quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Idalina



Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. Sobre ela, creio, não se escreveram contos, nem romances. Não existe, tão pouco, uma epígrafe de pedra, qual lápide sepultando os ossos idos, que relembram, hoje em silêncio, o tempo de um corpo farto de amor e vida. Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História e nunca fez por sê-lo. Caiu em desuso o seu nome e a sua identidade perdeu-se. Chegou-me só. Numa espécie de fumo aromatizado a saudade. Sem corpo. Apenas voz. Contada, com apontamentos dúbios de veracidade, que se estendiam, ressoando, na memória… “Oh Lina, Lina… a Guarda é feia”.
Ela não era o tipo de mulher que se importava com a ideia de não ficar para a História. Mas não gostava de ouvir dizer que a terra onde cresceu era feia. E, senhora do lar, cândida e devotada à família, ela que nunca se enervava, logo via a mostarda subir-lhe ao nariz. Feia é a Covilhã! E iniciava-se uma espécie de debate, de proporções mornas, que terminava com a única noção que Idalina conhecia. A do amor.
Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. A sua pele pálida, quase translúcida, de uma tez modelada pelo remoinho do cabelo revolto, no lado direito da nuca e o sorriso que demarcava as rugas junto aos olhos amendoados, estavam destinadas a permanecer nas fotografias a preto e branco, onde morreria pela segunda vez, desconhecida nos olhos amargos das pessoas que não sabem quem ela é.
Ancorada num tempo em que a sola do chinelo era um instrumento educacional tão útil quanto a tinta de escrever ou o livro de leitura, ela aprendera a imprimir as normas com exímia sapiência e criara cinco filhos. Dois filhos e três filhas. Que viriam todos a honrar-lhe a memória do nome que esmorecia. Nos dizeres mais simples. Nas memórias mais firmes. Como os beijos do chinelo. De onde “só se perderam as que caíram no chão”.
A História não fala de mulheres como Idalina. Nem da forma como cuidava garantir o bem-estar dos seus e dos outros. Nem da forma como tinha braços que acolhiam António, depois de ausências e em períodos de faltas. Nem da forma como, temente a Deus, imprimia nas crias os valores da bondade e da benevolência. Dela, só falavam os filhos. Primeiro os cinco. Depois quatro. Depois três. Agora dois…
Falou-me, um deles, da Idalina. Mulher forte, que em tempo de guerra fazia milagres na cozinha, servindo pratos de quase nada, sem reclamar e com uma oração nos lábios. Mulher que, aquecendo a família ao redor de uma salamandra, tecia com meias sorrisos inteiros em rostos de meninos. Mulher que dava, sem pedir. Mulher que pedia para poder dar mais. “E se ela não está no céu, mais ninguém está”.
Idalina. É este o nome. De uma mulher que não ficou para a História mas que conquistou – ou assim se espera – um lugar no céu, pela forma como levou a vida.
Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. Mas é o tipo de mulher que deixa um legado. Em mim, deixou dois olhos amendoados e um remoinho no cabelo revolto, do lado direito da nuca. E esta história. Que não vai ficar para a História. Mas vai ficar aqui. Enquanto eu aqui estiver.



Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Armas




Algumas pessoas nascem com armas. Outras aprendem a construí-las. Há ainda aquelas que, de tão fascinadas pelos mundos da guerra, se dedicam a procurá-las, cavando com os dedos na pele alheia, em busca dos artifícios que lhes preencham os arsenais. Têm as mãos levemente ensanguentadas. E sorrisos nos rostos. Matar dá-lhes um prazer que preenche mais do que qualquer refeição e sacia mais do que qualquer bebida divina. Matar é ser-se imortal. Por alguns segundos. Antes de voltar a sede. E a fome. Pela carne e o sangue e os ossos espalhados sobre a arena da vida.
Há uma guerra aberta em cada conversa. E em cada gesto. E em cada sussurro de ponteiro de relógio. Disparam-se as armas. As que se trazem, as que se fazem, as que se procuram. E todos são culpados desse desejo, mais ou menos patente, mais ou menos abstruso, pela carnificina que se faz ao outro. Contando que todos saiam a andar. Inteiros. Com duas pernas e dois braços. Olhos rodando nas órbitas. Passos coxos apenas de insistir nos saltos. E orelhas moucas como a moda dita. Basta que saiam todos a andar. Ninguém repara. Nos bocados espalhados pelo chão, não tão diferentes dos restos de carnes na tábua do talho. Porque são bocados de alma. E a alma sangra uma seiva invisível. Algo amarga mas sem cheiro. E não deixa no ar a noção da morte que caminha. Com passos coxos e orelhas moucas.
Foram os meus passos e as minhas orelhas. Muitas vezes. E a minha alma. Mas isso ninguém sabe, porque não se vê. Das armas que usaram contra mim, sempre esperei inovadoras tramas e princípios. E não me desiludiram nunca as mãos e as bocas e os olhos que as disparavam. Lançando balas de sopro, onde desprezo, ódio, arrogância, insensatez, mentira, despeito, rancor e maldade se uniam num metal muito fino. Dilacerante. Que acertava em cheio. Dentro. Deixando-me caídos os bocados meio mastigados da carne da alma. Pelo chão. Enquanto eu ia.
Durante toda a vida, a única arma que eu alguma vez tive foi a minha escrita. E as palavras, que eram as balas. E as folhas que eram campos. E as linhas, que eram guias. E as margens, que eram regras. Mas arma? Arma, só tive uma. Essa. A escrita.
Escrevi. Cada texto era uma recolha, de joelhos no solo, apanhando os pedaços da minha alma e juntando-lhe as peças, feito quebra-cabeças. Nunca lhe prometi que voltasse a ser una. Tentei sempre que fosse bonita.
Mas quando a alma dói. Quando olha ao espelho e não se reconhece. Ela própria pega nas armas. Na arma. Na escrita. E diz. Diz o que deve. Diz o que não deve. Diz o que quer. Odeia toda a gente. Diz que odeia. Mas depois ora pela humanidade como se a amasse. E torna-se bipolar de ideias e pensamentos dispersos. Tudo é cinza. Tudo é cor. Tudo dói. E fazemos um gesto de carinho, de mão passada com leveza, palma sobre pele, nesse irregular segredo de cicatrizes invisíveis e dores indizíveis.
Aprendemos a ser fortes assim. Amando. Até o que nos derruba. Até o que nos quebra. Por vezes, mais o que nos abala e destrói. Numa loucura que só não é louca porque se diz amor.
A única arma que eu alguma vez tive foi a minha escrita. Não é uma arma que sirva propósitos maiores, salvo se alguém ler. Mas, por uma vez ou duas, venci batalhas inesperadas, onde a chance era de um contra um milhão.
Se vale a pena? Não vale! Mas cada um luta com o que tem. Eu tenho isto. Terei sempre isto. E joelhos que se dobrem para me ajoelhar. E mãos que recolham os pedaços quebrados de mim. Quando as armas dos outros forem mais fortes que as minhas. Ou quando – por amor – eu não quiser revidar.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem é esse monstro




Perguntaram-me. Quem é o monstro? Uma resposta imediata. O monstro sou eu. Mas quem é esse monstro que tu és? Desassossegada, uma mente que nunca dorme, mergulhou no negrume de si. Quem é? Esse monstro que eu sou?
Plural, incompreendido, senhor de um nariz que é seu. Com muito para dizer, com muito para ouvir, com muito pouca vontade de dizê-lo e ainda menos de ouvi-lo. De extremos. De obsessões. De desejos. Vibrantes e lascivos. Ou inconsequentes. De falácias. De medos. De supostas coragens desarticuladas, que anulam o medo como se não existisse. Pisado. Dorido. Cheio de cicatrizes de suposta quebra e com um sabor metálico nos lábios eternamente cerrados porque falar se faz com as pontas dos dedos.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Atormentado, feito de sonhos e panteísta. Eternamente devotado aos Deuses. Num plural que se faz vento suspirado. Do contra. A favor. Com um lugar de fala que abomina e ao qual se amarra. Desconhecido de si. Desconhecido dos outros. Concreto como a sombra e desiludido como os manifestantes da ordem da paz. Eternamente encontrando defeitos. Nos verbos e nas formas de dizer a, à, há. Completamente contra a ordem das coisas. Com uma necessidade profunda de encontrar uma ordem para as coisas. Obsessivamente controlador da forma como o tic e o tac se sucedem. Guardião de ponteiros de relógio. Senhor e mestre de agendas que se preenchem a lápis. E de um lápis que é tinta mental e só apaga a bomba.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Vítima. Mas atacante. Defensor. Linha da frente na apologia do eu. Criador de massacres. Rasgando a pele com as unhas. Que pinta. Ou não. Consoante a maré. E o tempo. E o número de dígitos digitais na conta. Impulsionador de memórias que são ácidas. Bebendo do veneno dessas realizações inconcretas sobre palavras que foram ditos e gestos que foram feitos. Eternamente velho entre os jovens e para sempre menina, de saia levantada e lágrimas nos olhos. Correndo. Ora para lá, ora para cá. Sem saber a qual dos passados e futuros deve chamar presente.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Adorador de mortes. Bebendo de seivas góticas a vida inebriada a absinto e tequila. Com um aroma de madeiras e frutos silvestres na camada inferior do vinho que abre, ao seu contrário. Porta fechada, com três camadas de muralha e duas de véu. Onde a sobreposição dos concretos se faz no horizonte onírico de desconhecimentos dispersos, inversos e invertidos em si. Na tortura ancestral do que se diz moderno e sem aceitar a modernidade tecnológica que transforma betão em estrelas cadentes e pessoas em autómatos que assistem a cloaca televisiva e dela geram algo que, redundantemente, ganha título de opinião.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Amante e amor de quem não sabe caminhos consistentes para as terras veraneantes. Incapaz de se libertar dos espectros fantasmagóricos da paixão. Queimado e apaixonado pela mesma chama que dá alento aos ossos imundos e cheios de desencanto. E louco. Louco como só é quem, detido pelas amarras brancas de um abraço a si mesmo, passa os dias a olhar para o nada, vendo tudo e um pouco mais do que tudo.
Perguntaram-me. Quem é o monstro? Uma resposta imediata. O monstro sou eu. Mas quem é esse monstro que tu és? Desassossegada, uma mente que nunca dorme, mergulhou no negrume de si. Quem é? Esse monstro que eu sou? Não sei.




Marina Ferraz




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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"i" - "!"



Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”. Esse “i” foi uma porta. Essa porta levou a uma estrada. Essa estrada levou a um futuro. E o futuro tinha muito passado dentro dele. E o passado tinha muitas histórias. E as histórias eram feitas de verdade e de mentira e de imaginação. Um dia. Um dia eu escrevi um “i”. Estava vestida de preto. Por cima da saia de folhos. Por cima do corpo miúdo. Por cima do coração que batia. E pendiam-me os cachos do cabelo, em caracóis imperfeitos. Com laçarotes de fita. Ao xadrez.
O quadro era de ardósia. O olhar era de complacência. Os passos eram ofegantes preces, na direção do estrado. Os risos eram dor. E as palavras eram mudas. E eu não tinha nada. Além do giz. Além da mão. Além de mim. E do “i”. Esse que escrevi. E que estava certo.
Um dia. Um dia escrevi um “i”. O “i” foi um alfabeto inteiro. O “i” foi um dicionário inteiro. O “i” foi universalmente galardoado como senhor de todos os manuais. Havia milhões de possibilidades. Em cima do estrado. No meio do quadro. Na pintinha feita com a mão a tremer. Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”.
Disseram-me que a vida era do direito. E eu tentei pôr o tempo parado no espaço da ilusão, que começava com “i”. Guardado para mais tarde, quando me faltassem vogais. Mas as consoantes da vida não bastam. E vêm consoante a história. Não são bem assim. Tomam sentidos diversos e pintam cenários que não são. O “i” não. O “i” era vogal. E uma vogal é só isso. Inspirei. Fui buscar inspiração a histórias. Fui invisível no processo. Tudo bem.
Eu sabia. Tinha escrito um “i”. E a vida não era vida sem esse “i” que eu tinha escrito quando, aos seis anos, decidi a minha vida toda.
Decidi que a vida não era do direito. Virei a vida ao contrário. Escrevi novamente esse “i”. Virei a folha ao contrário. O “i” passou a ser “!”, um ponto de exclamação. E passei a ser o que, insistentemente, me disseram que era impossível. Decidi que “impossível” é a única palavra com “i” que eu não quero na minha vida.


Marina Ferraz


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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

No alto da esfera



Há uma lua no alto da esfera
E um espelho onde finjo ser gente
Refletem-se fases, feito quimera
Levam-ma a alma indigente

Há um poema na ponta do medo
Não tem estrofes nem punhais
Repetem-se versos, feito segredo:
Uma caravela atracada ao cais.

Finjo ser gente por entre a gentia
Cansam-me os temas, cansados de mim,
Gentis são os dedos que, sem simpatia,
Me arrancam da terra, me ditam o fim.

Há uma lua no alto da esfera
E um espelho que reflete o nada.
Finjo ser gente… mas quem me dera
Ser, na distância, a lua quebrada.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Amor lésbico



Quando lhe perguntei como estava, respondeu-me com o olhar. E o olhar era todo (m)ágoa. Escondeu-o entre os dedos. Refugiou-se, assim, da inquisitiva demanda presente nos meus. E nunca tive uma resposta.
Atirei-me no penhasco que era o seu corpo. Acreditando que, num abraço apertado, podia impedir as feridas de jorrar desalento ou reajustar as quebras, unindo as fissuras numa só pele. E ela afastou o abraço, com medo da unidade. Porque se cansava das supostas normalidades e da maneira como elas se sobrepunham aos sentidos.
A sociedade não estava pronta. Explicou. A sociedade não entendia que ela amava outra ela. E que essa ela a amava. E que bastaria o silêncio. O olhar para outro lado. Ninguém queria bandeiras. Ninguém queria palavras de incentivo. Só paz. Sossego. Espaço para poder ser. Para poder ter. Amor. A sociedade não estava pronta. Ela estava. Para combater a sociedade e o que viesse a seguir. Mas ela dependia de outra ela. E essa não estava. Pronta. Preparada. Para lutar.
Disse-me também que eu não entendia. Porque o amava a ele. E nunca tínhamos vivido sob o escrutínio dolorosamente impresso nas ruas, numa homofobia calcetada no chão de pedra, onde se insistia em intercalar pedras azuis e brancas.
Então, eu limpei o rosto dela. E disse. Que entendia. De coração. Acrescentei. Mais. Também eu amei uma mulher. Foi o meu primeiro amor.
Espantou-se. Nunca me vira senão com ele. Nunca parara para pensar nisto. E eu expliquei.
Ainda eu não tinha nascido e já amava uma mulher. E ela, mais liberal do que tudo e do que todos, amara igualmente este ser, ainda sem género nem identidade, antes mesmo de saber quem eu era ou se eu era alguém. De mim, pouco importava quem fosse: se homem ou mulher; proclamadora de fés ou psicopata; sábia ou com dificuldades de aprendizagem. Essa mulher, que eu comecei a amar antes de ter uma forma, amou-me independentemente de quem eu pudesse vir a ser.
Dentro dela, construí amor. Juntamente com as pernas e os braços. E os órgãos sexuais que me determinaram menina, quando ainda não sabiam quem eu era por dentro. E esta mulher, que se agradou do meu sexo, não fez nele ideologias sobre a minha sexualidade nem pautou nele as minhas formas de ação.
De mim, tolerou as dores que lhe dava e os mimos sob a forma de batimento de asa. Conhecia-me mal, posto que nunca me vira. Esse mal era já melhor do que o conhecimento em soma de todos os que se cruzaram até hoje comigo.
Eu amei uma mulher. Ainda a amo. E ela a mim. É um amor que não escreve romances, bem sei. Mas é amor. E não há tal coisa como um amor genderizado e feito a preceito nas normas do que encaixa ou não no momento dos corpos dados.
A sociedade é voz. E a voz é música. E as pessoas detestam o silêncio. Mas ela não merece a (m)água dos teus olhos.
E já não era. (M)água. Nos seus olhos. Era agora brilho.
Todas nós o tivemos. Esse amor lésbico. Gostamos de pensar que ele é diferente. Porque não é sexual. Nem sexista. Nem algo que se traga ao pensamento quando a paixão queima.
Mas é amor. Amor é amor. E quem somos nós – as filhas de alguém – para julgar o amor entre duas mulheres?
Eu amei uma mulher. Ainda a amo. Vou amá-la para sempre. Mesmo quando me deitar com ele. Mesmo quando disser que o amo. E entendo, sim. O amor dela. Não porque entendo que ela ama outra ela. Mas porque entendo que o amor tem muitas formas… e nenhuma delas é erro.


Marina Ferraz


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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Quatro razões



Quatro razões.
Tenho quatro razões. Completamente escondidas nos meandros do inexplicável. Mas tenho. Quatro razões. E cada uma delas é diferente da outra.
Tenho quatro ensinamentos. Cada um deles oferecido de forma terna e gratuita, sem palavras. Mas tenho. Quatro ensinamentos. Com eles aprendi mais do que a escola ensina.
Tenho quatro pilares. E deles retiro uma estabilidade que não é frágil nem temporária. Tenho. Quatro pilares.
Neste círculo eterno de quatro pontas, faço eternidade. E por ela me movo, devagarinho, tentando ser tudo o que não sabia ser antes. Faltava-me o que hoje tenho. Quatro motivos. Quatro razões.
As minhas razões são todas diferentes. E não chegaram todas ao mesmo tempo.
A primeira ensinou-me a amar no sentido mais lato e completo.
A segunda ensinou-me a arte de sorrir perante a agrura da vida.
A terceira ensinou-me a linha entre a agressão e a fragilidade e todas as formas como estas se transfiguram em carinho.
A quarta ensinou-me que é possível amar na distância, até o que ainda não se conhece.
São quatro razões. Todas elas feitas de amor. Que começam na semelhança que nos une, passando pela linha que nos identifica, pelo riso que nos atenua e pela emoção da permanente imagem de um amanhã.
Tenho quatro razões. Três de olhos claros. Uma de olhos castanhos. Todas as quatro perfeitas. Tenho quatro razões.
São quatro razões para ser forte. São quatro razões para lutar por um mundo melhor. São quatro razões para saber que ele pode sê-lo. Um mundo. Melhor.
Tenho quatro razões. Que não sei se mereci. Que vieram do nada e mudaram tudo. Que me fazem querer conquistar os sonhos para provar que é possível. São o melhor presente que recebi. O melhor do futuro que há-de vir.
Tenho quatro razões. Com nome de gente. E são nomes que ecoam nas preces que o mar canta nas suas ondas. São nomes que soam a canção. São nomes que se fazem poema.
Tenho quatro razões. Quatro pilares. Quatro sonhos. E o desejo. Só um. De que eles sejam felizes. No mundo. Um mundo. Como o meu. Só que melhor.



Marina Ferraz



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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Sou verso


´
Não sou triste,
Sou verso,
O sentir algo perverso
De algo que não existe.
Deambulo e não vou,
Sou o que sou.
Sempre que olham pra mim
Sou universo sem fim
Na folha que m’albergou.
Não sou dor,
Sou verso.
Não tenho fim e começo
Numa linha sem valor.
Não sou tristeza
Nem nada,
Só um verso que se guarda
Num momento d’ incerteza.
Não tenho mas sou
Adjetivo sem ser,
Sou um sonho que, ao morrer,
Todos dizem: acordou.


Marina Ferraz


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domingo, 31 de dezembro de 2017

Desejos (também) para 2018



Utopias. Desejam-se utopias neste final de ano. Como se o quedar da noite anunciasse o fim de personalidades e problemas. E o fogo-de-artifício os incinerasse. E houvesse um sol diferente a nascer na madrugada do novo calendário. Desejamos sucesso, num mundo onde cada vez mais se aprecia a arte dos mínimos. Desejamos paz, num mundo onde a guerra rebenta. Desejamos amor, num mundo que se cola cada vez mais à efemeridade de momentos. Desejamos saúde, num mundo onde proliferam doenças antigas e novas, sob os interesses mais ou menos tácitos da indústria farmacêutica. E é tão bom desejar, que nos esquecemos, com facilidade, do papel que temos na construção do que será o amanhã.
Não. Não vos desejo sucesso, paz, saúde e amor. Espero que tenham tudo isto, mas não é isto que vos desejo.
O que desejo é outra coisa.
Desejo que tenham as ferramentas para trabalhar. E o espaço. E a oportunidade. E o alento para se levantarem de manhã. E a coragem de lutarem pelos vossos sonhos. E a capacidade de não deixar para depois o que pode ser feito neste instante. E o prazer da dedicação. E pernas que aguentem a subida dos degraus. E cimento que garanta a estabilidade das vossas construções. O que desejo é que saibam que vos cabe a construção do sucesso.
Desejo que tenham comida sobre a mesa, uma banheira, ou uma cama, ou um sofá onde possam descarregar o cansaço do sucesso. E que tenham, em vós, a amabilidade de tratar do espaço com carinho, continuadamente, para garantirem a paz que desejam. E que, tendo comida sobre a mesa, uma banheira, ou uma cama, ou um sofá, se lembrem também daqueles que a não têm. E saibam dedicar-lhes, se não mais, ao menos um pensamento diário, onde agradeçam pelo privilégio. O caminho da paz faz-se com luta. Nem toda a luta é guerra. Esta é uma luta que se faz de cada vez que, em lugar de olhar para o lado, se encara o mundo de frente, com todas as debilidades, assumindo que a mudança começa dentro de nós.
Desejo que, por entre as constantes debilidades humanas de um corpo frágil, tenham a força de cuidar de vocês. Que saibam quão importante é o cuidado do físico e da alma. Que não tenham medo de correr passadeiras nem de aceitar aventuras. Que aceitem o desafio das cores nos vossos pratos. Que tenham sempre pastilhas para a garganta, analgésicos para as pequenas dores e um serviço de saúde que cuide de tudo o que não se trata com exercício, alimentação e medicamentos de venda livre. E que tenham o discernimento de saberem identificar as sintomáticas. E que tenham a coragem de procurar ajuda quando for necessário.
Desejo que, a par com os medicamentos, a comida sobre a mesa, a banheira, ou a cama, ou o sofá; tenham também dois braços à vossa espera. Mas, acima de tudo, que sejam dois braços à espera de alguém. O amor não é algo que se recebe mas antes algo que se constrói. E nem sempre é fácil. Nem sempre é como os romances. Por isso, desejo que tenham calma, paciência e vinte doses de ternura, de carinho e de entendimento; para regarem o vosso amor e o deixarem crescer, até formar dois braços que se abrem e dois braços que se abram por vocês.
O que vos desejo, para o ano que chega, é que saibam que a mudança de um dia no calendário não pode trazer-vos nada. Mas vocês podem trazer a vocês mesmos o mundo. E hoje é um dia tão bom para começar como outro qualquer.


Sejam felizes (também) em 2018.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Um amor assim


Sempre quis. Todos queremos. Mesmo aqueles, entre nós, que dizem que não. É um desejo comum. Alguém. Que nos ame. Como o amor deve ser. Como ele se apresenta nas páginas dos livros e nas telas de cinema. Mas melhor. Melhor do que o melhor. Melhor ainda. Queremos todos, de alguma forma, não importa a cor com a qual pintamos o desejo. Esse amor.
Eu também quero. Sempre quis. Alguém que decidisse, todas as manhãs, olhar para mim e dizer que, mesmo antes de lavar as remelas e pintar o rosto, eu sou bonita. E que me sorrisse, de olhos ainda ensonados, como se visse, em mim, um milhar de sonhos concretizáveis e de possibilidades em aberto.
Alguém que me amasse assim. A ponto de dizer que ia lutar, dia após dia, a cada segundo. Com um objetivo. Só um. O de me dar o que eu preciso. O que eu quero. Até aquela extravagância meio louca, sem importância alguma, apenas para me fazer um pouquinho mais feliz.
Eu também quero. Sempre quis. Que não houvesse barreiras nem desistências na luta. E que fosse eterno. E que fosse real. E que fosse mais forte do que qualquer vento. Mais resiliente do que qualquer palavra. Mais real do que a morte.
Alguém que me amasse assim. Todos os dias. Sem excepções e sem tirar folgas do amor, só porque ocasionalmente ele pode doer. Sem resvalar nos imbróglios fugazes do tempo e sem questionar, nem por um segundo, a pureza do sentido que se entrega e se demora nas estradinhas da eternidade.
Eu quero. Sempre quis. Esse amor. O de alguém que me conhecesse. Mesmo nos meandros das coisas que não digo. Que soubesse todas as minhas ideias e todos os meus pensamentos, sem os julgar. Que conhecesse todos os meus pecados e, ainda assim, não me condenasse pelos crimes quotidianos. Que ousasse entrar nas cavernas mais escuras do meu peito para descobrir todos os recantos empetrecidos que lhe ornamentam as paredes.
Esse amor. Era esse amor que eu queria. O de alguém que, olhando dentro de mim, desejasse ser a melhor pessoa do mundo. O de alguém que não se importasse de andar pelos caminhos das silvas e dos espinhos para alcançar os meus sonhos. O de alguém que quisesse estar comigo mesmo quando a minha companhia não é prazenteira.
Era esse amor. O de alguém que ficasse sempre. Para sempre. Sem que eu tivesse dúvidas disso. E que me tolerasse o azedume. E que me acautelasse os medos explosivos. E que me acarinhasse as cicatrizes que ficaram pelas feridas. Alguém que me amasse, mais do que as perfeições – se elas existem! – justamente os cortes, cicatrizados ou não, por saber a força que modelou as batalhas que mas infligiram. E que, da minha amargura, fizesse arte. E que do meu riso fizesse alento. E que dos meus passos fizesse caminho.
É esse amor que eu quero. E nunca quis outra coisa. Nunca quis querer outra coisa. Só esse amor pleno, intemporal, incontestável, inabalável e incondicional, até à morte. E sabes? Não importa se não me amares assim. Eu amo-me assim.


Marina Ferraz


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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Na minha pele


Marcaste-me na tua pele. Da primeira vez que me pegaste ao colo. Marcaste-me. Na tua pele. Como um corte sem dor, que deixaria uma cicatriz impressa na alma, ditando-nos, nos gestos, mais palavras do que as que se armazenam em dicionários e enciclopédias.
Em mil (pre)dispostos de carinho, foste acomodando pedaços meus em ti, aceitando uns com a simplicidade da vida. Discutindo outros, para que eu acautelasse os traços de tudo o que tu vias que poderia ver a ser impeditivo de um amanhã. E, entre aceitação e dúvida, caminhaste comigo. E fizeste-me. Todos os dias. Parte. De ti. Marcaste-me. Na tua pele.
Chovesse ou fizesse sol. Nas tempestades da vida. E nas vagas de indiscutível quentura. Concordasses ou não com os meus passos. Seguisses já, ou não, pelas minhas pedras. Vieste. E, vindo, trazias a muralha nos teus braços, que envolvias em meu redor. Protegias-me de tudo o que viesse. De tudo o que pudesse eventualmente vir. E eram palavras. E eram gestos. E eras toda carinho. Enquanto o fazias. Enquanto me marcavas. Na tua pele.
Houve sempre ternura nos teus gestos, quaisquer que eles fossem. E sabedoria nas tuas palavras. E carinho nas tuas mãos. E aconchego no teu olhar que se lançava, meio aguado, meio choroso, sobre vitórias e despedidas breves. Caía-te do olhar, pura como a tua alma, uma gota de esperança que me fazia também escrava da saudade precoce, estando ainda junto a ti. A olhar para ti. Vendo-me menina. Vendo-me mulher. Vendo-me como ninguém me vê. Marcando-me. Na tua pele.
E nas estruturas. Edificadas beijo a beijo. Sonhadas dia após dia. Lá fomos. Sendo. Tu e eu. Mais do que tu. Mais do que eu. Um nós perpétuo, que se vinca na pele e se vincula na terra até ser raiz. E eu? Indo. E tu? Caminhando ao meu lado, real ou ideologicamente. Mas sem nunca resistires ao ímpeto de me acompanhares na jornada. Porque também sabias. Que o tinhas feito. Que me tinhas marcado. Na tua pele.
E, à medida que me marcavas. Na tua pele. Na pele da tua alma. Na pele do teu coração e nas células que o constituem. À medida que me tornavas eternamente parte do que ninguém rouba. Eternamente tua. Eternamente criança. Também eu o fiz. Marcava-te. Na minha alma. No meu coração. Na minha pele.
Um dia, olhando ao espelho. Incomodou-me ter-te tão profundamente em mim. Escondida. Como se fosses segredo. Nos meandros do que não se vê. Incomodou-me ter-te marcada em mim sem que ninguém o soubesse. Sem que ninguém o visse. Quis que o mundo pudesse ver-te em mim. Roubei-te a caligrafia e a palavra que me disseste mil vezes. Marquei-te na minha pele. E agora o mundo vai poder ver-te em mim. Enquanto eu caminhar sobre o mundo. Nesse tempo de eternidade humana que é breve, tão breve, tão mais breve do que o meu amor por ti…



Marina Ferraz


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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Olhares comprometidos



Olhares comprometidos. Tantos. Olhando em redor. Sem ver mais do que embaraço. Vivendo o vexame de tudo o que não regressa. Comprometidos. Mas sem compromisso. Porque olhos que não vêem não podem dar-se nas ruas, sem que haja desconforto. E o desconforto é abismo. Quedam-se. Olhares. No chão. Neles permanecem, vivos mas a fingir que estão mortos. Porque sabem. Sabem que estão comprometidos.
Os pés são companheiros eternos desses olhos. E, não podendo simplesmente ir, vão indo. Com a atenção desconfortável de dois olhos que já não encontram outro horizonte que não o dos sapatos, à medida que estes vão pisando pedras e ervas e resíduos orgânicos nos passeios sujos da cidade.
Tão intrincados estão, os olhos e os pés, neste jogo de amor desalentado e fuga coerciva, que há quem julgue que se namoram. Não é que o façam. Nunca a sua relação passou disso mesmo, do encontro desamparado entre os dois, com metro e meio de distância, como mandam os bons costumes. Mas permanecem na luta inglória pelo desapego e são ambos conhecedores dos saberes da ignorância. Os olhos ignoram a vida. Os pés ignoram o chão. Comprometidos. Mas não uns com os outros. Ignoram. Porque saber dói.
E os olhos dizem que dói. Principalmente os que, comprometidos, se quedam nos pés. Sabendo, de uma forma algo implícita, que abarcar o mundo traz um sabor acre para o centro da doçura da insipiência. São olhos desalentados, também. Mas, principalmente, são olhos comprometidos e iletrados. Olhos que, podendo escolher qualquer coisa, escolhem ainda não ver.
Nessa cegueira consciente que acaba em metamorfose, os olhos deixam de ser olhos e passam a ser ecrã. Passando, de forma repetitiva e acrítica, as mesmas passagens ilusórias do que a vida deveria ser. Porque, se o fosse, o sossego permitira olhar em frente e ir, com desapego e indiferença, por entre ruas de tijolo dourado, onde tudo luz e resplandece.
Os olhares comprometidos sonham. Com uma bolha de utopia. Sabem que é utopia. Fingem que não sabem nada. E vão, de pedra da calçada em pedra da calçada, atrás de si mesmos, para se obrigarem a cegar. E cegam. Criam barreiras e muralhas. Lentes opacas. Feitas de chão. Feita de pés.
Não há compromisso no olhar comprometido desses olhos. São só cegueira. Voluntária. E têm, por isso mesmo, o único intuito de não ter sonhos acima do chão onde pousam, para ver os pés que caminham,  metodicamente e só porque sim.
Olhares comprometidos. Tantos. Se olham os meus, de relance, logo sentem que queimam. Porque os meus, ainda que não possam sarar o mundo, sabem olhar para ele. E têm lágrimas. Lágrimas que são vidro onde se reflete uma imagem mais ampla sobre o que se transfigura nas raízes podres do tempo.
Passam. Pés no chão e olhos nos pés. Olhares comprometidos. Feitos do mesmo resíduo orgânico que se pisa nas ruas sujas da cidade.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Sala de espera



Nos pulsos trazemos pulseiras verdes. O que significa que estamos razoavelmente saudáveis e que, provavelmente, será ainda cedo para que sobre nós escrevam elogios fúnebres.
Há personagens tipo nas cadeiras da sala de espera.
Começa n’“A Acompanhante”, a senhora que vem só prestar apoio e que, para tal, traz na mochila, o conteúdo pleno da sua despensa. Cede, à doente, de ar meio enjoado e com três camadas de impaciência, uma banana e um comprimido. É uma cuidadora nata. Aquela que servirá, provavelmente, de cozinheira e de enfermeira e de ombro amigo. Embora, provavelmente, alguém devesse dizer-lhe que, numa sala de espera de hospital, as pessoas não devem automedicar-se.
A algumas cadeiras de distância, temos “O Anti-social”. Este pode ser reconhecido pela forma como pousa estrategicamente a mala no banco da direita e o casaco no banco da esquerda, mantendo o nariz enfiado no telemóvel e os fones nos ouvidos. Lança, ocasionalmente, um olhar muito breve ao não-andamento dos números, à espera da sua vez. Evita contacto visual e, se acaso ele acontece, desvia o olhar, como se queimasse.
Muito semelhante a este, é "O Geek". Nas cadeiras ao seu lado, não pousa nada mas também ninguém se senta nelas. Tem uma mini-consola na mão, onde joga com a mestria de quem não está doente, e enverga orgulhosamente uma camisola do Star Wars. Usa óculos de massa com lentes grossas e parece a única pessoa que não está no limiar enfadado da impaciência.
Há, também, “O Exagerado”. Este tipo, trazendo uma pulseira verde, como todos nós, insiste numa coreografia que implica andar aleatoriamente para a frente e para trás, sentar, pôr a cabeça entre os joelhos, endireitar-se, esfregar o rosto, levantar e repetir. Tudo acompanhado de “ais” e “uis”, cuidadosamente alinhados com as vozes dos médicos, quando estes chamam pelo nome de um outro paciente.
“O Estratega”pode ser reconhecido pela presença de um ou dois acompanhantes. Como é que ele entra com dois acompanhantes será uma questão para depois. Ausenta-se frequentemente da sala de espera e vai, sabe-se lá onde. Deixa sempre indicações aos enfadados companheiros que prontamente aceitam a tarefa de o avisar se for chamado. Liberta-se, assim, da vigília sobre o ecrã dos números saltitantes, da permanência junto ao cântico d’ “O Exagerado” e do enfado das cadeiras cinzentas.
Chega, entretanto, “O Profissional”, no seu fato de calças engomadas e casaco. Quando chega, já vem a falar ao telemóvel. Mas, provavelmente, esta é a chamada número 101 das 10 mil que atende durante a sua permanência. Todas as suas conversas começam por “Já te disse” e acabam com “vê lá se fazes tu isso, que eu digo quando sair”. Está mais preocupado com o escritório do que com o mal que o trouxe e reclama da demora com os outros pacientes, os médicos que passam e a senhora da limpeza, por vezes ao mesmo tempo que fala com o colega de trabalho ao telemóvel.
“O Exaltado” é outro tipo frequente. Este exalta-se quando o número 097 é seguido pelo número 052, sem perceber que há pessoas chamadas mais do que uma vez. “Mas já não ia no 097? Assim nunca mais!”. O desabafo é rugido em tom mais ou menos alto. Para que entendam as suas palavras no interior dos consultórios e saibam que ele estudou matemática e, como tal, sabe que 052 é um número menor do que 097.
Voltamos, então, a atenção para “O Enjoado”. Este tipo vem com a mãe e senta-se estrategicamente ao lado da casa de banho. Reclama do cheiro do chocolate que a pessoa do lado come e corre para os lavabos para firmar a sua descontente posição sobre o facto de as outras pessoas comerem quando, tão obviamente, ele não consegue. Volta com um tom amarelado e os olhos esbugalhados, fitando a senhora do chocolate como se fosse uma assassina em série.
Não fica só na indignação, posto que logo se lhe junta a figura que apelidaremos de “O Coagido”. Olhar igualmente matador envia ao seu acompanhante e ao relógio, intercalando-os e polvilhando-os com o brilho de frases como: “Eu bem te disse que não era preciso vir!” ou “Eu estou bem, vamos é embora!”.
E, porque ouvir estes queixumes deixa qualquer um com desejos alimentares, surge outra personagem. “O Dos Trocos” é um tipo inegavelmente comum. Há sempre dois ou três numa sala de espera, em simultâneo. E, como parecem sempre escolher lados opostos da sala, estabelecem uma comunicação algo caricata, ao identificarem-se. Levantam-se, vasculham bolsos e carteiras, lançando olhares furtivos à máquina do café e das comidas. Desesperados, lá acabam por perder a vergonha e perguntar: “Alguém tem trocos para 5 euros?”. Inicia-se uma troca mais ou menos desinteressante, de um canto da sala para o outro. “A Acompanhante” não tem mas oferece uma banana. “O Exaltado” aproveita a deixa para reclamar da espera e da fome que o obrigam a sentir. “O Anti-social” afunda-se na cadeira. E só cessa quando alguém o interpela e oferece os 0,50 cêntimos necessários para calar aquelas pessoas, substituindo-se, então, o som das vozes pelo das máquinas. Fica um aroma a café na sala e “O Enjoado” corre de novo para a casa de banho.
No centro desta confusão, notamos “O Idoso”, aquela pessoa que espera, silenciosa, no seu canto, habituada à invisibilidade e que, claramente, já devia ter sido atendido. Vê mal o ecrã e pede que lhe digam qual foi o número chamado. Alguém o ignora. Alguém responde. Ele não faz ondas.
No centro disto, sobro eu. Suponho que o meu tipo seja “A Gaja Estranha Que Está A Escrever Num Caderno”… mas sei lá! Também atendi uma chamada. Também tenho malas na cadeira ao meu lado. Também gosto de Star Wars. Também procurei trocos para a máquina do café.
No fundo, o que somos todos, nesta sala de espera, é pessoas. Mais ou menos impacientes. A querer ir para casa. Ainda hoje. Se for possível.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A história que vou contar



Esta é a história que vou contar um dia.
Em tempos, perdi-me de mim. Porque não sabia quem era. E me aventurei no amor sem saber amar. Como quem entra num barco sem remos, sem colete de salvamento, e vai para mar alto, sem saber nadar, durante uma tempestade. Perdi-me de mim. Levando comigo, no mesmo barco, uma alma desprotegida a quem tinha prometido segurança e quietude.
Presos no mesmo barco, fui tentando sobreviver às ondas e às correntes. Tentava colocar o meu peso ao favor das ondas, para que a água não entrasse no bote. E ele quase virava. Diziam: “tem calma, não te agites tanto”. E eu, que julgava entender, logo colocava o peso contra as ondas, deixando que a água entrasse no barco e quase o levasse ao fundo. Ele ia libertando o bote da água. Fazendo contrapeso. Dizendo: “tem calma, não te agites tanto”.
Ao longo da minha vida eu tinha aprendido a lutar. Mas não tinha aprendido a estar quieta. E, por isso, continuava. Fosse contra as ondas ou a favor delas. Fazendo, constantemente, com que o bote vergasse a minha vontade e a daquela alma sem culpa. Pondo em risco a segurança de ambos. Achando que precisava de o fazer, já que ele era frágil e não sabia nadar. Já que ele era um desistente, quieto no banco traseiro de uma catástrofe.
Eventualmente, ele culpou-me do risco. E eu tentei fazê-lo ver que não era eu a responsável pela tempestade. E eu tentei fazê-lo ver que não era eu a responsável pelas ondas. E eu tentei fazê-lo ver que não era eu a culpada pelo bote sem remos. E ele insistia: “eu sei, mas não te agites tanto”. E eu esbracejava. Com as ondas. Contra as ondas. Comigo. Contra ele. Parecia, em alguns momentos, que ele também era tempestade.
Em tempos, perdi-me de mim. Eu não sabia quem era. E eu não sabia amar. Isto não significa que eu não fosse alguém. Ou que não amasse. Mas não sabia. É importante saber.
Durante todo o tempo desta tortuosa viagem de quase-morte. Ele foi o peso que me endireitou o barco e me protegeu. Na sua fragilidade quieta. Contrariando os meus impulsos ingratos e inúteis.
E, em muitos dias, foi os braços que me envolveram para eu não sentir frio, depois da chuva e das águas que quase nos abalroavam.
Em tempos, perdi-me de mim. E quase matei os dois. Fui protegida pelo reduto de uma fragilidade forte. E descobri que a minha força me desonra pela falta de sensatez e de sentido de oportunidade.
Encolhi-me no meu banco, no meu bote sem remos e desejei ter morrido na tempestade ou ter feito sozinha a viagem.
Mas, depois, olhei. E, mesmo quebrada, mesmo perante o olhar triste dele, eu soube. Eu estava perdida de mim quando me aventurei no amor sem saber amar. Agora estou perdida no amor e esta é a história que vou contar um dia.
O leme é dele.
Podemos ir sem remos e sem colete de salvamento. Se eu não for tempestade, vai ficar tudo bem.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Privilégio



O mesmo corpo que levanto da cama, ela levanta do chão. E avançamos as duas, sonolentas. O mesmo rosto, do qual lavo as remelas amareladas do sono, ela lava para tentar esconder as horas por dormir. E os passos que dou, nas meias quentes que a minha mãe me ofereceu, ela dá descalça, sobre as pedras frias.
Eu não sei a sorte que tenho por ter quentura nos pés.
Ela acha que tem sorte porque ainda está viva.
Reclamo da fruta, demasiado madura, que me espera na fruteira. E ela colhe o fruto, agradecendo à terra que lho dá, dividindo-o em dois para que também o filho coma. E vamos as duas, debaixo do mesmo sol.
Envolvem-me os braços do meu amor. Do meu amante. Carinhosos e cheios de promessas, fazendo do meu corpo templo, que se honra com sedução e ternura. O meu corpo branco e esguio. E lançam-na contra o chão, de novo, os braços rudes e violentos dele. Que a massacra e a desonra, violentando-lhe a carne. Entrando-lhe na carne. Exigindo-lhe da carne o fruto que ela não quer e a força que ela não tem. No corpo negro e subnutrido. Fitando o teto, com olhos laços e vazios. Ela entoa uma canção. Calada. Para dentro.E reza pelo que vem depois. Seja o que for.
Eu não sei a sorte que tenho por ter o amor de alguém.
Ela acha que tem sorte porque ainda está viva.
Passo nas mãos o unguento aveludado, de aroma a framboesa, para as hidratar. Julgo-as desengraçadas e secas. E sinto o calor da mão que se dá a essa a outra, menos feia. Ela agarra nas enxadas e vai. Tem calos nas mãos que dá ao martírio. E agradece por tê-las. As mãos.
Também agradece por ter pés, enquanto eu calço os sapatos de salto e reclamo por tê-los. E agradece por ter comida, enquanto eu reclamo do número de calorias que me enchem o prato guloso.
Andamos sob o mesmo sol. E sobre a mesma terra. Eu reclamo que não me entendem. Ela não sabe que não a entendem. Na maioria dos dias, ela pouco conhece além do dia que lhe nasce e da noite que a leva até ao dia que vem a seguir.
Eu não sei a sorte que tenho por andar sobre esta terra.
Ela acha que tem sorte porque ainda está viva.
Somos iguais. Gostamos de dizer. Que o somos. Iguais. Podemos perder o nosso tempo a dizê-lo. Porque faz parte do privilégio falar. Para dizer. Que somos. Iguais.
Ela não sabe se somos iguais. E eu só finjo que sei. Tento convencer-me de que o sei. Como se soubesse. Como se fosse verdade. Mas só porque quando traçaram a linha, eu fiquei a norte.




Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Tu sabes


Para a minha mãe

Sabes quem eu sou.
E foram muitos a achar que sabiam quem eu era. Mas não. Não sabiam. Porque havia uma capa. E sob ela um invólucro. E sob ele a muralha. E atrás dela três níveis de fingimento. E mais dois de agressividade. E pelo menos um de dissimulação. Eu permanecia atrás delas. E não. Eles não sabiam. Eles não sabem. Nunca souberam. Quem eu sou.
Tu sabes.
Sabendo, rasgaste a capa. E depois o invólucro. Quebraste as pedras da muralha. E permeaste os níveis de fingimento; combatendo fogo com fogo na minha agressividade e ganhando-me com a confiança que dissipava a hipocrisia. Atrás delas, estava eu. Mas não um eu como não imaginavas que eu fosse. Eu, como já sabias que eu era. Enquanto eles não sabiam. Porque eles nunca souberam. Quem eu sou.
Sabes quem eu sou.
Talvez porque te cresci nas entranhas. Talvez porque me expulsaste de ti apenas para me envolveres nos braços. Guerreira planetária. Pantera negra. Rugindo. Alto. Na voz de ventos descobertos em mares de além. Tinhas um povo. Eras um povo. Um exército de proteção em meu redor. Mesmo antes da capa. Mesmo antes do invólucro. Mesmo antes da muralha. Contra tudo e todos. E mais os outros que pudessem vir. Eras. Foste. És. Serás sempre. Esses braços de ferro e fogo. Que me aquecem com ternura e condenam quem me macula. No mesmo tom. Pelo mesmo sentido.
Tu sabes.
Talvez porque me viste ser menina. Ou talvez porque me viste ser mulher. Ou talvez porque me viste ser monstro. Não sei a razão. Mas sabes o que fica por baixo da pele queimada da vida. Como quem sabe de vidas nunca vividas. Ou de tempos por devir. E, sabendo, acalentas com palavras ou conselhos ou insultos de baixo espectro esse eu que, por vezes, nem eu mesma sei que sou.
Tu sabes quem eu sou.
Penso que o saibas, também, porque me construíste do zero. Me produziste do nada. Me moldaste de um barro muito próprio e pessoal, com partes de ti e da tua alma. Gosto de pensar que partilhamos. A alma. O coração. Gosto de pensar que nos partilhamos. Encaixando noções do mundo em espaços desusados que as outras pessoas não aceitam e não entendem. Talvez por não entenderem, as outras pessoas não sabem. Quem eu sou. Mas tu sabes. Ainda que não o digas. Tu sabes. E eu sei que sim.
Saber é muito importante num mundo de enganos.
Saber é muito importante num mundo de ignorância.
Quem sabe é quem está. Quem fica. Quem não nos deixa sós.
Sabemos.
Sabes bem quem eu sou.
E eu sei bem quem tu és.
Tu és a pessoa que sabe. Mesmo o que mais ninguém sabe. Mesmo o que nunca ninguém soube. Mesmo que mais ninguém saiba. Tu sabes de mim.
Quero dizer-te uma coisa. Não digo. Basta um olhar. As outras pessoas não vão entender. Tu vais. Porque tu sabes.
E está tudo dito.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Burocracia



É uma espécie de plataforma legal. Que nos leva. Lentamente. Na fluidez de um tempo próprio. Que se estende e expande, até que cada segundo seja uma hora e nela saibamos puxar fios soltos de uma tapeçaria que nunca acaba.
Algures, para não ficarmos enrolados nesse tear constante de possibilidades que nunca se concretizam, vamos enredando diminutos nós de forca e usando as linhas como gargantilhas. E vão puxando, todos os dias um bocadinho, o chão debaixo dos nossos pés. Com as mãos do silêncio e da improficiência grosseira, resultado de muitas inépcias e muito ócio fora de tempo. Obrigando-nos a ficar num posicionamento débil de equilíbrio, nas pontas dos dedos, fazendo um bailado sobre o ar. Se nos chega a dor sistémica, falta-nos a leveza dizível. E tombamos.
Um aplauso. Um riso. Uma frase feita de clichés. Tudo melhor do que nada. Mas vem isso. O nada. Sem aplauso ou riso ou cliché. Sonhamos. Queremos. Outra coisa. Qualquer coisa. É um desejo onírico, onde se trazem vulgaridades dependuradas nas mesmas cordas que se enlaçam e nos libertam da necessidade inusitada da respiração.
É uma espécie de plataforma funcional. Diz que é. Diz. Funcional. E permanece na disfunção de o ser porque quem tem a competência de fazer andar os relógios não são as mãos que laboram nos ponteiros. E, se o fossem, seriam máquinas. De pouco valeria falar de sensatez ou de indigência. De pouco valeria… e de pouco vale. Que os queixumes nunca ultrapassam as portas da hierarquia e, quem tem o poder, quer desfruir dele antes que se evada.
E fica no ar esse toque aromático, um tanto pútrido, de uma espera que se faz às portas da mesma casa que nos devia levar, em braços, até ao patamar onde converge excelência, sonho e sensatez. Porque, para que se passem as portas, é preciso que alguém decida. E tome o bravo e ousado ato de mover a mão para assinar e carimbar um papel.
É só silêncio. Uma espécie de plataforma legal. De legalidade questionável. E com o bom senso enterrado, sob fios de uma eterna tapeçaria e mil requerimentos e dez mil lamúrias. Leva-nos. Levemente. Na fluidez de um tempo próprio. De um tempo estático. Onde nada acontece. Mas tudo envelhece. Até a história. E, nessa história que se faz velha, há sempre uma razão. Tudo se justifica. Como é fácil justificar o tanto que não se diz.
É uma espécie de plataforma legal. Que se diz funcional. Disfuncional. E só.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A lista III



Tenho três razões para ir embora e só uma para ficar.
Tudo é uma lista. Como aquela que se faz de compras. Onde se sobrepõem, de forma mais ou menos indiscriminada, conforme dita a memória, o papel higiénico, o vinho alentejano e o anel de diamante. E, em cada lista, o desenfreado do pensamento procura ler, nesse corrido de palavras mais ou menos soltas, os sentidos e as intencionalidades, para os arrumar nas prateleiras e corredores desse enorme mercado que é a vida.
Tenho feito listas. Sejam de compras, no fim do mês. De desejos, no fim do ano. Ou de mágoas, no fim do dia. E todas se estendem por infinitos, onde se lançam papiros no universo, formando estradas e vias lácteas, de luz e pó de estrela, até ao lugar do desconhecido.
Contigo, fiz uma lista. E outra lista depois. Até que, da soma de desejos acumulados, sobre como tu e eu seríamos nós - a agarrar o café e a manta e a deitar no chão das nuvens, olhando para o infinito - se foi somando o tempo e subtraindo a concretização. De feito e riscado, ficou apenas o traço. E o traço é linha. E a linha é cordel. E o cordel dá nó. Em torno de ti. De mim. Dos nossos braços. Das nossas intenções, que se largam para agarrar o aperto dessa corda que nos asfixia, pendurando-nos sem chão sobre o abismo onde, antes, dávamos as mãos durante o pôr-do-sol.
E, nesta espécie de feira de enganos em forma de lista, onde estiveram, já, tantos milhares de razões… sobraram só quatro. Tenho três razões para ir embora e só uma para ficar.
O mundo a preto e branco é a minha primeira razão. Sinto-me de papel. Como uma personagem que não escolhe o seu destino. Existo em duas dimensões e nenhuma delas é boa. Como se me movesse, parágrafo a parágrafo, numa história de parca imaginação, cíclica e imponderada. Quem me escreve, não me entende e não me constrói. Deixa-me no limiar dúbio entre ser gente e ser monstro e não ser ninguém. E largam-me as mãos que impacientemente me procuram em mim. Como não me encontram, entre o preto e o branco, assumem, também, que sou papel. E amarrotam-me. E deitam-me fora. Lembram-se de mim outra vez. E recomeça. Sinto-me de papel. Existo em duas dimensões. Já não sei ser gente.
Desta razão, nasce outra. Filha do zelo e das circunstâncias. O nutrir de um profundo desrespeito pela convencionalidade da moral e dos bons costumes que fizeram apodrecer o mundo. Nunca quis apodrecer com o mundo. Talvez tenha apodrecido contra ele. Mas com ele não. Porque nunca quis ser a peça que encaixa onde é suposto, cortando arestas mal feitas com a tesoura da censura e do medo. E sempre amei mais as arestas que me deixavam de fora desse quebra-cabeças insolucionável onde todos são miseravelmente felizes. A lutar contra o mundo, enraiveci os recantos aguçados do diálogo e do movimento. Talvez o zelo se tenha transformado em raiva. Mas é dele que faço muralha. E é nela que me resguardo, sempre que tentam fazer-me dócil. Sei que não sou. Dócil. Tampouco quero sê-lo. E não há espaço para as arestas.
Por fim, a mágoa. Minha irmã. Minha amiga. De longa data. De longo amor. Temos convivido, juntas, numa ilha bem nossa, atirando uma à outra piadas despropositadas sobre a morte precoce. Temos um acordo tácito, sobre como ela se alimenta dos meus pesares e, em retorno, me sustenta a escrita e a adormece, qual aia antiga, embalando-me os sonhos, os dons, as palavras. Pudesse eu sentir no corpo a paixão que lhe dedico e teria, com ela, o mais tórrido dos romances de amor. Mas ela não sabe sentir atração por ninguém. E não tem, de mim, outro sentido que não este, que a faz parte integrante da família dos sentidos. Com ela, vou a todo o lado e disperso facilmente a felicidade, como quem abana a mão em frente ao fumo de um cigarro. Quem vem comigo, quer o fumo. Porque a visão clara do mundo traz dor agarrada nos seus sapatos. E a mágoa que fica depois, essa que trago comigo – minha irmã, minha amiga – ela não é para toda a gente.
Esta é a lista. E, nesta lista, encontro três razões, válidas e concretas, para fazer malas e ir embora. Seria, talvez, um bem universal, ou só teu. Ou um bem para os dois. Ou para os três, posto que não sobra quem se vai colando às paredes rachadas de nós, à espera do tempo e do espaço certo para entrar. Mas sobra-me uma, sabes? Uma razão. Para ficar.
A minha razão para ficar é muito simples: amo-te.
Podia falar de um mundo a cores e em três dimensões, da debilidade inocente, de rosto corado e sorriso nos lábios ou elogiar o bater arrítmico do coração, quando a mágoa vai e é só paixão. Mas a razão não é essa. A razão é outra. Amo-te.
E, nesta concreta lista de prós e contras, que é já a terceira que faço para nós, põe-se na balança tudo. As três razões que se justificam, com medidas de infinitude, longamente; contra a palavrita de cinco letras separadas por um hífen, que nem sequer dá para explicar.
E fico. Com o prato direito da balança a tocar o chão e as dúvidas lançadas ao ar, como se o amor fosse chumbo e me libertasse das penas.
Tenho três razões para ir embora e só uma para ficar. Podiam ser mil razões para ir embora e só uma para ficar. Ficaria, ainda assim. Porque não há razão mais forte. Porque não há motivo mais bonito. Porque não há nada melhor do que aquilo que não se consegue explicar. E a razão é esta. Só esta. Amo-te.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cautela e Caldo de Galinha



O meu bisavô costumava dizê-lo. Cautela e caldo de galinha nunca fez mal a ninguém. Disse-o, provavelmente, porque o seu pai lho dizia. E lhe bebeu as palavras, juntamente com o caldo e a cautela.
No tempo do meu bisavô era tudo diferente. Até a galinha, que não nascia, ainda, depenada e encolhida nas cuvetes de supermercado. Até o caldo, que era rico e aromático, parco de sal mas repleto de sabores do campo. Até a cautela, que se estendia por ruas onde não passavam tantos carros como maus-olhados. Mas era um conselho intemporal, deixado pelo seu pai, que o ouvira do pai dele. E que se repetiu até me chegar. Servido com requinte num prato dourado de muitos passados, na forma de cautela e de caldo de galinha.
Foi um dito que, de tão intrinsecamente nosso, nos moldou ações e nos definiu rumos. Às vezes de maneira espalhafatosa, evidente; mas outras de forma subtil e amena. Foi um dito que se estendeu nos limites murados das nossas peles e nos tornou monstros entre os humanos, cuja cautela é parca e o caldo de galinha não serve.
Na intempestividade das almas modernas, ter cautela já não significa não ir. Porque seria impossível a resistência perante a impulsão audaciosa da aventura e da concretização. Significa ir, por vezes devagar, por vezes a correr. E aceitar os trilhos como caminho, sabendo-os sinuosos e cheios de pedras e abismos. E abraçar essas pedras e esses abismos, até que sejam parte de nós. Fazer deles amigos de longa data, sabendo que é entre os homens e as mulheres que se encontram as barreiras. E acautelando, por isso mesmo, os contactos humanos.
Se nos fere a alma o encontro com a desonestidade e a pobreza de espírito, logo surge um novo acordo eminente. O de aquecer por dentro o que se resguarda longe do olhar alheio, com palavras de alento e caldos de galinha. E neles se curam mágoas. Como se ondeasse, no líquido turvo da tigela, também o conselho que o meu bisavô deu à minha avó e que ela me deu: "Cautela e caldo de galinha nunca fez mal a ninguém".
Levo o conselho comigo. Nas minhas aventuras. Até ao lugar louco onde a cautela, no seu sentido mais lato, não me permitiria chegar. E, ao levá-la, assumo o risco consciente de que posso ficar doente por entre estes mundos, repletos de gente que não teve um bisavô de sábio conselho. Mas vou. Com cautela mas sem medo. Porque é indo que me faço digna das palavras que me chegaram.
E se, no caminho, pedras, abismos ou gentes, cortarem em pedaços a chama da minha intencionalidade e a ferida alastrar pelas ramificações da alma? – perguntaria alguém, em nome da cautela. Sorrio. Não será nada que a cautela e um caldo de galinha não curem. E, se não curarem… também nunca fizeram mal a ninguém.



Marina Ferraz


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