terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Duelo

 


“Só se atiram pedras às árvores que dão fruto.” (Provérbio Africano)

 

 6 da manhã. Eram 6 da manhã quando acordei, saltando da cama para trabalhar, para me arranjar, para fazer malas. Estava a 1827 km de distância de Lisboa. Cerca de 1300 deles eram líquidos. Literalmente. Oceano Atlântico. O meu voo devia chegar pouco depois das 16 horas. Houve 4 atrasos. Saímos depois das 17 horas. Cheguei a Lisboa duas horas e meia depois. Uma hora e meia depois da chegada, já estava no palco do Campo Pequeno.

 

 As pessoas falam. O que as pessoas veem raramente é uma imagem completa. É muito fácil criticar essa imagem. Essa imagem que é, não se enganem, apenas o culminar de mil imagens ocultas. Por estarem ocultas, essas imagens não importam. Então, falar é fácil. A crítica parece natural. Escorre pelos cantos dos lábios. Pessoas sedentas da sua própria opinião, enaltecendo-a e partilhando-a desenfreadamente, no desejo de que conte para alguma coisa. Mas essa opinião?! Tão frequentemente vazia! Tão escassa de conteúdo! Não serve para nada. A agressão (quase sempre) diz mais sobre os agressores do que sobre os alvos da agressão. E esvaece. Dissipa. Deixa um cheiro pestilento.

 

 Ontem assisti, num lugar de destaque, a algo que me emocionou. Goste-se ou não se goste, reuniram-se em sala 7 mil pessoas para um evento. Goste-se ou não se goste, reuniram-se online mais de 300 mil pessoas. Goste-se ou não se goste, houve apresentadores, comédia, concertos, lutas e um combate. Goste-se ou não se goste, tudo isto surgiu por conta de um homem que muitos afirmam menino e que, dos seus 25 anos de vida, ousou sonhar alto. Goste-se ou não se goste, assistiu-se a um momento que deixou os presentes de coração na mão. Goste-se ou não se goste, viu-se o menino perder o combate. Goste-se ou não se goste, viu-se que o público ainda gritava o seu nome e que os apresentadores ainda enalteciam a sua coragem. Nasceram comentários desse “goste-se ou não se goste”.

  

Goste-se ou não se goste, acaba-se por ceder à curiosidade de ler as palavras dos outros. Umas de alento, outras de tom cómico e jocoso. Mas tão poucas. E, depois… umas de crítica, umas de gozo, umas de ataque… a maioria de uma maldade que – perdoem-me a inocência – julgo quase inesperada. Tive uma avó – perdoem-me a enésima menção – que me ensinou que ser-se bom e gentil é importante. Então, o expectável é, por vezes, inesperado para mim… As palavras são duras. As palavras são importantes. As palavras são arma. As pessoas adoram balas perdidas. E os outros? Que outros?!

 

Algures no guião (que – sim – estava num teleponto!), o meu co-host perguntou-me se eu não era mais das palavras e respondi que “cada um combate como pode”. Eu não queria escrever este texto. Mas houve algo nas 6 rondas de um duelo que me inspirou a manter elevadas as mãos que escrevem… sei que a escrita é a minha luva. E não vou desistir.

 

Então, se todos gostam dos golpes baixos atrás da proteção luminosa dos ecrãs, não encontro real motivo para não soltar as palavras nesse mar-teia, de navegação fácil. Principalmente quando o meu lugar de fala é de quem às 6 da manhã preparava uma viagem de 1827 km para estar num palco a falar para 7 mil pessoas ao vivo e 300 mil pessoas online, para assistir à coragem de quem fez do ringue um palco muito próprio, colocando uma modalidade quase esquecida nas bocas de um país inteiro. Goste-se ou não se goste, aqui estou. E é tão simples o que tenho para dizer, depois desta introdução longa que, goste-se ou não se goste, escrevi…

 

 Acontece que para se perder um combate é preciso lutar. E para errar uma fala é preciso falar. E que para ter um momento menos bom no ringue é preciso entrar nele. E que para ter um momento menos engraçado num palco é preciso atuar e enfrentar a multidão e as câmaras.

 

 Há pessoas que nunca erram. Que nunca gaguejam. Que nunca falham uma palavra. Que nunca levam um soco. Que nunca perdem um combate. Que nunca se enganam. Que nunca têm olheiras. Que nunca se desorientam. Que nunca avançam cedo demais. Que nunca desistem a tempo. Há pessoas assim.

 

A todas as outras: Parabéns.


Marina Ferraz




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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Fachada

 


Tenho notado. Principalmente ao viajar, ainda que tenha a certeza de que também acontece à minha porta. As pessoas cuidam dos muros. Das fachadas. Raspam a tinta. Alisam o cimento. Lixam-no cuidadosamente. Pintam. Vão ao pormenor nos cantos. Desenham listras coloridas. Têm o rosto ausente. Focado. Olhos postos na tarefa. Ocasionalmente limpam a testa com as costas da mão, deixando que, depois, se quede na anca. Observam. Tiram conclusões. Continuam.

 

Por fora, são casas perfeitas. Apetece viver nelas. Mas ninguém sabe. Ninguém pode imaginar. Como estarão por dentro?

 

Gosto de imaginar que estas casas sobejamente cuidadas no exterior têm paredes interiores pintadas e sem rachas. Que não acumulam humidade negra nos cantos das paredes e nos tetos. Que não cheiram a mofo. Que estão sempre limpas e que o ar parece mais puro no seu interior. Gosto de pensar que as famílias que vivem nelas nunca têm discussões, que nunca ninguém é alvo de abuso ou agressão. Que ainda se sentam, à moda antiga, junto da lareira – que, para mim, estas casas têm lareira – e contam histórias sobre a perfeição dentro de portas.

 

Logo vem a voz quente do Francisco José, guardada nos discos poeirentos da minha avó (ou seriam cassetes?!?), dizendo “só nós dois é que sabemos”. E, no caso, só o senhor de lixa na mão, esfregando o muro sabe o que vai dentro da parede que pinta para os outros.

 

Dentro das casas pintadas também se sofre e também morre gente. Também se parte louça. Também se sujam os vidros e o chão. Também se acumula gordura intransigente nos cantos do forno. Também há isolamento mal feito que deixa entrar frio e calor, tornando verões e invernos desconfortáveis.

 

Gosto de pensar que o mesmo senhor que agora lixa a parede, limpa a testa com as costas da mão e as põe na anca observando o trabalho feito, também cuida do que fica dentro de portas… E quero mesmo acreditar nesse pensamento… mas… vocês acreditam?

 

Penso que a vida possa ter cuidado do meu cinismo com a mesma mestria com que o senhor cuida da fachada da casa. Certamente lixou-me. Porque vejo o cuidado com muros e paredes exteriores e penso sempre que é só por fora. Só para exibir. Só para os outros… Como a maioria dos sorrisos. Como a maioria da riqueza. Como a maioria da beleza. Como a maioria dos “bem, e tu?”.

 

Hoje, não vou pôr maquilhagem. Nem vou usar lentes de contacto. Vou pôr os óculos, que nem a graduação certa têm. Uma decisão que sei que não é permanente. Mas hoje. Hoje, vou a um museu. Vou almoçar comida chinesa porque me apetece uma sopa quentinha. Vou experimentar perfumes artesanais. Vou caminhar junto ao mar. Vou subir a montanha para ver o pôr-do-sol. Hoje, vou esquecer a fachada, o que os outros veem. Deixar que vejam a pele mal cuidada e a roupa larga que foi tirada da mala com os olhos fechados, um mais do que o outro. E vou cuidar-me por dentro, pedindo à vida que me deixe ao leme por um dia.

 

Eu sei. A vida mal para para limpar o suor da testa e certamente vai continuar os trabalhos. Mas pode lixar-me amanhã…

 

Hoje vou esquecer a fachada. Cuidar-me. Por dentro.


Marina Ferraz




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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Mian (e tantos outros)

 

Imagem de Viktor_Laszlo

Vinha do Paquistão. Não direto. Viria, talvez, agora, do Rato. Não demorou a chegar. Enganou-se na rua mas, mesmo assim, parou a 100 metros do lugar onde eu estava. Descia a pé, para vir ter comigo e eu já subia para fazer o mesmo. Cumprimentou-me com simpatia, chamando-me Mariana, como tantos outros fazem, que é bastante raro que leiam o meu nome bem à primeira, mesmo quando falam a língua.

 

Depressa nos entendemos em inglês e entramos no carro. Perguntou-me de onde era. Disse-me de onde vinha. Perguntou-me o que fazia. Escrevo. E, aproveitando o semáforo vermelho, olhou para mim e disse: if you write, then you should write about what the Portuguese government is doing to immigrants. E eu pensei. Só por um segundinho de afago ao meu próprio ego. Não podia ter-se sentado melhor pessoa aqui.

 

Discorreu sobre a angústia. A mulher, no Paquistão, que queria ir ver este mês porque faz anos. A mãe, que mora em Paris, e que gostaria de visitar pelo Ano Novo. O documento de renovação da residência que lhe dizem, há vários meses, estar a ser feito. It’s not only me! We pay for it, we pay our taxes, Mariana. But they keep telling us the same. Não está pronto. Não têm pessoal suficiente para dar resposta a tantos pedidos. É preciso aguardar. Entretanto, não podem sair do país. Desgostoso, diz-me que, para construir um edifício, é preciso ter os materiais de construção e que Portugal abriu as instituições de apoio sem esses “materiais”, sem os recursos humanos, sem os conhecimentos para lidar com outras pessoas, com outras culturas e com as suas necessidades.

 

Tem saudades da mãe. Tem saudades da mulher. Mas não usa a palavra saudade. Diz que quer vê-las com uns olhos-de-mágoa-portuguesa. Como se já se tivesse nacionalizado emocionalmente nos conceitos que não vocaliza. Diz-me outra coisa. Que conduz 14 horas por dia para ganhar dinheiro que lhe permita sustentar a família, lá longe. Diz-me que gosta do que faz. Que gosta do país, principalmente quando está sol. Que não gosta de chuva e acha as casas portuguesas húmidas, a ponto de fazerem aquelas manchas pretas que alastram nas paredes e tetos. Que gosta das pessoas. E novamente refere as suas pessoas, com olhos-fado.

 

I want to see my wife. Diz-me. Pergunto se tem filhos. Não tem. A mulher engravidou, mas perdeu o bebé aos 3 meses. Quer muito tentar outra vez. E essa resposta vem no mesmo tom saudoso, sem que fale de saudade, faz espiral nos problemas que lhe povoam a mente. Volta a dizer que quer o documento de residência renovado, para poder ir vê-las. À mulher. À mãe. Sente-se prisioneiro no país que escolheu para viver, but I still have faith.

 

Não lhe digo que não tenha, embora os serviços sejam uma desgraça mesmo para quem nasceu e viveu cá toda a vida.

 

Ele repete. Someone should write about this. Prometi-lhe que o faria. Esta sou eu a fazê-lo.

 

Porque me deixou à porta de casa. Me sorriu com olhos-portugueses-cheios-de-saudade-da-família. Me disse. I wish you the best. E eu respondi o mesmo. Eu desejo o melhor a toda a gente. Como é que tantas entidades oficiais não o fazem? Como é que não desejam o melhor e, além disso, ainda dão o pior e se estão totalmente a cagar para as pessoas?

 

I will write about it.

 

Já dizia Desmond Tutu, “Ficar neutro perante a injustiça, é escolher o lado do opressor”.

 

Não serei mais uma gota de humidade a fazer alastrar o negro nas paredes de Mian.


 Marina Ferraz




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terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Regras de trânsito

 


As estradas portuguesas estão ornamentadas com outdoors políticos. Esta é uma estratégia política que deverá ser conveniente para a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, porque tira aos condutores a vontade – e a capacidade – de dormir. Estima-se que, numa inusual parceria, o PS, o PSD, o Chega, a Iniciativa Liberal, o PCP, o Bloco, o PAN e os outros já tenham evitado milhares de acidentes de viação causados pela sonolência. Passando por eles, fica-me sempre um impropério na ponta da língua. Dura pouco, é verdade, que os buracos na estrada estão também estrategicamente colocados para evitar rotinas de sono ao volante e amenizar ódios momentâneos.

Conduzir significa ter de olhar para quem quer conduzir-nos. Frequentemente para quem quer despistar-nos. Frequentemente para quem já nos capotou. Mas dizem todos que são estrada segura. E que é preciso limpar Portugal, como quem encontra uma casa em ruínas e diz que é preciso limpar as janelas. As causas somam-se por causa do que as causas dos outros fizeram. E não consigo deixar de pensar que é irónico. O mundo. A forma como, na beira da estrada, se prostituem cartazes. Justamente na beira da estrada. Quando as regras que seguimos, a conduzir, são tantas vezes antagónicas às que deveríamos seguir quando votamos.

Não existem dúvidas de que a circulação intercalada tem sido máxima do voto português, mas por mais democrática que seja a ideia do “agora passas tu, depois passo eu”, posso garantir que o D saltitão não está a ajudar o país. Também não o ajuda, na política pelo menos, abrandar nos sinais amarelos; parar nos sinais vermelhos (ou serão bandeiras?); ir à velocidade recomendada... ainda que seja um sinal de segurança rodoviária, tudo isto pode ser sinal de imprudência democrática. Anuir como o cachorrinho de bagageira é um convite para definir o trajeto do GPS rumo ao Tempo da Outra Senhora.

Em campanha, todo o político faz pisca, indicando para onde quer ir. À última da hora, quando surge a oportunidade, todos eles viram para um lado imprevisto. Há muito mais caos nas estradas dos nossos desgovernos do que em Lisboa, mesmo em hora de ponta. Porque não é uma hora de ponta, são quatro anos de pontos e nenhum político dá ponto sem nó.

Conduzindo e olhando para os cartazes, para as obras infinitas nas estradas e os polícias que servem de fiscal de obra, concluo que as estradas portuguesas são espelho do país, mas as regras de trânsito não são. E, depois do pisca à esquerda para passar por mais uma via impedida por obras municipais. Depois do pisca à direita para cumprir a lei rodoviária da circulação, a diferença torna-se ainda mais visível para mim. Posso garantir que também é muito pouco sadio, no caso da política, conduzir o mais à direita possível. E não deixo de pensar, com alguma tristeza, que vou ver desfeito o que a geração dos meus avós fez em nome da nossa liberdade.

Está um frio de rachar. No meu carro, olho à volta para garantir que posso entrar na estrada perpendicular. Vou cortar à esquerda e deixo passar uma senhora com um saco de compras pesado e um olhar mais pesado do que as compras. É suposto o cruzamento dar prioridade ao peão. Mas a cruz que fazemos no boletim só dá prioridade a quem ganha. E, claro, eles querem que votemos. Pedem-nos que votemos. Não nos conseguindo convencer em quantidade, tentam em frequência. E lá vamos nós para mais umas eleições antecipadas. Pelas estradas. Ornamentadas com cartazes. Ofuscadas pelos sorrisos brandos e negligentes. Tentamos evitar os buracos. Mas só há buracos. Caímos nos buracos… outra vez… e resta ver qual será agora o dano. Ah… e nas estradas também.  


Marina Ferraz




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