terça-feira, 20 de setembro de 2016

La Muerte



“La muerte, la muerte”. Era o que ouvia. Caía-lhe dos lábios. Com peso de pedra. Gritado. Um grito que parecia ter ficado preso na garganta. Entalado. Tempo demais. E a voz rouca e sofrida, com ecos desse anteontem engasgado. Inquietude. “La muerte”. Sabor acre do veneno sensaborão dos dias que passavam na boca onde havia dentes podres e estas palavras: “La muerte”.
Não tinha pernas. E agitava os braços. Não havia intento. Se alguém lhe lançava uma moeda, soava o grito. “La muerte”. Era só o que pedia. Não queria nem comida, nem dinheiro, nem palavra. Na sua esquina vendia-se apenas sujidade e não se pedia esmola. Os olhos, claros de cegos, prendiam-se ao céu como se o vissem. E furavam a multidão. Furavam as roupas, as peles e as carnes. Chegavam aos ossos, que roíam com as palavras: “La muerte!”.
E atravessavam as ruas pessoas em passo de fuga, não fosse o homem sem pernas persegui-las até ao infinito conforto dos seus lares. Temiam-lhe a imagem. Mas mais as palavras. “La muerte”. Ninguém quer ouvir falar da morte. Como se, a cada menção, o lembrete da efemeridade provocasse chagas pelos corpos. Uma queimadura constante na recordação passiva de que somos apenas carne à espera de apodrecer sob as camadas arenosas da terra movida.
“La muerte, la muerte”. Mesmo na rua vazia, a voz soava. Uma solidão que se fazia aviso. E um aviso que não passava de oração. Tinham-lhe tirado as gentes. As pernas. Os olhos. A dignidade. E, por tanto tempo, a voz. Naquela esquina da rua, invocava o direito à voz. E era a voz que elevava já para pedir a morte em vez de esmola.
Quando morreu, ficou a parede grafitada. E nela alguém escreveu “La vida”. Mas ainda se ouve na rua. Não tem olhos. Nem pernas. Nem braços que agite. Nem voz que erga. Mas ainda se ouve. Mais claro. Mais alto. “La muerte”.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Adoeço



Adoece-me o rosto no cansaço. Pálido e olheirento, ele toma tonalidades amareladas, gastas, pouco sadias. E vincam-se sob os olhos tapetes inchados onde há lágrimas por verter e negrume. Adoece-me o rosto. E há nele traços incontestáveis que se chamam de sintomas. O diagnóstico faz-se nas ruas. Parece doença. Mas é cansaço.
Adoece-me o coração na mágoa. Arrítmico, descompassado, toma ritmos seus, que diferem do mundo e dos restantes corações. Bate e, uníssono com o ritmo da cidade. Uma cidade de caos. E dói no peito, enquanto bate. Um aperto, um sopro. Pausa e retorna. Adoece-me o coração. E há no seu ritmo traços incontestáveis. Sintomas. O diagnóstico faz-se à mesa, sobre as refeições, acompanhado de vinho verde. Parece doença. Mas é mágoa.
Adoece-me o corpo na angústia. Seco. Escanzelado. Constantemente à procura do que não tem, seja sal ou amor. E a intercalar entre a dor severa e a moinha constante, permanente. Essa que não quebra mas verga. Essa que não mata mas mói. Adoece-me o corpo. E, nas suas arestas há traços incontestáveis do mal que me aflige. Sintomas. O diagnóstico faz-se nas conversas de ocasião. Parece doença. Mas é angústia.
Adoece-me a alma na solidão. Incauta, imunda, recheada de promessas não cumpridas e de palavras por escrever. Tem rasgões do tamanho de rios e crateras do tamanho do Universo. Faltam-lhe bocados. Permanece rasgada, dentro de mim. E os pedaços rasgados estão amarrotados e sujos. Já não sou eu. Adoece-me a alma. E transparece, projeta-se no mundo essa matéria que a aflige e a corrói. São os sintomas. E faz-se o diagnóstico nas avenidas dos sentidos. Dizem que é doença. Mas é solidão.
Adoece-me o sonho na realidade. Triste e pardacento, vai descolorando e tomando a transparência de tudo o que não lhe coube nos desejos. Vai desaparecendo. Também ele emagrece e se deixa decompor em mil pedaços de nada. Adoece-me o sonho. Fica moribundo, a lutar já sem forças nem razões. É esse o sintoma. E, no concílio, faz-se o diagnóstico. Dizem que deve ser doença. Mas é realidade.
Adoeço. Há mil sintomas. Parece tumor a alastrar. Arrastando as suas metástases até ao mais profundo de mim. Adoeço. Parece cancro. Mas é só tristeza.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando eles saíram



Quando eles saíram, ela entrou. Esgueirou-se pela porta, à medida que eu a fechava. Entrou pela fresta. Não notei de imediato. Ao entrar, ela ainda não era mais do que um grão de poeira. Esgueirando-se pelo espaço entreaberto da porta que eu fechava atrás de mim, depois de os ver ir, com acenos de mão e sorrisos nos rostos.
Quando eles saíram, ela entrou. Provavelmente, se eu soubesse, não a teria deixado entrar. Mas não sabia. E, inconsciente de tudo, quase lhe estendi o convite para que, entrando, se instalasse, também, nos locais mais recônditos de mim. Não o fiz. Ela não precisava que eu fizesse. Da minha casa fez a sua. Não se importou com os conceitos de privacidade nem com a invasão do espaço. E eu, que nem a tinha visto entrar, fiquei, aos poucos e poucos, ciente da sua presença, que se colava à sola do sapato e alastrava pelo chão, pelas paredes, pelo teto. Que se fazia subir pelas minhas pernas, se agarrava ao meu ventre, perfurava as minhas entranhas e se alojava no meu peito.
Quando eles saíram, ela entrou. Não se limitou aos recantos da casa e aos recantos de mim. Fez-se conquistadora do inconquistável e perfurou os limites do corpo até me tocar na alma e mergulhar nos meus sonhos. Já não era mais pequena do que um grão de poeira. Era maior do que o Universo e simultaneamente una com as mais pequenas partículas de imensidão. Do seu carácter, fiquei a conhecer o negrume feio e saudoso, que imaginei poderem pender, feito muco, do canto dos seus risos histéricos e vibrantes.
Quando eles saíram, ela entrou. E, ao tomar de assalto a minha vida, ela decidiu que era hora. Era chegado o tempo de convidar outros a entrar, para que pudessem provar os melhores vinhos da casa e as melhores lágrimas dos meus olhos.
Quando eles saíram, ela entrou. A solidão. E ficou por ali, a celebrar, no meu peito, com a tristeza e a saudade e o desalento. Fizeram uma festa no meu peito, até a noite cair. E, quando a noite caiu, decidiram prolongar a celebração no meu peito, intensificando mais e mais as batidas rítmicas da dor.
Um aceno. Um sorriso aberto. O contentamento fugaz. A porta que fecha.
Cumprimento o vazio. Quando eles saíram, ela entrou.
Um suspiro. Uma porta aberta. A solidão que persiste. Um sorriso que fechou.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Declínio da Primavera



Pura e leve amanhece
Nas auroras outonais
E vã estremece…

Despojada da mais remota vida,
Deixa-se olvidar pela quimera.
Vã se desvanece e cai esquecida
A última flor da Primavera.

Olvidada pelo mundo que conhece
Cai no silêncio e muda morre
Com ela a Primavera perece…

O universo conspira incerteza,
O mundo torna-se enfadonho,
‘Inda assim, com toda a realeza,
Cai a vã pétala de sonho.

Sentindo as nuances de abandono
Cai tranquila na manhã
Como s’apenas tivesse sono…

Cai, perecendo… é mais um dia!
Ninguém ouviu e ninguém espera
Que na pétala que hoje caía,
Tombasse igualmente a Primavera.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Atrás da bandeira



Estamos assim, mais ou menos, escondidos atrás da bandeira. Da parte vermelha da bandeira, para ser mais exacta. A esperança é tão escassa que já não esconde ninguém.
Estamos escondidos atrás dos homens que morreram no mar para nos fazer mundo. E escondidos atrás do sangue vertido para nos fazer gente. Temos canções sobre a morte. Mas seguimos a vida a fugir dela. Perdemos tanto tempo a fugir dela que, por caminho, não vivemos. E dizemos como é brava a nossa carne mole, escondida atrás das glórias do passado. O que fizemos pela glória? Nada. Nascemos. Não fomos nem marujos a tombar das caravelas, nem soldados a levar balas no peito. Não fomos donzelas a chorar à beira-mar pelos filhos que não retornaram e as filhas que, sem o saber, se faziam viúvas no partir da nau. E eles, que embraveceram as estruturas finas da nação, deixaram no aroma da maresia a ilusão. Tão valentes que se fizeram imortais. Mas nós? Nós estamos escondidos. Atrás da bandeira.
Estamos escondidos atrás da baliza, a ver os outros jogar. Roubamos-lhes o título, quando é bom, porque sentimos que nos representa. Da mesma forma, xingamos os maus resultados como se nos negassem a bravura dos nossos antepassados. Esses que eram fortes e indomáveis. Mas nós? Nós estamos escondidos. Atrás da bandeira.
Nos recantos das vitórias alheias, vamos buscando um pouco do verde que ainda nos pinta o lado esquerdo da bandeira. Coração de esperança, ondeando ao vento. Mas escondemo-nos atrás das glórias do tempo que não retorna. (Não vá o futuro tecê-las e fazer-nos descobrir que, tal como os navios, naufragámos a nossa força ao largo do Cabo das Tormentas). Somos um povo. Somos uma nação. Unidos pelas causas mais insípidas ou pelas mais coerentes. Mas não somos heróis. Não acho que devamos pensar, sequer por um momento, na heroicidade do nosso corpo depositado em frente aos livros de História e aos ecrãs de televisão. Estamos escondidos. Atrás da bandeira.
Estar escondido é mais confortável. Mas ouvi-lo não é. E as vozes que gritam pela força que nos torna os melhores, os maiores, os favoritos são as mesmas que ultrajam o sentir destas palavras. Porque elas incomodam e roubam ilusões. E, sem as ilusões, subitamente somos apenas do nosso tamanho e não do tamanho dos feitos dos outros. E que pequenez essa, que é a nossa, pessoas simples e que nunca fizeram nada para enaltecer as cores da bandeira que nos esconde.
Estamos assim, mais ou menos, escondidos atrás da bandeira. Da parte vermelha da bandeira, para ser mais exacta. A esperança é tão escassa que já não esconde ninguém. Pelo menos a minha já não esconde ninguém. Mas também já não me escondo atrás dela. Não tenho, talvez, a força dos homens que nos marcaram o lugar no universo, nem as ambições dos que nos colocam no centro das atenções do mundo. Mas tenho voz. Tenho opiniões. E, se posso escrever, não tenho, não vou esconder-me atrás da bandeira.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Deixa arder



Deixa arder. Como ardem as florestas. É triste. Mas deixa arder. E põe as culpas na vida. Ou nas outras pessoas.
Deixa arder. O sonho. A vida. A alma. Depois diz que tens pena. Porque a alma não se fez. Porque a vida não te quis. Porque o sonho não foi vida. Deixa arder. Uma oportunidade atrás da outra. A primeira porque não tens tempo. A segunda porque não tens capacidade. A terceira porque não tens vontade. E chora, depois. Agarrada à culpa alheia. Diz que te tramaram o sonho.
À medida que avanças na estradinha de ladrilho cinzento, vai dizendo que os passos são ditados por quem fez o caminho. E que, se é cinzento o ladrilho, eles te regem que os cinzentos passos avancem rumo ao cinzento de um futuro sem esperança. Não faças nada para mudares os caminhos, e as cores, e os destinos.
Arruma os arquivos, um a um. Põe-os na estante, catalogados. O sonho que nunca cumpri. A vida que nunca tive. O lugar onde nunca fui. O amor que nunca senti. Catalogados assim, a cinzento, na estante do tanto que não foste. E, se te perturbar a presença das folhas enumeradas na estante ao lado da qual perdes a poesia dos dias, aquece lume. Queima a sanidade. Amarrota o que podia ter sido e atira à chama. Deixa arder.
No centro do fumo – também ele cinzento – aceita a vida cinzenta que te destinaram. Não será difícil aceitar a proximidade quieta do tempo, se o fumo não te deixar ver que, além, existem montanhas e vales e lagos e mares de possibilidade por explorar. Cega no centro do fumo, à medida que deixas que ele te entre nas veias e te programe para pensar que é melhor assim.
Acorda um dia. Feliz. Não feliz-feliz. Mas feliz como se diz ser a felicidade nas ruas de ladrilho cinzento. E faz os teus passos – cinzentos e programados. Vai. Começa essa rotina de círculo infindável e desgastado.
Deixa arder. O sonho. A vida. A alma. Como ardem as florestas. É tristemente indolor. Quando deres conta, ardeu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 9 de agosto de 2016

O problema do mundo



Veio um atentado
E toda a gente se esqueceu
Dos problemas políticos

Veio a doença
E toda a gente se esqueceu
Do atentado

Veio a guerra
E toda a gente se esqueceu
Da doença

Vieram os refugiados
E toda a gente se esqueceu
Da guerra

Vieram os problemas políticos
E toda a gente se esqueceu
Dos refugiados.

O problema do mundo
Não é o ciclo
São as pessoas que se esquecem



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Viver sem ti



Tem sido difícil viver sem ti. Quando acordo, com o beijo do sol e o calor da manhã. Quando pouso os pés na madeira limpa do soalho. Quando canto fado no chuveiro. Às vezes, sorrio. E, depois, lembro-me que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Tem sido difícil sair à rua. Saltar de pedra em pedra, feito criança, brincando ao jogo das cores. E palmilhar as ruas sem destino, à procura dos sonhos nos recantos entre os azulejos toscos e as rachas das paredes. Não ter hora para voltar. Não ter compromisso que me prenda. Fico a ver o mundo que passa e o rio que corre. O trânsito que flui. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Às vezes chego inesperadamente depois das sete a casa. E abro a porta sem cuidado. Chego depois das sete. Mas nunca chego atrasada. Não há horário. Nem hora certa. Nem obrigações. Entro em casa, dispo-me a caminho do quarto. Uso a minha camisola velha e os calções de desporto. Os pés nus no soalho. Ponho a rádio na estação de músicas lamechas e salto do sofá quando as baladas dão lugar a uma música dançável. Faço desfiles pelos corredores. Janto morangos com chocolate negro. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
A minha mãe liga às terças e quintas. Na sua voz, a comiseração cortada e contada nas frases do costume: “não precisas de nada?”; “estás bem?”; “tens de aguentar firme!”. Aos fins-de-semana, os amigos arrastam-me para os bares. E repetem, feito oração, as premissas do costume: “tens de superar!”; “eu sei que não estás bem, mesmo que digas que sim…”; “depois de uma montanha, espera uma maior.”.
Eu olho ao espelho. À procura da dor. À procura da solidão. À procura da vergonha. Mas tudo o que vejo sou eu. Ponho a língua de fora. Sorrio. E, depois, lembro-me. Não devia sorrir. Devia chorar. Dizer que tem sido difícil viver sem ti. E talvez seja. Mas sabes? Foi mais difícil viver sem mim quando estava contigo.
Sorrio. E não tenho vergonha de sorrir. Tem sido perfeito viver sem ti.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 26 de julho de 2016

(Nunca) Para Sempre



Ela disse “para sempre”. E eu senti. O arrepio. Quase como se a vida se tivesse rido no meu ouvido. Quase como se ela tivesse aceite, ali, naquele momento, o desafio. E as palavras somaram-se. Ela acrescentou “nunca”. E eu soube. Ia acontecer.
Não foi no primeiro dia, nem no segundo. Quiseram os ventos. Quiseram as marés. Não foi no terceiro. Nem no quarto. Nem na primeira semana. Nem no primeiro mês. É a coisa mais engraçada de todas: “para sempre” é um tempo tão longo, que não será um ano a provar coisa alguma. Então, durante muito tempo, ela pensou que tinha razão. “Nunca”. E disse-o mais vezes. E mais vezes me arrepiei, no riso mudo da vida ao meu ouvido.
Calei-me. Desejei-lhe sorte. Mas não acreditei. Sou uma crente obstinada de quase tudo. Tenho mil Deuses. E acredito neles devotamente. Invisíveis e silenciosos como são. Acredito nos sins e nos nãos e nos talvez. Acredito até nas pessoas, ocasionalmente. Existem, no mundo, duas coisas em que não acredito: no “nunca” e no “para sempre”. Porque não sabemos quanto tempo é “nunca” e não sabemos quanto tempo é “para sempre”. E, seja quanto tempo for, é tempo demais para que o possamos definir numa certeza.
Um dia, ela bateu-me à porta. Chorando. E disse que o para sempre tinha acabado. Não o disse assim. Disse simplesmente “acabou”. Ninguém usa noções temporais indefinidas quando está triste. Só as definidas. Ontem. Hoje. Amanhã. Mas não se querem indefinições onde já há incertezas. Não se querem incertezas quando já tudo é incerto.
Podia ter-lhe falado do riso da vida. Mas não falei. Porque ela não o tinha ouvido por entre os seus próprios risos eufóricos, semeados entre o “nunca” e o “para sempre”. E não lhe falei do arrepio porque ela o tinha agora impresso na pele arranhada pelo fim dos amor. Feridas que haviam de se tornar cicatrizes um dia. Cicatrizes que haviam de a incomodar por muito tempo. (Para sempre? Quem sabe…).
Disse-me que não havia “para sempre”, disse-me que não havia “nunca”.
E disse-me que nunca tinha dito “nunca”.
E disse-me que nunca tinha dito “para sempre”.
Dei-lhe um abraço. “Claro que não”, retorqui. E começámos novamente um rol eternidades. Só as duas. Porque a amizade é mesmo assim e amanhã é outro dia. E ela havia de voltar a acreditar no para sempre. E eu havia de lançar à vida um olhar de escárnio quando ela se risse. E a vida havia de me perguntar se eu não achava ridículo. E eu havia de dizer-lhe que a coragem de acreditar no improvável não era nada ridícula… que o ridículo morava na inveja da vida que, sabendo-se eterna, perdia o seu tempo a negar aos outros uma eternidade humana, tão pequena quanto os anos que vão do berço à sepultura.
Gosto de imaginar que vida se ofenderia com estas palavras. (Mas quantas piores ouviu já?). Caso se ofendesse, quem sabe virasse olhos por alguns momentos. Para vida, que é imortal, alguns momentos podem ser humanas eternidades toscas. E ela diria “para sempre” e talvez a vida não visse. Talvez a vida não tivesse o ímpeto do riso. Talvez ela não aceitasse o desafio. Talvez ela pudesse ser feliz para sempre.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 19 de julho de 2016

Deixa-o entrar



Vai abrir a porta ao sol. E a janela. Deixa-o entrar. Com os seus raios, espero a alegria. Da alegria faço a flor que planto na jarra. Condenada à morte precoce pela separação das raízes. Mas deixa entrar o sol. E deixa que ele traga a felicidade. E a vida. Para beijar o rosto florido da morte que o espera dentro das paredes frias da casa. Vai. Vai abrir a porta ao sol.
Não tardes. Abre as portadas. As janelas. As cortinas. Chama-o. O sol. Convida-o a entrar na sala onde a jarra ostenta a flor que, exultando o aroma da manhã, acentua já a chegada das noites sem retorno. Não tenhas medo que ele entre. Ao entrar, cada sombra será brilho. Do brilho podes tirar a receita do amor que te leva a regar a morte, como se a consciência que te pesa lhe retardasse o desvanecer da última pétala caída. É um poema do romantismo. Meio agreste, meio tosco, cheio de floreados em torno do que perece e fica espalhado no chão, debaixo do chão, feito em cinza. Vai abrir a porta ao sol. Deixa-o entrar.
No teu jeito sem jeito e na tua postura errónea de coisas incompreendidas. Não sabes o que fazer. Mas eu sei. E digo. Vai. Vai abrir a porta ao sol. E a janela. E qualquer espaço por onde os raios amarelados do tempo possam penetrar as frestas e encandear os olhos cegos do inesperado. Não queiras ser escuridão, se é a luz que te beija a pele. Deixa entrar o sol. Na tua casa. Na tua alma. Deixa-o beijar a jarra onde a morte se faz promessa e a beleza se faz castigo. E aprecia a tonalidade carente do amanhecer que te nasce nas paredes e que as pinta, salpicando-as de sombra e sonho, como se fossem uma coisa só. Vai. Vai abrir a porta ao sol. Deixa-o entrar.
Não tenhas medo. Respira. O ar. Dentro. Fora. Além de ti. Respira. Respira e vai. Vai abrir a porta ao sol. Deixa que ele afaste o que fica entre a beleza perene e a angústia permanente do que não pode sair pela porta pela qual, agora, entra o sol. E agradece a porta aberta. Agradece a janela aberta. Agradece as mãos que te deixaram abri-las. Agradece que elas abram. Agradece a alma que te prende a ti. Agradece ao sol que entra, mesmo sem convite, para te aquecer a frieza do desassossego triste.
Vai. Vai abrir a porta ao sol. E a janela. Esquece a amargura. Esquece a raiz. Esquece a jarra. Porque o sol que entra não me aquece. A raiz foi cortada. E a flor sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 12 de julho de 2016

Desenlace



O sonho, a fé, a ilusão:
Bebeu-os de uma só vez.
De tanto cair no chão
Foi chão que um dia se fez…

Mesmo de rojo, sonhando,
Não abriu mão do querer:
Arrastou-se mas levando
O tanto que podia ser.

Ferida aberta ou cicatriz
Esse ir sem saber aonde,
Caminho que não se diz,
Questão que não se responde.

Por assim olhar, do chão,
O tanto que queria perto,
Cegou o seu coração,
Peito rasgado e aberto.

Sentiu o sono chegar
Nessa ilusão da tortura.
Sorriu sem acreditar,
Um sorriso que não dura…

Esqueceu-se de sentir
E nem sequer quer saber
Se fecha os olhos para dormir
Ou se os fecha p’ra morrer…

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta aberta do meu amor por ti



Eu sonhei – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar. Desses que se vendem nas capas das revistas. Desses que se semeiam nas páginas térreas dos livros de cordel. Desses que se fingem atrás da câmaras de cinema. Era cliché. Mas não importava. Eu sonhei – amar.
Amei. De tão forçada a noção intemporal do amor. Procurei-o com fervura. Afundei as mãos nos recantos mais inusitados, tentando arrancar, até do fundo pantanoso da vida, algo que se parecesse vagamente com o amor. Mas disseram-me. Várias vezes. Eu sei que sonhas – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar. Mas olha, pequena, o amor é uma palavra que agoniza na beira da morte. O dia de hoje é veneno. A nossa época é veneno. E não há cura. Disseram-me, assim, que estava condenada. À morte. Não à minha, mas à do sonho. Esse sonho que eu sonhava tanto – amar.
Encontrei. Abraços. Beijos. Alcovas. Corpos que, vestidos ou nus, sempre me disseram o mesmo. O que eu já sabia. Era um sonho sem razão – amar. E confidenciei, nos teus ouvidos, a mágoa. E tu disseste que não. Não era impossível – amar. Meu triste amigo. Fiz missão de tentar explicar-te o que eu já entendera. O amor era um espectro agonizando nas catacumbas da Terra. E cada onda do mar era um soluço. Cada gota de chuva era uma lágrima. Cada trovão era um grito. Desse amor. O que estava morto no nosso tempo.
Negaste. Disseste que intercalava a vida entre dois momentos: os da ilusão cega e os da frieza excessiva. Se te dizia que nunca mais ia amar, falavas da ilusão – assim – “não amaste ainda”. Se te dizia que não havia amor, falavas da frieza – assim – “não amaste ainda”. E quando o dizias acordavas o sonho. Porque eu sonhei – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar.
Sem nos olharmos no rosto, fomos palavras que se somavam e dias que se perdiam. Aprendi, de ti, que também tinhas um sonho – amar. Meu triste amigo. Quem me dera ter sabido ali. Mas estava tão ocupada a enterrar as mãos no chão pantanoso da vida que não desconfiei, sequer.
Foi uma construção feita em parcelas. Como um castelo de cartas – janelas abertas e sopros inusitados – a frequência instável das quedas. Passo a passo, entre o teu sonho e o meu. Era o meu maior sonho – amar. Era o teu maior sonho – amar. É um sonho comum – amar. Mas o amor… não tinha o amor morrido?
Descobri que não quando o teu sonho encontrou o meu e lhe chamámos nosso. Redescobri-te atrás do rosto onde, tanto tempo, tinha estado apenas o meu melhor amigo. Percebi. Por fim. O amor não estava a definhar, envenenado pelo hoje. Estava a tomar forma nos laços. A dar nó nos laços. A criar entre nós a chama que não queima e a ferida que não incomoda.
Era o meu maior sonho – amar. Era o teu maior sonho – amar. Éramos o sonho um do outro.
Às vezes, a dúvida bate à porta. São as dificuldades. É a mágoa. É o desconforto. Fruto de anos de vida que nos pesam e nos confundem. Por segundos. Mas viram costas e partem. Por três anos não fizeram mais do que virar costas e partir.
És tu e eu. Não cabe nada no espaço entre o nosso abraço. Nada além do sonho. O meu maior sonho. E o teu – amar. Mas não só amar. Amarmo-nos… É um sonho que acorda e se faz real – todos os dias.  



Marina Ferraz




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terça-feira, 28 de junho de 2016

Era tudo perfeito



Era tudo perfeito. Um dia de Verão. Sem nuvens. Sem vento. Só o abraço gentil da brisa ocasional, que agitava os cabelos e as copas das árvores. Ele sorria. Ela sorria. Sorrisos feitos de serra. Sorrisos feitos de mar. Sorrisos feitos de amor. E, caminhando lado a lado, deixavam roçar, de volta em vez, as costas envergonhadas das mãos que queriam dar-se, mais e mais, no avanço da tarde.

Era tudo perfeito. Um toque de maresia no ar. Um toque de perfume no pulso. Um toque de brincadeira nos lábios que ainda não se beijavam. O som constante da inocência amigável de um amor sem compromisso, a querer comprometer-se para viver, depois, o dia a seguir e o resto da vida.
Era tudo perfeito. A pele queimada do sol, irradiando o brilho e a luz. Os olhares carentes, de relance, nas conversas mais ocasionais, cujos assuntos saltitavam e se faziam tema de canção. E ela amava-o. E ele amava-a. E o mundo, habitualmente tão cruel, estava ocupado a olhar para outro lado e não lhes perturbava o amor.

Era tudo perfeito. As mãos deram-se a medo, na proximidade do pôr-do-sol e o beijo alaranjado do fim de tarde selou-lhes o contrato escrito em olhares e promessas mudas. Abraçaram-se até que o abraço os uniu num corpo só. E pertenceram um ao outro, como ninguém pertence a ninguém. Eram finalmente livres. 

Era tudo perfeito. Tão perfeito que ninguém o sabe. Tão perfeito que ninguém o conta. Tão perfeito que nem sequer vale a pena escrevê-lo.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 21 de junho de 2016

O casaco velho



Para a minha mãe

Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Se o viste, não lhe pegaste para te desfazeres dele. Se lhe tivesses pegado, com tal intenção, eu não teria deixado. Está velho, gasto, cheio de borboto. Fica-te largo... tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Tem a manga queimada na ponta e, na verdade, ambas o sabemos: já pusemos de lado peças de roupa em melhor estado.
O teu casaco não é bonito. No padrão desbotado, em tons de azul escuro, vermelho, bege e o que mais for, o teu casaco faz lembrar um filme antigo e realizado por pessoas sem olho para a moda. Refiro-me a ele como o teu casaco «"tricotiado" por um cego»... erro incluído, para sublinhar o facto de que, se tivesse sido simplesmente tricotado, não poderia ser tão malparecido.
O teu casaco parece ter sobrevivido, inválido e irreversivelmente condenado, a uma guerra qualquer. Olhando para ele, qualquer pessoa concordaria. Mas, se o dissessem, diriam com ironia. Não o diriam como eu. Porque eu sei (e tu também): aquele casaco sobreviveu a coisas piores do que a guerra. Sobreviveu a discussões, mágoas, tristezas, decisões amarguradas, conversas doloridas, notícias irreversíveis e penosas. Mas sobreviveu. Sobreviveu sempre.
O teu casaco viu-me crescer. De menina, a adolescente. De adolescente, a jovem. De jovem a adulta. Viu quando me aconselhaste. Viu quando me repreendeste. Viu quando me elogiaste. Ele sabe que acreditas mais em mim do que ninguém, embora também saiba que, por vezes, te inquietam as minhas decisões e as minhas atitudes. Ele estava lá. Envolveu-me muitas vezes, através do movimento ténue dos teus abraços. Absorveu muitas das minhas lágrimas. Deixou que nele pousasse a cabeça para me fazeres festinhas ao de leve sobre o cabelo rebelde.
O teu casaco acordou-me muitas manhãs. Sabe que não ligas a luz. Sabe porquê. O teu casaco ajudou-me a fazer trabalhos para a escola e para a universidade. Conhece a minha obra poética quase de cor, de tanto ouvir, ler, reouvir e reler textos e poemas. Por vezes, nessas penosas sessões literárias, julgou-te dona da maior paciência do mundo. Mas ele também já viu a tua paciência voar, quebrar, ser outra coisa. E, nas casas largas dos seus botões, aposto que já teve vontade de se esconder dos teus momentos de mau humor.
Não. Nunca te teria deixado dar o teu casaco-de-guerra. Tê-lo-ia resgatado. De todas as peças de roupa que acumulas no armário, não existe nenhuma que defendesse desta forma. Mas o teu casaco velho, gasto, cheio de borboto, largo e com a manga queimada na ponta... esse eu defendo!
Já te vi aperaltada: com as roupas mais bonitas, de saltos altos e até com maquilhagem. Já te vi no teu dia-a-dia: com o teu estilo clássico e casual, convidativo e elegante. Já te vi com roupa que cobicei (e até herdei). Mas a imagem que guardo de ti, quando na ausência te imagino, é a usares esse teu casaco velho. Porque essa imagem de ti, dentro do casaco feio, é a mais bonita de todas. É a imagem do conforto, da casa, do conselho amigo. É a imagem de um beijo, do sossego, do carinho. Essa imagem dá-me o aconchego de um abraço forte. Tem o teu cheiro. O teu calor.
Imagino-te na cozinha, meio contrariada, a enumerar as tarefas que ainda faltam para o dia ou a reclamares da falta que faz a ajuda que não queres nem aceitas. Imagino-te na sala, com os óculos na ponta do nariz a coser roupa, enquanto lanças à televisão olhares furtivos. Imagino-te sentada na minha cama, a ouvires os meus textos e poemas, enquanto ajeitas incessantemente as almofadas que, por mais direitas que estejam, nunca te fazem a vontade. Imagino-te a entrares no meu quarto, com um sorriso aberto, para me dares um beijo no nariz e dizeres "boa noite, até amanhã". É uma imagem verdadeiramente bonita de ti. Uma imagem que nunca fica velha, nem queimada, nem fora de moda. Uma imagem de amor incondicional, na qual, sei lá porquê, estás dentro desse casaco.
Eu sei. No seu âmago, o amor que tenho por ti não tem nada a ver com o casaco velho, largo, queimado nas mangas. Mas eu também sei que, se aquele casaco falasse, ele poderia dizer muito sobre este amor. E poderia fazê-lo justamente por isso: porque, à medida que desbotava, alargava e se estragava, ele estava lá. Esteve lá o tempo todo. Nos abraços, nos beijos, nas lágrimas, no consolo, nos serões de poesia, nas discussões intermináveis, nas decisões fundamentais. Estava lá no nosso melhor e no nosso pior. Viu, quando mais ninguém o poderia ter visto, que viesse o que viesse, independentemente de tudo, estávamos lá uma para a outra. Não éramos, nunca fomos, apenas mãe e filha. Para mim sempre foste o ombro, a amiga, o "para sempre" em que eu acreditava mesmo quando não sabia acreditar. E o casaco? O casaco não fez com nada disto fosse assim. Ele apenas viu. E, por ter visto, na sua passividade quieta, ele sabe mais sobre nós do que qualquer pessoa.
Assim, embora o casaco não esteja no centro do amor que tenho por ti; o amor que tenho por ti está cravado no padrão estranho desse casaco. E está lá por isso mesmo: Porque está velho, gasto, cheio de borboto. Porque te fica tão largo que caberíamos as duas dentro dele. Porque, na verdade cabemos as duas dentro dele e estamos as duas dentro dele, nas memórias que ele traz de nós.
Deixámos, dobrado no armário, o teu casaco. Está velho, gasto, cheio de borboto. Mas o que importa não é como ele está. Importa o que ele é. E ele é um bocadinho como o amor que nós sentimos: estará sempre lá, confortável e perfeito, para nos aquecer nos muitos Invernos da vida.


Marina Ferraz


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terça-feira, 14 de junho de 2016

As terras da igualdade



Vivo nas terras da igualdade. Aqui, não se olha a posses, nem a roupas, nem ao tamanho. Não se olha a nomes. Nem a distinções.
Vivo nas terras da igualdade. Dentro das suas fronteiras não há separações. No seu centro não se categorizam pessoas como se fossem objetos. Somos todos feitos da mesma matéria. Somos todos olhados da mesma maneira. Sem distinções.
Não duvidem: existem. São as terras da igualdade. Essa que se debate nos canais televisivos e que os sociólogos dizem ser impossível. Não é. Existe. Vivo lá. Nas terras da igualdade, onde não se usam separadores entre as pessoas, para as associar a este ou a outro grupo.
Vivo nas terras da igualdade. Seja rico ou pobre. Gordo ou magro. Branco, negro, mestiço. Saudável ou doente. Católico ou pagão. Nacional ou estrangeiro. Não importa. São todos iguais. Dizem mal de todos.
É verdade. Mal. Olham todos com o mesmo desprezo e de todos constroem histórias que contam, em surdina, assim que, de costas voltadas, fazem cessar o medo das represálias. E não medem a forma como dizem as palavras – essas que também são iguais, sejam verdade ou mentira. E vão por aí, sem fazer distinção. Dizem mal de todos. Na mesma medida. Frequentemente pelo mesmo motivo. Por vezes alterando, na semântica e no tom apenas algumas nuances para que não se denuncie a pequenez de espírito.
Vivo nas terras da igualdade. Ninguém escapa à rotina da palavra lançada em tom de boato. Não importa a condição nem a conduta. Espezinham-se gentes sob os pés alheios. Toda a gente é juiz. Toda a gente é vítima. Toda a gente é carrasco.
Sim. Elas existem: as terras da igualdade. São feitas desta linha de tear desgostos. E nelas se enlaçam mentiras e verdades, até que se fundem num único momento de aspereza onde todos são igualmente miseráveis.
Vivo nas terras da igualdade. Vivemos todos sob o olhar atento da censura. Morremos todos sob o olhar atento da cidade. E ganhamos todos, com a morte, uma condição de pureza que, em vida, nos foi negada.
Na minha terra é essa a excepção. Todos são maus. Todos são condenáveis. Todos merecem sofrer. Excepto o morto. O morto é a melhor pessoa do mundo.



Marina Ferraz


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terça-feira, 7 de junho de 2016

O monstro




Lembro-me concretamente das palavras que alguém disse à minha mãe: "Estás a criar um monstro."

O Monstro era eu.

Naqueles tempos, eu ainda era feliz. Não me lembro de não o ser. No canto poeirento da minha solidão, eu tinha castelos e amigos imaginários. Voava. Era uma sereia. Era uma fada. Era um universo tão cheio de coisas que não me apercebi. Não sabia que, por entre a fantasia e a ilusão, me podia estar destinada a mágoa. Não sabia que era um monstro.

Eu não sabia. Mas alguém soube. Disse-o à minha mãe. E ela, que me amava, discutiu mas não contradisse. Também sabia. Talvez soubesse porque, no fundo, éramos o mesmo tipo de monstro. Ou talvez o soubesse porque via em mim os traços que me afastavam do resto do mundo. Fosse como fosse, antes de eu saber, os outros já o diziam.

O Monstro era eu.

Nos lugares onde passei, ouvi-o. "Pareces um monstro", disseram-me alguns, em palavras que não estas. Disseram-mo enquanto troçavam da minha aparência, das minhas dificuldades, das minhas manias e dos traços que me faziam ser eu. As palavras mudavam mas a mensagem era essa. "Pareces um monstro". Atiravam-me as esperanças do amanhã para o fundo do poço. Varriam-nas para debaixo da cama. Tentei explicar mas troçaram também da explicação, por julgarem que o vazio morava nos traços das explicações. Ninguém ouve as palavras de um monstro.

Cresci. Crescer significou olhar ao espelho e ver o que me diziam que eu era. E tentei dizer a mim mesma: "Além de monstro, és pessoa. Não desistas de ti." Mas, em alguns momentos, desisti. Tentei loucamente ser como os outros. Tão loucamente que a loucura soou e se disse por aí que a minha estranheza me fazia ser um sem fim de coisas. Todas as coisas reduzidas, nos meus ouvidos, à mesma palavra de sempre. Monstro.

O Monstro era eu.

O meu coração tornou-se o meu melhor amigo. Disse ao meu coração, muitas vezes: "o amor vai resolver tudo." Acreditei profundamente nisso. Mas o amor não foi mais do que uma estrada para lugar nenhum. Apaixonei-me. Vezes sem fim. Na maioria das vezes, não houve quem retribuísse o que eu sentia. Houve apenas quem fizesse de mim criança outra vez e se risse no meu rosto.

Mas vivi o amor. Viver o amor significou cair. E imprimiu-se na minha pele. A dor. A mágoa. O abandono. A saudade. No espelho, devolvia-me o olhar alguém que não sabia sorrir. Alguém que não sabia sonhar. Alguém que não queria desistir do que sentia. Presa. Atada ao solo da realidade mais sórdida. O monstro precisava de amor.

O Monstro era eu.

Amanhece todos os dias, para toda a gente. Em alguns dias, o sol também nasceu para mim. Também me beijou. Fez-me sorrir. Descobri que há quem ame. Até os monstros.  Houve braços que me envolveram, mesmo sabendo quem eu era. Sim... algures, alguém descobriu. O monstro tem coração. Um coração que bate e sente e sofre. O monstro também é pessoa.

Toda a gente mo disse mas ninguém o sabe.

O Monstro sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 31 de maio de 2016

Pega-me ao colo




Pega-me ao colo. Como se eu fosse menina. Estou tão cansada. Não do dia. Da vida. Preciso que me pegues ao colo.
Eu sei que já sou outra coisa. Tenho mais do que um metro e vinte de altura. E penso pela minha cabeça. Pago as minhas contas, mal ou bem, conforme dá. E decido a minha hora de deitar. Ponho o meu despertador. Vou para o meu trabalho. Eu sei. Sei que já não sou criança. Mas, às vezes, tal como se fosse, preciso de colo. Preciso de mimo. Porque o mundo lá fora é um destruidor nato de sonhos e a minha alma velha insiste com o meu coração, ainda jovem, que ainda não é tempo de desistir. Pega-me ao colo, por favor. Faz festinhas na minha cabeça. Diz-me que vai ficar tudo bem. Conta-me outra vez a história onde se dizia que eu era especial e que podia ser quem quisesse. Eu sei que não sou criança. Mas sou pessoa. Preciso de colo. Preciso de sonhos. Preciso de ti. Pega-me ao colo, por favor.
Foi o mundo. Primeiro, foi o mundo. Veio, lá de fora, meter-se nas entranhas do meu espírito, arrancou-me dos teus braços e disse: “outra hora, agora não”. Impôs-me metas ridículas, estabeleceu-me horários impossíveis e desgastou-me até ao ponto incontornável de não haver mais tempo para me aninhar em ti. E, depois do mundo, veio a sociedade. A sociedade disse-me que, agora, não era o tempo mas a idade. Como se a idade fosse cargo. Como se a idade me despromovesse e eu já não pudesse esperar, dos outros, a mesma afeição. Disseram-me: trabalha e não esperes mais que o carinho seja parte do teu dia. Crescer era isso mesmo. Crescer era uma treta. Mas eu, contestatária nata do que o mundo e a sociedade dizem, dei por mim encolhida no meu canto, depois do trabalho feito e das contas pagas (ou por pagar). E ainda precisava. Ainda precisava dos embalos que a criancice sempre trouxe consigo.
Eu sei. Sei que sou outra coisa. Tenho quatro paredes em meu redor e um senhorio que reclama pelas prestações com uma pontualidade tão genuína que me faz questionar, por vezes, se faz profissão do acerto dos ponteiros do relógio. E tenho o carro à porta, intercalando entre o barulho ruidoso do motor e a luz intermitente da falta de gasolina. Tenho o som do forno, que apita quando é hora de servir o meu jantar e as gatas que miam quando é hora de servir o delas. Tenho os olhos azuis do meu companheiro de vida, que vem, todos os dias, para as mesmas paredes, lidar com o mesmo senhorio, o mesmo carro, o mesmo forno, as mesmas gatas. Olho ao espelho e sei. Não sou louca. Não sou criança. Mas, às vezes, tal como se fosse, preciso de colo. Pega-me ao colo, por favor. Faz festinhas na minha cabeça. Diz-me que vai ficar tudo bem. Conta-me a história de como, no final de tudo, o sol sorri, do alto, apenas para me ver sorrir de volta. Eu sei que não sou criança. Mas sou gente. Preciso de colo. Preciso de conforto. Preciso de ti. Pega-me ao colo, por favor.
É um desentendimento que permanece nas entrelinhas da vida. Essa noção de que crescemos e deixamos de precisar de carinho. Eu tenho braços. Eles não foram feitos para segurarem os joelhos junto do meu peito para que sobre eles possa chorar. Foram feitos para abraçar alguém. É esse o trabalho dos meus braços. E, se assim é, preciso que o trabalho de alguém seja abraçar-me a mim. Preciso que o trabalho de alguém seja cuidar de mim. Não sempre. Mas às vezes. Quando me pesa esta realidade de adulto que ainda não o quer ser.
Não. Não sou frágil. Sou pessoa. As pessoas fortes também sentem. Não. Não sou criança. Sou gente. Os adultos também precisam de ouvir histórias de encantar. Não. Não sou louca. Ou talvez seja. Mas os loucos são como as pessoas fortes e os adultos: também precisam de atenção. De amor. De sentir que, algures, entre a confusão que a vida cria no seu ciclo de dores e contenções, tudo vai ficar como sonhámos que seria.
Preciso de afecto. Preciso de ti. Preciso de sentir que vai ficar tudo bem.
Pega-me ao colo. Como se eu fosse menina. Estou tão cansada. Não do dia. Da vida. Preciso que me pegues ao colo. Embala-me, como se fosse menina. Como se fosse criança. Sei que não sou. Mas preciso disso para poder levantar-me, depois, e ser mulher.

Marina Ferraz


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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Monstros como nós


Lá fora. Nas ruas. Nas praias. Nas florestas. Monstros como nós. Olhares ausentes. Mãos fechadas. Ou abertas. Vazias. Dormentes. Cheias de dores. Lá fora. Dentro de si. Longe de nós. Ao nosso lado. Desertos e tão cheios de tudo. Monstros como nós. Carregando medo nas bolsas. Sorrisos nos rostos que choram em segredo. Apáticos nos seus sentidos. Intensos na sua passividade ausente. São do mundo. Não são de ninguém. Ninguém os quer. Monstros como nós.
Sem nome. Com todos os nomes. Rostos desfigurados. Servos do destino. Senhores de lugar nenhum. Sentam-se no trono da desilusão e aplaudem as estrelas que lhes moldam o destino. Céticos. Crentes desnorteados. Dogmáticos. Filhos dos Deuses. Filhos da Ciência. Filhos de ninguém. Monstros como nós. Docentes de ensinamentos perdidos. Discípulos eternos da irmandade solitária dos espaços sem dono. Monstros como nós.
Lá fora. No desassossego. No alvoroço. Na aflição. Na calma. No sossego. Monstros como nós. Com a pena. Com o som. Com a voz. Com a palavra. Com a alma rasgada. Penhorada. Perdida. E corações de pedra. Isentos de felicidade. Repletos de alegria. Binómios intemporais de tudos e nadas que não se escrevem. Monstros como nós.
Sem face. Com rasgos de fera. Cândidos. Temidos. Andando. Por aqui. Por ali. Por todo o lado. Sob o manto. Sobre a Terra. Debaixo do mesmo Sol. Das mesmas estrelas. Poeira de estrelas. Varridos como poeira comum. Pelas pessoas. Pelo mundo. Monstros como nós.
Humildes. Humilhados. Gastos dos pronomes. Gastos das desilusões. Tantas. Quantas? Ninguém sabe. Sabemos todos. Grito comum. Grito calado. Caminho. Pedra imunda da calçada. Pés de espinho pisado na demora. Vão. Monstros como nós.
Não servem ninguém. Dizem, algures, que não servem para nada. É mentira. Servem! Servem para isto. Para não estarmos sozinhos na nossa solidão. Para sabermos que caminham. Nas mesmas ruas. Nas mesmas praias. Nas mesmas florestas. Rumo ao mesmo horizonte. Monstros como nós.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 17 de maio de 2016

Intermitências


Ela começou, aos poucos, a sentir. Era uma dormência, inconstante e cheia de necessidades, pendurada no canto do olho, como se fosse lágrima. Mas não era. E ela sorria. Às vezes, enquanto esfregava a banca da cozinha, tentava remover a camada de limpeza que ficava por baixo da camada de gordura. E tentava corroer a pedra, com uma energia tresloucada. Passando o pano de um lado para o outro, imaginava que corria distâncias impossíveis, sem destino nem obrigação. E, pendurando-o no fio do avental, anuía para si mesma e para a pedra intacta e imaculada. Foi aí, por entre a tarefa. Aos poucos. Foi aí que ela começou a sentir. As intermitências. Mas, porque não conhecia a sensação, ela julgou que era apenas mais uma partida da sua cabeça. E disse, aos botões da sua solidão: “deixa-te disso, menina”. E obedeceu a si mesma. Estava habituada. A obedecer.
Ela começou, aos poucos, a descobrir. Era um espelho de duas faces, que lhe reflectia as expressões mais infelizes e lhe ampliava os gestos mais horríveis. Dos olhos, feiíssimos, fazia dois poços pestilentos, dos quais saiam apenas as vulgares pestanas. Dos lábios, disformes, fazia fossas recheadas de dentes tortos. E, se acaso ela sorria a esse espelho, ele devolvia-lhe um grito e abria mais uma fissura, bem a meio, cruzando com todas as outras. E ela, que não era nada de se olhar ao espelho, aventurou-se a aproximar-se dele e a tocar-lhe. Sentindo, mais do que nunca, a intermitência. Essa que, tendo nascido junto à banca da cozinha, parecia agora furar-lhe as entranhas e roçar-lhe a pele.
Ela começou, aos poucos, a aceitar. Era uma novidade daquelas que se estampam nas páginas mais importantes dos jornais gratuitos do metropolitano. A aceitação. Feia como o seu rosto e imaculada como a sua banca. Como se o feio e o limpo estivessem sempre no mesmo prato e fossem servidos sempre à mesma hora. Ela era alheia à feiura e à limpeza. Ainda mais à aceitação. A verdade era esta: por mais evidente que fosse, por mais que sentisse e confrontasse a realidade do espelho, ela não sabia que estava a aceitá-la. Acreditava, por alguma razão obscura, que estava a fazer escolhas e a tomar opções. Dona do seu nariz torto e abatatado. Mas não. Sentindo o formigueiro causado pela intermitência, ela estava simplesmente no caminho da aceitação. E esta tinha raízes que lhe cresciam dentro da pele, feito veias. Nelas não corria o sangue que lhe dava a vida mas o veneno que se entranharia no peito e a tornaria finalmente senhora de si.
Ela começou, aos poucos, a odiar as paredes da casa. Não só as paredes. Também os tetos e o chão. E as pessoas que viviam sob aquele teto e aquele chão, na guarida daquelas paredes. E o suposto Deus que abençoava as gentes e as casas. E tudo o resto. Sentir a intermitência, a crescer de dia para dia, como um feto crescendo dentro do peito, rasgando-lhe a vontade de viver. Estava grávida de emoções e não conseguia pari-las. Era uma dor que gerava no silêncio, com um sorriso parcelado no rosto, onde ainda se pendurava a dormência, feito lágrima. E pensou muitas coisas para si. Muitas coisas que não disse porque sabia que eram injustas e que, cedo ou tarde – ou, provavelmente, em ambas as circunstâncias – se arrependeria das palavras.
Ela começou, aos poucos, a morrer. Não da intermitência mas do silêncio. Era a vida. E, perante a imagem da morte, continuou a preferir essa candura. A do silêncio. Era um sofrimento solitariamente constante.
Num momento de fraqueza, escondeu-se debaixo das mantas empoeiradas das memórias do passado. Escondeu o rosto. E pensaria o mundo: pudera que se esconda, posto que é horrenda a sua imagem. Mas não. Não era feia. Nunca tinha sido feia. Não era o espelho mas o seu olhar sobre o espelho que lhe distorcia a imagem. Não era falta de beleza mas ódio que, feito suor, se pregava à pele numa camada fina e epidémica. Toda cheia de ódio pela sua imagem e pelo contraste entre os seus sentidos e a limpeza imaculada dos espaços, ela fazia dos dias o inferno e das horas a tortura. A sua lealdade para consigo mesma era intermitente e desvanecia, à medida que o compromisso com a morte ia estabelecendo os pontos-chave do contrato que prometera assinar.
Ela começou, aos poucos, a admiti-lo: não queria viver. E o coração, que era o único que a ouvia nos silêncios, soube-o. Como uma luz de sala, acabada de mudar, trabalhava bem mas gerava uma ocasional intermitência fantasmagórica. Um dia parou por alguns minutos. Poderia ter voltado a bater. Mas, no negrume da falha, ela que nunca sentia nada além da intermitência, sentiu. Paz. Tanta paz. E o coração adormeceu com um sorriso.

Marina Ferraz


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