcção do sofá. A verdade é que, quando ainda todos me tinham no universo cuidado de colos e seguranças, tu acreditaste que podias – e que eu conseguia – voar.
Naqueles dias em que, a partir da porta, me atiravas para o sofá, acreditavas que eu não ia cair. E era essa crença que me fazia sentir segura. Se podia ter-me espatifado no meio do chão? Podia! Mas nunca acreditei que acontecesse. Nem tu. Amavas o riso. E eu amava a brincadeira. E vivíamos bem nesse ciclo de cumplicidade. (Desde que a nossa mãe não visse…)
Algumas coisas definem-nos por um segundo. Outras definem a forma como vemos a vida. A forma como eu vejo a vida é esta: no caminho do voo existe o riso. Talvez caia, talvez não. O fundamental é tentar… E tudo na vida depende do impulso que nos dão, à partida.
De menina a adulta, ao longo da vida, senti de ti o impulso. Esse que me faz acreditar que consigo voar. Seja lá o que isso for. No amor, na escola, no trabalho. De ti, senti sempre o incentivo. A crença. O orgulho. A cumplicidade.
Aprendi contigo quão certos parecem alguns errados. E até que alguns erros são certos. Nesse voo pelo que não é aceite (ou permitido), aprendi que as normas raramente estão de acordo com a moral que pregam. Se nos podam as asas, como podemos voar? Não! Não somos assim. Nem tu, nem eu. E, nas nossas – muitas – diferenças, sabemos bem que o lugar onde acontece a vulgaridade não nos serve nem nos completa.
Construímos a cumplicidade nas nossas diferenças, a aprendermos uma com a outra um bocadinho sobre o que é ser mulher. Gosto da tua força. Gostas da minha meninice adulta. Eu gosto da maneira como sorris com os olhos, em alguns momentos. Será que alguma vez to disse? Falo muito em ti! Digo que és mãe. Digo que és forte. Digo que és lógica e ciência. Digo que não gostas de te cuidar e que te escondes um bocadinho… e que é pena, porque és das mulheres mais bonitas que conheço. Às vezes descrevo-te a pele clara e os olhos azuis… porque eles são lindos! Mas falo muito da beleza que te faz ficar para terceiro plano, atrás das necessidades das pessoas que amas e das necessidades das pessoas que nem conheces. És bonita por dentro. És bonita por fora. E só os Deuses poderão saber quão bonita serias se soubesses que já o és.
Não dizendo nada disto, o que eu poderia dizer é: és a pessoa que me fez saber que podia voar. Às vezes, é importante que nos dêem o impulso inicial e nos atirem pelo ar do tempo, rumo a tudo o que podemos ser. Claro: Somos irmãs. E tivemos brigas de irmã... algumas importantes, outras sem razão aparente. Ainda bem! Discutir contigo e discordar de ti também me fez quem sou.
Foste a primeira a fazer-me voar. Quando eu não podia, sequer, saber que existia um risco por detrás do voo. E, por me teres mostrado o riso antes das lágrimas e o céu antes da queda, acabei por ganhar a confiança que me fez lutar pelos meus sonhos. Quando ainda todos me tinham no universo cuidado de colos e seguranças, tu acreditaste que podias – e que eu conseguia – voar.
Presa à terra que te firma os pés no chão matemático da vida, não sei bem se sabes que também consegues – voar. Mas eu sei que sim. Estarei aqui para o impulso. No mar da nossa cumplicidade. E sempre que precisares, sabes que tens de mim, não só o amor, mas também as asas que me deste.



Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 22 de novembro de 2016

O duelo



Começou com a mais pequena das coisas. Uma parte de mim disse: “vai ser fantástico”. E logo outra respondeu: “e se não for?”. Discutiram, dentro de mim, à medida que, enfiada dentro de um bibe com riscas rosadas e brancas, metia um pé à frente do outro, preparando-me para os primeiros dias de escola. Foi de uma forma tão inocente, tão suave, tão calma que não fiz caso. Mas começou assim. O duelo.
Claro que, com canudos encaracolados e laçarotes no cabelo, dentro de vestidos com pregas e em xadrez, com uma lancheira na mão e uma mochila de brinquedos às costas, parece tudo muito mais importante e muito pouco nocivo. O coração tropeça acelerado no peito, como se a vida dependesse daquele dia… mas não o suficiente para se achar que é a morte a bater à porta. E uma voz vai dizendo “vai ser fantástico”. E outra vai questionando. E é como se não houvesse vozes.
Mas passaram os anos. Vieram os testes. As maratonas. As discussões com amigos. A entrada abrupta e de rompante da puberdade. Os primeiros amores. E, diários que se enchiam com as palavras das vozes, uma ou outra. Às vezes ambas. Em simultâneo. Uma em cada frase. Partilhando frases. “Vai correr tudo bem” – dizia uma. E logo a outra respondia: “vai dar asneira”. Nem sempre em termos tão educados. Nem sempre com tanta serenidade. E, se a primeira voltava, insistindo: “Tu consegues, tu és capaz!”; logo a segunda se impunha: “nunca conseguiste nada, não passas de um falhanço completo, a insistir no que nunca há-de ser”.
Construí, com as pedras que a primeira voz me dava e a segunda me atirava, muitos sonhos e muitas metas. Era como fazer um castelo de cartas com os Ases e as Copas da primeira voz e vê-los cair no sopro constante da segunda. Às vezes venci, às vezes fui derrotada. Não pelas vozes. Pela vida. E elas lá se debelavam uma à outra, dentro da minha cabeça, à medida que eu fazia por ser pragmática e fingir que as coisas seriam como tivessem de ser.
Mas o amor… (não é sempre o amor?!) entrou pela porta do fundo do meu pensamento e ganhou metástases em mim. Enraizou-se. E eu, que tinha sempre tentado calar as vozes em mim, dei-lhes ouvidos. “Tenta, tens de tentar”, dizia a primeira. “Ele nunca vai olhar para ti”, dizia a segunda. “Vá lá, vai correr bem.”, insistia. “Faz como quiseres, quem vai morrer infeliz és tu!”, respondia a segunda.
Fui. Fosse no teste, no amor ou na vida. Durante muito tempo, a insistência do “não”, do “nunca”, do “nada” prevaleceu. Muro em frente dos meus passos. Nuvem sobre a minha cabeça. Modelou-me. Venceu-me. E eu tentei calar as vozes. Ambas. Tentei ouvir a minha própria voz.
Um tanto ou quanto vazia, de olhos fechados e coração aberto, percebi por fim. Elas são a minha voz. Perceber mudou tudo.
Uma parte de mim disse: “agora vai dar certo”. E logo outra respondeu: “nunca dá certo”. Desde então, travam um duelo entre o que é feito na raiz da felicidade e o que definha na raiz da mágoa. É um duelo à moda antiga. Até à morte. E fico de lado, esperando para saber se me morre o sonho ou o cinismo.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 15 de novembro de 2016

O espelho


Para a minha mãe

Estará, provavelmente, impresso por aí. Numa qualquer fotografia desfocada, descentrada e em sobreexposição. Porque é essa a nossa maneira. E, por estar tão explicitamente colocada no centro do que distrai, a maioria das pessoas não irá ver. Não faz mal. Gostamos mais da cegueira das pessoas do que das pessoas em si. E elas, na sua simpatia e desapego, por muito que não o digam, também não são fãs do que permanece impresso. Nessa fotografia. O espelho.
É certo que fica atrás de uma camada flamejante de luminosidade. E tremido. E num canto mais ou menos incompreensível. Mas está lá. O espelho. Fica no sorriso, cúmplice e aberto. No abraço, quebrado pelas cócegas e pela conivência. Nos olhos rasgados, semicerrados. No olhar. Tão longe do que é passível de ser entendido. É espelho. Não a foto. A vida. Tu e eu. Monstros. Mas tão diferentes do mundo e tão iguais, que se espelha até a parte mais invisível da alma que luz. E eu vejo-te. E tu vês-me. E o mundo não nos vê. Mas não faz mal. Também gostamos mais da cegueira do mundo do que do mundo em si. E o mundo, na sua elasticidade meio plástica, por muito que nos ignore, também não pára para olhar para nós e nos revirar os olhos. Pela fotografia. Pelo espelho.
Cada dia que passa se torna mais visível o traço da ruga que se vai formando, ali mesmo ao lado do coração. Abrindo a cada tic e a cada tac, a cada movimento do ponteiro. Um traço que se faz linha e que se ata e que faz nó. A minha uniu à tua, num momento qualquer. Talvez quando o tempo decidiu fazer-me romper as entranhas do teu corpo e sair. Apresentaram-me ao mundo. E às pessoas. Mas eu sabia. Sabia que eu não era nem das pessoas nem do mundo. Mas antes desta linha que se fez laço, que se fez nós… que nos fez espelho. E talvez por isso eu tenha chorado. Talvez tenha sido só a alegria de saber que, no centro de um mundo de ódios, o teu amor me valia a comoção. E chorei. Enquanto te devolvia o mesmo amor. Um que não tem começo nem fim nem equivalência. Nesta vida ou noutra. Nunca.
Há muito tempo atrás, quando foste tu a nascer, por um motivo ou por outro, demoraste a chorar. Talvez, nessa pausa que se fez em teu redor, estivesses à procura das razões. E deves tê-las encontrado. O teu choro virou riso. O teu riso virou prisão. A tua prisão virou maternidade. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. E ali estava. Eu. Monstro como tu. Espelho. A chorar. Chorámos juntas, às vezes. E rimos juntas, às vezes. E tirámos muitas fotografias desfocadas, descentradas e em sobreexposição. Espelho. Sempre espelho. Imitando aos poucos a sensação do que se move de mansinho, entre a eternidade do dia que passa e a do dia que começa.
Tive o meu coração a bater fora do corpo desde o primeiro bater do teu. E tu arrancaste desse coração uma parte que me puseste nas mãos. No centro de um mundo - que não amamos – e de uma amálgama mais ou menos amorfa de pessoas – que também não amamos - , o que aprendemos foi a forma mais pura do amor – a sua gotinha de água, ínfima e perfeita – o amor que temos uma pela outra.
Não sou a melhor pessoa do mundo. Mas para ti sou. Não és a melhor pessoa do mundo. Mas para mim és. Espelho. Eu vejo-te. Tu vês-me. Igual. A cegueira do mundo não importa. O isolamento causado pela cegueira não importa. Importa o reflexo. Este. Meu e teu. Onde o amor olha para o amor e sabe quem é. Monstro. Mas não faz mal ser Monstro. Olha ali, na fotografia. Espelho-te. Espelhas-me. Tu tens-me a mim. Eu tenho-te a ti. Não estamos sós.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Antes de nascer o sol



Quando as roupas caíram no chão e os corpos se deram parecia certo. Mais romântico do que casual. Era o fundo do copo, na noite que se fazia manhã. Sem clichés. Sem responsabilidades. Sem promessas. Era o amor, regado a cerveja e tequilla. Não deixava espaço para a vergonha nem para a inibição. Disseram palavras de afeto, rolando nos lençóis como quem dança a mais lasciva das danças. E, em seu redor, as paredes exalavam o odor do ópio e do desespero audaz. Inebriava-os com a noção intemporal dos corpos que lutavam, que embatiam, que se completavam. Sem clichés. Sem responsabilidades. Era melhor assim.
Estranhos na noite, fizeram-se conhecidos nos recantos suados, sob o olhar casual de olhos que não viam. Os deles encontraram-se. Por acaso. E os corações, que já não conheciam ritmo que não o do pulsar caótico e retumbante das colunas, julgaram, na ilusão dos graves, que talvez pudesse ser o destino. Não era destino. Era ocasião. E o fumo. E a erva. E as bebidas. Mas importa pouco, se pensarmos nas formas como também as bebidas e a erva e os fumos podem ser destino. Ele perguntou-lhe o nome. Ela perguntou o dele. Não ficaram a saber nada. No centro da agitação, a música era o nome completo das centenas de pessoas que ali se juntavam. E eles, que nem sabiam bem se tinham ouvido o nome um do outro, perderam-se de amores pela ilusão desse destino bêbedo e drogado que se fazia nascer, fruto do suor da noite.
Beberam as histórias da vida um do outro em copos de shot. Apagaram nas passas os vestígios da bagagem que arrastavam. Riram. Dançaram. E arrastaram-se para os braços um do outro, até o toque dos lábios lhes arder na língua e se fazer droga. Viciaram-se nesses beijos. E o destino que não era destino ajudou a fermentar aquele amor que não era amor, até que se arrancaram roupas do corpo e desejos da pele. Repetidamente.
Foi por isso que, quando as roupas caíram no chão e os corpos se deram parecia tão certo. Tão mais romântico do que casual. Uma vibração tosca da sintonia dos homens com a Terra. Uma vibração tosca da sintonia das mulheres com o sonho. E das mulheres com a Terra. E dos homens com o sonho. Que despidos são todos pele e músculo e osso - só mudam os orifícios e as saliências. Sim. Terra e sonho. Era isso que tornava certa a obscenidade. A luxúria, após a noite quedar, não era mais pecado do que a comunhão. Era um ritual divino entre dois seres que se achavam, depois de perdidos e que se perdiam para se encontrarem. Um ritual algo cru. Algo áspero. Mas que, para eles, era todo feito em suavidade e alegria. Ainda bem para eles!
Toda uma imensidão. Sem clichés. Sem responsabilidades. Sem promessas. Só com o toque. Uma luta corpo a corpo. Desumana. Na batalha dos sentidos que terminaria, ao nascer do sol, com o caminho feito nas roupas da noite passada e os olhares de vergonha colados ao chão. E com asco colado na sola dos sapatos. E pó nas roupas. Porque, de súbito, as bagagens esquecidas caem na cama, estrondosamente. Lembrete da história que os faz pessoas. Lembrete da vida que ficou e da que segue. Então, o corpo nu não faz sentido. E o cliché assume-se. E a responsabilidade aparece, raramente só. A promessa que nunca se fez foi quebrada.
Eu sei. Não parece. Mas é uma história de amor. De comum, olvida-se (ou condena-se). Mas ainda é uma história de amor. Talvez não de um amor que se dá – ou recebe. Mas de um amor que se faz. Depois de meia dúzia de copos virados.
Para eles, parecia amor. Agora não parece. Mas parecia. Mais romântico do que casual. Antes de nascer o sol. Quando as roupas caíram no chão e os corpos se deram.


Marina Ferraz

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