terça-feira, 26 de maio de 2020

O segundo que precede a loucura




Abraças-me. A máquina de lavar louça está ligada e ouve-se o som contínuo e persistente do seu uso. Os carros passam e os seus pneus cantam, levantando a água das bermas. O vento agita o saco de plástico que a vizinha tem no estendal. E o relógio da cozinha faz o sonoro tique-taque, que já se tornou mudo do hábito.

O teu coração tem o ritmo das metrópoles. E a respiração é densa e produz um sopro leve, de mel auditivo. A chuva bate nos vidros. Intensa. E a gata caminha pela casa, tocando levemente com as pontas das unhas no soalho, com uma percussão leve e despreocupada.

Fico agarrada a ti. Junto à parede de azulejos floridos. Abraças-me e fico agarrada a ti. Como se não importasse nem a louça, nem a hora, nem a chuva ou o vento, nem mesmo a gata ou o bater do teu coração. Abraças-me e nada importa além do abraço.

Bebo dos sons. Não me largues. Não me largues. Não me largues. O espaço do silêncio, contigo, parece-me maior. Povoado deste compasso. Não me largues.

Mas a máquina de lavar louça pára. E a estrada esvazia-se de carros. A brisa não chega nem para agitar os dentes-de-leão e o sol brilha. Percebo que o relógio parou. É sempre a mesma hora, agora. E não ouço o teu coração ou a respiração leve. Será que morreste? Será que morri? Será que morremos?

Percebo que tenho os dedos nos braços. Os dedos nos meus braços. Os meus dedos nos meus braços. E abro os olhos. Estou a morrer. Tenho sede de sons. Estou a morrer. O silêncio cria vácuo nos tímpanos e na alma.

Olho o relógio parado. Reclamo, não do mas com o relógio parado. Se o tempo ia parar, podia ter parado quando me abraçaste. Podia ter parado aí. Agora não. Agora não.

Abraçaste-me? Foi real? Abraçaste-me! Eu lembro-me. Estava a chover. Havia carros na rua. Flores nos azulejos. E o relógio. Tic-tac. Tic-tac.

O relógio parou.

Há o silêncio. E os meus dedos sós, nos meus braços carentes. Subo pelas ervas daninhas dos azulejos e sento-me no ponteiro parado. Ouve…

Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me…





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terça-feira, 19 de maio de 2020

Uma árvore


Fotografia de Analua Zoé


Nasces. Cortam uma árvore para te fazer o berço.

Cresces. Cortam uma árvore para te fazer um baloiço.

Vais para a escola. Cortam uma árvore para fazer a tua secretária. Outra para fazer a tua cadeira. Uma centena para fazer os teus lápis. Um milhar para fazer os teus cadernos e livros.

Chegas a adulto. Aprendes a conduzir. Cortaram uma floresta para abrir a estrada que atravessas. Derrubam uma segunda para construir a tua urbanização.

Conheces o amor da tua vida e casas com ela. Nasce o primeiro filho.

Cortas uma árvore para lhe fazer o berço.

Cortas uma árvore para lhe fazer o baloiço.

Leva-lo à escola onde secretárias, cadernos, cadeiras e lápis são árvores mortas.

E, um dia, morres também. E a madeira do teu caixão foi outra árvore cortada.


Ao longo dessa vida, foi na árvore que penduraram o teu baloiço e o do teu filho. E foi a árvore que recebeu as brincadeiras dos teus intervalos. E foi nela que cravaste as tuas iniciais e as da mulher com quem virias a casar. 
Debaixo dessa árvore, fizeste piqueniques com a tua família e puseste o teu filho às cavalitas para que atingisse a maçã e comesse, alegre, o fruto da terra. Na sua sombra, bebeste o aroma das flores da primavera e o adocicado mel veraneante da frescura. 
Curaste as tuas doenças com os seus compostos. Regaste refeições com os seus frutos pisados. Respiraste-lhe o ar.

Nasces. Cortam uma árvore para te fazer o berço.

E és feito de um sem fim de momentos-árvore onde, vivas ou mortas, te servem ao longo de toda a vida.


Aprendes que és seu dono, sem perceberes que és seu filho. E deixas. Que cortem.
E ela perdoa-te. Abraça-te. E, por fim, baixa contigo à terra.


Porque a árvore não conhece a maldade. Apenas o amor.






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terça-feira, 12 de maio de 2020

Ser velho (quando se é novo)


Fotografia de Analua Zoé

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. Era aí que residia a diferença.

É difícil ser velho. Principalmente quando ainda se é novo. O tempo alonga-se e cabem muitos dias num dia só. Cabem muitas vidas neles. Como se os sulcos na alma fossem rugas na pele e deixassem marcados anos-luz de vida. Como se esses mesmos sulcos fossem margens e no seu centro corressem rios, feitos de lágrimas salobras, solitárias e sós.

Ser velho, quando se é novo não causa cansaço mas desprendimento. Não existe o desnorteio de não saber para onde ir. Repleta de certos e de errados mas consciente de ambos, a alma sabe para onde se dirige e vai. Chega-se mais depressa, embora com passos mais lentos… porque se sabe o destino e não se busca a aventura dos labirintos que ficam nos trilhos mais demorados.

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. Era aí que residia a diferença. Ele media a vida em momentos e eu media-a em essência. E ele perguntava “e se”, onde já não tinha espaço para interrogações.

Ser velho, quando se é novo faz com que as perguntas se substituam pela compreensão de que não existem respostas certas. A vida não é matemática, como querem fazer-nos crer. A vida é uma sucessão de incompreensões, que passa sem que entendamos metade e que nos é mais doce quando paramos de lutar contra ela.

Ser velho significa também isso. Parar de lutar contra a vida. Ir no seu embalo. Tentar ajustar as velas ao vento, apenas para que ela não fuja da rota da nossa consciência e dos nossos princípios.

Indo com a vida, descobrimos que ela se dá a quem se deixa ir. E o medo da morte desaparece porque, de repente, os sonhos foram cumpridos. Amámos, fomos amados, escrevemos, publicámos, ouvimos canções com palavras nossas e subimos a palcos com várias peles. Honrámos os Deuses que tínhamos de honrar, plantámos as plantas que tínhamos de plantar, colhemos os frutos que tínhamos de colher. E, depois disto, temer a morte parece ridículo. Porque ainda que nos sobrem experiências para viver, em essência sabemos que foi perfeito.

E, claro, disse-lhe eu, se houver mais, vou tentar aproveitar cada momento. Mas foi pleno o suficiente para que não haja “e ses”. Estou em paz comigo. Ele respeitou mas não entendeu. Mais difícil do que ser velho, sendo novo é entender o velho-novo quando se é novo-novo.

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. De repente, quando se é velho, por mais que queiramos viver, já não é muito importante estar vivo. Mas, Deuses, eu também gostava de ter o amanhã para poder sentir, por mais um dia, a paz de poder morrer agora e estar tudo bem.





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terça-feira, 5 de maio de 2020

Os meus vazios


Fotografia de Mauro Hilário


Libertei-me do medo e descobri que, sem ele, existe muito vazio em mim.

Se ainda tivesse medo, quando dele me libertei, talvez tivesse temido esse vazio. Mas, sem as suas grilhetas, descobri que um espaço vazio não é mais do que um espaço de oportunidade, que podemos preencher como bem entendermos.

Podia ter preenchido o meu vazio de conceitos, mas preenchi-o de verdades. Porque, ausente em mim, o medo já não me impelia a querer as mentiras suaves, bendizentes e amenas ou a subjugar-me aos juízos e noções consensuais da sociedade. Claro que, para o fazer, precisei de me encher de luz e, por vezes, a luz segregou sombras sobre os vazios do meu peito.

Sombras. Ainda bem. Gostei delas. Porque foi na sombra que pude colocar, no centro desse vazio, uma dose de amor inesperada. Descobri que estava preparada para sentir e para me dar sem regras. Eu. Mas a sociedade não. Então, aproveitei as sombras. Aproveitei-as e descobri que alguns sentimentos são melhores assim: vividos na penumbra. Apercebi-me, neste processo, de que as pessoas partilham demasiado da sua intimidade com o mundo e que é isso que a estraga, que a destrói, que nos deixa inevitavelmente sós no meio de tanta gente.

Bebi das palavras dos outros e percebi o amargo que elas têm. Descobri que o meu vazio preenchido de segredos, na ausência do medo, era apenas mel. Prefiro as palavras que não digo a ninguém e a forma como elas são sementes para tantas florestas em mim. Gosto de passear por essas florestas interiores, onde a seiva das árvores é mar e o som das aves é verso. A ausência do medo foi o que me permitiu desbravá-las, sem terror de me perder em mim. Descobri que, entre as minhas células, existem flores silvestres e dons. Descobri que, no meio dos meus órgãos vitais, algumas ambições são morte e loucura. E descobri que a aptidão para a generosidade não se prende - como tantas vezes me quiseram fazer crer, alimentando-se dos medos que eu tinha para me subverter - com a brandura dos gestos visíveis mas com o furtivo talento de dar em segredo.

A falta do medo em mim fez-me recordar da gaveta da cama, para onde tinha atirado pensamentos de insónia, para que não me incomodassem. Sem os antigos pudores, dei por mim a abrir a gaveta e descobri que apenas sobrava pó. Libertei o fantasma antigo de amores que não souberam amar-me como eu amei. E vasculhei, por entre papéis, apenas para descobrir que a única dívida que me faltou saldar foi para comigo mesma. Comecei a edificar as primeiras bases sangrentas do perdão, onde pretendo, mais tarde, alicerçar muito futuro.

Libertei-me do medo e descobri que, sem ele, existe muito vazio em mim.

Se ainda tivesse medo, quando dele me libertei, talvez tivesse temido esse vazio. Com medo, o vazio é intolerável: traz saudade na forma de fantasmas e solidão com garras que rasgam a pele. Mas, sem medo, o vazio é apenas um espaço aberto à espera do que vem depois. Iluminei-o e vi-lhe as sombras projetadas. Desenhei, com as minhas mãos, as silhuetas que quis. Aceitei que também eu era luz, sombra e vazio.

Neste jogo de luz e sombra, percebi que libertar o medo não bastava. Chamei-o ao vazio de mim. Abracei-o até lhe estilhaçar os ossos. Beijei-o até o sufocar. Matei-o. Assassina de temores e receios, apaixonei-me então pelos meus vazios e, por fim, senti-me gente.





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terça-feira, 28 de abril de 2020

O feio de mim


Fotografia de Raul Pinto



Conheces o feio de mim e viste-me nua sem nunca me teres despido. Olhos de mel, que atravessam a camada de maquilhagem e a da pele. Que rasgam os músculos e os órgãos. Que partem os ossos e lhe retiram a medula do tutano, dissecando cada parte dos tecidos gelatinosos, até ver a célula e o núcleo e a alma que reside dentro.

Conheces o feio de mim e viste-me insana nas conversas mais naturais. Rainha da não circunstância e imperatriz da falsa conversa feita. Com visões irreais e irrealistas sobre o mundo e as pessoas. E dureza circunstancial, expressa rigidamente com frieza. Também sobre o mundo e as pessoas.

Conheces o feio de mim. Tenho a certeza de que olhaste para a candura dos meus gestos e viste a puta veterana que eu sei ser. E tenho a certeza que, no encontro lascivo e obsceno dos palavrões fáceis que me rasgam as conversas, conseguiste encontrar os traços da menina perdida e inocente que, ao longo do tempo, passou pelo inferno e sobreviveu, guardando nuances de fantasia no peito.

Conheces o feio de mim e nunca o negaste. Por mais que os poemas me saíssem bem e as ações transmitissem preocupação e apego pelos outros. Por mais que os toques de chefe na cozinha se traduzissem em receitas executadas com mestria. Por mais que encontrasses exemplos do meu eu a sair de mim e a mudar de caminhos e planos para ajudar alguém. Por mais que eu me esforçasse por ser, nos meandros do trabalho, mais e melhor do que todos os profissionais do mundo. Nunca viste perfeição em mim. Soubeste sempre que eu era totalmente imperfeita. Errada e erro. Peça fabricada com defeito, sem lugar neste mundo ou noutro, se o há.

Conheces o feio de mim e não tens pudor nenhum em dizê-lo. Em mostrá-lo. Em deixar que eu o saiba. Conheces o feio de mim. É-te tão evidente quão feia eu sou, que não consegues conceber, sequer, que eu pudesse ser outra coisa que não este erro, com pernas de medidas desfasadas e anca torta, a caminhar pelo mundo, fingindo que vai direita.

Conheces o feio de mim. Com os olhos, rasgaste cada tecido, do cutâneo ao ósseo. E descobriste uma matéria muito própria, com a qual nenhuma normalidade se constrói. Conhecedor dos meus defeitos, imperfeições, vícios, exageros, carências, devassidões, hipérboles e demências, fizeste a coisa mais corajosa do mundo. Gostaste de mim.

Muito mais monstro do que mulher. Muito mais feia do que bonita. Muito mais errada do que certa. Olhaste para mim, como espelho onde se refletia o teu corpo. Esse que, quando reduzido à alma que fica dentro do núcleo da célula do tutano do osso, também não sente que tem lugar em algum lado. Nesse olhar, conhecendo e reconhecendo o feio de mim, talvez tenhas descoberto que pertencemos ao mesmo Reino, à mesma espécie, à mesma jaula.

Monstro, como eu, abriste também o peito para me mostrares o espaço que toda a gente negou e maltratou. Depositei nele o material fragmentado do que um dia tinha sido o meu coração. E achei que estava em casa, pela primeira vez.

Conheces o feio de mim. Conheces, como quem conhece a rota diária das suas visitas ao sonho da não existência. Conheces o feio de mim. Tão profundamente que é como se não precisasses de conhecer mais do que a tua própria essência. Conheces o feio de mim. A ponto de não teres medo que também eu explore o que fica dentro do núcleo das tuas células. Conheces o feio de mim…

Mas depois olhas-me. E, quando me olhas, é o mundo que é feio. Sinto-me gente. Melhor do que gente. Monstro. Olho para ti. Sinto que somos feitos da mesma matéria de sonho. Sei que, para sermos iguais, tens no âmago uma feiura inerente, que o mundo despreza e condena. Mas, Deuses, é justamente por isso que eu acho que és tão bonito…





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terça-feira, 21 de abril de 2020

Um amor de conto de fadas



Fotografia de Analua Zoé 



Disseram-me que eu queria um amor de conto de fadas. Desculpem. Não. Já não. Agora não. A última coisa de que estou à procura é de um amor de conto de fadas.

Eu tive um amor de conto de fadas. Daquelas narrativas meio desenhadas, onde não temos a certeza se saltámos o ecrã e tomámos forma animada, num universo onde os ratinhos nos calçam os sapatos e os passarinhos nos penteiam os cabelos.

Nesse meu amor de conto de fadas, tudo começou com canções. Elas entravam pela janela aberta na tela do computador. E inebriavam os olhos que marejavam, sorvendo a água das nuvens e fazendo raiar o sol pelas frestinhas do vidro, de onde pulavam arcos-íris, quarto dentro.

O meu amor de conto de fadas beijou-me numa noite de fogueiras acesas na praia e numa noite onde rebentaram cores dispersas pelo céu noturno, em fogo-de-artifício. Nessa noite, para nos ver, até a lua se chegou um pouco mais perto da Terra, como não fazia há séculos e, por séculos, tornará a não fazer.

O meu amor de conto de fadas entrou na minha vida com as mãos vazias mas de coração pleno e olhos cheios de mar. Disse-me que todo o nada que tinha se enchia com a esperança de ser meu. Então, encostados a um símbolo papista e de olhos postos num mundo pagão, com vistas até ao infinito esclarecedor do mar e sobre as copas de mil árvores, ele pediu-me. Tinha trejeitos de criança na voz, como se temesse, mas um jeito de príncipe encantado, banhado de sol e sombra, na tarde mais quente do ano. E eu dei-me. Completa. Sem pôr medidas e sem fazer planos de contenção para o caso de tudo correr mal. O sol aquecia o ar e a paixão aquecia as veias. Arrefecemos nus, algures, numa cama aos pés de um Palácio de Pedra.

Avançou a história do meu amor de conto de fadas. Os sons de canção passavam por debaixo das portas e pelas fechaduras. Era um musical feito pelos melhores produtores do mundo. A encher-me a vida e o peito. A permear cada pedacinho meu. Princesa encantada no reino da dívida fácil, paga de bom grado com mãos desertas que sabiam que a plenitude residia noutras mãos.

Deuses. As mãos. Se não se davam aos pianos e às cordas de guitarra, davam-se às minhas. E era tudo o que um conto de fadas pode ser. Mas, vocês sabem, não há conto de fadas sem enredo nem enredo sem desgraça. Todos os romances sem intriga poderiam ser apenas uma receita de bolos. E, por isso, um amor assim teria dias escuros e negros. Sombrios e desesperados. Por entre eles, só a esperança de que os protagonistas não sucumbissem às trevas.

Somos humanos. Não podemos deixar de sucumbir ao que, tão concretamente, trazemos dentro. Lutei contra fumo. E o fumo dispersava à minha volta. Prendia-se às minhas roupas. Aos meus cabelos. À minha pele. Havia mares de inverno nos olhos que, outrora, me tinham sido doces e a sua mágoa gelava-me a alma e fazia-me sentir que o vilão era eu.

Um dia, percebi que os amores de contos de fadas terminam no momento da união por um motivo. Há histórias que não devem continuar além do clímax da sua felicidade. Mas somos humanos. Não podemos terminar a história encostados a um símbolo papista e de olhos postos num mundo pagão ou enquanto arrefecemos nus, algures, numa cama aos pés de um Palácio de Pedra. Então, aceitamos que, lá à frente, vamos morrer muitas vezes às mãos do amor. E cada fim é uma morte, de onde não renascemos inteiros.

É que os contos de fadas são histórias irreais e nós somos humanos. Nós somos humanos e feios. Reais como o mundo.

Desculpem. Não. Já não. Não quero um amor de conto de fadas. A última coisa de que estou à procura é de um amor de conto de fadas. Desta vez, para variar, gostava de um amor de verdade.




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terça-feira, 14 de abril de 2020

Bem... vai ficar tudo qualquer coisa

Fotografia de Mauro Hilário


Olá, eu não sou o Covid-19 mas corro o risco de, pelo final deste texto, te fazer sentir febril ou com falta de ar. Porque outra coisa que eu não sou é uma mente optimista, a pintar arcos-íris na janela e a dizer que vai ficar tudo bem. Então, se a ilusão é o teu objetivo, peço-te: não leias o que eu tenho para dizer.

Eu sou uma pessoa comum. Que, como todas as pessoas comuns, tem família e amigos e vida social. No meu núcleo mais próximo, existem pessoas muito afetadas pela situação, em termos económicos; pessoas que se encontram num verdadeiro estado de pânico com a situação; pessoas que estão a lidar muito mal com a necessidade de se manterem fechadas entre as quatro paredes da casa. E eu, que sou uma pessoa comum, não sou uma delas. O facto de não estar – pelo menos por agora – numa situação de desemprego; de não sentir medo profundo de ser contagiada; de estar previamente habituada às quatro paredes – não muito firmes – da minha casa; coloca-me numa posição privilegiada para fazer algo bastante simples: olhar.

Na minha praceta veem-se passar algumas pessoas. A janela da minha sala dá diretamente para uma pastelaria que continua a vender pão e, por vezes, há fila. Entre as pessoas, cumpre-se o espaço de segurança e a maioria das pessoas usa luvas descartáveis e máscaras. No chão, junto aos contentores que ficam a meio caminho entre a minha casa e a pastelaria, as luvas estão caídas. Nas janelas, em redor da praça, as pessoas penduram roupa, esteja sol ou não, incluindo cobertas pesadas e almofadas que indiciam limpezas de Primavera e tédio. Em algumas marquises, colam-se desenhos infantis, provavelmente feitos nas mãozinhas inocentes das crianças da casa, com arcos-íris. As redes sociais espalham notícias. Umas são verdade; outras, mentira. Algumas são brincadeiras claras e, mesmo nessas, existe quem acredite.

Por entre a realidade da minha praceta e a realidade da Internet, surge a verdade de quem trabalha em áreas bem específicas e nos dá conta dos números. O número de infetados (que não é real porque escasseiam testes), o número de mortos, os números do PIB deste e daquele país. Mentes iluminadas garantem que é possível que o tempo de isolamento venha a provocar uma recessão pior do que a de 2009 mas dizem isto com mil e uma ressalvas sobre tudo o que ainda não se sabe.

Retiro, dos medos das pessoas no meu núcleo, sejam eles sobre saúde ou economia; das palavras dos especialistas; dos números dos jornais exatamente o mesmo: ainda não se sabe.

Eu não sei, pelo menos.

Não sei quando vou poder voltar a beijar a minha avó no rosto e a dar-lhe um abraço.
Não sei quando poderei dar a prenda de anos ao meu sobrinho.
Não sei quando poderei sentar-me para celebrar um evento em família na mesa de casa dos meus pais.
Não sei quando poderei subir novamente ao palco para defender os meus poemas, sob o olhar atento e contente dos meus amigos.

Eu não sei.

Não sei se os meus amigos do mundo da música vão conseguir manter os seus trabalhos quando isto acabar ou se terão dinheiro para se sustentarem e às suas famílias até poderem voltar aos seus trabalhos.
Não sei se os projetos que tinha para lançar este ano não vão ficar na gaveta até ao ano que vem (ou para sempre).
Não sei se o abalo económico que os meus clientes vão sentir não vai fazer com que cortem no que é dispensável.
Não sei se eu não sou dispensável.

Eu não sei.

Parece-me algo ridículo ler, aqui e ali, que vai ficar tudo bem. Também me parece ridículo ler, aqui e ali, que não vai ficar tudo bem.

Bem… vai ficar tudo de alguma maneira, isso é certo! Mas falta saber como.

Pouco se sabe sobre o vírus e nada se sabe do futuro.

Querer saber o futuro sempre foi e há-de ser a nossa febre. Não saber o futuro sempre foi e sempre há-de ser o nosso maior sufoco.

Eu não sei. Não sei se vai ficar tudo bem. Imagino que, para milhões de pessoas, ficar tudo bem já nem sequer seja uma possibilidade.

Eu não sou o Covid-19 e acho que não estou infetada por ele. Mas sou uma pessoa comum. E as conjeturas, as frases feitas e as alucinações teóricas humanas são uma grande parte do que, neste momento, me está a deixar doente.





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terça-feira, 7 de abril de 2020

Eternos


Fotografia: Miguel Pião


Eternos. Eles eram eternos. Tinham colocado aliança no dedo. Mas nem era por isso. Eles eram eternos, mesmo antes de chover arroz nas suas cabeças. Mesmo antes de Deus o aceitar. Porque eles nunca tinham precisado da aprovação de nenhum Deus. O amor deles era Deus. E a única religião de que precisavam.

Lembro-me dele sem ela. Rapaz de cabeça no ar. Que não sabia data nenhuma de cor. E não ligava a pormenores. E não queria saber que partido ganhara as eleições. E lembro-me dele a dizer que a vira pela primeira vez no dia dois de Setembro. E a dizer que notara, no dia dezasseis, que ela tinha feito nuances no cabelo, que agora dançava ao vento, acobreado. E de me dizer que a direita ia ganhar força com os acontecimentos da política atual e como isso seria mau para a liberdade dela, que era artista, selvagem e indomável.

Eternos. Eles tinham-se ligado pela primeira vez, sem falar. Porque a música estava demasiado alta e eles já sabiam o nome um do outro. E a tesão nasce no fundo dos copos do bar. Dançaram juntos. Ao longe, vi o trocar de um primeiro beijo de língua. Foi assim que se uniram pela primeira vez. Pelas línguas afiadas com as quais, mais tarde, se renderiam às ruas, gritando pelos Direitos Humanos e pelos direitos dos Não Humanos.

Lembro-me dela sem ele. Ativista de coração rijo. Dizendo que o amor era o cartaz que erguia em nome da liberdade de ser. Feminista. Vegan. Amante de animais e da Natureza que honrava. Senhora do seu nariz. E o amor que se foda. E lembro-me dela. A dizer que ele era o centro de um universo só seu. E que, um dia, era ao lado dele que queria construir um mundo melhor. E que, ao lado dele, queria criar crianças melhores, que soubessem o lugar de fala de quem teve a sorte de nascer no hemisfério do privilégio e o usassem bem.

Eternos. Eles eram eternos. Ambos desconectados das leis universais com o desejo de se encontrarem no desencanto e de o tornarem brioso outra vez.

A eternidade deles era tanta que ninguém, jamais, convidou ambos para um evento. Era consensual: se um vinha, o outro estava. Eles eram o membro que completava o corpo inacabado do outro. Amavam-se tanto que nunca cabia um átomo entre eles.

Crianças rasgaram-lhe a carne. E eram o rosto de ambos cantado ao sol. Eternos. Eles eram eternos no primeiro choro dessas crianças. E, por elas, diziam, o mundo seria melhor.

Eternos. Eles eram eternos. Fazendo um mundo melhor, filho a filho. E, de repente, já havia cem manifestações, trinta abaixos assinados e três filhos para o provar. Eles eram eternos.

Mas, um dia, ela confessou. Estou farta. E, um dia, ele disse. Deve haver algo melhor à minha espera. E, um dia, a eternidade deles morreu-me à frente dos olhos, a par com a esperança, já tão escassa, desse amor de conto de fadas.

Disse-lhe que esperava que ela encontrasse melhor. Disse-lhe que esperava que ele encontrasse o que procurava. E fiquei triste pela inevitabilidade da morte do eterno.

Eles eram eternos. Hoje, quando há um evento, é preciso convidar os dois. Trocam palavras cordiais e falam pelos filhos.

Ela não sabe em que dia ele a conheceu e também já não sai à rua com cartazes. E ele, de repente, encontra no fundo do copo de gin uma espécie de comunhão com o futuro que despreza.

Olho para eles. Eternos. Não foi o amor que morreu. Foram eles.






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terça-feira, 31 de março de 2020

Gosto de sexo


Fotografia de Hélio Silver
Modelo: Flo


Eu gosto de sexo. Como uma viagem aventureira. Gosto. Gosto de sexo.

Poderão dizer-me: toda a gente gosta de sexo. Mas eu acho que não. A maioria das pessoas gosta do prazer. E gostar de sexo é muito diferente.

Eu gosto de sexo. Gosto da sensação do toque na pele. Do despudor de pedidos feitos com os olhos. Das mãos lançadas na busca pela servidão do outro. Da vontade de ser escravo, da vontade de ser mestre, da vontade de ser.

Gosto do enrolar das línguas sem linguagem e da linguagem obscena sem idioma. Gosto da universalidade linguística do toque. Dos cabelos segurados nas amarras dos dedos e puxados sem acanhamento. Gosto dos beijos no pescoço. Da manipulação do corpo em coreografias novas e singulares. Do abrir do corpo. Da invasão do corpo. Da oferta platinada de dois corpos que se dão e se fundem, numa dança de afastamentos e reencontros sucessivos.

Gosto da toma do controlo. Da cedência do controlo. Da imagem de fora, criada pela mente que se faz voyeur de nós. De ver, de fora, toda essa dança de idas e regressos, sem sair do lugar.

Gosto de ouvir que pertenço a alguém e de sentir que alguém me pertence. Por uns minutos… até o prazer nos fazer esquecer que existe diferença entre nós e o outro, convencendo-nos que somos peças de um engenho só… ou até a vida nos convencer novamente do que já sabemos: que ninguém é de ninguém.

Gosto de sexo. Dos sabores do sexo. Das suas sensações. Dos seus aromas. Da forma como ele cria sobre a pele uma camada fina de suor e, debaixo dela, uma intensidade insaciável de desejo. Gosto da expressão luxuriante do olhar quando o gozo gera descontrolo e enuncia o fim. E da maneira quase obscena como se sente o corpo vibrar nessa perceção do prazer do outro.

Gosto quando acaba. Do corpo mole, da cabeça onde todos os pensamentos são derretidos numa mancha sem significados nem sentidos porque pensar parece fútil e desnecessário. E gosto. Não sabia que gostava. Mas descobri. Gosto que me abracem a seguir. Gosto da descoberta insensata de que esse desconhecido era, na verdade, apenas mais uma coisa que eu ainda não tinha feito e não algo irrealista, inventado para pintar as comédias românticas de Hollywood.

O sexo é exatamente como uma viagem de aventura. Daquelas que se fazem de mochila às costas e onde queremos ver, sentir, provar tudo. Daquelas que não se fazem com toda a gente. Daquelas que não valem a pena ao lado de quem quer só o prazer das quatro paredes de um resort com SPA e piscina. Daquelas que queremos fazer com quem nos entende e também quer ver, sentir, provar tudo. Daquelas que queremos fazer com quem vai andar ao nosso ritmo e mostrar o seu, respeitar a nossa sofreguidão e mostrar a sua, sentir as nossas limitações sem se importar com elas. Daquelas que queremos fazer com quem também gosta de sexo.

Eu gosto. Gosto muito. De sexo. E é justamente por isso que só o faço quando sinto, em cada um dos meus poros, que gosto de alguém.






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terça-feira, 24 de março de 2020

Tradução



As palavras que digo. Será que as entendes? Às vezes não sei. Talvez porque sinto a pressão das paredes farpadas da pele a impedir os dedos de escrever concretos. Falo uma língua nova. Para ti. Não é por mal.

Peço que entendas. Sou fã das palavras e do seu poder. Mas, por lhes conhecer o poder, também tenho medo delas. E, por isso, eufemismos não me são raros. Digo pouco e quero que leias muito. Vivo de contrassenso. Por favor. Deixa-me traduzir as frases soltas que te digo.

Às vezes, digo-te “olá” pela manhã. O que quero dizer é que acordei contigo no pensamento e o desejo, mais do que meramente leve, de que pudesse estender o braço e encontrar-te na cama. O que quero dizer é que, se estendesse a mão e estivesses ali, teria outras formas de cumprimento, feitas entre a simplicidade de um beijo e a criatividade do que viesse depois. Então, quando te digo “olá” pela manhã, esse “olá” transporta o mundo do desejo cativo na noite dentro e todos os pensamentos feitos de ti pela madrugada.

Nem sempre te digo “olá” pela manhã. Às vezes, troco-o por um “boa tarde”, depois de algumas horas de trabalho. O “boa tarde” significa o mesmo que o “olá” matinal. Mas significa, também, que tenho medo que me julgues chata ou maçadora, nas minhas repetições rotineiras. Então, quando digo “boa tarde”, estou a dizer que me lembrei de ti pela manhã e que te mantive no pensamento latente, até chegar um horário mais apropriado para poder dizer-te que pensei em ti, sem que seja tão óbvia e evidente a urgência que me faz dizer-to.

Falo do meu dia. Não importa as palavras que eu uso. A tradução é simples. Quero saber do teu. Não por mera curiosidade ou porque tenha algum tipo de direito a investigar os acontecimentos da tua rotina. Simplesmente porque quero saber se estás bem. Porque quero saber se, algures, entre o ponto A, B e C dos teus trajetos aconteceu algo que te fizesse sorrir ou ficar triste. Gosto de te imaginar a sorrir. Também é isso que dizem os bonequinhos prefabricados das janelinhas de conversação. Gosto de te imaginar a sorrir. Ficas com um jeito menino que me leva, também, a um tempo livre de preocupações. A um tempo livre. A uma liberdade sem tempo.

Digo que “vai ficar tudo bem”. Muitas vezes. Traduzir isto seria dizer que não faço a mínima ideia de como tudo vai ficar mas que desejo, mais do que a minha própria felicidade, que o dia e o mundo e a vida promovam a tua. E sei que não acreditas nas minhas previsões, baseadas em coisa nenhuma senão na esperança. Mas repito. Porque quero que, ausente de fé, possas agarrar com o canto do olho um pouquinho da minha.

Às vezes não digo nada. Mas também os silêncios têm tradução. Nunca significam, contrariamente a más interpretações, desapego ou desinteresse… e muito menos que não ponteaste o meu pensamento. Às vezes, os silêncios significam que tudo o que tenho para dizer não cabe em palavras. Às vezes, significam que não quero ser aborrecida ou inoportuna. Às vezes, significam que estou a precisar que sejas tu a dizer algo porque preciso, num momento de puro egoísmo, de saber que te lembraste de mim, mesmo sem o estímulo da minha primeira palavra.

Interrompo o silêncio. Tantas vezes. Só para dizer que gosto de ti. “Gosto de ti”. Talvez me escape, sei lá, que te adoro. Aqui e ali. Sem contexto nem razão. Frases loucas e versos soltos. Comprometidamente largados, como se me queimassem na alma, se não fossem escritos. A sua tradução é simples. Estou a apaixonar-me por ti. Estou apaixonada por ti. Tenho um medo terrível de que saibas que estou apaixonada por ti. Tenho ainda mais medo de que não o saibas. Cabem tantos medos dentro desse “Gosto de ti” que ele parece uma espécie de roteiro pela floresta negra do meu peito. Essa na qual só tu te aventuras e só tu te entendes.

Digo que tenho saudades. “Tenho saudades tuas”. Diria que tenho saudades nem que tivesses saído há meio segundo. “Tenho saudades”. As saudades não precisam de tradução. Na verdade, nem existe tradução que se dê. É uma palavra intraduzível. Mas, se tivesse de explicar, diria que é um sentimento de falta com uma pitada de amor.

Amor. Essa é uma palavra que não se diz. Mas, se um dia a traduzir, há de ser em gestos.





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