quarta-feira, 20 de junho de 2018

Nuvens à espera



Estou farta de te ter colado à sola das minhas sapatilhas como se tivesse pisado uma pastilha elástica. Sinto que aprendi a andar sozinha. Sinto que aprendi que posso voar. E ainda me colas ao chão. Há jardins de insanidade por explorar nas nuvens. Deixa-me ir.

É uma sensação estranha, feita de uma palavra que pulsa digitalmente e nunca se transfigura em carinho concreto. Mas que me cola os olhos ao ecrã. Até amanhã. No hoje. E no bom dia que não é bom. Pulsa. Pisca. Olá. E as nuvens à espera.

Estou farta de te ter na distância segura de poderes voltar. Como se um passo de proximidade assustasse e um passo a mais te roubasse o fôlego. Meu menino, acorda. Eu não sou ar para ninguém. Nunca fui. Sou sufoco. Será que tens saudades do fôlego que te roubava? Daquele perdido em beijos intensos, por entre o suor e as palavras de desejo? Ou daquele que quase te roubou a alma e te fez esquecer quem eras? Eu não sou ar. Não me respires. E não me impeças de respirar. Deixa-me ir. Há sonhos por sonhar. Nas nuvens.

Demoras o olhar quando pensas que eu não noto. E eu finjo que não noto até não notar. Algures, de garrafas nas mãos, sorrimos o fresco de gargantas humedecidas e doces, porque a vida já pouco tem de sabor, embora esteja refrigerada no limite do congelamento. E constatas o óbvio. E eu rio do óbvio. E as nuvens passam com o vento. À medida que os ponteiros troçam. Não usas relógio. Eu também não. Parámos na ideia do amanhã. E já passaram dezenas de amanhãs. A piada óbvia deles, somos nós. E deve ter mais piada do que as tuas e as minhas. Essas das quais as nuvens fogem.

Estou farta de te amar. Estou farta de te amar sem poder dizer que te amo. Como se tivesse engolido silêncios e vácuos em cima dos sentimentos. E me engasgasse neles cada vez que abro a boca. São passos calados. Passos calejados. Com pés que me colam ao chão. E que não sonham já voar até às nuvens.

Faço compromissos comigo mesma e estou presa a ti. E não penso que estou presa a ti, porque tenho esse compromisso comigo. E ando às voltas da história eterna do que eu não sou. Olhando as nuvens. Fechando as asas. Eternas possibilidades. Que não o são. Não contigo colado a mim.
Estou farta. Farta de te ter colado, feito pastilha elástica, à sola das minhas sapatilhas. Deixa-me em paz.

Descalço-me. De ti. Despeço-me. De ti. Adeus. As nuvens estão à espera. 

(E nunca me abandonaram).





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 12 de junho de 2018

A minha gata




Há uma presença na minha casa. Dá passos sofisticados e calmos. E passa despercebida a quem não sabe. Depressa se faz sombra num canto e desaparece. Depressa se deixa ficar adormecida num espaço qualquer ou se silencia, absorta, fixando o tudo e o nada, fora da janela. E tem sempre uma postura feliz. Seja na contemplação ou na brincadeira. Não fala e não escreve. Na maioria dos dias, simplesmente está e existe. Nesta simplicidade, ensinou-me muito sobre a vida.

Costumo sair cedo. Mais por hábito do que por obrigação. Deixo para trás uma taça cheia de água e outra com meia dose de comida. Despeço-me em voz alta, como se ela respondesse. E ela espreita-me, geralmente do quarto, girando a cabeça para o corredor e soltando um miado. Imagino que me diz “não vás”. E penso sempre que, no regresso, amuada e triste, por um qualquer tipo de despeito, me vai ignorar. Mas volto para ela. E ela espera-me à porta. Encosta-se às minhas pernas. E corre à minha frente, para onde quer que eu vá. Celebra a minha presença, incapaz de me guardar rancor pela ausência. E deita-se no meu colo, implora pelas minhas festas, devolve-as em lambidelas de lixa e com cabeçadas pontuais. Ela ensinou-me sobre o apego desinteressado. Sobre como receber alguém que se ama. Como cultivar afeto onde poderia haver ressentimento. E faz da minha casa um lar, cada vez que volto, à espera de encontrar paredes vazias e divisões silenciosas.

Eterna menina negra, ela não se deixa crescer. Dos brinquedos espalhados pela casa faz companheiros de viagem, que começam a ter nomes. E vai, desta forma, permitindo que me habitue a outros ritmos e outras vontades além da minha. Tropeçar em mini peluches e em collants rotos que ela não me deixou deitar fora torna-se comum na minha casa; tal como se torna frequente que eles me sejam depositados em cima das teclas do computador, para jogar “ao busca”. Tentei dizer-lhe que ela não é um cão. Mas ela não percebeu. Porque não conhece o preconceito nem os estereótipos. Quer apenas brincar “ao busca”. E, brincando com ela, eu aprendo que os rótulos são uma idiotice da nossa cultura.

Quando a vida atormenta, cansada e despida de energia, dou muitas vezes por mim a brindar a solidão com gotas de lágrima sobre a cama. Ou simplesmente no olhar seco sobre as paredes e as lombadas dos livros poeirentos. Talvez porque ouça muito mais do que fala ou porque se deixe sentir o outro e toda a sua energia, ela sabe quando eu não estou bem. E, logo ela, que me procura sempre por interesse próprio, seja para o carinho ou para a brincadeira, junta-se a mim apenas para dar, sem pedir nada. Traz todas as formas de ternura que conhece. Rodeia-me com os brinquedos dela, sem se mostrar interessada na brincadeira. Sobe-me para o colo e encosta a cabeça à minha. Ou simplesmente senta-se a meu lado, olhando para mim. E há mais entendimento do que dúvida nos seus olhos. Diz-me, sem qualquer palavra, que posso chorar ou não… mas que, de qualquer forma, não estou só. Com estas demonstrações de amizade, ela ensina-me que cuidar de alguém é simples.

Quando calha agitar-se, corre pela casa toda como se fugisse de assombrações, atira ao chão peças metálicas, entorna metade da água e mia em vários tons, volumes e intensidades. E não adianta dar-lhe mais água, mais comida, mais mimo. É um botão encravado no mio que só desliga quando ela quer. Certa vez, miei de volta e ela desapareceu durante meia hora. Foi também uma lição sobre como podemos ofender alguém se não conhecermos o seu idioma e não fizermos ideia do que estamos a dizer.

No final do dia, temo-nos uma à outra. Ela olha para mim como se tivesse sido um bom dia e faz-me sentir que o foi. Acabamos as duas relaxadamente a olhar para o nada. O pelo dela, entre os meus dedos, faz-me sentir que a suavidade da minha história ainda não terminou. Deitada aos meus pés, aquecendo o frio de um verão por chegar e de um sol que se apagou, ela mostra-me o toque da lealdade e do amor. E aprendo, com ela, que a felicidade se escolhe.

Do preto do seu pelo ao brilho da alma que eu sei que tem, não existe nada nela que me seja azar. Sinto, quando me espera à porta, que tenho uma razão para voltar para casa. E sinto, quando volto para casa, que a posso transformar num lar. É a minha companheira e a minha amiga. Torna-se família a meus olhos. Torna-se parte de mim. E, enquanto escrevo este texto, deitada no arranhador junto à janela, ela observa as árvores que se agitam. Não se importa com o vento frio deste Junho. Boceja e revira-se, olhando para mim. Faz um trejeito de miado que se perde a meio, num segundo bocejo, que termina com a língua e um dentinho de fora. Fecha os olhos com leveza. Tudo nela é tranquilidade. Ela ensina-me. Eu aceito aprender. Ser feliz é isto.






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terça-feira, 5 de junho de 2018

O meu erro




O meu erro nunca foi não ter amor. Foi ter um amor que não se esgota em ti. E tentar manter fechadas as asas e fingir que não era dona do céu e do meu destino.

O meu erro nunca foi o egoísmo. Foi dar-me demais e vezes demais, com uma intensidade que me tirava de mim. E precisar de me devolver a mim mesma ao final do dia, para tentar… ao menos tentar… sentir que sou gente.

O meu erro nunca foi não entender. Foi entender mais do que a realidade dos homens. Das mulheres. Dos humanos. Ver além do véu que separa o visível do oculto.

O meu erro nunca foi não mudar. Foi sempre a mudança, segundo a segundo, que se opera em mim, como se eu fosse duas, três, um milhão de pessoas distintas, dentro da mesma cabeça, cantando numa só alma.

O meu erro nunca foi a cobardia. Foi saber o que havia além das peças quebráveis que me tombavam das mãos e não ter medo dos cortes nem fingir que o tinha.

O meu erro nunca foi não saber falar. Foi conhecer a língua dos homens mas escolher a das árvores e falar no idioma das flores, por os achar mais justos e mais plenos.

O meu erro nunca foi a loucura. Foi sempre a sanidade encontrada nos meandros do incompreensível e nas esquinas da imperfeição. E o cuidado eterno pelo que não é linear e estanque. Pelo que é distinto, único, peculiar.

O meu erro nunca foi a falta de compreensão. Foi justamente as coisas que compreendia, mesmo sem saber, numa intuição tosca, modelada no centro do peito, qual plasticina.

O meu erro nunca foi o silêncio. Foi justamente estar cheia de palavras, metade das quais ninguém sabe, metade das quais ninguém pode entender.

O meu erro nunca foi não ser eu. Foi tentar pertencer-te, quando sei que pertenço à floresta.


O meu erro nunca foi um erro. Fui simplesmente eu. A ser eu. Como disseste que me querias.

Nem todas as mãos conseguem apanhar raios de luz.

Nem todos os corações conseguem abarcar raios de sombra.

O meu erro foi achar que tu conseguias.





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 29 de maio de 2018

Deixa rolar



Eu disse-lhe o que sentia. Este desespero de água que criava pressão no meu peito. A forma como parecia que mil punhais me afligiam, sempre pelas costas, tentando fazer buracos no centro das asas negras. O modo como continuava a tropeçar nos meus próprios pés. E como queria, sem conseguir, o tanto que desejo dar um passo. Atrás.

E ela olhou nos meus olhos. E disse. Deixa rolar.

Contei-lhe que me alicias para o abismo das memórias. Mesmo sem fazeres coisa alguma. E que, olhando para ti, encontro o som mudo da moeda de ouro que lancei ao lago na minha infância. Falei da mutilação. Essa que faço ao coração, cortando pedaços a sangue frio, avançando cegamente, tentando arrancar aquele pedaço que te abriga. E como corto sempre ao lado da fluidez do teu ser, que continua a contornar os limites agudos da lâmina e permanecem intactos no meu coração flagelado.

E ela olhou nos meus olhos. E disse. Deixa rolar.

Tentei explicar. A minha alma tem cores e espaços de vazio, que encaixam nos teus. Como se a tua existência fizesse da minha algo que mereça ser. E a minha passagem pelo mundo fosse melhor nos buraquinhos das tuas pegadas. E disse que aprendi a ser feliz com pouco. E que não fui feliz quando tinha tudo. Porque ser feliz era uma aprendizagem que me tinha tardado. Disse-lho assim: descobri que ser feliz era uma escolha quando já não tinha motivos para ser feliz e, quando os tinha, desdenhei na felicidade, com as mãos cheias de ouro e sem notar. E agora? O que faço agora com a felicidade, se ao escolhê-la de manhã sorrio às paredes e danço com o ar e a poeira?

E ela olhou nos meus olhos. E disse. Deixa rolar.

As palavras criavam abismos entre nós. E ela foi. Fiquei eu, com a felicidade escolhida no vazio. E a dor no peito que sorri. Ouvi-lhe o conselho. Deixei rolar.

E rolou. Rolaram. Lágrimas pelo meu rosto. E só.




*Imagem de Yuki Yuri




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quinta-feira, 24 de maio de 2018

De copa a copa




“Uma árvore, desde que localizada a uma distância entre copas de quatro metros de outras árvores (…), pode ser mantida.”

- Ana Fernandes, Jornal Público
(sobre a lei para limpeza de matas de 2018)



Hoje, a chuva que cai, magoa. E o sol que brilha não me aquece. Hoje, eu sou mais sombrio que a minha sombra. E ela? Ela permanece. No chão. Inerte. Ao lado desta sombra que espalho e odeio. E ninguém me pergunte porquê.
Sinto seiva nas veias de mim, a correr livre. E o vento a soprar levemente, passa-me por entre os dedos. E continuo de dedos erguidos ao céu. Pergunto eu porquê. Não quero saber a resposta. Sei a resposta. Tudo ao mesmo tempo.
É fácil dizer que amamos alguém quando esse alguém já não está. Mas o meu amor, este amor que honrei por séculos, não é um amor que se explique com os traços da morte. Ao lado deste meu amor, eu lutei contra o fogo e contra a água. Suportei as maiores tempestades. E todas as pestilentas infestações. E todas as secas. Ao lado deste meu amor, eu suportei os cunhos da igualdade e os da diferença. O meu amor sobreviveu a tudo. E era para ser eterno. Milenar, no mínimo. Até vir a provação que sempre nos condena. Aquela que nos abate. Aquela que nos sufoca. Aquela que nos afasta. E se ri depois.
Mas a minha história não começa no final. A minha história começa há muitos anos atrás. Séculos. No tempo em que eu não passava de semente e ela também. Lançadas, ao acaso sobre a terra, deixadas para apodrecer ou vingar, consoante a vontade dos Deuses. Caímos lado a lado. E não o soubemos. Até pormos um olho fora da terra e sacudirmos os seus grãos das nossas cabeças. E, quando o fizemos. Como explicar? Havia flores e nuvens brancas a sarapintar um céu azul. E havia um rio a correr perto. E havia pontos mágicos de poeira dourada no ar. Mas não vimos nada disto. O que vimos, de imediato, foi o toque, meio verde, meio envergonhado, um do outro. Senti que a seiva me ardia e podia ter dado um pulo logo ali. Mas não. Éramos apenas brotos. Ainda tão verdes. Ainda tão pequeninos. Olhámos um para o outro. Fizemos uma espécie de saudação, promovida pela aragem. E soubemos, sem palavras, que havíamos de estar sempre lado a lado.
Fomos crescendo juntos. Às vezes, ela acordava depois de mim. E eu olhava para ela. Primeiro moça, de tronco estreito e folha parca; mas imponente quando os anos de donzela deram lugar à firmeza de raízes fundas, de um peito cheio, de um espreguiçar constante na direção do céu. Um dia, ousadia minha, espreguicei-me também. As nossas mãos tocaram-se. Achei que era um instante. Mas ela enlaçou-se em mim. E, de ramos enlaçados, num abraço de madeira e verde, unimo-nos assim. E eu disse “para sempre”. E ela repetiu “para sempre". E o amor tomou forma. Os anjos honraram este amor. Na união das nossas mãos, fizeram ninho. E todos os anos nasciam novos anos, que ora piavam, ora comiam das bocas das mães, ora tentavam voar cedo demais.
Ela emocionava-se com os pássaros. Os seus eternos anjos. Contava-lhes histórias sobre as criaturas que lhes serviam de alimento e da forma como, junto aos seus pés, tantas rastejavam. Estas histórias ajudavam a manter os pequenotes no ninho e impedia-os de tentarem voar antes dos ossos se rechearem de ar e as asas de penas. E quando a mãe anjo voltava, agradecia. E ela ria. Estendia sempre mais as suas folhas para proteger do calor a penugem das pequenas crias. Era, também ela, mãe daqueles anjos. E eu aprendi a ser pai deles, apenas porque a amava.
Um esquilo, roubava-me ocasionalmente uma bolota. E corria para os braços dela. De cabelo puxado, resmungão, eu atirava palavrões e ameaças. Era ela que defendia o pequeno, dando-lhe abrigo num buraquinho do seu peito. “Vá lá, tens tantas, não sejas invejoso!”. Sim. Eu amava-a. E era, em parte, porque ela me ensinava a amar, não só o seu semblante, mas também os pássaros, e os esquilos ladrões, e o sol e as estrelas.
Vieram tempestades. E incêndios. De mãos dadas, aceitámos que morreríamos juntos. “É desta, meu amor.”, dizia-lhe eu. E ela respondia. “Agarra-me só a mão. Vai ficar tudo bem.”. E a tempestade parava. E o incêndio era apagado. Deixavam à nossa volta, com frequência, um rasto de destruição negra. Mas poupava-nos. Porque darmos as mãos era um segredo com milénios, que tornava mágica a partilha da seiva. E nos permitia continuar a dar abrigo aos anjos e aos esquilos do mundo.
 Até ontem, essa magia bastou. Para podermos amar-nos. Durante séculos e até ontem, foi suficiente. Mas ontem, vieram os homens. E as suas serras. E as suas carrinhas. E as suas palavras. Assustaram os pássaros e os esquilos à chegada. Assustaram-nos a nós também. Mas, de raízes postas na terra, a fuga não é possível. E eu senti. Disse-lhe. “É desta, meu amor”. E ela respondeu. “Agarra-me só a mão. Vai ficar tudo bem.”. Mas fechou os olhos.
Um dos homens disse. “Olha estas.”. E o outro respondeu: “quatro metros de copa a copa, mas basta uma!”. E o primeiro respondeu, “deixa o carvalho, então, os pinheiros dão mais problemas”. Ela entoou um cântico antigo, até cair. Deixou que a mão deslizasse da minha com suavidade, deixando para trás algumas folhas secas. Tombou. E eu quis fechar os olhos para não ver cada instante da sua tortura. Mas não consegui.
Deixaram-na ali. Aos meus pés. Cortaram-na em pedaços. E deixaram-na. Aos meus pés. O amor da minha vida. Aos meus pés. E, agora, quem vai proteger os esquilos? E, agora, quem vai contar histórias aos pardais? E, agora, quem vai dar-me a mão?
Ao lado deste meu amor, eu lutei contra o fogo e contra a água. Suportei as maiores tempestades. E todas as pestilentas infestações. E todas as secas. Ao lado deste meu amor, eu suportei os cunhos da igualdade e os da diferença. O meu amor sobreviveu a tudo. E era para ser eterno. Mas, hoje, a chuva que cai, magoa. E o sol que brilha não aquece. Hoje, eu sou mais sombrio que a minha sombra. E ela? Ela permanece. No chão. Inerte. Ao lado desta sombra que espalho e odeio. Porque a amo. E ela não está. E a razão pela qual não está é porque ousámos dar a mão… e não havia espaços abertos entre nós.




*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 15 de maio de 2018

Uma última carta



Eu escrevi-te uma última carta. À mão, como sempre achei que deviam escrever-se cartas de amor. O papel era todo branco. E escrevi a caneta, porque sabia que não quereria apagar uma única palavra.
Quando comecei a escrever a tua carta, questionei quais as razões de o fazer. Tu, com um pé fora da porta e eu, depois de me ter sido arrancado até a mais ínfima centelha de esperança. Parecia-me que se esgotavam as razões. Não haver razões pareceu-me uma boa razão. E, então, escrevi.
A primeira página da minha carta falava de nós e de elefantes. E da lua aqui ao lado. E da fogueira. E do fogo. Falava do olhar sobre um horizonte feito do teu passado todo. E de uma queda de água que nos roubou uma palavra de amor… a mim, pela primeira vez. Ler tudo isto fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te recordar do que foi. Mas eu não acho que te esqueceste. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do que correu mal. Da forma como nos dávamos, de raiva, a emoções que nem deviam ter existido, desejando, de alguma maneira, que a paixão do toque embriagado nos libertasse da falta de entendimento. E falei dos olhos na tela preta e branca. Dos cacos no chão e dentro de mim. Dentro de ti. Falei da poeira acumulada na madeira e do frio da noite onde palavras me sufocavam e não achavam forma de sair. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer a mim mesma que tinha de ser assim. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do futuro. Da forma como ainda te desejo cafés e paixões entregues na cama. De como te quero com olhos e céus azuis e soalheiros. Dizia, algures, que queria ser eu a entregar-te cafés e paixões. Um dia. Quando o teu relógio e o meu tivessem chegado a consenso. E o teu coração e o meu tivessem aprendido a lição. Acrescentei que há futuros feitos de passados que não se repetem E pedi que não tivesses medo de dar a volta. De voltar. Pedi que a honestidade do teu coração fosse mais forte do que o teu orgulho ou do que qualquer grau de intransigência virginiana. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te pedir que voltasses, fosse quando fosse. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Não a parei. Disse que te desejava o melhor do mundo e da vida. E que sabia que, dos teus pés de galinha até ao teu coração de diamante, não havia nada errado em ti. Desejei que encontrasses o que procuras e que te encontrasses. Que mantivesses a força e que a vida te tratasse com respeito. Desejei sorte para acompanhar o teu esforço, que é sempre tanto. E sol no rosto. E motivos para sorrires. Disse que nada do que foi e nada do que vem te mudaria aos meus olhos. Que eras das melhores pessoas que conheci e que há mares mais pequenos do que o teu coração. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer que te amo. E pareceu-me um excelente motivo para te escrever uma carta.
Então, peguei nela, dobrei-a em dois, rasguei-a e deitei-a fora.
Porque me apercebi de que não importa quão bom é o motivo nem quão puro é o amor. Continuava a ser uma folha. Já não estava em branco. Tinha palavras a caneta e pensamentos. A contar uma história que já não tinha mais páginas para escrever.
Não era uma carta. Era uma lágrima pendente. À espera da resposta que, se não viesse, seria para me ferir e, se chegasse, seria para me torturar.
Eu escrevi-te uma última carta. Escrevi-a com o coração rasgado. E rasguei-a também. Deitei-a fora. Sozinha. Mas só porque não sei aonde se reciclam corações.





*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 9 de maio de 2018

No mesmo dia




Quem sou eu? Sei lá!
Só sei que no mesmo dia em que conquisto o mundo, me esqueço de como se enlaçam os atacadores das sapatilhas. Venço desafios, com os cordões enrolados e metidos para dentro delas. E aceno com sorrisos, sentindo o desconforto de eles ficarem sob os meus pés.
E, no mesmo dia, passo ao lado das desgraças noticiadas sem lançar um segundo olhar à televisão e ajudo a idosa a tirar o garrafão de água da prateleira do supermercado.
Tenho sorrisos e lágrimas. No mesmo dia. Tal como tenho ódios e amores. E a sensação de que tudo é perfeito. E uma vontade depressiva de morrer.
Quem sou eu? Sei lá!
Sei que acordo e adormeço depois de mil estações do ano passarem por mim, no mesmo dia. E que todos os meus outonos e primaveras, amenos e complacentes, chocam com o extremismo frio e escaldante das minhas ansiedades, sentimentos e decisões.
Dou um passo em frente e um atrás. Uma dança que acontece. Mil vezes. Duas mil vezes. No mesmo dia. E procuro no céu (ou debaixo da cama) uma centelha de esperança que me ajude a lidar com os meus medos, eternamente vincados; e a minha coragem, eternamente louca.
No mesmo dia em que levanto do chão os olhos de quem nele os posou há tanto tempo, com discursos que enunciam otimismo e confiança; eu pouso os meus no chão, com a sensação de que nada existe no mundo capaz de me fazer sorrir. E, no mesmo dia em que ataco, com frases duras, impensadas (e quantas vezes injustas?) aqueles que me cruzam o caminho, eu ensino os meus sobrinhos que as palavras são como as setas e têm um toque sagrado, devendo ser cuidadas e modeladas com amor, antes de se darem aos outros.
Quem sou eu? Sei lá!
Só sei que no mesmo dia em que me sinto princesa de contos de fadas, conto os trocos do bolso para saber se posso ir beber um café. E relembro as sombras de olhos que se fecharam no açúcar assente no fundo. E recuso a ideia da morte. Morro. E digo que sou imortal.
No mesmo dia em que agarro o urso de peluche junto ao peito e deixo que as lágrimas lhe deixem o pêlo sintético húmido, levanto-me e luto contra as tempestades da vida, como se nas costas, em vez de cicatrizes, tivesse asas e capas de super-herói.
E voo. E rastejo. E grito. E rio. Faço cambalhotas no ar. E queixo-me das dores nas articulações. Sinto-me entravada. Sinto-me enérgica. Viva. Descontente. Alheia. Atenta a tudo.
Agora sou um ser que vibra. Agora já não.
Sou tudo. Não sou nada.
No mesmo dia.
Quem sou eu? Sei lá!
Sou curiosa. Não quero saber.
No mesmo dia em que tento descobrir esta resposta, sei que não importa a resposta ou sequer que existam respostas.
Ainda estou viva. Celebro isso. E sou quem sou. Seja eu quem for.





*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 1 de maio de 2018

Três idosos e um ananás




Do outro lado do vidro, eles são invisíveis. E as pessoas passam. Eles ficam. Todos na mesma mesa. E todos sozinhos. Conhecendo-se. Mas é como se não se conhecessem, nos olhares vazios e vagos, que oscilam entre os pedaços de poeira no ar e as próprias mãos.
Estão numa mesa redonda. Ninguém é mais do que ninguém. Porque não há cabeceiras nem vontade de ser, nesta fase da vida, mais do que uma criatura sem hierarquia. Permanecem. E são invisíveis. Afogam-se no anonimato da mesa branca. Vazia. Ou quase vazia. No seu centro, uma coroa. A do ananás, pouco maduro e inteiro. Terão, talvez, ido às compras antes de se sentar. Ou talvez o ananás sirva de centro de mesa às suas angústias. Não sei.
De tão tristes os olhos que lhes pintam cenários nos rostos enrugados e ausentes, imagino-lhes histórias. Por preguiça, pinto em todos eles a mesma história. Um dia amaram alguém. E era para a vida toda. Até não ser. Talvez tenham morrido ali mesmo, quando não foi. Mas agarravam-se às memórias. E isso fazia passar os dias, que não tinham sabor. Um de cada vez, levando-os da juventude à velhice, onde se sentavam juntos, com o ananás, apenas para partilharem a solidão.
Do outro lado do vidro, eles são solidão. Ninguém ri. Ninguém fala. São esqueletos à espera das carnes comidas sob a terra. Não têm mais nada além do vazio. E do pó no ar. E das mãos. O único reino que governaram foi a própria casa. A única guerra que travaram foi a do coração. Imagino que um deles se ofende. Não senhora! Esteve no ultramar. Não é bem assim! Esteve lá, onde tudo era saudade e vontade de voltar. Voltara. Para cá. Onde tudo é solidão e vontade de morrer.
O ananás no centro da mesa. Memória doce e imatura do amor que foi. Do amor que não foi. Enfim, do amor. E mil explicações colocadas nessa memória do tempo em que o palato lhes permitia sentir com exímia eficácia todos os travos agridoces da fruta rainha… e o toque lhes permitia explorar o desejo carnudo de alguém que devia ter ficado e partiu.
Sentam-se, incrivelmente sós, na mesma mesa. E são invisíveis. Ninguém parece vê-los. Ninguém parece ver o ananás. E as palavras que se trocam em redor, criando aquela algazarra típica de murmurinhe, não lhes passa pelos lábios. Eles contemplam. Porque acordaram de manhã. E ainda estavam vivos. Então, partilharam mesa. E no seu centro puseram o ananás, como poderiam ter posto o vácuo que transportam no peito.
Sinto-lhes a solidão. Do outro lado do vidro, sou eu que ocupo aquela quarta cadeira. Sinto-me velha e sinto-me só. Não me apetece falar. Apetece-me olhar para o ananás no centro da mesa. Travando a minha própria guerra. Tu gostavas de ananás. É só isso que eu sei.




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terça-feira, 24 de abril de 2018

Tu-és-louca




Ele morreu. E ela olhou para mim. Tudo no universo caótico da sua dor era apelo. E tudo no seu apelo era incompreensão. Disse-lhe. Porque ela não falou. Então eu disse. Vai ficar tudo bem. E ela olhou para mim. Dentro de mim. Rasgando-me as camadas de dermes e epidermes e órgãos e almas. Chegou aos meandros do impossível. Com um olhar. Um olhar rouco. Um olhar massacrado. Um olhar materialmente despido de entendimentos e de vontades. Por momentos, ela foi só o olhar que me deu. Só olhar. Sem palavra. Incomodou-me. Não o silêncio, que era conforto. Mas o olhar, que era crítica.
Houve mil anos nos segundos sem palavra do seu olhar. E ela entreabriu os lábios sofridos. Ele morreu. Não disse isto. Era isto que eu esperava ouvir. Não o disse. Disse outra coisa. Inesperada. Fria. Com um toque de raiva transtornada, que depressa tomou tonalidades de inveja cálida. Havia pó nas suas palavras. Como se quisesse dizê-las há muito tempo. E quando falou. Esse inesperado todo que me roubava a paz. Soou como se agredisse. Porque as palavras não foram para constatar a verdade. Ele morreu. Não! As palavras foram para dizer outra coisa. Tu – és – louca - ! E eu olhei para ela. E para o seu olhar. Todo ele feito de caos. Todo ele feito de dor. Todo ele feito de incompreensão.
Ele morreu. E ela não o dizia. Que ele tinha morrido. Dizia, em vez disso, que eu era louca. Não que fosse mentira. Não que fosse a primeira vez. Mas ele morreu. E ela escolhia, agora, dizer antes outra coisa. Não que doía. Não que tinha saudades. Não que ficaria sempre agarrada à vida de quem não a tinha mais. Olhando para mim. Os seus olhos. Os seus lábios. As suas palavras. Apontavam-me dedos. Tu – és – louca - !
Onde esperei que ela buscasse conforto, vi-a procurar o confronto. E não para me dizer que nada ia ficar bem. Para me dizer que eu – não ela, nem o destino, nem a morte – eu era louca. E havia nos seus olhos uma acusação tão severa, que eu não pude negar que o era. Sabia, de mim, medidas de insensatez que eram alheias aos outros. Eu, a louca. Em pensamentos? Em ações? Em palavras? Por dizer, talvez, que tudo ia ficar bem quando ele morreu? Eu sabia. Sabia que era louca. Sei que sou louca. Mas, quando ela o disse, eu não sabia porquê. Onde estava essa loucura que, de olhos feitos em mágoa, ela via?
Vai ficar tudo bem. Repeti. E ela ergueu o indicador. Cheio de implicações e de denúncias intermináveis. Tu – és – completamente -louca - ! Sou. Respondi. Mas porquê?! Questionei.
Olhando nos meus olhos. Com um toque de raiva transtornada, que depressa tomou tonalidades de inveja cálida. Rasgando-me as camadas de dermes e epidermes e órgãos e almas. Ela lá explicou. Ele morreu. E eu não posso fazer nada. E tu aí, a três passos da respiração de um amor que vive e sobrevive apesar de tudo. Parada. Se eu pudesse. Se eu pudesse lutar. Um segundo. Por um segundo dele. Vivo. Ali. Mas não. Ele morreu. E tu? Tu – és – completamente -louca - ! Por estares aí. A perdê-lo para o mundo. Sem luta. Sem dizeres ou implorares. Além de orgulhos toscos e de estupidez silenciosa. Eu faria isso. Mas ele morreu. E tu – és – louca -! Porque estás viva. E ele está vivo. E nenhum dos dois entende. O tempo passa. O amor é raro. As pessoas morrem. E tudo o que é alheio ao amor. É só loucura.




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terça-feira, 17 de abril de 2018

Equilíbrio




Talvez seja porque eu acho que o amor só pode existir onde há loucura. E tu julgues que tudo tem peso e medida. Ou talvez seja porque te tentavas encontrar onde eu ainda queria estar perdida. E talvez more nessas pequenas, enormes, gastas ilusões de que o mundo se alinha para dar oportunidades toscas de felicidade.
A minha visão do amor cria uma versão desta história que é só minha, falando de pontos vibrantes, onde os sentidos eram lava e ora queimavam de paixão, ora explodiam de raiva. Eu aprendi a ser na cama, como na vida, tudo ao mesmo tempo. Eu aprendi contigo que há pontos certos que apenas o são entre lençóis. Mas eu não posso ser eu apenas quando os corpos se dão. Também o sou quando o corpo me pertence e o futuro é todo incógnito. E há muralhas ocultas no tanto que eu posso ser, ardendo de paixão por um mundo que abomino.
Não faço sentido. Não sinto que possa – ou deva – fazer sentido. Acredito que também o amor não faz. Sentido. São só sinapses descontroladas. Electricidade pura. Raciocínios pouco eficazes. E uma escolha que se aceita e questiona mil vezes.
Eu não fui. Não sou. Talvez nunca venha a ser. Essa balança onde tudo se pesa e tudo tem medida concreta. O que sou tem nuances. E extremos. E excessos. E faltas. Acima de tudo, faltas. Tantas que não as pudeste aceitar. Tantas que te tornaste uma delas. A maior delas.
Dizes que me amas. E eu digo que te amo. Mas não me amas como eu te amo. Não conheces nem desejas o amor como eu o sinto. Tu e o teu amor são missas de equilíbrio. Fazem adventos e missões de peregrinação na ideia de que tudo tem uma fórmula certa, um tempo definido, um princípio válido.
Eu levo o meu amor de arrasto aonde vou. Caminhe ele a meu lado ou venha de rojo, sangrando. Dele, não espero outra coisa senão a loucura. Sei que ele grita à meia-noite. Que chora com filmes animados. Que se debruça em precipícios. Diz que quer morrer às terças-feiras, depois de ter passado as segundas a ver-se ao espelho, contemplando e amando a luminosidade dos seus reflexos. E pouco se importa com a formulação frásica das ideias ou com todos os seus sinónimos.
O meu amor não se pauta pelo equilíbrio. É uma corda bamba sem estabilidade e que sonha, sabe-se lá porquê, que alguém (se) mantenha uma rede de segurança sob os pés. No meu amor, a queda é inevitável. E a dor também.
Um amor avulso, com peso em escrutínio e um equilíbrio perfeito com a norma será certamente amor. Talvez seja o único amor que me fez amada. Mas não é um amor que eu saiba amar.
Eu sou fruto das árvores da insanidade. Amo com tudo. Apesar de tudo. Além de tudo. E para sempre.
O meu equilíbrio é pouco.
Tropeço nos meus próprios pés e caio quase sempre.

Levanto-me. Continuo.
Mais ou menos ferido, o meu amor também!




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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Não venhas



Não venhas falar-me de solidão
Tu que caminhas por desertos
E falas em silêncios incertos
Perdendo o olhar n' imensidão.
Tu não sabes nada sobre a solidão!

Eu caminho firmemente nos passeios,
Converso sobre tudo e, de permeio,
Olho bem dentro dos olhos de mil gentes
E sinto essa solidão no peito
Essa solidão que tu, de só, não sentes.

Quem passa por mim deixa um sorriso
E parte sem ficar nada p'ra trás.
Vivo em lágrimas, fingindo o paraíso,
Fingindo que o mundo sabe o que faz.
Fingindo, em solidão, sempre fingindo

E é pior estar na multidão,
Todos ouvem mas ninguém sabe a razão
Que me faz perder o olhar no infinito
E não sabem que peço à imensidão
Um futuro que não esse que está escrito.

Estar só por entre tanta gentia
Em cada passo firme no passeio,
Em cada conversa que se anuncia,
Em cada sorriso falso de permeio
Num mundo que se assume em agonia…

Não venhas falar-me da solidão
Não estás só apenas de estares sozinho
Eu tenho o mundo inteiro na mão
Um futuro à espera, 'inda que vão,
E estou só em cada passo do caminho.

E dói mais caminhar nas vozes frias
Que não sabem que assumi já a derrota.
Perdi a vida entre mãos vazias
Na solidão constante dos meus dias
Tão cheios de gente... e ninguém nota...





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 3 de abril de 2018

Tudo me dói


Tudo me dói menos a dor. A dor, em mim, tinha-se esquecido de como era. Doer. Tirando férias do meu peito, ela pouco fez além de contemplar a possibilidade. Esta possibilidade. Mas, sem acreditar muito nela, depressa se desfez, também, do pensamento. Então, enquanto tudo em mim era prazer (ainda que angustiado), felicidade (ainda que entrecortada) e sonho (ainda que acordado), a dor fazia uma espécie de tricô e esquecia-se. Esquecia-se de doer. E era miseravelmente infeliz na sua narrativa enfadonha.
Tudo me dói menos a dor. Há recantos do meu corpo que me doem e ligamentos da alma que padecem, estremecendo medos com o frio e com o tempo. Deito-me na cama e o teto é tela de um filme. Dancemos, diz ela. Não sei dançar, diz ele. E depois beijam-se. Fecho os olhos. E doem-me os olhos que fecho. Doem as imagens que dançam. E as que não sabem dançar. À medida que se movem entre as conexões infindáveis de um cérebro que não desliga e que, por isso, também dói. O coração, atormentando-se pela ideia de um tango que se faz a solo, falha um batimento e tenta arritmicamente recuperá-lo durante algumas horas. E, nesse processo, também lateja, obrigando as respirações profundas a lembrar-me de que me dói o ar que inalo e o que exalo. Inspiro. Expiro. Suspiro. E dói. Tudo me dói. Menos a dor.
Sem nada que traga recordações nas paredes da casa, eu vou descobrindo que a casa é recordação. E, em vez de a rasgar, dou por mim despida, debaixo da água corrente do banho, a tentar lavar da pele o toque pelo qual anseio. A tentar arrancar dos lábios os beijos que ainda desejo. A tentar proibir-me de fazer amor com a memória dos corpos dados debaixo de lençóis de desejo. E há dores nestas ansiedades. Como se a água fosse espinhos. E a cama fosse abismo. E o que fica entre o corpo e a alma fosse um rio de lava ardente, deixando golpes esfolados por onde passa. Arde. Tanto que o tempo pára nesse azedume tolhido de pesar e de sofrimento. Somo um mais um e descubro que dá um. Dói-me a sanidade. Dói-me a loucura. Dói.
Tudo me dói menos a dor. Nos pés nus, descubro que me doem os passos. No aroma do incenso que queima, descubro que me dói a fé. No reflexo que me devolve olhares complacentes descubro que me dói a auto-comiseração. E dói-me também a mão depois de reduzir a cacos o espelho, para que não olhe mais para mim, lamentando a triste sorte do meu triste eu. Subitamente, há gotas rubras no chão. Descubro que me dói o sangue. Rubis tristes de vida, ainda quentes e salutares, agarrando-me à terra dos vivos, com grilhetas. A vida também me dói.
E, por entre todo este universo de mim que dói confinadamente no meu pequeno eu, eu sei que tudo dói e sei, porque o sinto, que a dor não. A dor, em mim, tinha-se esquecido de como era. Doer. E era miseravelmente infeliz na sua narrativa enfadonha. Mas, agora – agora que tudo me dói – a dor não. A dor lembrou-se. De como era. Doer. E, pela primeira vez em muito tempo, ainda que tudo o resto doa, a dor está feliz.





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terça-feira, 27 de março de 2018

Não, não e não



Inesperada. Chega. Uma onda de tudo. Rompendo as entranhas. Rasgando por dentro a carne e a alma. Fazendo azias sucessivas pelo sistema digestivo. E pela espinha. Queimando. Até chegar ao nariz. Como um indício. De choro.
Olhos fixos no anteontem. E fios de cabelo a prenderem-me, feito âncora, à realidade. Ferrando as unhas nas mãos. Frias. Lívidas. Não, não e não. Da inércia ao pulo. Correndo. Até chegar. E olhar. Nos meus olhos. Bem dentro dos meus olhos. Em frente ao reflexo. Que ameaça sucumbir. Não, não e não.
A menina desobediente do espelho encolhe os ombros. E eu olho para ela. Franzo o sobrolho. Deixo que desfeie a testa enrugada das expressões. Repito a palavra. Não. E ela não faz muito caso de mim. Mas também não deixa que o picante desassossegado das emoções seja mais forte do que as minhas ordens.
A onda mantém-se. Em banho-maria. E eu olho para ela. E ela olha para mim. E fazemos um ar cínico e despojado de regras uma à outra. Podíamos matar-nos ali mesmo. Sem compaixão. Sem remorso. Sem que ficassem penas a ondear em nosso redor. Em vez disso, olhamos uma para a outra. E fingimos que não vamos chorar. Dizemos não.
O ardor chega ao peito. Vibra na ponta arrepiada do nariz. E quer fazer-se dor. Tolhe-nos os sentidos desalentados e descontentes. Faz com que brilhem pequenos sóis de chuva no canto dos olhos amendoados. Não, não e não.
Ela resvala. Fraca. E os olhos são água. Mas a água não verte. Eu levanto o indicador, espeto-lho mesmo em frente ao rosto. Tu nem te atrevas! E ela, que sou eu, tem medo de mim. E saber que tem medo de mim também lhe dá vontade de chorar. A tristeza é grande. E a maior é essa.
Sufoco. Não, não e não. Mas engulo as lágrimas. O nariz arde. O peito arde. Tudo arde. E tenho frio. Forço um sorriso. E ela devolve-o.
- Não o sentes, pois não?
Ela abana a cabeça.
- Eu também não.




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Fotógrafo: Paul Apal'kin


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quarta-feira, 21 de março de 2018

A cor das minhas paredes




Às vezes, o teu vazio pinta-me as paredes. E, ainda que me não chovam os olhos, é como se houvesse invernos e grades em meu redor. Prendem-me a mim mesma e fazem-me perceber bem as razões pelas quais não estás. Por um segundo, eu também quero ir. Não sinto que sou um bom lugar para edificar amanhãs.
A cor das minhas paredes é o teu cheiro. Lavado com lixívia e detergente. Esfregado com panos e unhas. Mas impregnado. Imutável. Na memória sensorial que te torna eterno nos meus segundos de desespero.
Digo que não te amo. Assim. Simples. Não te amo. Grito. Em silêncio. O grito mais desenfreado de todos. E o mais pacato. Ninguém o ouve. Queima a ferros na pele. E dói. Mas não deixa marca. Tal e qual como esse passado que se finge que já foi. E nunca passa.
Sou filha do mar e das descobertas que um povo nele fez. Tenho sal na pele e especiarias na língua. Tento fazer o meu fado. Fiel. Mas a verdade é que, na pele, eu queria as tuas mãos. Na língua, eu queria a dança dos nossos beijos. E este país fadista é hoje todo saudade e mortos a boiar nas águas negras ao largo do Cabo das Tormentas.
Amas-me?
Faço a pergunta ao vazio das paredes. E as paredes desonram o passado. Dizem-me que pare. Que seque as perguntas como sequei os olhos. Que te deixe ser feliz. Que me esqueça de perguntar. Tudo. Isso. Também isso. Se me amas. E calo-me. Obedeço. Percebo que pouco mais tenho feito além de obedecer. O mundo é todo meu dono. E eu sou escrava dessas vontades que me não são. Vergo-me às chibatadas do tempo. E dou as costas, feitas de asas. Para que me arranquem as penas. Essas que consomem o espírito.
Eu sou muitas coisas. Eu não sou ninguém. E hoje sinto.
Pouco há no chão além de pedras. E corpos que apodrecem. Invejo, de ambos, a sorte da inércia. Invejo-lhes o sono pesado. E a forma como não vêem o vazio que hoje me pinta as paredes.






*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 14 de março de 2018

Leva tudo




“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.” (William Shakespeare)

Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Não quero olhares complacentes nem penas atiradas ao ar. Nem mesmo nuances gastas entoando o tanto que te dei. Porque a vida não é sobre as coisas que são dadas. É sobre aquelas que se roubam, apesar do muito oferecido, numa ganância sentimental que só culmina no exagero do vazio.
Se vais procurar um espaço mais cheio, onde caibas, inteiro, acho que deves ir. Mas, por favor, não me deixes os monos da tua passagem. Não me deixes nada que possa lembrar-me das noites de riso, dos corpos dançando sem som, ao ritmo de um amor eterno que, afinal, tinha prazo de validade.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva tudo contigo.
Já basta que se tenha agarrado às paredes a memória do que ninguém sabe. Das melhores sensações, às discussões mais abruptas. Onde tanto foi feito, onde tanto foi dito. Basta que se tenha agarrado às minhas paredes o rancor e a solidão, entre os quais vou viver, tentando construir com o tempo algo de mais firme e mais meu. Não quero as tuas mesas nem os teus filmes, nem as tuas bugigangas. Não quero o teu sofá nem as tuas toalhas. Nem as tuas chávenas, nem as tuas velas. Hei-de encontrar outra forma de alumiar as noites frias. Hei-de encontrar outra forma de as aquecer.
Leva tudo contigo. Deixa-me, por favor, prateleiras sem nada, gavetas vazias e divisões onde o eco preenche espaços desalentados. E, de resto leva tudo. Por favor. O que já tinhas. O que compraste. As coisas que te dei. Principalmente essas. Leva-as. Se não as quiseres, podes deitá-las fora. Queimá-las. Mas leva-as. E, com elas, também este inútil coração – que não é mais do que cacos, outra vez. Leva-o, porque to dei e não o quero mais. Nunca mais. Queima-o com os livros e os poemas. Queima-o com os elefantes e as garrafas. Queima-o. Outra vez.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Já basta que o chão tenha os teus passos. E que o teu cheiro seja uma memória de manhãs de sol. Já me basta sentir-te os beijos no café e o toque no cair da água sobre o corpo despido. Já me basta recordar-te os pedidos dos dias quentes. Não quero que te fiquem as memórias rasteiras, feito hera, a proliferar nas minhas paredes, nas minhas gavetas, na minha esperança. Leva. Leva também a esperança. Leva tudo contigo.
Com o vazio, reaprenderei a lição. Perceberei novamente a sina de se ser monstro, entre humanos. Espelho eterno do que nunca se sabe. E estarei mais próxima do que me fez ser eu, antes de me roubares de mim, para me prometeres algo que, afinal, não podias dar-me. Ou que podias… e eu não deixei. Ou que deixei… mas não conseguiste. Deixa-me reaprender, dando as mãos à solidão que, antes de ti, sempre me assinou os livros de visita.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Não os deixes aqui, a fazer-me lembrar do que podia ter sido e não foi. Leva tudo contigo. Para eu me esquecer. Para eu fingir que me vou esquecer. Como se pudesse esquecer… logo eu, que sei de cor cada detalhe de ti.






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terça-feira, 6 de março de 2018

Overdose




A dualidade da vida é, talvez, um pouco mais simples do que as linhas pardas com as quais tentam pintá-la. Pisando as pedras do chão, em desenhos brancos e negros, sinto-me criança outra vez. Saltando, de desenho em desenho. “E quem pisar as brancas, morre.”.
“A miúda vai cair”.
Ainda soam as palavras. De alguém. Que, indo atrás de mim ou à minha frente, não saltava as pedras. Morria. Nas brancas. Sem arriscar os saltos. Julgando-me, talvez, infantil e idiota por insistir numa brincadeira de quilómetros. E julgando sempre que acabaria ferida, de rojo no chão, com os joelhos esfolados. Por não andar. De uma forma normal. Como os outros.
Mas andar como os outros sempre me pareceu pouco. Porque os passos que dão são sisudos e fechados em si mesmos. Não contam. Assentam-se no desejo do destino. E a meta é só lá à frente. Por vezes nem chega. Anda, também em passos “normais”, ao mesmo ritmo daqueles que acham que o caminho importa pouco.
A dualidade da vida é bastante simples: molda-se entre a falta e o excesso. E nas críticas daqueles que têm falta sobre aqueles que têm excesso. E nas críticas daqueles que têm excesso sobre aqueles que têm falta. E todos somos falta e excesso. Uns mais. Uns menos. Uns numas coisas. Outros noutras. Somos todos dualidade, embora nem todos sejamos vida.
Àqueles a quem falta o desejo de imaginar fossos no sítio das pedras brancas, falta geralmente visão sobre o que acontece no mundo e fora de si mesmos. E falta-lhes motivação para acordar. Razões para sorrir. Esperança num universo mais justo. Falta-lhes um sorriso que se dê, vadio, nas mesmas ruas onde caminham. Falta-lhes a loucura da decisão inesperada e do “é agora ou nunca”. Falta-lhes a capacidade de esquecer o risco que se prende à ação. Falta-lhes a vida que devia haver entre o berço e a sepultura.
Salto. De um desenho para o outro. Entre um desenho e o outro há pedras brancas. Mas imagino falésias que levam ao nada. E rodopio sobre as pedras escuras, dançando o jogo da ilusão. Tenho, talvez, excessos. De imaginação e sonhos e ilusões. Tardias e cândidas, fazendo de mim criança mesmo quando os anos passam. Tenho excesso da menina que fui. Excesso dos seus cabelos encaracolados e da sua timidez morta em cânticos à lua pelas ruas da cidade. Excesso de palavras presas, que criam mundos na minha cabeça, meio loucos, meio díspares, todos feitos de uma alucinação presente.
E sei que vou morrer. Tenho excesso desta certeza. E, talvez porque a tenho, em excesso, não me assusta a ideia da morte. É apenas pisar as pedras brancas do caminho. E a meta é essa.
Não tenho medo da morte, nem dos excessos. Sinto que posso viver nessa overdose de sentimentos e sonhos, de forma segura e eterna. Serei sempre princesa no meu tempo que não envelhece, de asas fechadas sobre as costas onde nascem luas e elementos feitos a tinta. Salto.
Quem pisar as brancas morre. Toda a gente morre. Mas alguns morrem de falta. Pisando as pedras brancas.
Eu não. Eu piso as pretas. Vou. Vou de excessos e rumo aos excessos. Também vou morrer. Quero morrer. A eternidade assusta-me. Mas, quando morrer, quero que seja de overdose de vida.



Marina Ferraz


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quinta-feira, 1 de março de 2018

Abertura fácil



Sobre a minha cama existe um tecto. E, em cima dele, mora alguém que lhe chama chão. Amontoados nas prateleiras mais ou menos organizadas do mundo. Falando sobre andar lado a lado, à medida que nos empilham, até estarmos todos uns em cima dos outros e promovendo dietas saudáveis para verem se ocupamos menos espaço. É assim que vamos. Porque é mais fácil. Dizem.
O chão da vizinha, que é o meu teto, não prima pela espessura concreta do isolamento. E, por isso, sei quando o bebé chora e a forma como o choro do bebé se abafa com o ligar do aspirador ou de um qualquer canal de televisão no volume máximo; atirando palavras que misturam o cansaço do dia e a irritação noturna. Iniciam-se discussões que duram até ao bater da porta. Não sou eu, és tu que és difícil. Ele acha-se fácil. E diz isso.
Fugindo dos sons, os passos caminham pelo espaço limítrofe das calhas da porta, fechando com cautela a dita, para que, batendo, não acorde o bebé que se embalou nos gritos maternos. E encontra-se o toque, mais ou menos feito de gelo, de um vento que, vindo de Norte, traz consigo Invernos, seja em que estação for. E respira-se geada amanhecida. Continuadamente empoada, pelos traços nocivos de um fumo que desaparece. Perfume de asfalto alcatroado e de borracha queimada. E um toque putrefacto proveniente dos contentores que medeiam as prateleiras de gente da cidade. E o carro que virá, pela madrugada, com o som meio soprado e contínuo que lhe é caraterístico. A vida torna-se, assim, mais fácil. Digo eu.
Não há estrelas cadentes no céu. Mas fico à espera de ver passar lixo galático e universal, formando um risco ilusório no céu para pedir desejos. Também dos desejos o dizem. Que são fáceis. E são. Na sua utópica fantasia, onde tantos passados se enterraram, os desejos têm a facilidade da não concretização agarrada aos seus tornozelos oníricos. E é fácil. Ou é o que dizem.
No sol nascente, existe o cinzento colorido a fogo que traz uma esperança renovada. Para quem dormiu. Eu não. Mas, para quem dormiu. Para quem tem a sorte de tetos mais espessos ou chãos menos permeáveis. Para esses, ele é a renovação da esperança, e tem possibilidades à espera, na hora da tigela de cereais com leite. Essa que se corta, com faca ou tesoura, no local onde permanece a indicação de abertura fácil. É o que diz. Fácil. Mas já alguém abriu um pacote de leite pela abertura fácil, sem recorrer a objetos cortantes e três graus de impaciência?
Entro. Na minha prateleira. Para comer os meus cereais saudáveis. E cumprir os desígnios. Os de ocupar menos espaço no mundo. Enfezando-me e empilhando-me junto aos outros seres enfezados e empilhados. Dizem que é difícil escrever. Eu não concordo. Acho que é difícil calar os pensamentos. Esses que nascem, aos poucos, talvez entranhados de palavras ocas e cheiros nauseabundos. Dizem que é difícil pensar. Não é. É fácil. Como a abertura pré-estabelecida de um qualquer pacote de leite.



Marina Ferraz


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