terça-feira, 20 de agosto de 2019

Arame farpado


Modelo: Tânia Silva


Ninguém põe arame farpado nos muros para vedar caminhos. Qualquer manta amarrotada ou camisola velha torna o muro fácil de saltar. Não é preciso muita inteligência, nem ardis. Não é necessária destreza nem arte. O arame farpado não serve para vedar caminhos. Serve outro propósito. O do aviso: mantém-te à distância! E é isso que o teu silêncio é. Arame farpado.


Tenho muitas coisas para te dizer e nada que faça sentido dizer-te.

Gostava, por exemplo, de te contar que, no outro dia, andando pela rua, tropecei numa memória nossa e caí no chão asfaltado. Gostava de te contar que, desastrada como sempre me disseste que era, esfolei um dos joelhos e as duas mãos. E que as feridas não saram porque estou constantemente a mexer nelas, procurando na profundidade desses cortes a parte de mim que não sinto que tenho.

Gostava de te dizer que a memória na qual tropecei era boa. E que, por isso, enquanto caía, senti que voava. Até me estatelar. No chão. De asfalto. E de me lembrar. Da verdade dos dias. E de recomeçar o processo de maturação da mágoa. E de chorar.

Gostava de te dizer que houve quem acorresse. E me ajudasse a levantar. Quem me perguntasse se precisava de ir ao hospital. E de te explicar que agradeci a queda para não ter de explicar que as lágrimas não eram fruto do sangue da carne mas da seiva da alma.

Tenho muitas coisas para te dizer. Como esta. Mas não faz sentido. O teu silêncio é arame farpado.


Mantenho-me na distância segura. Para respeitar o aviso. Do silêncio. Para respeitar a sinalética luminosa presa na testa. A sinalética que é a única coisa que vejo brilhar no teu rosto, por entre sorrisos-verdade, sorrisos-mentira e olhos mate. Mantenho-me na distância segura. Afasto-me, pé ante pé, do arame farpado do teu silêncio. E, quanto mais recuo, mais perto fico do passado e mais te amo. Talvez já tenha recuado ao tempo antes de nós. E talvez por isso te ame. Em silêncio. Como antes. Só que pior.

Gostava de te dizer isso. Que te amo. Em silêncio. Como antes. Só que pior. Mas não faz sentido.


Tenho visitado muitas ruínas. Esta é outra coisa que gostava de te contar. Sabias que, aqui ao lado, uma quinta tem o nome do nosso passado e um palácio de contos de fadas? E sabias que sobra, de uma antiga aldeia, apenas a árvore anciã e que nela moram histórias? E sabias que debaixo da meia ponte romana existem folhas verdes e vermelhas, com formato de coração? Queria contar-te. Que saltando muros encontrei pérolas. E que valeu o risco da invasão. E que valeu o risco dos arranhões. E que valeu o risco das quedas. Queria contar-te. Mas não faz sentido.


O teu silêncio é arame farpado. E eu não tenho medo nenhum do arame farpado. Mas tenho respeito por ti. Não vou amarrotar mantas nem camisolas velhas. Não vou saltar o muro. Vou ficar a olhar. Para o arame farpado do teu silêncio. Toda cheia de palavras. E sem poder dizer-te nenhuma delas. Conheço bem as pérolas do outro lado desse muro. E amo cada uma delas. Ainda mais do que as folhas e as árvores velhas e os palácios feéricos. Amo-as. Mas não quero nenhuma delas, se não mas queres dar.


O teu silêncio é arame farpado. Ele deixa o aviso. Mantém-te à distância. E eu mantenho. Deste lado do muro. Durmo e acordo encostada a ele. Ao muro. Com a esperança. Uma única esperança. A esperança de que, um dia – silenciosamente e sem te incomodar - adormeça ali e não acorde mais.






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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Sentir cigano


Modelo: Mariana Neves

“Home is where the heart is.” (Gaius Plinius Secundus)

O meu sentir é pagão. Mas não lhe basta ser pagão. É cigano. E nómada. Tem má fama. Anda descalço nas ruas. Maltratado. Sujo. E cospe na mão que se estende. Não quer ajuda de ninguém.

Dizem que vagueia à procura do elogio fácil. Que é por isso que, às vezes, veste as roupas domingueiras do sorriso. E que estremece de fúria quando alguém tem pena dele. Não gosta de pessoas condescendentes. Nem de condescendência. Na maior parte dos dias, nem sequer gosta de pessoas.

O meu sentir tem as mãos calejadas. E um corpo de pedra, impenetrável, que jorra sarcasmos e ironias a quem julga que os sulcos são falhas. Defende que os sulcos são história. E diz que os ama mais do que às superfícies limpas e desinfetadas das almas podres dos outros.

Dizem que ele é ácido. Não do tipo que arde na língua mas do tipo que corrói quando cai no mármore. E também dizem que é sincero. Mas uma sinceridade tão agreste que se toma, quase sempre, por rudeza. E, mesmo não querendo, o meu sentir – que é nómada, pagão e cigano – dá por si a preferir isso mesmo. O lado rude da vida. Mais honesto, diz ele.

O meu sentir tem os pés cortados. Não conta a ninguém que, um dia, se alojou numa tenda que era um peito. Nem que lá encontrou um conforto que a rua não tem. O meu sentir tem vergonha de ter acabado novamente disperso e pedinte nas ruas do despejo. E não quer os palácios. Não quer nenhum dos palácios. Com os seus pajens e príncipes e serventes. Não. Ele não quer os palácios. Diz que são torrentes de cloaca que as pessoas bebem como vinho do Porto, só porque alguém lhes disse que era bom.

Continua.

A vaguear pelas ruas solitárias onde não há nem música nem estrelas e muito menos algo que una ambas.

Continua.

Cigano. Pagão. Nómada.

Não está à procura de uma casa mas de um lar. Esse que é no sítio onde o coração está. E ouviu dizer, na esquina onde as senhoras de saltos altos vendiam amor, que ele está no lugar onde a mente vai só e sem pedir autorização.

Cigano, pagão e nómada, o meu sentir vagueia nas ruas. Não se dá. Não se vende. Não se quer. Mas sabe. Sabe onde está o lar pelo qual anseia. E, justamente por saber, cospe na mão que se estendem. Não quer ajuda de ninguém.

Anda quase sempre na direção contrária do lar que deseja. É um sentir que não quer o coração largado. Prefere ser sem-abrigo do que assassino de felicidades. E continua a rasgar os pés no asfalto. E a enregelar as mãos no frio da vida.

Dizem que ele é pagão. Nómada. Acusam-no de ser cruel. E ele segue. Cigano.

Dizem que ele não se dá porque não se quer.

Ele não se dá porque não se tem.





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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Espero




Eu espero. E vou dizendo que espero por amor. Enquanto me dizem. Que não espere. Mas eu espero. Porque é isso que faz quem ama. Espera.

Em alguns dias, espero que, pela manhã, o sol nasça sem nuvens à tua porta. Espero que alguém te leve o café à cama, com um beijo e um poema nos lábios. Espero que, com ternura, novamente se enfie na tua cama e se recoste no teu abraço, caso queiras sentir o calor de outra pele. Espero que o café não seja acre. E que os gatos saltem para a cama e façam caretas no aroma cafeinado de um dia que te comece feliz.

Espero.

Em alguns dias, espero que as ruguinhas que te surgem junto aos olhos sejam estradas de sorrisos feitos ao longo dos tic-tacs dos relógios. E espero que te esqueças. Das rugas e dos relógios. Para seres menino e feliz e eterno. E espero que esse lado mais inocente de bebé crescido se note no fundo do brilho dos olhos que te refletem vidas. Mas só espero que se note porque espero encontrar, também para mim, algum alento.

Espero.

Há tardes em que espero que o trabalho não te engula mas te sustente. Assim. Espero que possas, folgadamente, deixar os passos marcar areias, deixando quatro pegadas. Porque espero – espero – que não conheças uma solidão igual a minha. E espero. Que os passos impressos na areia te levem para uma casa que seja um lar (como eu não tenho) ou para uns braços (como eu não quero) para acentuarem mais e mais essas ruguinhas que se formam na moldura dos teus olhos.

Espero.

Dizem-me que não espere.

Mas espero.

Espero que a noite venha lenta. Que o pôr-do-sol tenha a cor de uma fotografia com mil reações, espelhadas através do mundo pelo ecrã digital. E espero que os teus dedos, nessa subtileza desligada, acariciem, por vezes, com um toque de carinho, a memória de um eu que se expõe e se despe. Sempre mais em palavras. Mas também em roupas.

Espero. Em alguns dias, verdadeiramente espero, que tenhas a sorte de um amor maior do que o meu, embora não saiba se existe. Que tenhas a felicidade que eu não dei. Que tenhas quem te apoie nas quedas, porque na subida é tudo mais simples. E espero. Espero que tenhas quem te coloque na montanha russa que odeias para poderes ir mais longe do que os teus limites e ser mais do que compromisso rotineiro com a ideia da loucura.

Espero. Todos os dias espero. Que estejas bem. Mas, claro. Não sou a melhor pessoa do mundo. Como não sou a melhor pessoa do mundo - facto incontornavelmente repetido, até ao limite da sanidade e, de tantas vezes ressaltado, tornado real – eu espero. Às vezes espero que se cale a voz em mim. Essa que diz que espero que te vás foder. É uma voz que tem alguns ressentimentos. Desculpa. Pelas mentiras (que podiam ser evitadas). Pela distância (que nasceu numa mentira). Pelo silêncio (que nasceu numa distância). Pela crença de que a melhor pessoa do mundo não me deixaria à espera, por entre paredes que ecoam versos que nunca foram escritos.

Não o nego. Às vezes espero esquecer. Um dia. Talvez amanhã. Espero pelo dia em que não espere que sejas mais feliz do que eu. Espero pelo dia em que o meu coração perca um batimento e outro a seguir e outro depois. Espero por dormir. Espero.

Eu espero. E vou dizendo que espero por amor. E, quanto me dizem que não espere, eu digo que, quem ama, não pode fazer outra coisa.

Eu espero. Espero muito. Tanto que até espero que não leias este texto. Para não saberes. Que eu espero.






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terça-feira, 30 de julho de 2019

Possessão


Autor da foto: Miguel Pião

Entra em mim. Quando respiro. Uma espécie de fumo. Uma espécie de alma. Uma espécie de memória. Feita de tantos concretos que, ao expirar, quero agarrá-la, prendê-la.

Esta entidade fala sem verbos. O poema. A canção. O elefante. Momentos de promessa. Promessa inusitada. Espelho com palavras no verso. Verso do poema. Canção paquidérmica. Bolo partido no canto. Manta na relva. Lagoa. Ar.

Todas as palavras que diz são começo de uma frase que, por nunca terminar, é eterna. E essa frase entra em mim. Quando respiro. Uma espécie de fumo. Uma espécie de torpor. Uma espécie de história. Feita de tantos concretos que, ao expirar, quero contestá-la, volvê-la.

Ao possuir-me, esta entidade, toda ela modelada de medos e anseios, parece hiperventilar na ideia da sua própria inexistência. Sinto-a a correr nas veias. Correndo nas veias, a entidade continua a desgastar poeticamente as paredes arteriais. Faz o maior dano quando passa das veias pulmonares à aurícula esquerda, seguindo para o ventrículo esquerdo e prometendo levar o oxigénio que não há até ao corpo que não o quer.

Nessa possessão, não estou inconsciente. Dou por mim a fazer coisas que não quero. Carícias a ecrãs monitorizados de dispositivos móveis de vidros rachados, com conteúdos desmontáveis, comestíveis e quase imprudentes que me fazem desejar estilhaçar o já estilhaçado vidro contra a parede onde, um dia, me encostei lascivamente para olhar para carne e osso. E o que julguei ser uma alma e um coração. Mas que era apenas mentira.

A mentira. Esta é a conversa mais intensa entre todas as que mantenho com a entidade. Fazendo trajetos corridos entre o meu cérebro e o meu coração, essa entidade que entra em mim quando respiro, deixa queimaduras perenes nas paredes orgânicas contra as quais embate. Sim. Não. Talvez. És uma idiota. Ok, tem calma. Tens razão. Não tens razão nenhuma. É. Não é. Está. Não está. É uma espécie de fumo inalado que, de repente, aprendeu os verbos transitivos e alguns dos outros. Não se cala. Embate. Aqui e ali. Correndo loucamente entre uma razão razoável e uma forma de sentir sobejamente imprudente. Respiro fundo e quero expulsá-la, na expiração. Tentando libertar-me do ardor. Esse que o peito colhe e o nariz aloja. O. Tempo. Todo.

Entra em mim. Quando respiro. Uma espécie de fumo. Uma espécie de alma. Uma espécie de memória. E eu, farta de fumos, de almas e de memórias, pergunto para quando o desfecho desta possessão. Leva-me. Peço. Desejando que o concreto daquela incongruente figura decida ficar e me faça mover apenas braços e pernas, de forma mecânica, ausente de mim.
Mas ela, que entra em mim. Quando respiro. Com a mesma velocidade se escapa. Incapaz de lidar com a possessão. Não a minha mas a sua. Sempre que entra em mim.

Se lhe peço que permaneça, debitando os seus substantivos e adjetivos. Ou enumerando verbos de movimento. Ou simplesmente queimando artérias. Ela ri. É o que faz, quando lho peço. Ri.

Há uma dor. Diz ela. Que é como dedos ondeantes e flácidos. Capaz de penetrar até os espacinhos mais pequenos. Completamente fluidos. Completamente maleáveis. Há uma dor. Que tem tentáculos. E ela, que entra, não pode ficar. Não há espaço, diz-me. Não há espaço.

Entra em mim. Quando respiro. Uma espécie de fumo. Uma espécie de alma. Uma espécie de memória. Feita de tantos concretos que, ao expirar, quero agarrá-la, prendê-la. Quero prendê-la. Mas sou feita de uma dor que expulsa até as frases sem verbo. Não há espaço. Nem para as possessões. Não há espaço entre o amor, a memória e a mágoa. Sou um corpo com lotação esgotada.

Entra em mim. Cativa-me. Vai embora. Magoa. Não é diferente de todos os outros.

Não é. Não é diferente de ti.

Talvez por isso lhe peço que fique. Que me possua. Mais uma vez.






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terça-feira, 23 de julho de 2019

Essência


Autor da foto: Miguel Pião


A lua não tem lugar num céu que chove. Foi isso que me disseram. Antes de me pedirem que me despisse. De roupas e de lágrimas. Para que a essência lunar me saltasse da pele. E eu pudesse fechar os olhos.

E eu despi. O corpo de roupas. O rosto de lágrimas. Abandonando a ideia de que elas ainda caíssem por dentro, vestindo-me de dor. E fechei os olhos. Porque queria ser. A lua. Essa que, olhando para baixo, hoje abana o rosto, fazendo os mares dispersos chorar, também por dentro e sem água.

Fechando os olhos, na esperança de me encontrar, descobri que a minha essência não sou eu. Lá dentro, povoando-me as veias carentes, onde o sangue corre mais morno; existe a memória de tempos passados, onde vibra uma menina - hoje morta - que em tempos fui.

Há muitos nenúfares nas águas do meu choro interno. Nas margens das lagoas pardacentas e salobras, de águas turvas; seres sem nome nem história velam por mim. Cantam elogios fúnebres. E eu, morro, acordo e volto a morrer. Dentro de mim. À procura da essência que me foi destinada e que se ancora a muitos silêncios e solidões.

Dentro de mim, relembra-se o toque da luz na pele. Quando a pele tinha dedos alheios e somas de perfeição ambulantes, que se fixavam nos lábios, sob a forma de um beijo quente, que era tudo e nunca bastava. Dentro de mim, relembra-se o toque da visão profunda que se tinha de olhos fechados. Sonatas lunares de Bethoven, ecoando pela casa e deixando dormentes os espaços entre mão e mão. Uma dança entoada. Na forma de um “amo-te”. Eterno. E morto também.

Fechando os olhos para descobrir a essência, nessa esperança louca de me encontrar algures; eu fico a saber. A minha essência não sou eu. Há mais morte em mim do que nos campos de batalha. E, por dentro, é isso que eu já sou. Mesmo que a luz me beije a pele de mulher, insistindo que estou viva. Por dentro, é isso que eu sou. Reflexo. Da morte.

Mas dispo. Não tenho ilusão nem pudor. Nem ilusão de pudor. Nem pudor na ilusão. Tudo o que tenho é isto. Corpo despido de roupa. Olhos despidos de lágrimas. E morte dentro de mim. Escuridão e penumbra. Pontos de luz que relembram o passado. Tu. O passado. O passado de um verbo. Amar. Eu morro. Tu foste. Ele sabe. Nunca mais. Eles falam. Eles dizem. Despe. Procura. A essência. Nós tentamos. Eu morro. Tu foste. Eles estão errados.

A lua não tem lugar num céu que chove. Foi isso que me disseram. E eu despi-me de chuvas. Procurando a essência lunar do meu peito carente, onde não há nada nem espaço para nada além de ti. Todos os meus tempos são passados. Menos tu. Que és eterno. Como os limites matemáticos que tendem para infinito e que são incalculáveis, inimagináveis e incompreensíveis.

A lua não tem lugar num céu que chove. Invejo-a. Eu não tenho lugar. Nem no céu que chove. Nem no céu que brilha de sol vero. Nem em mim.

Então, despi. O corpo de roupas. O rosto de lágrimas. Porque queria ser. A lua. Fechando os olhos, na esperança de me encontrar, descobri que a minha essência não sou eu. Perscrutando na escuridão dos olhos fechados que choravam só por dentro, eu tentei ver além da morte e do seu véu negro, à minha procura. Incapaz de acreditar que, ali, apenas a morte vivesse.

Olhei a morte nos olhos, com os meus fechados. Rasgando-lhe o manto, rasgando-lhe a opacidade, eu vi. A minha essência. E descobri. Eu não tenho espaço. Não tenho espaço no céu que chove. Não tenho espaço em mim. Porque tudo o que sou é coração. E, dentro dele, só cabes tu.






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quarta-feira, 17 de julho de 2019

O amor não tira férias



Não faço malas. Usualmente, a bagagem é leve. Não vou a lado nenhum. Eu disse-te que não ia. Apesar daquele esgar de contrariedade, acompanhado do revirar de olhos. Não vou a lado nenhum. E, por isso, a bagagem é leve. Não faço malas.

Algures, por entre o trabalho que me enche os dias, encontro o alento sedentário dos sentidos. E dizem-me. Devias. Tirar férias. Ou um fim-de-semana. Ou um dia. Umas horas… Talvez. Mas para quê? Para olhar para as mãos que despi de anéis? Para olhar para as paredes que despi de fotos? Ou para olhar para o corpo que não quer despir-se, excepto para os ritos de higiene diária?

Há um toque de conforto no trabalho que chega. E no mergulho de profundidade que nele dou, até me esquecer de ser gente e de respirar. De tão cansativa, essa vida sem ar nem sentido, faz também eficazes os mergulhos no colchão e na almofada. Há um cansaço que me move, que me leva ao sono rápido e sem sonhos. Não durmo tempo suficiente para sonhar. E isso é a dádiva dos dias.

Pedem-me. Tira umas férias. Mas o amor que fica depois do amor partilhado é mágoa. E a mágoa mói. O amor não tira férias e, por isso, eu também não.

Não faço pausas prolongadas. Usualmente, basta o tempo que me separa os passos da máquina do café. E o café, se impulsiona cérebros ou ideais, não é para intervalar trabalhos mas para os acompanhar. Bebo-o de forma casual, com a inútil mão esquerda, enquanto a direita trabalha pelas duas, nas teclas do teclado.

O teclado faz um som que é musical nos meus ouvidos, demasiado carentes de outros dedos noutras teclas. E suprime a necessidade e o desejo de ouvir música. Porque instrumentais me fazem arder o peito, solos de piano me fazem arder o nariz e há uma lágrima insistente em cada linha das partituras de Chopin. A música incomoda. E, quanto melhor for o toque de suavidade que ela faz, vibrando-me cordinhas cerebrais de memória, mais incomodativo é o seu toque. As gotas da chuva não são cântico que se ouça quando se quer travar o choro. E o silêncio parece brio de contemplação. Fico-me por ele.

Pedem-me. Tira uma semana. Para ti. Lê. Ouve música. Vai ao cinema. Mas o amor que fica depois do amor é memória cortante. E os cortes dilaceram. O amor não tira semanas e, por isso, eu também não.

Não faço banhos de imersão. Só duches rápidos entre texto e texto. Aplicações monótonas e repetitivas: sabonetes e champôs e produtos que tentam remover a maquilhagem à prova de água e que também parece ser à prova de sabonetes e champôs. Descobri que água e sal a remove. A maquilhagem. Descobri, depois de muitas lágrimas borradas a preto nas faces.

O sofá odeia-me e eu odeio-o de volta. Mas serve de base aos dias que me escrevem a solidão na forma de obsessão pelo dia de amanhã. E uso-o para trabalhar, porque não tenho vontade nem paciência para nele fazer outra coisa. Fico nele. Não vou a lado nenhum. Eu disse-te que não ia. Apesar daquele esgar de contrariedade, acompanhado do revirar de olhos. Não vou a lado nenhum.

Pedem-me. Tira um dia. E estou cansada. Cansada demais para lidar com um dia na descoberta do que é o amor que fica quando o amor não ficou. O amor não tira folgas e, por isso, eu também não.

Perguntem a quem quiserem. Em cima de brasas acesas, é melhor estar em movimento.






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terça-feira, 9 de julho de 2019

A minha asa

Autor da foto: Ricardo Torb


“Não vejo a minha asa.” Foi isto que ela disse. Andando no meio de anjos e escuridão. Como quem procura, não a asa, mas uma casa. Para morar, no meio das telas e das luzes. Um toque de desnorteio e três de amor. Porque o coração é maior do que o medo. E, encontrando a asa, não foi no céu que se deitou, mas no chão. Um momento de rendição que era arte e vida. E que iniciou, com um canto de cidade angélica, o que viria a ser uma jornada partilhada, onde almas se davam e recebiam.

Estávamos lá. Novamente. Naquele lugar onde só vai quem permite o desafio. De ir. Mais longe. Mais depressa. Fora do corpo. Na velocidade que os corpos não atingem. E, desta vez, eu não era um corpo que queria estar presente, mas a presença fora de um corpo que estava onde queria. Depressa as asas subiram e a tela desceu e a guitarra se tocou. Depressa os anjos deram lugar a festas de aldeia e sentimentos de luta contra a solidão. Depressa, no som quente de uma voz que avivava pétalas em olhos alheios, entrávamos derrubando solidões e medos e dores no chão negro. Depressa nos despíamos ritualmente do que não queríamos.

“Não vejo a minha asa.” Não foi o que eu disse, mas foi o que poderia ter dito. Porque tudo o que eu via era o libertar das penas. Essas que, não compondo asas, compõem males no peito que se dá às balas quando (quase) tudo é amor.

Às vezes, nesses passos, pé ante pé, libertando medos e anseios ao universo e colhendo dele só o melhor, questiono se sou um ser que dança para não chorar ou um choro que se cala para que eu dance. E questiono se me caem medos e solidões ou apenas lágrimas na forma de papel, pintando o chão. E do chão haveriam de ser colhidas, por alguém que pouco sabe de mim.

Mas, de repente, os pés nus libertam-se do chão. Meu amor. Libertam-se do chão, como se mãos se prendessem às coxas e eu pudesse subir até ao topo das nuvens altas. Olha, penso, é ali que ela está. A minha asa. A minha casa. O meu lugar. E estendo o braço, agarrando a vontade de ser. Não a vontade de ser de alguém. Mas a vontade de ser completa em mim. Agarro a solidão que larguei no chão, colhendo-a na névoa das nuvens, e digo-lhe: ama-me. E, rendida, ela obedece.

Por me obedecer, de uma forma completamente passiva e masoquista, essa solidão não se encanta com o braço que me atira para o canto, não se ilude com a partilha do corpo que se encosta ao meu e sabe, por instinto, que vai perdê-lo para alguém melhor lá ao lado. Em desistência, os passos que se dão até ao centro da vida, ignoram que se abracem gentes. Vão firmes e compassivos, sem inveja nem ansiedade. Mas libertam-se em movimentos bruscos, avançam. E aguardam, numa vénia de rosto que quer a chuva nos olhos para esconder a ausência das lágrimas.

Toda a gente se abraça. Toda a gente se quer. Eu não. Eu abraço a presença de quem não está. Abraço o lugar vazio onde se sentam os meus. Aqueles que partiram. Aqueles que foram obrigados a partir. Aqueles que me abandonaram. A memória deles deita-me ao chão. E, deitando-me ao chão, faz de mim novamente feto, desejando o calor do ventre materno que me expulsou para sofrer. Mas rodo. Ergo-me. Sou braço que se fortalece e ergue alguém. Aceito a rotação breve que o mundo me dá. E corro. Corro loucamente a implorar que me envolvas mais uma vez. Que embarques. Nessa aventura que eu sou. Porque não há tempo.

As luzes baixam. Não vejo a minha asa. Não tenho a minha asa.

Tenho um lugar vazio. E és tu.






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terça-feira, 2 de julho de 2019

Dentro do búzio




Tu deste-me a praia. Lembras-te? Vinha toda dentro de um búzio pequenino, que me cabia na palma da mão. Com veios trabalhados a cinzel e um espaço oco no centro, onde o mar cantava.

Enquanto me colocavas a praia na mão, tu sorrias. E foi nesse sorriso que me deste a praia, colocando-a dentro do búzio que, pousado na minha mão, parecia pequeno demais para conter os prazeres estivais da vida.

Amas-me? Era uma pergunta que se fazia no canto que entoavam as sereias dentro desse búzio. E eu respondi que sim. E acho que era por isso que tu sorrias.

Como nunca foste uma pessoa que gostasse de contratos ou de normas, decidiste assinar a escritura da cedência dessa propriedade informalmente pública com as impressões digitais dos pés, marcando os teus passos ao lado dos meus. Felizes e vincados na areia que o mar lambia.

Tu deste-me a praia. Lembras-te? Mas eu disse-te que, embora a praia fosse minha e viesse nesse búzio que pousei na minha cozinha, eu não me importava que outros caminhassem nas suas areias ou se banhassem nos seus mares. E disse-te: não me importo, porque quero que todas as pessoas sejam tão felizes como eu sou agora. Aqui. Contigo. Nesta praia que me deste.

No coração do nosso lar, as sereias cantavam dentro do búzio, recordando-me o chamado das ondas que tinham servido de testemunhas ao nosso amor e que sabiam que, ainda que visitada por tantos outros, aquela praia era minha.

Até ao dia em que a voz foi silenciada. Aconteceu, de forma meio inesperada, quando as paredes da casa viraram, também, uma concha oca, onde não havia mais do que a ilusão dos tempos idos. As sereias fizeram um esgar arrepiante, dilacerante, num grito estridente, que soou ao bater da porta da entrada. E o lar, que era um lar, passou a ser o espaço vazio onde durmo e permaneço só.

Tu deste-me a praia. Lembras-te? Algures com um sorriso que tinha pendurado um brilho nos olhos, hoje apagado de sóis. Algures com o toque musical dos dedos que agora não se dignam nem a acariciar teclas para um “bom dia” de ocasião. Algures com o amor que o mar lambeu, a par com as pegadas, deixando olvido e insignificância.

Tu deste-me a praia. E mesmo sabendo-a minha, eu ainda quero que todas as pessoas sejam tão felizes como eu fui, pelo que não a reclamo. Mas a areia sabe que é minha. E o oceano sabe que é meu. E insistirão em apagar as pegadas que agora ladeiam as tuas, desvinculando qualquer contrato cujas cláusulas queimem as nossas.

Um dia, na erosão da vida, também eu serei areia. Talvez, aí, tenha um lugar dentro do teu coração. Ou, pelo menos, dentro do búzio. Esse, com o qual me deste a praia. E os melhores dias da minha vida.






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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Se eu me afogar



As chuvas caem e os rios aumentam o caudal. E os mares nascem. E os glaciares derretem. E a preocupação humana é pouca. Mas, quando existe, faz-se em lágrimas. Que choram. As lágrimas têm lágrimas vertidas no seu próprio rosto de gota. Um choro que se faz pranto. Um pranto que se evapora. Até adensar as nuvens. Essas de onde caem chuvas que aumentam o caudal dos rios.

Bruscamente envolvida pela história dos ciclos, também eu sou água que verte. Verto a minha própria história de gente. E, por ser gente com história, acredito que exista valor na parte de mim que escorre. Ainda que ela escorra em tinta.

Nunca imagino que vá estar, do outro lado do meu lago sangrento de ideias, alguém que compreenda as bestas escondidas na superficialidade do fundo de mim. Porque as feridas causadas pelos homens estão à frente. E são tudo o que se vê quando não se rasga a camada da carne dos textos.

As chuvas caem e os rios aumentam o caudal. E os mares nascem. E os glaciares derretem. Se eu me afogar, não faz mal. Fui só mais uma pessoa que não andou na chuva, com o medo de ter cabelos humedecidos, roubando horas de esforço num encaracolar indesejado. Fui só mais uma pessoa que não mergulhou no rio, com medo do gelo cortante na pele. Fui só mais uma pessoa que não salvou os ursos polares. Se eu me afogar, não faço falta ao mundo.

Mas. Mas. Eu também fui outra coisa. Também fui o riso em noites de temporal. Danças de pés descalços em chafarizes de pedra, com as gotas grossas caindo no meu corpo. Menina nadando debaixo de cascatas. Mulher abençoando a pele com o toque das águas, num agradecimento às ondinas, às sereias e às ninfas. Amante da terra. Apaixonada pelas paisagens de gelo agreste que, de tão extensas, são fotografia do amor que se pôs e me lembram de passados que aconteceram (quase) agora. Se eu me afogar. Se eu me afogar, quem é que vai dizer às ondinas e às sereias e às ninfas que se escondam na chegada dos homens que não entendem? E quem vai amar a terra? Fazer amor com as flores primaveris? Entregar um fio de cabelo por cada pedra roubada que ornamenta um altar vivo e cheio de plenitudes?

As chuvas caem e os rios aumentam o caudal. E os mares nascem. E os glaciares derretem. Se eu me afogar, chuvas continuarão a cair e rios continuarão a entrar pelas margens. E os oceanos continuarão a embater na costa como se dissessem “acordem”. E os glaciares continuarão a derreter porque as pessoas só sabem salvar-se a si mesmas. Mas, e se eu não me salvar? E se eu derreter, como os glaciares? E se eu deixar que vertam todas as lágrimas que acumulam dentro do meu peito?

Esse choro inundaria o mundo. Destruiria o mundo. Faria do mundo uma gigante roda de águas salinas e emocionais. Mas não se preocupem. Primeiro, encherei um copo. Depois, uma banheira. Depois, um quarto. Nesse quarto vou afogar-me. Se eu me afogar, o mundo nunca vai saber que eu podia ter inundado o universo de dor. Se eu me afogar, apenas eu terei partido e tu(do) estará(s) bem. Se eu me afogar, não choro mais.






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quarta-feira, 19 de junho de 2019

O cordel




Talvez, como tantas vezes me disseram, eu escreva literatura de cordel. E talvez essa literatura seja dura pela veracidade. Dúbia pela ficção que a permeia. Um pouco egoísta no jeito com que se encontra, preto no branco do papel. Sim. Talvez eu escreva literatura de cordel.

O cordel da minha literatura é o que me sustenta a alma. Ata-me os pontos dispersos. Às vezes com prosa, às vezes com versos mas sempre, sempre, com alento. É o que me ata a carne aos ossos e as unhas à pele perante o descontentamento da vida. E, se sigo, sem saber bem onde vou. Sem saber bem quem eu sou. Completamente perdida nessa ideia de um sonho que voou. É justamente porque tenho cordéis nos dedos da mão que escrevem em vez de se quedar no frio de uma eternidade adormecida.

A minha literatura é de cordel. Porque se fosse fio podia confundir-se com os tempos nos quais me toldaram de cansaços, movendo-me a bel-prazer, no sentido da crença inglória. Moveram-me, qual fantoche. Os pés, a alma e os braços. Até eu não ser ninguém. Até eu estar simplesmente, plenamente consciente, de ser o vilão de uma história.

Faço nós. Para prender a minha realidade aos solos ficcionados de um mundo que eu aguente. Porque a vida está difícil de gerir por entre o que me contam as redes sociais e os silêncios. Faço nós. A minha saudade e todos os meus estados de espírito são apenas um segundo que se arrasta por horas. E que vai, vida fora, a fingir que o tempo não passa nesse compasso. E eu penso. É verdade. E a verdade pode ferir. Mas uma literatura de cordel é melhor que uma literatura de laços que nos mente e é, depois, desapertada tão facilmente como se desencontraram as mãos do meu para sempre.

Talvez, como tantas vezes me disseram, eu escreva literatura de cordel. Um pouco como esses restos dilacerados nas redes das ruas, que implicitamente prenderam mantos ideológicos e partidários, apelando ao voto. Talvez eu escreva literatura de cordel. Não me importo. Se é ela que traz, com sangue, o apego à vida que me foge por entre dedos, nos espaços largados e esquecidos, lembrando-me dos tempos idos de criança, dos sonhos para amanhã, do que me sobra de esperança, agora que a esperança é vã.

É de cordel? Que seja! E se magoa, também ninguém obriga a que se leia. O meu cordel é tecido a duas mãos. Nasce no papel. Cria-me a teia. E nela adormeço. Inteira.

Talvez seja literatura de cordel. Gosto dela assim. Não é porque me suporte os sonhos. Nem porque me estenda a concretização. Mas, em alguns dias, une-me a mim. E é tudo o que me prende a alma ao corpo. E os pés ao chão.






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