terça-feira, 30 de junho de 2020

Incoerente (como uma carta de reclamação)


Fotografia de Raul Pinto


“ERC recebe queixas sobre série animada da RTP2 que falou sobre aborto, homossexualidade e feminismo” in Observador a 25 de Junho de 2020


Alguns momentos obrigam-nos a questionar. Intensamente. Profundamente. Onde estamos, para onde vamos, qual é o núcleo humano em que acabamos inseridos, nessa malha heterogénea que constitui uma sociedade.

Sou obrigada, com frequência, a questionar. Porque o limite lógico do que compõe a racionalidade não chega e não existe senso comum em algumas das narrativas que me mergulham nos olhos quando entro nas redes sociais. Algumas coisas, por mais que delas queira tirar sentido, simplesmente não fazem sentido.

Não sou louca nem cega e conheço bem algumas das mentalidades mais retrógradas que existem no país. Noto que, apesar de tal não ser um requisito fundamental, estas nascem nos meios mais pequenos e são comuns em pessoas com menor acesso à cultura e à educação, acentuando discursos misóginos, homofóbicos, transfóbicos, racistas e xenófobos.

Ainda assim, quando surge uma notícia que refere queixas diretas realizadas à ERC (entidade que, estou quase certa, não será tão imediata no pensamento dos grupos acima descritos) e sobre um programa da RTP2 (que, como bem sabemos, pelo seu teor cultural, não representará o apogeu das escolhas populares), isto leva-me a questionar sobre quem está, em efetivo, a lançar olhares de preconceito sobre as diversas formas de se ser gente e os motivos que levam alguém a querer vedar o acesso das crianças a outras realidades.

Tento fazer sentido de tudo isto… mas não consigo. Sinto-me irritada e, de alguma maneira, atacada com esta atitude, já que considero que, para o bem e para o mal, as crianças de hoje são artesãs do futuro. Perante isto, tudo o que posso imaginar é que tais queixas partam de um discurso lógico permeado de argumentos ilógicos. Tudo o que posso imaginar é que elas venham das camadas informadas da população, que deveriam estar a promover discursos e atitudes de equidade.

Incapaz de compreender, imaginei uma carta de reclamação que pudesse ter chegado à ERC, com queixas sobre a abordagem a temas como o aborto, a homossexualidade e o feminismo. Imaginei uma carta. Incoerente porque me tentei despir de mim. Irónica porque me levo onde vou. E imaginei-a assim:


"Exmos,

O meu filho teve acesso à perigosíssima série televisiva que enaltece algumas das mulheres que, ao longo da história, marcaram o mundo. Poderia, desde o primeiro instante, ter-me manifestado contra a mesma, na medida em que, ao dar um papel tão predominante às mulheres, considero que a série pode promover na minha prole o instinto de luta por uma equidade que lhe nega o direito de nascença, sangue e género a uma intrínseca superioridade masculina. Não o fiz, desejando que outros extremos não fossem atingidos, minando de forma mais explícita e concreta a inocência e direito patriarcal do meu filho.

Ontem, no entanto, os conteúdos deste programa atingiram um chocante patamar, que não acho tolerável. Apresentando a figura de Thérèse Clerc, controversa ativista lésbica francesa pelos direitos das mulheres, foram apresentados conteúdos que julgo pouco adequados para a faixa etária à qual se dirige o programa, sob o risco de criarem nas mesmas ideologias de equidade, imparcialidade e, oremos para que tal não suceda, liberdade de pensamento e espírito crítico. A pouca vergonha da ideologia defendida pela senhora, que Deus lhe perdoe agora que já não se encontra entre nós, é problema dela e dos franceses. Agora que utilizem a sua imagem para colocar questões na mente das nossas crianças, cujos valores mais tradicionais e retos queremos manter, isso já soa a um severo problema que nos toca.

Embora me incomode, desde o primeiro instante, a narrativa feminista e de enaltecimento do papel do sexo fraco, esta não foi a problemática mais pavorosa do programa. Duas outras temáticas, às quais me dedicarei de forma individual para expressar o meu desagrado mais adiante, surgiram de forma inequivocamente agreste, criando um patamar inaceitável no vosso programa, que se diz cultural.

O primeiro, foi o lesbianismo e, com ele, a homossexualidade. Não é culpa minha que a senhora tenha abandonado a sacralidade e santidade dos seus votos, divorciando-se ou que tenha assumido uma relação sapatona com outra ou outras mulheres. Certamente não é culpa do meu filho, que assistindo à narrativa poderá começar a julgar que existe algo de natural no ato contranatura de se entusiasmar, mais tarde, por alguém do mesmo sexo. Se vocês querem promover a redução da natalidade em Portugal, isso é certamente, problema vosso. Eu não quero que o meu filho vire uma dessas bichas ambulantes a dar o cuzinho nas festas de drogados paneleiros que bem sabemos que resultam em doenças mentais e físicas do mais asqueroso que pode haver.

Não contentes com o enaltecimento da homossexualidade, sentiram ainda a necessidade de abordar também a questão do aborto. Crime condenado por Deus e que, como todos sabemos, constitui o mais vil dos atos. Mais digo: se a mãe deste acéfalo que vos fala não fez um aborto, não existe certamente razão alguma para que alguém o faça!

Agora que demonstrei o meu desagrado, despeço-me pedindo que removam este tipo de conteúdo da vossa programação, no horário em que as nossas crianças estão a assistir. Proponho, em seu invés, a passagem de pornografia heteronormativa ou não. Porque todos sabemos que, na pornografia, o lesbianismo é permitido por Deus.

Grato pela atenção,
Mais um idiota que procriou"


É incoerente? É! Eu também acho! Acho tudo isto incoerente. Acho que é um enorme passo atrás na luta pela equidade.

Tudo o que me sobra é pedir ao nosso serviço público que, em vez de recuar - transformando, como também li algures as “Destemidas” em “Censuradas” – tente perceber que é justamente com narrativas válidas, diversas e que promovem a equidade que podemos construir o futuro. E que o futuro é mais importante do que as audiências.

Já chega de misoginia. Já chega de homofobia. Já chega de transfobia. Já chega de racismo. Já chega de xenofobia. Já chega! Não tenham medo de apostar na educação moral das nossas crianças (e dos seus pais, que talvez precisem mais do que a sua prole!). Educar não é um processo fácil. Principalmente quando se trata de educar quem não quer ser educado. Mas não desistam. Certamente desistir não é exemplo que se dê às crianças… e eu quero acreditar que, no fim, vale a pena!




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terça-feira, 23 de junho de 2020

Eu não nasci assim


Dizia a novela. “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim”. Talvez. Para ela. Mas não para mim. Eu não nasci assim!

Eu não nasci mulher. Já Beauvoir o dizia. Ninguém nasce. Tornei-me mulher. Mas só me tornei mulher por causa da minha mãe. A minha mãe é a mulher que as mulheres querem ser. Irreverente e forte, mesclando doçura e combatividade nos gestos e nas palavras, capaz de levar o mundo às costas e de o remendar com mimos e bolo de chocolate. Seria capaz de levantar do chão um edifício, se um filho estivesse soterrado mas é com a mesma força que se deixa, por vezes, ser frágil. Eu não nasci assim. Mas cresci com este exemplo. Tornei-me mulher.

Eu não nasci sensível e compassiva. Sempre tive agressividade inerte nos ossos, à espera de se libertar, em pó, na corrente sanguínea para me fazer cruel. Mas também tive uma avó. E a minha avó é a melhor pessoa pela qual o mundo teve a honra de ser pisado. De semblante quase sempre triste e sem muito para si, ela é o tipo de mulher que quer arrancar o sorriso do outro e dar-lhe o seu próprio xaile para o aquecer. Fiel às suas crenças inabaláveis e dona do seu mundo complicado e cheio de problemas, ela não deixa, nunca, de ser um espaço de conselho e afago. Frágil como a época a fez e mais forte do que as histórias contam, ela disse-me muitas vezes que era importante eu ser boa. Ensinou-me, pedacinho de pão a pedacinho de pão, a alimentar ovelhas e bons sentimentos. Eu não nasci assim. Mas cresci com este exemplo. Tornei-me sensível e esforçada por fazer o bem.

Eu não nasci ambiciosa e trabalhadora. Tenho a certeza de que, em alguns momentos, imaginei que me bastasse muito pouco da vida, como se passar por ela, encostada algures, bastasse. Mas, existindo, esta fase não poderia durar. Eu tive um pai. O meu pai ensinou-me, de pequenina, que a força do trabalho se materializa em oportunidades e que a oportunidade vale mais do que o ouro, quando é aproveitada. Trabalhando – que para mim é – e não deixando fugir essas dádivas dos dias, eu aprendi, aos poucos, não só por palavras mas pelo modelo diário de um trabalho árduo e sem queixume. Não nasci assim. Mas cresci com este exemplo. Aprendi a ser dedicada e trabalhadora.

Eu não nasci divertida. E houve muitas pessoas que mo disseram. Mas havia o meu irmão. O meu irmão é uma pessoa incrível, capaz de sorrir nas adversidades e sempre com um comentário que arranca riso aos outros. É a companhia que todos querem quando estão mal e que todos querem quando estão bem. E alguém que, de forma quase inconsciente, me deu o modelo exato do que eu gostaria de ser. Não nasci assim, é verdade. Mas cresci com este exemplo. Aprendi a fazer rir os outros.

Eu não nasci menina do campo. Pelo contrário. Nasci citadina e muito longe dos prazeres telúricos da vida. Mas tive um avô. O meu avô era o homem forte do campo, com a quarta classe e uma sabedoria maior do que o tempo. O meu avô levou-me, nos braços, ao mundo idílico da aldeia. Tornou-me amante de vindimas, de fruta arrancada da árvore e comida sem sequer lavar, de mãos e pés e cabelos sujos de terra. O amor à terra viria a fazer-me pagã. Mas eu não nasci assim. Cresci assim neste exemplo. Aprendi a amar a Natureza.

Eu não nasci altruísta. Tenho um umbigo e olhei muito para ele ao longo da vida. Mas houve a minha irmã. A minha irmã é uma daquelas pessoas que, quando passa, é furacão. Mas é um furacão muito específico porque não se importa de pôr de lado seja o que for, se for para ajudar alguém. Por mais do que uma vez, ao longo da vida, ela foi senhora de atitudes que duvido que alguém mais tivesse. Nos gestos, carrega amor e cuidado e carinho. Nos gestos, carrega humildade e despretensão. Dá e nunca espera retorno. Eu não nasci assim. Tive a sorte de crescer neste exemplo. Aprendi a dar-me aos outros sem expetativa.

Eu não nasci com fé no futuro. Em alguns dias, ainda sinto que não existe muito futuro para que se tenha fé nele. Mas tenho quatro sobrinhos. Neles, encontro traços de plenitude, de beleza, de irreverência, de luta, de intervenção, de veracidade, de defesa pelos direitos humanos e pela Natureza. Neles, encontro a fé que me falta no mundo e a esperança em gerações vindouras. Eu não nasci com fé no futuro. Mas eles nasceram e eu aprendi com eles. Aprendi que vale a pena tentar outra vez amanhã.

Eu não nasci assim. Como sou. Aprendi a sê-lo, com os dias passados entre quem soube ensinar-me. A ser gente. A ser. Eu não nasci assim. Mas nasci aqui. Nesta que é a minha nação, a minha identidade e o mais estreito dos meus dogmas. Se me perguntam quem eu sou, a resposta é: o que me tornaram. Se me perguntam de onde eu sou, a resposta é: da minha família.

Eu nasci aqui. E cresci aqui. E aprendi a ser gente aqui. O meu lugar é o amor. E eu sei onde ele mora.




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terça-feira, 16 de junho de 2020

Quando eu matei o amor



Eu nunca quis ser gente sem sal. Mas, isto eu juro: quando eu matei o amor, a minha intenção não era matá-lo…

Encontrei o amor nos desencontros da vida. Perguntei-lhe se queria vir, a meu lado, até ao lugar das coisas loucas. O amor era inocente. Achou que a loucura era palavra de uso. E veio.

Eu achei que tinha sido clara. Ele achou o mesmo. Toda eu era hipérbole. Todo ele era eufemismo. Quando eu encontrei o amor, já não vínhamos na mesma página da gramática. Mas isto foi só o começo.

Eu não sabia, quando alimentei o amor, que ele era alérgico ao açúcar excessivo que eu colocava nos alimentos que lhe servia. E não sabia que a vela no centro da mesa onde eu servia esses excessos, pegaria sucessivamente fogo às veias incandescentes onde ardia paixão e aos estômagos aziados de embriaguez, fazendo arder também cortinas, colchas, fotografias e sentimentos.

Eu não sabia, quando enchia a banheira de água demasiado quente e com espuma até ao teto, que o amor teria dificuldade em sentar-se comigo e um copo de vinho, sem se afogar nas bolhas de amónia e se inebriar com o perfume melífluo do ópio que aquecia as carnes e as tornava mais rijas antes de as tornar mais moles.

Eu não sabia, quando cortava frases ao meio para as empilhar em versos que viravam estrofes, que o amor se deixava degolar pelo gume cego da minha caneta, trocando athames por facas cerimoniais; tinta vermelha por sangue; e harmonia por vitimismo. Não larguei a caneta nem me apercebi de que houvesse ângulos mortos na condução da mesma pelas linhas do papel.

Muito menos imaginei, naquele tempo, que ele fosse receber com estranheza o ato perfeitamente natural de o guardar dentro. Como é que um amor experiente, que dizem andar aí desde tempos medievais (ou até imemoriais), julga que alguém se contenta com ter nos braços algo que pode ter dentro? Ele não era meu filho para que o trouxesse nos braços e às cavalitas. O amor – disse-lhe – quer-se dentro do peito, dentro da alma, no âmago de nós.

Desculpa, está bem? Eu convidei-te a ser louco.

Mas ele não sabia que o lugar da loucura era louco.

E eu não sabia que o amor não era imortal.

Sem força para ripostar, o amor acedeu. Veio. E era feio. Era o tipo de amor que eu sabia amar. Vinha enjoado, aziado, envenenado. Vinha queimado e afogado, repleto de cortes. Não era um amor muito bonito e em bom estado. Mas era o meu. Ali. No lugar da loucura. Essa que eu sou.

Eu nunca quis ser gente sem sal. E ele veio. Débil, ali se acocorou e perdeu a força da palavra. Ali se encolheu e perdeu a vida.

Quando eu matei o amor, a minha intenção não era matá-lo. Mas eu nunca quis ser gente sem sal. Na perspetiva do amor, eu sei: todos os meus excessos foram sufoco e veneno, todos eles queimaram, rasgaram e sangraram a vida azul e luminosa dos olhos matutinos, fazendo crepúsculo na aurora.

Agora, morto dentro de mim, ainda por enterrar, o amor junta-se ao sal com o qual me temperei para ser gente. Nesse rito antigo que se fazia aos maus e aos pecadores. Salgando-lhes a campa para que ali nada mais nascesse.

Quando eu matei o amor, matei-o de o querer vivo. Nunca quis ser gente sem sal. O sal mata e tempera e preserva a temperada esperança imortal dos corpos sem vida. Trago um cadáver sólido de paixão encostado do lado esquerdo do peito. Às vezes, pulsa por engano. Nenhum dos dois sabia. Agora, ambos sabemos. Ali, não nasce mais nada.




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terça-feira, 9 de junho de 2020

Eu não entendo

Fotografia de Luís Serra Santos


Não. Eu não entendo a tua realidade. Nem vou fingir que entendo. Não vale a pena. Terei de viver eternamente sem compreender. Mas não te preocupes. Não preciso de compreender o que tu sentes ou o que tu passas para adotar uma postura que me coloca a teu lado, aliada na tua luta. Porque eu não preciso de estar na tua pele para saber a diferença entre o certo e o errado. Essa que entendo porque me ensinaram a pensar e a tomar posicionamentos críticos face ao mundo.

Eu não te entendo. Não posso entender como é viver com um estigma negro se a minha pele é clara e nasci com o privilégio caucasiano, que sempre me abriu mais portas do que aquelas que fechou. Não posso entender o que sentes quando alguém faz, levianamente, uma piada que te é ofensiva ou como a violência gratuita e a casualidade das acusações te faz sentir o sistema digestivo revolto. Não posso saber o que sentes quando pequenas ações bastam para te condenar ou para te ceifar a vida, antes do tempo. Não posso entender o que sentes quando alguém que nunca viveu o que tu vives e nunca sentiu o que tu sentes te diz que entende. Eu não. Eu não entendo. Mas vou unir-me aos movimentos que dizem que as vidas negras importam. Porque acredito que todas as vidas importam. E não me limito às brancas, às negras, às amarelas. E não me limito, sequer, às humanas.

Eu não te entendo. Não posso entender como é crescer sabendo que a tua sexualidade não se enquadra na norma social. Não consigo imaginar como é sentires, todos os dias, que o teu corpo e a tua cabeça não fazem parte do mesmo sistema solar de um “eu” coerente. Não consigo conceber quais as partes de ti que doem quando alguém te chama, sem o mínimo pudor, um qualquer nome que te diminui. Não sei como é ser condenado por amar e não entendo como vives essa realidade feita de tantos desprezos, de tanto bullying, de tanta violência gratuita. Eu não entendo. Todos os meus relacionamentos foram com o sexo oposto e, se não nasci, tornei-me mulher, como referia Beauvoir. Nunca me senti outra coisa que não mulher. E não entendo. Não faço ideia de como é viver com um corpo que não corresponde a nós. Ou de como é amar fora dos padrões normalizados dos outros. Não entendo. Mas estou aqui e ergo a tua bandeira colorida em prol da igualdade. Porque não preciso de entender-te para entender que não existem formas erradas de ser ou formas erradas de amar.

Eu não te entendo. Não posso entender como é viveres num país que não é teu, teres sobrevivido à guerra, à fome, à escassez e teres de sobreviver, agora, ao preconceito. Eu não entendo. Não entendo como te sentes quando alguém abraça a carteira ao passar por ti ou te diz que és o culpado do estado de um país que já estava na merda há muitos anos, antes de vires, e que te parece, provavelmente, um paraíso quando comparado ao que deixaste para trás. Não sei como te sentes quando aceitas, com humildade, o trabalho no matadouro ou na construção civil, com um diploma ou dois na bagagem, e ouves dizer que estás a roubar trabalhos a quem foi nascido e criado naquela nação. Eu não entendo. Sou essa pessoa, nascida e criada numa nação, que nunca mudou para lugar nenhum. Nunca me julgaram pelo idioma ou hábito, pelo lenço na cabeça, pela tonalidade da pele ou pela religião que abraço. Tão pouco fugi da guerra, já que poucas guerras existem no meu mundo, além daquelas que a comunicação social insiste em inventar no seio do nosso privilégio. Não entendo. Mas estarei ao teu lado, defendendo-te. Não porque te entendo. Não porque entendo o que sentes. Mas porque entendo que a maldade, tome a forma que tomar, está errada… e que todos merecem asilo, oportunidades e uma vida melhor.

Eu não entendo. Branca, com uma sexualidade (até ver) heteronormativa, descendente de portugueses e portuguesa, com uma licenciatura, um mestrado e uma pós-graduação, eu pouco conheci do mundo além do privilégio. Como poderia, alguma vez, entender? Mas eu não preciso de entender o que se sente quando se nasce do outro lado da linha para entender que a linha existe e que todas as armas estão apontadas para ela. Não preciso de entender para compreender que é sobre essa linha e à frente dessas armas que se pode criar a trincheira que pede a paz, a equidade, o respeito e o cumprimento dos direitos para todos.

Eu não entendo. Mas, nesta luta, vou sempre colocar-me do lado das minorias. Porque não existe um campo de imparcialidade, de desprendimento e de neutralidade quando se trata de injustiça. E não lutar é compactuar com as ações que estão erradas e que, todos os dias, tornam o universo humano indigno desse nome.




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terça-feira, 2 de junho de 2020

Caem




Caem. Caem ao chão e desaparecem. É como se nunca tivessem existido. Não adianta fazer vénias à vida, dobrando costas para aproximar os olhos míopes do chão, nem andar de joelhos, procurando debaixo dos móveis com laivos de esperança. Caem. E, quando caem, desaparecem. Para sempre.

Claro que ninguém aceita. Quando caem, lá ficamos, de rabo para o ar e cabeça encostada junto ao solo, orelha com raiz da vida, tentando descobrir o misterioso fenómeno do desaparecimento. Um Poirot entre os meus neurónios engendra teorias sobre o estranho caso e faz uma lista de notas sobre todos os potenciais buraquinhos e reentrâncias que possam albergá-los, camuflá-los ou encobri-los. Mas até esse neurónio, que viu demasiados policiais, acaba por desistir e voltar às sinapses normais, com um suspiro.

Fico a imaginar se, algures, existe uma mão estendida noutro plano para os apanhar. Quando caem. Para os levar para essa outra dimensão, onde servem para segurar alfinetes de peito e vivências.

Mas caem. Com frequência e demasiadas vezes. Quando caem, desaparecem de todo o lado, menos da memória concreta de dois olhos que viram cair e não sabem explicar como nem para onde.

Caem. Caem no chão e desaparecem. Por vezes, ainda se ouve o som agudo e metálico quando atingem o solo. Mas é como se o furassem. Não encontramos mais. E, aos poucos, toda a utilidade que tinham começa a transformar-se num caos feito de escassez. Como se nunca desse para fechar o que, tão evidentemente, não foi feito para ficar aberto.

Resta a desistência ou a busca pelo novo. Porque, quando caem, paz à sua alma. Dali, mais nada virá!

Sentada no chão, ainda deixo os olhos procurarem um pouco mais, sem sucesso. Suspiro outra vez. Resmungo. Quando caem não aparecem mais!

Eu sei… era só a parte detrás de um brinco.

Mas também vale para as oportunidades.




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terça-feira, 26 de maio de 2020

O segundo que precede a loucura




Abraças-me. A máquina de lavar louça está ligada e ouve-se o som contínuo e persistente do seu uso. Os carros passam e os seus pneus cantam, levantando a água das bermas. O vento agita o saco de plástico que a vizinha tem no estendal. E o relógio da cozinha faz o sonoro tique-taque, que já se tornou mudo do hábito.

O teu coração tem o ritmo das metrópoles. E a respiração é densa e produz um sopro leve, de mel auditivo. A chuva bate nos vidros. Intensa. E a gata caminha pela casa, tocando levemente com as pontas das unhas no soalho, com uma percussão leve e despreocupada.

Fico agarrada a ti. Junto à parede de azulejos floridos. Abraças-me e fico agarrada a ti. Como se não importasse nem a louça, nem a hora, nem a chuva ou o vento, nem mesmo a gata ou o bater do teu coração. Abraças-me e nada importa além do abraço.

Bebo dos sons. Não me largues. Não me largues. Não me largues. O espaço do silêncio, contigo, parece-me maior. Povoado deste compasso. Não me largues.

Mas a máquina de lavar louça pára. E a estrada esvazia-se de carros. A brisa não chega nem para agitar os dentes-de-leão e o sol brilha. Percebo que o relógio parou. É sempre a mesma hora, agora. E não ouço o teu coração ou a respiração leve. Será que morreste? Será que morri? Será que morremos?

Percebo que tenho os dedos nos braços. Os dedos nos meus braços. Os meus dedos nos meus braços. E abro os olhos. Estou a morrer. Tenho sede de sons. Estou a morrer. O silêncio cria vácuo nos tímpanos e na alma.

Olho o relógio parado. Reclamo, não do mas com o relógio parado. Se o tempo ia parar, podia ter parado quando me abraçaste. Podia ter parado aí. Agora não. Agora não.

Abraçaste-me? Foi real? Abraçaste-me! Eu lembro-me. Estava a chover. Havia carros na rua. Flores nos azulejos. E o relógio. Tic-tac. Tic-tac.

O relógio parou.

Há o silêncio. E os meus dedos sós, nos meus braços carentes. Subo pelas ervas daninhas dos azulejos e sento-me no ponteiro parado. Ouve…

Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me. Abraça-me…





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terça-feira, 19 de maio de 2020

Uma árvore


Fotografia de Analua Zoé


Nasces. Cortam uma árvore para te fazer o berço.

Cresces. Cortam uma árvore para te fazer um baloiço.

Vais para a escola. Cortam uma árvore para fazer a tua secretária. Outra para fazer a tua cadeira. Uma centena para fazer os teus lápis. Um milhar para fazer os teus cadernos e livros.

Chegas a adulto. Aprendes a conduzir. Cortaram uma floresta para abrir a estrada que atravessas. Derrubam uma segunda para construir a tua urbanização.

Conheces o amor da tua vida e casas com ela. Nasce o primeiro filho.

Cortas uma árvore para lhe fazer o berço.

Cortas uma árvore para lhe fazer o baloiço.

Leva-lo à escola onde secretárias, cadernos, cadeiras e lápis são árvores mortas.

E, um dia, morres também. E a madeira do teu caixão foi outra árvore cortada.


Ao longo dessa vida, foi na árvore que penduraram o teu baloiço e o do teu filho. E foi a árvore que recebeu as brincadeiras dos teus intervalos. E foi nela que cravaste as tuas iniciais e as da mulher com quem virias a casar. 
Debaixo dessa árvore, fizeste piqueniques com a tua família e puseste o teu filho às cavalitas para que atingisse a maçã e comesse, alegre, o fruto da terra. Na sua sombra, bebeste o aroma das flores da primavera e o adocicado mel veraneante da frescura. 
Curaste as tuas doenças com os seus compostos. Regaste refeições com os seus frutos pisados. Respiraste-lhe o ar.

Nasces. Cortam uma árvore para te fazer o berço.

E és feito de um sem fim de momentos-árvore onde, vivas ou mortas, te servem ao longo de toda a vida.


Aprendes que és seu dono, sem perceberes que és seu filho. E deixas. Que cortem.
E ela perdoa-te. Abraça-te. E, por fim, baixa contigo à terra.


Porque a árvore não conhece a maldade. Apenas o amor.






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terça-feira, 12 de maio de 2020

Ser velho (quando se é novo)


Fotografia de Analua Zoé

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. Era aí que residia a diferença.

É difícil ser velho. Principalmente quando ainda se é novo. O tempo alonga-se e cabem muitos dias num dia só. Cabem muitas vidas neles. Como se os sulcos na alma fossem rugas na pele e deixassem marcados anos-luz de vida. Como se esses mesmos sulcos fossem margens e no seu centro corressem rios, feitos de lágrimas salobras, solitárias e sós.

Ser velho, quando se é novo não causa cansaço mas desprendimento. Não existe o desnorteio de não saber para onde ir. Repleta de certos e de errados mas consciente de ambos, a alma sabe para onde se dirige e vai. Chega-se mais depressa, embora com passos mais lentos… porque se sabe o destino e não se busca a aventura dos labirintos que ficam nos trilhos mais demorados.

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. Era aí que residia a diferença. Ele media a vida em momentos e eu media-a em essência. E ele perguntava “e se”, onde já não tinha espaço para interrogações.

Ser velho, quando se é novo faz com que as perguntas se substituam pela compreensão de que não existem respostas certas. A vida não é matemática, como querem fazer-nos crer. A vida é uma sucessão de incompreensões, que passa sem que entendamos metade e que nos é mais doce quando paramos de lutar contra ela.

Ser velho significa também isso. Parar de lutar contra a vida. Ir no seu embalo. Tentar ajustar as velas ao vento, apenas para que ela não fuja da rota da nossa consciência e dos nossos princípios.

Indo com a vida, descobrimos que ela se dá a quem se deixa ir. E o medo da morte desaparece porque, de repente, os sonhos foram cumpridos. Amámos, fomos amados, escrevemos, publicámos, ouvimos canções com palavras nossas e subimos a palcos com várias peles. Honrámos os Deuses que tínhamos de honrar, plantámos as plantas que tínhamos de plantar, colhemos os frutos que tínhamos de colher. E, depois disto, temer a morte parece ridículo. Porque ainda que nos sobrem experiências para viver, em essência sabemos que foi perfeito.

E, claro, disse-lhe eu, se houver mais, vou tentar aproveitar cada momento. Mas foi pleno o suficiente para que não haja “e ses”. Estou em paz comigo. Ele respeitou mas não entendeu. Mais difícil do que ser velho, sendo novo é entender o velho-novo quando se é novo-novo.

Ele disse-me que ainda não queria morrer. E eu disse que não me importava. Tínhamos quase a mesma idade. Ele era novo e eu era velha. De repente, quando se é velho, por mais que queiramos viver, já não é muito importante estar vivo. Mas, Deuses, eu também gostava de ter o amanhã para poder sentir, por mais um dia, a paz de poder morrer agora e estar tudo bem.





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terça-feira, 5 de maio de 2020

Os meus vazios


Fotografia de Mauro Hilário


Libertei-me do medo e descobri que, sem ele, existe muito vazio em mim.

Se ainda tivesse medo, quando dele me libertei, talvez tivesse temido esse vazio. Mas, sem as suas grilhetas, descobri que um espaço vazio não é mais do que um espaço de oportunidade, que podemos preencher como bem entendermos.

Podia ter preenchido o meu vazio de conceitos, mas preenchi-o de verdades. Porque, ausente em mim, o medo já não me impelia a querer as mentiras suaves, bendizentes e amenas ou a subjugar-me aos juízos e noções consensuais da sociedade. Claro que, para o fazer, precisei de me encher de luz e, por vezes, a luz segregou sombras sobre os vazios do meu peito.

Sombras. Ainda bem. Gostei delas. Porque foi na sombra que pude colocar, no centro desse vazio, uma dose de amor inesperada. Descobri que estava preparada para sentir e para me dar sem regras. Eu. Mas a sociedade não. Então, aproveitei as sombras. Aproveitei-as e descobri que alguns sentimentos são melhores assim: vividos na penumbra. Apercebi-me, neste processo, de que as pessoas partilham demasiado da sua intimidade com o mundo e que é isso que a estraga, que a destrói, que nos deixa inevitavelmente sós no meio de tanta gente.

Bebi das palavras dos outros e percebi o amargo que elas têm. Descobri que o meu vazio preenchido de segredos, na ausência do medo, era apenas mel. Prefiro as palavras que não digo a ninguém e a forma como elas são sementes para tantas florestas em mim. Gosto de passear por essas florestas interiores, onde a seiva das árvores é mar e o som das aves é verso. A ausência do medo foi o que me permitiu desbravá-las, sem terror de me perder em mim. Descobri que, entre as minhas células, existem flores silvestres e dons. Descobri que, no meio dos meus órgãos vitais, algumas ambições são morte e loucura. E descobri que a aptidão para a generosidade não se prende - como tantas vezes me quiseram fazer crer, alimentando-se dos medos que eu tinha para me subverter - com a brandura dos gestos visíveis mas com o furtivo talento de dar em segredo.

A falta do medo em mim fez-me recordar da gaveta da cama, para onde tinha atirado pensamentos de insónia, para que não me incomodassem. Sem os antigos pudores, dei por mim a abrir a gaveta e descobri que apenas sobrava pó. Libertei o fantasma antigo de amores que não souberam amar-me como eu amei. E vasculhei, por entre papéis, apenas para descobrir que a única dívida que me faltou saldar foi para comigo mesma. Comecei a edificar as primeiras bases sangrentas do perdão, onde pretendo, mais tarde, alicerçar muito futuro.

Libertei-me do medo e descobri que, sem ele, existe muito vazio em mim.

Se ainda tivesse medo, quando dele me libertei, talvez tivesse temido esse vazio. Com medo, o vazio é intolerável: traz saudade na forma de fantasmas e solidão com garras que rasgam a pele. Mas, sem medo, o vazio é apenas um espaço aberto à espera do que vem depois. Iluminei-o e vi-lhe as sombras projetadas. Desenhei, com as minhas mãos, as silhuetas que quis. Aceitei que também eu era luz, sombra e vazio.

Neste jogo de luz e sombra, percebi que libertar o medo não bastava. Chamei-o ao vazio de mim. Abracei-o até lhe estilhaçar os ossos. Beijei-o até o sufocar. Matei-o. Assassina de temores e receios, apaixonei-me então pelos meus vazios e, por fim, senti-me gente.





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terça-feira, 28 de abril de 2020

O feio de mim


Fotografia de Raul Pinto



Conheces o feio de mim e viste-me nua sem nunca me teres despido. Olhos de mel, que atravessam a camada de maquilhagem e a da pele. Que rasgam os músculos e os órgãos. Que partem os ossos e lhe retiram a medula do tutano, dissecando cada parte dos tecidos gelatinosos, até ver a célula e o núcleo e a alma que reside dentro.

Conheces o feio de mim e viste-me insana nas conversas mais naturais. Rainha da não circunstância e imperatriz da falsa conversa feita. Com visões irreais e irrealistas sobre o mundo e as pessoas. E dureza circunstancial, expressa rigidamente com frieza. Também sobre o mundo e as pessoas.

Conheces o feio de mim. Tenho a certeza de que olhaste para a candura dos meus gestos e viste a puta veterana que eu sei ser. E tenho a certeza que, no encontro lascivo e obsceno dos palavrões fáceis que me rasgam as conversas, conseguiste encontrar os traços da menina perdida e inocente que, ao longo do tempo, passou pelo inferno e sobreviveu, guardando nuances de fantasia no peito.

Conheces o feio de mim e nunca o negaste. Por mais que os poemas me saíssem bem e as ações transmitissem preocupação e apego pelos outros. Por mais que os toques de chefe na cozinha se traduzissem em receitas executadas com mestria. Por mais que encontrasses exemplos do meu eu a sair de mim e a mudar de caminhos e planos para ajudar alguém. Por mais que eu me esforçasse por ser, nos meandros do trabalho, mais e melhor do que todos os profissionais do mundo. Nunca viste perfeição em mim. Soubeste sempre que eu era totalmente imperfeita. Errada e erro. Peça fabricada com defeito, sem lugar neste mundo ou noutro, se o há.

Conheces o feio de mim e não tens pudor nenhum em dizê-lo. Em mostrá-lo. Em deixar que eu o saiba. Conheces o feio de mim. É-te tão evidente quão feia eu sou, que não consegues conceber, sequer, que eu pudesse ser outra coisa que não este erro, com pernas de medidas desfasadas e anca torta, a caminhar pelo mundo, fingindo que vai direita.

Conheces o feio de mim. Com os olhos, rasgaste cada tecido, do cutâneo ao ósseo. E descobriste uma matéria muito própria, com a qual nenhuma normalidade se constrói. Conhecedor dos meus defeitos, imperfeições, vícios, exageros, carências, devassidões, hipérboles e demências, fizeste a coisa mais corajosa do mundo. Gostaste de mim.

Muito mais monstro do que mulher. Muito mais feia do que bonita. Muito mais errada do que certa. Olhaste para mim, como espelho onde se refletia o teu corpo. Esse que, quando reduzido à alma que fica dentro do núcleo da célula do tutano do osso, também não sente que tem lugar em algum lado. Nesse olhar, conhecendo e reconhecendo o feio de mim, talvez tenhas descoberto que pertencemos ao mesmo Reino, à mesma espécie, à mesma jaula.

Monstro, como eu, abriste também o peito para me mostrares o espaço que toda a gente negou e maltratou. Depositei nele o material fragmentado do que um dia tinha sido o meu coração. E achei que estava em casa, pela primeira vez.

Conheces o feio de mim. Conheces, como quem conhece a rota diária das suas visitas ao sonho da não existência. Conheces o feio de mim. Tão profundamente que é como se não precisasses de conhecer mais do que a tua própria essência. Conheces o feio de mim. A ponto de não teres medo que também eu explore o que fica dentro do núcleo das tuas células. Conheces o feio de mim…

Mas depois olhas-me. E, quando me olhas, é o mundo que é feio. Sinto-me gente. Melhor do que gente. Monstro. Olho para ti. Sinto que somos feitos da mesma matéria de sonho. Sei que, para sermos iguais, tens no âmago uma feiura inerente, que o mundo despreza e condena. Mas, Deuses, é justamente por isso que eu acho que és tão bonito…





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terça-feira, 21 de abril de 2020

Um amor de conto de fadas



Fotografia de Analua Zoé 



Disseram-me que eu queria um amor de conto de fadas. Desculpem. Não. Já não. Agora não. A última coisa de que estou à procura é de um amor de conto de fadas.

Eu tive um amor de conto de fadas. Daquelas narrativas meio desenhadas, onde não temos a certeza se saltámos o ecrã e tomámos forma animada, num universo onde os ratinhos nos calçam os sapatos e os passarinhos nos penteiam os cabelos.

Nesse meu amor de conto de fadas, tudo começou com canções. Elas entravam pela janela aberta na tela do computador. E inebriavam os olhos que marejavam, sorvendo a água das nuvens e fazendo raiar o sol pelas frestinhas do vidro, de onde pulavam arcos-íris, quarto dentro.

O meu amor de conto de fadas beijou-me numa noite de fogueiras acesas na praia e numa noite onde rebentaram cores dispersas pelo céu noturno, em fogo-de-artifício. Nessa noite, para nos ver, até a lua se chegou um pouco mais perto da Terra, como não fazia há séculos e, por séculos, tornará a não fazer.

O meu amor de conto de fadas entrou na minha vida com as mãos vazias mas de coração pleno e olhos cheios de mar. Disse-me que todo o nada que tinha se enchia com a esperança de ser meu. Então, encostados a um símbolo papista e de olhos postos num mundo pagão, com vistas até ao infinito esclarecedor do mar e sobre as copas de mil árvores, ele pediu-me. Tinha trejeitos de criança na voz, como se temesse, mas um jeito de príncipe encantado, banhado de sol e sombra, na tarde mais quente do ano. E eu dei-me. Completa. Sem pôr medidas e sem fazer planos de contenção para o caso de tudo correr mal. O sol aquecia o ar e a paixão aquecia as veias. Arrefecemos nus, algures, numa cama aos pés de um Palácio de Pedra.

Avançou a história do meu amor de conto de fadas. Os sons de canção passavam por debaixo das portas e pelas fechaduras. Era um musical feito pelos melhores produtores do mundo. A encher-me a vida e o peito. A permear cada pedacinho meu. Princesa encantada no reino da dívida fácil, paga de bom grado com mãos desertas que sabiam que a plenitude residia noutras mãos.

Deuses. As mãos. Se não se davam aos pianos e às cordas de guitarra, davam-se às minhas. E era tudo o que um conto de fadas pode ser. Mas, vocês sabem, não há conto de fadas sem enredo nem enredo sem desgraça. Todos os romances sem intriga poderiam ser apenas uma receita de bolos. E, por isso, um amor assim teria dias escuros e negros. Sombrios e desesperados. Por entre eles, só a esperança de que os protagonistas não sucumbissem às trevas.

Somos humanos. Não podemos deixar de sucumbir ao que, tão concretamente, trazemos dentro. Lutei contra fumo. E o fumo dispersava à minha volta. Prendia-se às minhas roupas. Aos meus cabelos. À minha pele. Havia mares de inverno nos olhos que, outrora, me tinham sido doces e a sua mágoa gelava-me a alma e fazia-me sentir que o vilão era eu.

Um dia, percebi que os amores de contos de fadas terminam no momento da união por um motivo. Há histórias que não devem continuar além do clímax da sua felicidade. Mas somos humanos. Não podemos terminar a história encostados a um símbolo papista e de olhos postos num mundo pagão ou enquanto arrefecemos nus, algures, numa cama aos pés de um Palácio de Pedra. Então, aceitamos que, lá à frente, vamos morrer muitas vezes às mãos do amor. E cada fim é uma morte, de onde não renascemos inteiros.

É que os contos de fadas são histórias irreais e nós somos humanos. Nós somos humanos e feios. Reais como o mundo.

Desculpem. Não. Já não. Não quero um amor de conto de fadas. A última coisa de que estou à procura é de um amor de conto de fadas. Desta vez, para variar, gostava de um amor de verdade.




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terça-feira, 14 de abril de 2020

Bem... vai ficar tudo qualquer coisa

Fotografia de Mauro Hilário


Olá, eu não sou o Covid-19 mas corro o risco de, pelo final deste texto, te fazer sentir febril ou com falta de ar. Porque outra coisa que eu não sou é uma mente optimista, a pintar arcos-íris na janela e a dizer que vai ficar tudo bem. Então, se a ilusão é o teu objetivo, peço-te: não leias o que eu tenho para dizer.

Eu sou uma pessoa comum. Que, como todas as pessoas comuns, tem família e amigos e vida social. No meu núcleo mais próximo, existem pessoas muito afetadas pela situação, em termos económicos; pessoas que se encontram num verdadeiro estado de pânico com a situação; pessoas que estão a lidar muito mal com a necessidade de se manterem fechadas entre as quatro paredes da casa. E eu, que sou uma pessoa comum, não sou uma delas. O facto de não estar – pelo menos por agora – numa situação de desemprego; de não sentir medo profundo de ser contagiada; de estar previamente habituada às quatro paredes – não muito firmes – da minha casa; coloca-me numa posição privilegiada para fazer algo bastante simples: olhar.

Na minha praceta veem-se passar algumas pessoas. A janela da minha sala dá diretamente para uma pastelaria que continua a vender pão e, por vezes, há fila. Entre as pessoas, cumpre-se o espaço de segurança e a maioria das pessoas usa luvas descartáveis e máscaras. No chão, junto aos contentores que ficam a meio caminho entre a minha casa e a pastelaria, as luvas estão caídas. Nas janelas, em redor da praça, as pessoas penduram roupa, esteja sol ou não, incluindo cobertas pesadas e almofadas que indiciam limpezas de Primavera e tédio. Em algumas marquises, colam-se desenhos infantis, provavelmente feitos nas mãozinhas inocentes das crianças da casa, com arcos-íris. As redes sociais espalham notícias. Umas são verdade; outras, mentira. Algumas são brincadeiras claras e, mesmo nessas, existe quem acredite.

Por entre a realidade da minha praceta e a realidade da Internet, surge a verdade de quem trabalha em áreas bem específicas e nos dá conta dos números. O número de infetados (que não é real porque escasseiam testes), o número de mortos, os números do PIB deste e daquele país. Mentes iluminadas garantem que é possível que o tempo de isolamento venha a provocar uma recessão pior do que a de 2009 mas dizem isto com mil e uma ressalvas sobre tudo o que ainda não se sabe.

Retiro, dos medos das pessoas no meu núcleo, sejam eles sobre saúde ou economia; das palavras dos especialistas; dos números dos jornais exatamente o mesmo: ainda não se sabe.

Eu não sei, pelo menos.

Não sei quando vou poder voltar a beijar a minha avó no rosto e a dar-lhe um abraço.
Não sei quando poderei dar a prenda de anos ao meu sobrinho.
Não sei quando poderei sentar-me para celebrar um evento em família na mesa de casa dos meus pais.
Não sei quando poderei subir novamente ao palco para defender os meus poemas, sob o olhar atento e contente dos meus amigos.

Eu não sei.

Não sei se os meus amigos do mundo da música vão conseguir manter os seus trabalhos quando isto acabar ou se terão dinheiro para se sustentarem e às suas famílias até poderem voltar aos seus trabalhos.
Não sei se os projetos que tinha para lançar este ano não vão ficar na gaveta até ao ano que vem (ou para sempre).
Não sei se o abalo económico que os meus clientes vão sentir não vai fazer com que cortem no que é dispensável.
Não sei se eu não sou dispensável.

Eu não sei.

Parece-me algo ridículo ler, aqui e ali, que vai ficar tudo bem. Também me parece ridículo ler, aqui e ali, que não vai ficar tudo bem.

Bem… vai ficar tudo de alguma maneira, isso é certo! Mas falta saber como.

Pouco se sabe sobre o vírus e nada se sabe do futuro.

Querer saber o futuro sempre foi e há-de ser a nossa febre. Não saber o futuro sempre foi e sempre há-de ser o nosso maior sufoco.

Eu não sei. Não sei se vai ficar tudo bem. Imagino que, para milhões de pessoas, ficar tudo bem já nem sequer seja uma possibilidade.

Eu não sou o Covid-19 e acho que não estou infetada por ele. Mas sou uma pessoa comum. E as conjeturas, as frases feitas e as alucinações teóricas humanas são uma grande parte do que, neste momento, me está a deixar doente.





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terça-feira, 7 de abril de 2020

Eternos


Fotografia: Miguel Pião


Eternos. Eles eram eternos. Tinham colocado aliança no dedo. Mas nem era por isso. Eles eram eternos, mesmo antes de chover arroz nas suas cabeças. Mesmo antes de Deus o aceitar. Porque eles nunca tinham precisado da aprovação de nenhum Deus. O amor deles era Deus. E a única religião de que precisavam.

Lembro-me dele sem ela. Rapaz de cabeça no ar. Que não sabia data nenhuma de cor. E não ligava a pormenores. E não queria saber que partido ganhara as eleições. E lembro-me dele a dizer que a vira pela primeira vez no dia dois de Setembro. E a dizer que notara, no dia dezasseis, que ela tinha feito nuances no cabelo, que agora dançava ao vento, acobreado. E de me dizer que a direita ia ganhar força com os acontecimentos da política atual e como isso seria mau para a liberdade dela, que era artista, selvagem e indomável.

Eternos. Eles tinham-se ligado pela primeira vez, sem falar. Porque a música estava demasiado alta e eles já sabiam o nome um do outro. E a tesão nasce no fundo dos copos do bar. Dançaram juntos. Ao longe, vi o trocar de um primeiro beijo de língua. Foi assim que se uniram pela primeira vez. Pelas línguas afiadas com as quais, mais tarde, se renderiam às ruas, gritando pelos Direitos Humanos e pelos direitos dos Não Humanos.

Lembro-me dela sem ele. Ativista de coração rijo. Dizendo que o amor era o cartaz que erguia em nome da liberdade de ser. Feminista. Vegan. Amante de animais e da Natureza que honrava. Senhora do seu nariz. E o amor que se foda. E lembro-me dela. A dizer que ele era o centro de um universo só seu. E que, um dia, era ao lado dele que queria construir um mundo melhor. E que, ao lado dele, queria criar crianças melhores, que soubessem o lugar de fala de quem teve a sorte de nascer no hemisfério do privilégio e o usassem bem.

Eternos. Eles eram eternos. Ambos desconectados das leis universais com o desejo de se encontrarem no desencanto e de o tornarem brioso outra vez.

A eternidade deles era tanta que ninguém, jamais, convidou ambos para um evento. Era consensual: se um vinha, o outro estava. Eles eram o membro que completava o corpo inacabado do outro. Amavam-se tanto que nunca cabia um átomo entre eles.

Crianças rasgaram-lhe a carne. E eram o rosto de ambos cantado ao sol. Eternos. Eles eram eternos no primeiro choro dessas crianças. E, por elas, diziam, o mundo seria melhor.

Eternos. Eles eram eternos. Fazendo um mundo melhor, filho a filho. E, de repente, já havia cem manifestações, trinta abaixos assinados e três filhos para o provar. Eles eram eternos.

Mas, um dia, ela confessou. Estou farta. E, um dia, ele disse. Deve haver algo melhor à minha espera. E, um dia, a eternidade deles morreu-me à frente dos olhos, a par com a esperança, já tão escassa, desse amor de conto de fadas.

Disse-lhe que esperava que ela encontrasse melhor. Disse-lhe que esperava que ele encontrasse o que procurava. E fiquei triste pela inevitabilidade da morte do eterno.

Eles eram eternos. Hoje, quando há um evento, é preciso convidar os dois. Trocam palavras cordiais e falam pelos filhos.

Ela não sabe em que dia ele a conheceu e também já não sai à rua com cartazes. E ele, de repente, encontra no fundo do copo de gin uma espécie de comunhão com o futuro que despreza.

Olho para eles. Eternos. Não foi o amor que morreu. Foram eles.






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