terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dois segundos


Fechei os olhos por dois segundos. Foram só dois segundos, não foram? Fechei os olhos por dois segundos e a vida passou.
Quando abri os olhos, não estavas aqui. O telefone tocava insistentemente. Do outro lado, ninguém. Ficava o toque intermitente da desistência. A mesa tem seis lugares mas sento-me só. Sozinha com os fantasmas que, há dois segundos atrás, eram aqueles que juravam "para sempre".
Nesta mesa, recordo, fomos seis. E depois fechei os olhos por dois segundos. Fiquei só. Fora, só dois segundos, não foram?
Retorna-me o olhar, no espelho baço, um rosto velho e enrugado, emoldurado pelo branco dos fios gastos do cabelo. Seguram-me, algures, três senhoras o mais frágil entre eles. Mas não cortam ainda. Querem que veja, que saiba quão errado foi fechar os olhos por dois segundos.
Nas prateleiras há memórias emolduradas de uma vida que perdi. Fechei os olhos por dois segundos e perdi-a. Como? Nem eu sei...
Onde foste, amor? A tua roupa desapareceu das gavetas e o pó acumulou-se nelas, em seu lugar. Não há vestígio de ti, senão esse das molduras velhas com as quais implicavas tanto. Ainda bem que não te ouvi! Como poderia saber que foste real se não me ornamentasse o corredor esse teu rosto de anjo taciturno?
Fechei os olhos por dois segundos. O pêndulo do velho relógio está parado. Mas ouço ainda o seu tiquetaque na memória. Compassava-me o pensamento e era fácil pensar. O relógio parou e pensar magoa, cansa. Porquê? De novo, insistentemente, toca o velho telefone, sem que vivalma reaja ao "olá" seco e arrastado que sai de onde antes estava a minha voz. Foram só dois segundos. Fechei os olhos por dois segundos e perdi a voz.
Na mesa vazia, na cama vazia, na casa vazia, sinto a mente cheia de quem fechou os olhos por dois segundos e perdeu uma eternidade. E a velha do espelho, chorando, parece que ri de mim.
Cansei-me de deambular por entre a poeira e as memórias emolduradas. Cansa-me porque magoa. Aquela rapariga, que era eu, nunca a fui. Por entre o sorriso, não fui feliz. Mas não fui feliz porquê, se tinha tudo, incluindo a mesa cheia, a cama ocupada, a vida plena? Por entre o brilho, não fui jovem. Fui sempre anciã de anseios e idosa de sonhos. Mas pergunto à velha enrugada do espelho: porquê?
Fechei os olhos por dois segundos. Fechei-os porque o cansaço adensou, nos tempos em que nem cansaço deveria haver. É ridículo gastar tempo de mesa cheia. Sento-me hoje só, com fantasmas e memórias. O telefone toca. O relógio já não dá as badaladas. Nenhum tiquetaque. É assustador o grito constante do silêncio que fica quando o telefone emudece.
Fechei os olhos por dois segundos. Foram só dois segundos, não foram? Fechei os olhos por dois segundos e a vida passou. Deixou-me as rugas no rosto, as memórias emolduradas e uma mesa de seis lugares, onde me sento só, desejando o dia em que nela já não se sente ninguém.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A festa do Sol


Antes do Natal, havia o Sol. O Sol que brilhava no céu do Inverno, fazia promessa em Dezembro: dias mais quentes virão. E vinham. Para todos. Antes do Natal, havia o Sol.
Com o tempo, o Natal mudou. Mudou de centro, mudou de ideias, mudou de religião. Em tempos, era feito em honra de um menino. O menino cresceu. Vestiu encarnado. Usa barbas brancas. Em tempos, era um tempo de entrega e partilha. Entrega e partilha de emoções, de momentos, de histórias. Com o tempo, passou a ser um tempo de dar e receber. E mudou o que se dá e recebe. Hoje, vem dentro de caixas com lacinhos. Em tempos, honrava o Sol. A vida. Depois a vida de um Deus. Depois o Deus do dinheiro, que se acorrenta ao senhor de barbas brancas. Mas antes, antes do Natal, antes dos presentes, antes do consumismo, antes dos sentidos se darem e venderem e embrulharem com papel colorido e fitinhas luzentes, havia o Sol.
Vem com o Inverno, o Natal. Esse que dizem que é um tempo de alegria. Nas ruas, eu vejo pessoas apressadas, iluminações coloridas, montras recheadas e mendigos a pedir esmola. Vejo pessoas a comprar doces, a comprar brinquedos, a comprar livros e joias e consolas caras. E vejo meninos a tirar comida do lixo. E, enquanto uns vibram na alegria do Natal, junto a lareiras acesas, entre risos e gargalhadas, outros deitam-se nas caixas que sobraram sob o seu tecto de estrelas. E, pelas ruas, o som do silêncio, entrecortado pelo eco inexistente da partilha que só se dá àqueles que, de alguma forma, têm Natais todos os dias.
Lá fora, neve ou chova, há quem não tenha mesas cheias, famílias felizes, agasalhos. Seja Natal ou não, há quem se afogue nos prantos de uma vida onde a regalia ficou vedada, vendo passar as elites da má sorte, que se queixam por quase tudo o que não é problema.
É Inverno. E, no Inverno, pesa mais a visão enregelante daqueles que não têm nada. Mas o Natal mudou. Não é o tempo da partilha. É o tempo da cegueira. Já não se faz no centro das ruas. Faz-se no centro comercial. Faz-se no fechar de olhos voluntário que se estende um pouco por todos nós. Porque ver magoa. E ninguém quer sofrer.
No Natal fala-se de magia. E eu também a vejo. É que, antes de haver Natal, havia o Sol. E o Sol não se dá mais a ninguém. Nasce para todos. Antes do Natal, havia o Sol. No meu cantinho quente e privilegiado, é o seu nascimento que eu celebro. E não tem nada a ver com religião, com moralismo, com lições de vida. Não tem sequer a ver com textos bonitos e poéticos. É só que, antes do Natal, havia o Sol. E, enquanto que o Natal não é para todos, o Sol ainda é. 

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Demasiado



Ela punha demasiada manteiga no pão. Demasiado chocolate no leite. Demasiado açúcar no café. E, depois, esquecia-se de temperar a vida. Ficava quieta. Calada. A olhar para o infinito. Sem tristeza nem alegria. Somente com o vazio ponderado da abstracção.
Ela punha demasiada espuma na água do banho. Demasiado incenso nas salas comuns. Demasiados pontos finais nos textos escritos à pressa. E, depois, esquecia-se do aroma do mundo. Fechava-se nela. Longe. Sem viver.
Ela punha demasiada atenção na roupa passada. Demasiadas notas na agenda. Demasiado intento na lavoura dos dias. Demasiadas regras no momento que passava. Mas, depois, não punha demasiado de nada nas suas vivências. No salto abrupto e ininterrupto, cheio de normas e exageros, a vida era confinada à infinidade desunida do nada.
Passando na rua, ela deixava no ar um sentido de urgência, misturado no azedume de nem se notar a sua passagem. Um tudo ou nada de perfeição imperfeita, sem nome, cheio de nomes. Cheio de penas e de planos para amanhã. E sentava-se, sempre na mesma mesa, pedia sempre o mesmo, olhava para mim sempre com um vazio atolado de coisas. E falava, em silêncios cortantes, atropelando palavras na ânsia de chegar ao fim das frases, ao fim da conversa, ao fim da vida.
Um dia disse-lhe. Disse-lhe que punha demasiada manteiga no pão e demasiado açúcar no café. Insisti que pontuava demasiado os textos e que, talvez por deformação, pontuava também a vida em demasia, em pontos finais que situava, de forma atabalhoada, em frente a tudo o que a podia fazer feliz. Apontei-lhe o dedo, disse que se importava demais com a roupa engelhada, com as tarefas do dia, do mês, do ano. Ela punha demasiadas dúvidas nas minhas palavras, demasiados conflitos nas nossas conversas, demasiadas barreiras entre nós. Fazia-o como quem não sabe que pode entender que existe um mundo fora dos obstáculos muralhados com os quais protegeu o corpo indefeso.
Então eu disse-lhe. Disse-lhe que não era ela contra mim. Nem eu contra ela. Expliquei-lhe que, algures, havia um nós contra tudo. E, longe de entender, ela pôs demasiados medos sobre a mesa na qual se sentava sempre com o mesmo pedido e o mesmo olhar vazio de mente cheia. Podia ter desistido. Mas, talvez porque a ame demasiado, escolhi ensinar-lhe a arte da vida. E, por entre as coisas mais simples do dia, tento fazê-la feliz.
Ela ainda põe demasiada manteiga no pão. Demasiado chocolate no leite. Demasiado açúcar no café. Ainda se preocupa com as tarefas. Ainda usa a agenda e demasiados pontos finais nos textos. Mas está a aprender. E, de vez em quando, esquece-se da agenda em casa. De vez em quando, não se importa se o trabalho atrasa. De vez em quando, deixa tudo apenas para estar sentada ao meu lado, a ver-me jogar. Começa a deixar de temperar a vida com os mesmos sabores de sempre. Quer estar aqui. Quer viver. Sorri. Não demasiado. Na medida certa. E para sempre.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014



só.
uma palavra que já é um poema
porque ninguém o ouve

e um banco de jardim que é sepultura,
onde me recosto na morte
sem ninguém se importar.

a solidão tem muitas formas.
hoje, é uma pomba que abre as asas
e recusa um grão de milho.

ontem, era a casa cheia
de sossegos insuportáveis
e sombras no cair do sol.

só.
uma palavra que já é um poema.
não rima mas ecoa, e é feita de silêncio.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Dos outros



Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Se me davam a mágoa, era a mágoa que aceitava no peito. Dela, colhia o fruto amargo do sofrimento. E abriam-se feridas na pele da alma. Cansada mas consciente. Dorida mas terna. Não os culpava. Se me davam a mágoa, era a mágoa que eu aceitava, sem outro gesto que não o de um sorriso leve e um agradecimento mudo.
Chamaram-me muitas coisas. Diziam-me sofredora, estúpida, complacente. Tratavam-me como se, da aceitação, viesse a prova que me tornava cúmplice de um crime contra a humanidade. Mas não. É só que, do outros, eu nunca esperei outra coisa. E estava farta da solidão.
Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Se me enchiam de mentiras os ouvidos, eram as mentiras que aceitava na pele. Delas, fazia poemas sem rima. Textos sem pontuação. Romances sem prólogo, sem epilogo, sem capítulos. Neles, procurava perder a noção da verdade, para dar espaço às linhas em branco onde coubessem essas ficções desprezíveis, cheias de lacunas justificadas com outras mentiras e outras lacunas impossíveis de colmatar. Agradecia as mentiras. E tomaram por teimosia, por cegueira, por loucura, essa tonalidade branca e cheia de gratidão. Mas não. Simplesmente, dos outros, eu nunca esperei outra coisa. E estava farta de ver no espelho o meu reflexo sozinho.
Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Se me davam a ausência, era da ausência que fazia companhia nas noites frias e era com ela que falava sobre a vida. De mãos dadas com ela, percorri todas as ruas do desassossego e algumas avenidas de saudade. Não tomei atalhos. Deixei que me arrastasse pelos caminhos mais longos, falando sobre as mentiras e a mágoa. Respondia-lhe com fé. Com esperança. E até a ausência falava da loucura nos meus olhos. Expliquei-lhe. Expliquei-lhe que, dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Que era melhor a companhia inusitada da ausência do que a solidão de não haver quem connosco pudesse partilhar os caminhos.
Dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Como se nada pudesse ser esperado daqueles que dão, de si, apenas o negrume que trazem dentro. Como se nada pudesse pedir-se a quem vem ao mundo apenas para levar o mundo nas mãos, roubando até a luz dos olhos dos outros para iluminar as vielas onde as almas se fazem noite.
Foi fácil não esperar nada dos outros. Porque eles tinham marcado, nos rostos que sorriam, as lágrimas de quem nunca chorou. Esse traço de mágoa por sentir, que se acumula nas mãos e é infligido àqueles que com eles se cruzam no caminho tortuoso da vida.
É muito simples distinguir, nas ruas, aqueles de quem se pode esperar algo. É a menina que sorri ao mendigo que pede esmola, em vez de se afastar. É o rapaz que ajuda a senhora de idade a atravessar a estrada, em vez de troçar da sua condição. É o homem que corre atrás da senhora carregada para lhe devolver a carteira, que deixou cair, em vez de a guardar para si. São as pessoas que olham em redor, por entre a corrida desenfreada dos dias. Mas são tão raras, essas pessoas, que desaparecem com facilidade no centro das cidades repletas daqueles dos quais não se pode esperar nada.
E é por isso que, dos outros, eu nunca esperei outra coisa. Nunca esperei deles mais do que as mágoas, as mentiras e o abandono. E não me desiludi quando foi isso que delas recebi, porque compreendi que não tinham mais nada para dar.
Mas de ti? De ti, esperei o mundo inteiro. Esperei um copo de sol, todas as manhãs. Um abraço de ternura, todas as noites. Um dia de sorrisos. Verdades sem camuflagem nem lacunas. De ti, esperei a companhia de mãos que não se largassem nas ruas do infinito e nas avenidas da paixão. E não foi nada fácil esperar isto de ti quando, de todos os outros, esperava somente as mágoas, as mentiras e o abandono.
Tinhas um brilho nos olhos. Querias que o mundo fosse um lugar melhor. E disseste-me que devia ter esperado mais... não dos outros, mas da vida.
Disse-te. Disse-te que era melhor esse pedaço de nada do que a solidão. E tu prometeste-me. Prometeste que não ficaria só. Nas tuas palavras, nasceu a expectativa. De ti, esperei o mundo.
Deste-mo. Ele vinha num copo cheio de sol. Bebemos dele. Ficámos embriagados dessa luz. Amanheceu em nós. De ti, eu não espero outra coisa. Somente a felicidade. E a felicidade é saber que, de ti, posso, sem medos, esperar o mundo.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Podia falar



Podia falar-te da dor. Conheço-a bem. Andámos na mesma escola e partilhámos a vida durante muito tempo. Sei que ela não é compreendida por todos, embora, cedo ou tarde, todos acabem por se dar com ela e a acolham no peito, por mais ou menos tempo.
Sim. Podia falar sobre a dor! Todos a conhecem. Mas eu entendo-a. Entendo-lhe a alma amargurada e a necessidade de se fazer presente, de se fazer notar, de aparecer e de tentar permanecer nos recantos e permeios de todas as partes da vida. Conheço-a bem. Por isso, podia falar sobre ela.
Mas eu não quero falar-te sobre a dor. Acredito que a compreendesses, como eu. Que entendesses e até aceitasses que, em alguns passos, ela foi chão em vez de abismo. Talvez acabasses por lhe agradecer, admitindo, como tantos antes de ti, que ela te ensinou mais do que alguma vez poderia roubar-te. Mas eu não quero ser a pessoa que se senta e te explica que conhece a dor, que a trata pelo nome. Não quero ser a pessoa que te convence que existe uma razão, seja qual for, que valide o sofrimento. Haveria mil razões. Mas para quê? Sofrer já dói o bastante sem o peso da justificação.
Não! Não vou falar-te da dor, embora pudesse fazê-lo. Seria simples. Conheço-a bem. Mas, no cultivo constante deste amor por ti, compreendo que não é a dor que quero trazer para o centro das nossas conversas.
Eu quero amar a sorrir. Quero amar a sorrir porque estou farta de amar a chorar. Passou o tempo das lágrimas. Elas saíram de moda e eu já não quero usá-las. Cansei-me de abraços desertos à almofada molhada. Cansei-me de dizer boa noite à solidão entrecortando a palavra com o gemido cansado do choro. Eu já amei a chorar, nos tempos em que conheci a dor. E chega! Agora quero amar a sorrir. Não quero falar-te da dor.
Durante muito tempo, esperei. Julguei que esperar podia trazer-me de volta o que nunca tive. Julguei que, se chorasse o suficiente, os Deuses entenderiam a necessidade que guardava de ver esse retorno acontecer. Os Deuses viram. Viram, mas sabiam da vida e do mundo coisas que eu não podia aprender de outra forma que não esperando. E, sem fazerem nada, ensinaram-me bem a lição. Não quero falar-te da dor. Não importa quão bem a conheça. Não quero falar sobre ela.
Podia falar-te da dor. Essa que toda a gente sente. Uns de propósito. Outros sem querer. Outros, ainda, por não saberem querer outra coisa ou que existe outra coisa para se desejar. Mas estamos aqui. Tu e eu. E já não é tempo de amar com lágrimas nos olhos. Por isso, mesmo podendo falar-te da dor, não vou fazê-lo. Não vou fazê-lo porque hoje sei... A vida não tem um prémio para quem sofrer mais. Ser triste é apenas ser triste. Ser feliz é outra coisa. E a recompensa é essa mesmo. Ser feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Ameno



O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não. O amor não é para ser ameno.
O amor quer-se quente, desenfreado e louco. O amor quer-se nos intervalos entre a paixão, o medo, o encanto, a luxúria. O amor quer-se nos recantos ensurdecedores de um coração desaforado. O amor é para ser devasso, às vezes, para ser intempestuoso, quando calha. Para nos aquecer as almas no centro do corpo e o corpo no centro da cama, no centro do mundo, no centro da vida. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não.
O amor quer-se em beijos sem pudor e nas mãos dadas pela rua. O amor quer-se em folias desiguais e na seriedade infantil das horas. De vez em quando, quer-se que aqueça ao ponto do impossível, que ruborize o rosto e envergonhe. De vez em quando, quer-se frio, duro, ponderado. O amor é um tudo e nada instável. Um quente e frio em constante permuta. E é assim que deve ser. O tempo. Esse deve ser ameno. O amor não.
O amor quer-se por entre a multidão ou na falsa solidão do deserto. Quer-se à mesa, no sofá, na cama. Quer-se no chão e nas paredes. Quer-se no corpo vestido e na alma nua; quer-se na alma coberta e no corpo exposto. O amor quer-se, no temporal das paixões e no calor  das amarguras. O amor quer-se quando começa a ventania, para dar conforto e quando a serenidade pede pelo afago. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não.
O amor é para ser louco. O amor é para rebolar na areia da praia, para correr por entre as árvores da floresta, para cair nas colinas do tempo. O amor é para arrancar o riso, arrancar o choro, arrancar o que fica de permeio entre uma coisa e a outra. É mesmo assim: extremista e ponderado, instável e volúvel. O amor é para ser explosivo, para ser inteiro, para ser inconstantemente constante nas nossas vidas. É para ser quente, para ser frio, para ser cálido ou glacial, para ser soalheiro ou chuvoso. Às vezes umas coisas, outras vezes outras. Às vezes tudo ao mesmo tempo. Tanto faz. Mas ameno? O tempo lá fora, sim, deve ser ameno. O amor não!
O amor não nasce para ser insosso, intermédio, cómodo. O amor nasce invernoso nos Verões. E desafia, puxa os limites, acrescenta pontos, lima arestas, constrói mundos melhores com pessoas melhores. O amor estimula, afronta, busca o que fica atrás dos sentidos, constrói sentidos novos, luta contra os códigos e as convenções e até com as luas e as marés, se for preciso. O amor pode dar conforto, claro. Mas não pode, não deve, ser conformista, acomodar-se, amenizar-se. O tempo lá fora, quer-se ameno. O amor não.
O amor é feito de amizade e de paixão e de desejo. O amor é feito de companheirismo, de ardor, de afeição. E é feito de luta constante: por um, pelo outro, por ambos... por um lugar melhor, por ser melhor, por ter melhor. E, tão cheio de tudo, o amor é chama e arde e consome. É terra e céu. E às vezes, no amor, chove e faz frio. Às vezes faz sol e aquece até ao limiar da impossibilidade. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não. Um amor ameno seria amor a menos. E amor a menos não é amor. Por isso, embora o tempo se queira ameno, o amor não. Nunca o amor...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Amor cativo



Eu não sou o céu. Admirei-me, por isso, quando escolheste sentar-te a meu lado, em vez de voar. Perguntei-me se terias visto as minhas asas e ignorado as raízes que, feito correntes, me prendiam ao solo. Depois reparei que olhavas para elas, que sabias que eu não podia fugir da realidade para te dar um pouco desse céu que eu não sou.
Enquanto te sentavas, cada dia mais perto do meu coração, questionei-me se terias enlouquecido. E, cada vez que te aproximavas, confirmavas as suspeitas que eu guardava no peito. Mantinhas as asas fechadas e olhavas-me como se no meu rosto visses milhares de sóis, espelhados em pontinhos luminosos e incandescentes de luz. Tentei dizer-te eu não era o céu. Talvez fosse noite. Talvez fosse trevas. Mas não era céu. Não havia estrelas, nem galáxias, nem sonhos distantes em mim. Eu era prisioneira da terra onde criara raízes.
Cada vez mais perto, notaste-me por fim as asas. As asas negras e fechadas. As asas imperfeitas e  mirradas que já não sabiam abrir-se. Chorei, de te ver tocares-lhes com as pontas dos dedos. Perguntaste se me estavas a magoar. E, deixando as lágrimas cair no rosto triste, disse que não. Expliquei que não podia voar. Repeti que não era o céu. Que nunca poderia ser, para ti, essa imensidão de luas e luares.
Levantaste-te. Pensei que ias embora. Entendi que não me espantaria que fosses. Aceitei que o adeus era tudo o que podia morar nesse movimento leve, lento, subtil. E, sabendo o quanto magoam as raízes, aprendi a deixar que fosses, por mais que a saudade viesse ocupar o lugar que deixavas a meu lado. Não disse palavra que te indicasse que deverias ficar. Ainda assim, depois de te levantares, não partiste. Envolveste-me o corpo nos braços e disseste que me amavas.
Uma palavra de amor. Simples. Calma. Sem artifícios desnecessários. Sem avisos forçados. Senti quebrar as raízes que me prendiam ao solo e o negrume que me tornava escrava da noite. Abri as asas. Descobri que o seu negro se iluminava no calor do sol. Podia ser livre. Por fim. Mas também te amava. Então, acorrentei o meu coração ao teu. Vi-te abrir as asas também. E voámos juntos por aí.
Eu não sou o céu. Tu não és o céu. Mas sentaste-te a meu lado. E enquanto estivermos juntos não há céu que não possa ser nosso.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Esperar


Eu não posso esperar que o mundo gire ao contrário nem que as estrelas cadentes se transformem na realização dos meus desejos insensatos. Não posso desejar que o tempo pare, que ele volte atrás e me devolva o que de mim se perdeu pelo caminho. Não posso esperar que mudes: que mudes de ideias, que abras o coração, que me recebas na imensidão de um abraço. Não posso esperar que o meu coração pare de vez ou que aprenda a bater apenas quando te sentir por perto. Mas, ainda assim, posso esperar por ti a vida inteira.
Posso esperar. É isso mesmo. Não me entendas mal.  Posso esperar, mesmo sabendo que não voltas. Mesmo sabendo que vives sem sequer saber que eu espero. Posso esperar. A espera depende só de mim.
Voltes ou não. Acredita em mim. Posso esperar. Posso parar, na insensatez, arrebatada pela loucura. Posso erguer-me, permanecer de pé, ganhar raízes no chão poeirento desta memória de ti que vivo sozinha. Posso esperar. E,  mesmo que não o saibas, posso orar em silêncio para que fiques bem, quando a vida te destroçar. Posso desejar, num cruzar de dedos, que os nossos caminhos se cruzem, ainda que o façam apenas ocasionalmente, num "olá" de corrida, dito a medo.
Eu não posso esperar que o tempo volte atrás. Não posso esperar que ele me devolva o que perdemos nem que me espere, mais à frente, um futuro mais brando do que o presente. Não posso desejar que o mar retorne à nascente e tudo recomece, aos poucos, para eu poder acertar aonde errei. Não posso esperar que me estendam as promessas que foram quebradas nem que as reparem com poções e feitiços de encantar. Mas posso esperar por ti a vida inteira.
Posso esperar. Hão de dizer que é errado. Esperar, para alguns, pouco é além de uma escolha consciente da morte. Mas, como eu posso esperar, não importa o que digam. Não irão abalar-me, não irão mover-me. Hei-de esperar por ti a vida inteira, ainda que a vida não acabe no amanhecer tardio de um dia onde não estás.
Entende. Eu não posso esperar nada do Mundo. Não posso esperar nada da vida. Não posso esperar nada do passado ou do presente ou do futuro. Tudo o que eu posso fazer é esperar por ti. Esperar a vida inteira por mais um pedaço de céu. Esperar a vida inteira para poder sorrir outra vez.
Que vida doce será essa que viverei, esperando por ti. Pois esperar por ti é esperar pelo amor, viver de amor, ser amor. Eu não posso esperar nada da vida mas posso esperar por ti a vida inteira. E a vida terá o teu nome, nos (re)cantos intocáveis do meu pensamento, onde o amor se ergue mais forte do que o tempo que passa sem estares aqui.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Reflexo



No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Então, demorei a perceber o que estava errado. Demorei a compreender porque é que, olhando, me parecia que a pessoa que me devolvia o olhar não era eu.
O meu reflexo tinha as mesmas feições. Talvez um pouco mais esguias. Talvez cobertas por uma camada mais espessa de maquilhagem. Talvez sobrepostas num corpo que trajava outras roupas. Mas o meu reflexo, aquele que me devolvia o olhar cheio de sonhos, ainda tinha o meu olhar, ainda vinha com os mesmos traços do rosto.
No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Mas, ao mesmo tempo, parecia que eu me faltava, naquela imagem reflectida com a qual eu me assemelhava tanto. Movi-me com desconforto. O meu reflexo imitou-me. Suspirei. O meu reflexo suspirou comigo.
Quem és tu? - perguntei à pessoa do espelho que, deliberadamente, como apenas eu sei fazer, repetiu a pergunta e não me respondeu. A ausência de resposta, impregnada de teimosia e enfado, foi, em si, a resposta que eu procurava quando perguntei "quem és tu". E cruzei os braços sobre o peito, erguendo o sobrolho, enquanto a imagem reflectida insistia em ridicularizar cada movimento, imitando-o.
No meu reflexo, eu ainda parecia eu. E, depois, compreendi o que estava errado. Como se a imagem que mostrava aquele rosto que, sem sombra de dúvidas me pertencia, fosse subitamente, não uma réplica de mim mas a verdade sobre tudo o que sou. E senti a vontade de me fundir na imagem do espelho, de desaparecer nela e de, juntas, nos anularmos mutuamente até eu não ser ninguém. Não precisei. Não precisei de adentrar os limites vítreos do espelho. Senti-me um reflexo de mim. Compreendi.
Não sou ninguém. - anunciei. Um pensamento que soou na minha voz. Uma voz que o espelho já não tinha e que eu me sentia perder cada vez mais. Não sou ninguém e não tenho voz. Emudeci nesse pensamento, pelo medo de que, se tentasse dizê-lo, ele soasse a nada e não houvesse som. Estou a desaparecer. E o pensamento, pelo medo de ser ouvido, soou baixinho, dentro de mim. Estou a desaparecer. Repetiu, num eco constante que me assustou e fez endurecer a expressão que o espelho reflectia.
Aproximei-me do espelho. Aproximei-me tanto que a minha respiração o embaciou e a imagem desfocada de mim se perdeu, no enevoado de um suspiro. Não quero morrer. Tentei dizê-lo mas a voz faltou-me. Ou talvez me faltasse apenas o desejo da voz. Ou tão somente a vontade de desejar o que quer que fosse. Entrei num mundo de silêncio. E de desassossego. E de apatia. E o espelho ia reflectindo o rosto, sempre igual, naquele reflexo de alma.
Quem és tu? - gritei, em desespero. Queria soltar as palavras. Estava farta de as prender. A imagem do espelho não moveu os lábios na minha pergunta. Em vez disso, retraiu-se e ficou com os olhos tristes e vidrados por lágrimas. Continuei a gritar, louca e loucura, por entre mundos de desassossego. Estava farta da apatia, do silêncio, da calma daquele reflexo de mim que eu já não queria ser. Quem és tu?
A imagem do espelho limpou o rosto. Encolheu os ombros. Eu sou o que tu escolheres fazer de mim.
Acordei. Acordei desse sonho. No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Mesmo com o cabelo desgrenhado e o rosto marcado pela almofada e todos os traços desalinhados da manhã. Era uma escolha minha. Quis parecer feliz. Então sorri. E o meu reflexo sorriu comigo. 

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sempre à mesma hora



Ele vinha sempre à mesma hora. Não tinha compromissos que o prendessem nem devaneios que o atrasassem. Vinha sempre à mesma hora. Enchia a sala, enchia-me o peito, enchia-me a vida. Todos os dias. Sempre à mesma hora. Não falhava nunca. Não me deixava sozinha, sem razão. Mudava tudo o que fosse necessário. Não se queixava disso. Não se aproximava com um mau humor tardio, como quem alterou tudo para estar ali. Vinha. Vinha e ficava. Sem mais delongas. Sem desculpas. Sem problemas. Mas eu nunca o amei.
Ele vinha sempre à mesma hora. Não trazia palavras escusadas. Sentava-se ao meu lado, olhando para mim, sem exigências. Não importava se eu queria ver um filme, se queria trabalhar, se queria escrever ou simplesmente deitar-me sobre a cama e ceder à preguiça ou ao sono. Não importava o que eu fizesse. Pacientemente, ele vinha. Vinha sempre à mesma hora. E ficava ali, junto a mim, a acompanhar-me, afastando a solidão das paredes com a sua presença quieta. Era mais calmo do que tudo o resto na minha vida. E estava mesmo ali. Mas, mesmo assim, eu não o amava.
Ele trazia consigo uma paz incomparável. Sentava-se. Sossegava. Não me interpelava com nenhuma ânsia pelo que eu não tinha para dar. Vinha, como uma respiração. Casualmente. Sem necessidades suplementares nem desejos excessivos. Trazia a calma. Uma eterna calma que se estendia pelas paredes brancas. Quando vinha, vinha também esse sossego incontestável. Mas, mesmo assim, eu não o amava.
Ele vinha sempre à mesma hora. Às vezes trazia consigo a voz cansada de um amanhã perdido no anteontem da vida. Mas não se deixava atrasar. Vinha. E, vindo, trazia com ele as memórias. Sempre, todos os dias. Tentava acarinhar-me o rosto. Tentava adentrar-me o peito. Tentava preencher-me a mente. Às vezes eu deixava. Deixava porque ele vinha sempre à mesma hora. Deixava porque ele não trazia palavras escusadas. Deixava pela paz que me trazia. Ainda assim, apesar de tudo, mesmo deixando, nunca o amei.
Nas voltas eternas da vida, ele cansou-se de vir. Um dia não chegou à hora certa. Um dia não se atrasou. Um dia não chegou de todo. Em vez dele, veio o descompasso dos tempos. Mas, como eu não o amava, quando ele não veio, não deixou saudade. Não senti a sua falta.
Ele vinha sempre à mesma hora. O silêncio. Enchia a casa, o quarto, a minha alma. Sim. Era um amante certo e complacente. Não me deixava só por entre as paredes de solidão. Mas eu nunca o amei. Porque eu amo o som. A música. E o amor que vem sem hora marcada, encher a casa com todos os sons de uma vida plena.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mataste-me a poesia



Às vezes, olhando o enquadramento azul e perfeito do papel, as linhas delineadas, o branco imaculado, penso assim. Mataste-me a poesia.
Não é um pensamento solto. Não é um pensamento raro. É um pensamento que teima em esgueirar-se, por entre as muitas felicidades da vida, derramando o negro de si sobre tudo o que eu sei ser bom. E insiste, nessa constante de agarrar e pousar a caneta. Insiste em fazer com que pense em ti, em tudo o que és para mim e na forma como arrancaste de mim as mágoas que me serviam a arte.
Se os poetas são tristes, mataste-me a poesia. Pergunto-me com que direito vieste afugentar os meus fantasmas. Pergunto-me se saberias que a mágoa, a dor, a solidão me cantavam cantigas de embalar, no tom dos deuses antigos, qual prece eterna. Era delas que bebia a inspiração. E, sem elas, fiquei perdida no enquadramento perfeito do papel em branco.
Por entre o bloqueio constante de não encontrar dor em mim e de ter esbatido, já, a memória do sofrimento, perco-me nos arco-íris, sem que eles me digam com que palavras pintar estrofes. Se há versos, eles não rimam. Andam soltos. Soltos por aí, num lugar que não o meu. Não me vêm ter à mente, ou às mãos, ou à alma. Ensinaste-me a sorrir e mataste-me a poesia.
Um dia, deste-me a mão. Noutro, um beijo. Disseste que me amavas. E eu dei-te a mão, um beijo, disse que também te amava. Digo que te amo muitas vezes. Mas já não sei falar de amor. Não sei falar do amor que fere, que magoa, que arranca do peito a sanidade. Não sei falar do amor sofrido, da espera intemporal, do adeus perpétuo e da condenação a uma morte de respirações forçadas. E não sei falar desse amor, justamente porque falar de amor me faz sorrir, na memória das mãos, dos beijos, das palavras que trocámos. Mataste-me a poesia.
Ando por aí, no desassossego de já não saber se sou poeta. E, se não o for, ando também no desassossego de não saber quem sou. Na realidade eu sei: sou feliz. É isso que sou. E é por isso que as palavras que antes vinham beijar-me as lágrimas e se entregavam por compaixão, fogem agora de mim e não se dão. Apagaste-me a dor. Arrancaste-me a mágoa. Mataste-me a poesia.
Foi assim. Sorriso a sorriso. Beijo a beijo. Mataste-me a poesia. Penso-o, de sorriso no rosto e por não saber não o pensar. Não escrevo, contemplo o papel, lançando também à minha vida perfeita esse olhar de contemplação.
E, de sorriso indolente no rosto, sem saber chorar, sem querer chorar, sem sentir o choro, eu olho as linhas intocadas do papel em branco. E, de alguma forma, olhando o enquadramento azul e perfeito do papel, as linhas delineadas, o branco imaculado, penso assim: Mataste-me a poesia. Não é um pensamento solto. Não é um pensamento raro. É um pensamento que teima surgir, nessa forma insensata. Vou pensando que me mataste a poesia. Na verdade, salvaste-me a vida.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eles



Ele tinha aquele ar gingão de moço perdido na vida. Ela podia ter saído da capa de uma revista de moda. Ele usava um blusão roqueiro e botas de tropa. Ela andava de vestido e saltos altos. Ele tinha o semblante fechado, uma cor doentia, um sem-fim de traços negros na expressão. Ela sorria.
Andavam nas mesmas ruas. Ele não tinha medo de nada. Ela tinha medo de quase tudo. As pessoas desviavam-se dele e ficavam a olhar para ela. Aprovavam-na e reprovavam-no com a mesma rapidez. Ela era meiga. Ele era rude. Ela amava o sol na pele. Ele preferia a chuva.
Tinham  vidas diferentes. Ela morava na cobertura do prédio mais alto da cidade. Ele morava num quarto arrendado na baixa. Ela tinha os pais à espera, na hora do jantar. Ele jantava à frente dos videojogos. Ela estava na universidade. Ele tinha desistido dos estudos havia muito tempo.
Amanhecia. Ela acordava cedo. Ele ainda não se tinha deitado. Com um espreguiçar leve, ela comeu um croissant misto e bebeu um sumo natural de laranja. Ele tomou a ultima cerveja e deitou-se vestido sobre a cama. O dia começava para ela. O dia acabava para ele.
Era tarde quando ele acordou. Ela estava nas aulas. Ele tinha a pele marcada por dezenas de tatuagens, interligadas. Ela tinha a pele imaculada. Ele apanhou do chão a roupa  amarrotada e trocou a que tinha vestida por aquela. Ela tinha optado por usar calções e uma blusa passada a ferro, que ainda cheirava ao detergente de jasmim.
Saíram. Ele foi ter com um amigo e ficou a vê-lo grafitar a parede de um prédio, enquanto bebia uma cerveja. Ela correu para a aula de dança. Ele gostava de arte urbana. Ela era apaixonada por arte clássica. Ele também. Gostavam os dois particularmente de pintura. Ela amava a fase azul de Picasso. Ele preferia o surrealismo de Dali.
Naquele dia, ele estava a fumar na esquina. Ela estava a sair da aula de ballet. Cruzaram-se. Ele tinha olhos azuis. Ela tinha olhos verdes. Olharam um para o outro. Prenderam o olhar por um momento longo demais. Ele tinha tempo. Ela também. Deram as mãos. Falaram. Apaixonaram-se. As pessoas comentaram. Eles ensurdeceram para o mundo. Aproximaram os rostos. Escreveram um conto de fadas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

No tempo das vindimas



Para o meu avô


No tempo das vindimas, estava quente. Ou é essa a memória que eu tenho do tempo das vindimas. São traços soltos de pensamento, meio esbatidos, quase como se tivesse sido apenas um sonho. Eu era menina. Ficam-me as saudades de ser menina. E as memórias - ou sonhos em retalhos - quem sabe dizer?
Lembro-me vagamente do céu azul. De olhar para cima, para a árvore grande. Que árvore era? Uma nogueira? Não tenho a certeza. Chamávamos-lhe "árvore grande". Para mim, era ainda maior. Tudo parece maior quando se é pequenino. O sol cortava as folhas e fazia pequenos desenhos por entre a sombra. E a vinha estendia-se, ao fundo, cheia de uvas douradas que pediam para ser colhidas. 
Lembro-me da azáfama. Dos poceiros negros, que chegavam vazios e voltavam para o tractor cheios de uvas. Lembro-me de ter medo das aranhas e das abelhas. Lembro-me do cheiro da terra molhada e do aroma leve e azedo da fruta que tinha caído ao chão antes de ser apanhada. Lembro-me de ter os pés pesados, pelo chão argiloso que se colava às sapatilhas velhas. Mas tudo isto são memórias esvanecentes. Parecem, não só distantes mas longínquas como se fossem, não da minha infância mas de outra vida.
No tempo das vindimas, sentia-se a agitação. Lembro-me do cansaço. E nem faz sentido lembrar-me, porque o meu contributo era perto de nulo. Pediam-me para parar quieta. Não me diziam que eu incomodava. Mas eu sabia que sim. Queria brincar. Falava demais. Queixava-me constantemente dos bichos. E recolhia-me, fugindo por entre as videiras. Por vezes, ficava debaixo da árvore grande. Por vezes, ao pé das macieiras. É aí que encontro a única memória sólida e concreta do tempo das vindimas. E é estranho, porque esta, especificamente esta memória, podia ter sido feita ontem. Hoje. É clara. Como um filme que corre na memória sensorial.
Tu vinhas. Geralmente cansado. Geralmente suado. Geralmente sujo da terra e das uvas. Sentavas-me no ramo mais baixo da macieira. Eu tirava uma maçã. Ou tu, por mim, fazias o mesmo. Agarrando nela, amarela e morna do sol, estendia-ta. "Descascas, avô?". Tiravas a navalha do bolso. Andavas sempre com ela. E, com as mãos meio negras da idade, do tabaco e da lavoura, descascavas-me a maçã, como se não tivesses pressa. Como se eu não estivesse a atrapalhar. Como se, naquele momento em que descascavas a maçã e ma cortavas em gomos, não houvesse trabalho por fazer. Era o tempo das vindimas. Mas não naquele momento. Naquele momento, era o nosso tempo. Paravas. Paravas o dia, os relógios, as Estações. Tinhas a calma da eternidade nesse momento em que descascavas a maçã, com os olhos castanhos e doces e um sorriso cheio de sol. É uma memória tão concreta que me lembro do calor na pele. Tão concreta que me lembro do sabor da maçã. Tão concreta que se estende pelos anos, à medida que as vindimas deixaram de ser feitas nessa terra que já nem nos pertence.
Acho que o motivo pelo qual me lembro tão bem desse momento é porque ele não era sobre uma acção mas sobre um sentimento. Um sentimento que tento recriar, ainda hoje, sempre que tiro uma peça de fruta da árvore e a como de imediato. "É como sabe melhor", digo. E é verdade. Sabe melhor. Mas não sabe ao mesmo que as maçãs que me descascavas, no tempo das vindimas. Essas maçãs sabiam a amor.
Nunca fomos muito bons a dizermos o que sentíamos um ao outro. É incrível como nunca nos habituamos a dizer "amo-te" às pessoas que amamos mais, às pessoas que amamos desde sempre. Mas são só palavras. Teriam, talvez, o mesmo destino do tempo das vindimas, perdendo-se na memória de menina. Nós tínhamos muitas maneiras de o dizer sem dizer. Chocolates quentes e dominó e maçãs descascadas sob as macieiras que ficavam à entrada da vinha.
Já não há quem vindime. Venderam a vinha. Já mal se fala sobre o tempo das vindimas. Quando se fala, há sempre uma nuance de mágoa saudosa, presa à imagem de homem da terra que carregava poceiros cheios o dia inteiro, sem reclamar. Quando se fala, fica dentro de mim a memória de te ver voltar, esfregando as mãos, para me ajudares a sentar na árvore e me descascares uma maçã. Já não há quem me descasque maçãs, com uma navalha e um olhar de doçura.  Tornou-se mais forte, no tempo das vindimas, a memória do que já não é.
Mas é a coisa mais engraçada que a memória carrega... Em alguns dias, eu volto a ser essa criança, sentada na macieira. E, nesses dias, tu voltas a ser a pessoa forte que me olhava com ternura e me descascava uma maçã. Nesses dias, não cresci e não morreste. Nesses dias, estamos os dois naquele momento parado que criaste, tão vivido e demarcado, por entre os espectros imemoriais dos quais fiz miragem. O tempo das vindimas é, para mim, o nosso tempo. E colhíamos maçãs, em vez de uvas. Colhíamos sorrisos nos rostos um do outro. Colhíamos memórias que nunca irão desvanecer. Faço, com essas memórias, o melhor e mais inebriante dos vinhos. Um que tem a doçura da recordação e do amor. O grau da infinidade sem tempo nem hora. O corpo aveludado das sensações. Bebo desse vinho... dessa memória. Com ela, fico alegre. E a embriaguez toma a forma de um sorriso nos meus lábios. É assim que eu sei que, enquanto houver memória, haverá sempre o tempo das vindimas. Nesse pensamento, poderei sempre ser a menina das maçãs. E, enquanto o for, por maior que seja a saudade pela ausência eterna a que nos destinaram, tu jamais hás de morrer.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Fazer chorar



Preciso que saibas. De todas as pessoas no mundo, és a que mais facilmente me faria chorar. Carregas nas tuas mãos um coração que já não é meu. Carregas-me a alma. E conheces de ambos cada ferida, cada cicatriz, cada defeito. Era um toque. Uma palavra, até. Bastaria. Com a maior das simplicidades, poderias fazer-me chorar.
Não há ninguém que possa arrancar-me dos olhos o glamour abençoado das lágrimas. Mas tu podes. Bastaria o silêncio, a ausência, o abandono simples. Bastaria um gesto pensado ou impensado e uma palavra atirada ao ar, no momento certo. Não era preciso muito. Conheces de mim coisas que nem os Deuses sabem. As feridas saradas podem doer e há tantas, tantas formas como poderias abri-las ou criar novas, que nunca sarassem.
Preciso que saibas. De todas as pessoas que pisam o solo da Terra, és aquela que mais poderia fazer-me sofrer. Não porque tenhas inata a capacidade de ferir. Não porque carregues contigo o peso da guerra ou a vontade da mágoa. Não porque a tua essência se dispa de pureza. És a pessoa que mais facilmente me faria sofrer porque eu te amo. Porque é muito mais fácil sermos feridos por aqueles que nos dizem mais. Porque as pessoas a quem queremos melhor são sempre as que conseguem chegar ao que fica sob o que de mais profundo existe em nós.
Tens de compreender. E sei que compreendes: eu só sou forte na superfície muralhada da minha pele. Tudo o resto é de cristal. Tudo o resto é papel amarrotado pelo tempo. Quebro e rasgo. Perco-me de mim. E tu, de entre todas as pessoas do mundo, és a que mais facilmente veria a muralha tombar para dar lugar à certeza incauta mas real de que sou igual a tantas outras pessoas emocionais e tontas. De entre todas as pessoas que existem, és talvez a única que, à partida, não vê a muralha que rodeia a minha alma débil e desajustada. E, por entre todas essas pessoas, serias talvez o único que conseguiria quebrar-me a muralha de forma tão irreparável que a minha alma ficasse nua e eu me perdesse a mendigar nas ruas do desespero.
É isto que preciso que saibas. De todas as pessoas no mundo, és a que mais facilmente me faria chorar. E isso não é uma coisa má. Poderias fazer-me chorar com facilidade. Poderias fazê-lo porque te amo e te quero. Porque me conheces melhor do que ninguém. Porque és alguém cuja opinião conta e cujos actos me movem.

Sim, de todas as pessoas no mundo, és a que mais facilmente me faria chorar. Mas, em vez disso, és aquela que me faz rir, aquela que me faz sorrir, aquela que me faz feliz. És a minha pessoa. Podias fazer-me chorar e às vezes fazes... mas quando estou contigo, se eu choro, é de felicidade.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Rio da Saudade



No rio da saudade perdi a esperança.
O beijo da brisa veio roubar-me,
Levar-me a essência dos momentos,
A sanidade das horas tardias.
Foi à beira do rio que perdi as mãos,
Julgando que as dava ao destino
Para caminharmos, enamorados,
Num vale que era de desolação
E não de fantasia.
Construíram pontes naquele rio
E eu caminhei sobre elas…
De esperança perdida nos medos,
De medos perdidos no corpo,
De corpo dado na emoção.
No rio da saudade perdi o equilíbrio:
O equilíbrio de saber que ias estar
Na outra margem à minha espera
E fitei o teu rosto, sempre jovem,
Quando o meu reflexo me devia ser devolvido.
Então, no rio da saudade, eu parei
Parei entre margens de relva triste,
Entre pedras de mágoa ferida.
E, porque não tinha mãos ou esperança
Mas apenas pontes para lado nenhum,
No rio da saudade eu parei
E foi lá que perdi a vida…

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Diamante


Tu és um diamante em bruto e vão dizer-te que devias ser lapidado. Na busca pela perfeição, talvez os ouças e saias por aí a cortar a pele no desejo de encontrares o melhor de ti. E vais perder-te aos bocados, entre mil promessas vazias de que o melhor fica por baixo das camadas que ainda não despiste.
Tu és um diamante em bruto e vão olhar-te, muitas vezes, como se te faltasse alguma coisa. Na luta por um sonho qualquer, talvez te veja ainda a rondar vitrinas de luxúria e a chorar sobre potes de ouro, como se a riqueza do que fica dentro não bastasse.
O que vais entender um dia - ou não - é que o valor não está nos cortes nem nas somas. O valor está na essência, por detrás da imperfeição e da máscara.
Tu és um diamante em bruto  mas não o sabes. Não o sabes porque estás à procura de ti por entre as opiniões daqueles que te cobiçam ou não te vêem. E vais-te deixando lapidar, na busca incessante de vires a ser mais do que tu.
Não devias ouvi-los! Devias guiar-te pela tua alma. Devias saber que é inteiro que te tornas especial. E, nos recantos imperfeitos de ti, devias construir arestas que não dessem para limar.
Tu és um diamante em bruto que querem lapidar. Não para seres mais belo mas para que sejas igual a um milhão de outros diamantes. E eu sei que os ouves. Sei que te fazer crer que podes ser melhor e que, sem sequer o notares, te dás e te vendes por aí, te perdes e te destróis.
Gostava de te arrancar das mãos obsoletas  daqueles que te invejam e de te devolver tudo o que te roubaram. Mas tu és um diamante em bruto e ouviste, por aí, que devias ser lapidado. Então, permitiste que cortassem, aos poucos, o que te tornava quem eras: as frases meigas, os olhares cintilantes, a esperança do amanhã. Os risos sinceros, as conversas sem motivo nem agenda, o romance louco, completo, indomável.
E, enquanto te lapidavam, para te tornares numa imagem do que te idealizaram, eu fui arrancada de ti, qual aresta irregular e tola que te atrasava nessa busca pela perfeição.
Então, por muito que gostasse de te arrancar das mãos de quem te diminui e te inveja, já não posso fazê-lo. Mas não te enganes! Por muito que te cortem e te estraguem com promessas falsas de perfeições, para mim serás sempre esse diamante em bruto, de beleza desigual, do qual, por algum tempo, tive a honra de fazer parte.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O meu mundo



O meu mundo parou. Parou à tua passagem, por entre conversas e memórias de um passado que não era nosso. Ficou estático entre a compreensão das coisas, como se, por um momento, apenas eu pudesse mover-me nas horas, no espaço, no pensamento. As pessoas calaram-se. A música cessou. O relógio recusou-se a fazer avançar os ponteiros. E o meu mundo? O meu mundo parou.
O meu mundo parou, enquanto o meu coração acelerava e a minha mente corria em busca de um entendimento vão, que nunca se fez presente. Parou, simplesmente, enquanto me destruía as muralhas e as barreiras que eu tinha levado tanto tempo a construir. Parou e revirou-se, apagando-me velhas certezas e criando novos medos, novos sonhos, novas formas de entender a vida.
O meu mundo parou. E eu movi-me no desconforto da sua paragem e olhei para ti. Podia sentir nas veias o pulsar arrítmico do meu coração. Podia sentir nos meus olhos o brilho de olharem para ti. E podia sentir, por entre o meu mundo parado, a vontade de me libertar das amarras do passado para voar contigo, rumo aos locais mais longínquos, onde a realidade se esbate e os sonhos se tornam reais.
O meu mundo parou. Parou, na tua passagem, enquanto o meu peito se apertava e as minhas mãos cerravam, tentando agarrar entre os dedos a incerteza do amanhã. Parou enquanto todas as outras pessoas desapareciam, e as paredes se reajustavam e comprimiam, sem deixarem espaço para nada além de nós. E, sem nada além de nós entre as paredes comprimidas, o meu mundo cresceu de uma forma inimaginável, dando lugar a sentimentos que eu ainda não conhecia e que não me sabia capaz de encontrar. As memórias do passado desvaneceram nesses sentimentos, como se, de alguma forma, o mundo que agora parava se preparasse para me deixar começar de novo uma jornada pelos trilhos da paixão.
O meu mundo parou. Parou, à tua passagem, por entre conversas e memórias de um passado que não era nosso. Parou, sem fazer alarde, sem que eu o tivesse desejado ou previsto. Fizeste o meu mundo parar e, de alguma forma, deste-lhe uma vida que ele nunca tinha tido.
O meu mundo parou. E, subitamente, quando ele voltou a girar, o meu mundo eras tu...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Seguir


Não me vou dar ao trabalho de seguir... não até bateres a porta na minha cara, depois de dizeres que, desta vez, o adeus é para sempre. Já o fiz antes. Já me reservei o direito de forçar sorrisos. Já me dei ao trabalho de parecer feliz. Já  me forcei a atirar a vida para as mãos do destino, dizendo "faz o que quiseres!". E, de todas as vezes, entraste pela porta da frente do meu coração e derrubaste o trabalho árduo que eu tinha feito para tentar ser feliz sem ti. Roubaste-me a paz. Fizeste-o tantas vezes que cheguei à exaustão de mim. Chega. Agora chega.
Não me vou dar ao trabalho de seguir... Vou deixar os meus olhos serem o reino das lágrimas. Vou deixar o meu coração ser o mundo dos espinhos. Vou deixar a minha alma corroer no desejo de que regresses. Vou! Vou deixar-me morrer na dor, se é isso que é preciso para esperar por ti.
"Não é assim tão simples", dizem as vozes complacentes de tantos quantos acham que a mentira doce é melhor do que a verdade crua. Mas sim, é simples... simples como a desistência tácita de continuar a lutar contra os ventos e as marés e as tempestades. Não estão na minha mão, tal como o amor não está. Amar-te ou esquecer-te não são opções que possa cultivar em mim. Não é uma escolha que tenha. E se a tivesse? Quem sabe a resposta?
Não me vou dar ao trabalho de fingir. Fingir que a felicidade está num lugar onde não estás... fingir que as nuvens não estão no céu, que os rios não correm para o mar, que o sol gira em torno da Terra. Não me peças para acreditar em mentiras. Não me peças para mentir. Não há felicidade onde não estiveres. Há somente a ilusão de momentos às metades. Momentos que nunca serão completos ou bons. Momentos que pintarei com sorrisos inexpressivos e nos quais pintarei o vazio da minha alma com ilusões que não me cativam.
Não me vou dar ao trabalho de seguir. Não me vou atirar outra vez para a apatia crescente que se esconde atrás das máscaras de perfeição. Vou chorar. Vou gritar. Vou sofrer. Não vale a pena fazer isso atrás da fachada do sorriso. Não vale a pena dizer que estou bem.
Deixa-me sofrer em paz! Não tenho culpa de te amar. Não tenho forma de te amar menos ou de amar outra pessoa. Então, deixa-me... deixa-me viver na dor até o meu coração aprender a lição. Ele precisa que lhe ensinem a ser verdadeiro para consigo mesmo. Ele precisa que lhe expliquem que os sorrisos não alteram os factos e que a máscara não apaga o amor. Ele precisa de saber que é assim que viverá até desistir de bater.
Não tento mais. Para quê? Não vale a pena... não se pode lutar contra os ventos nem derrubar as marés. Não se pode impedir o coração de amar ao menos uma vez na vida...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Todas as cores do céu



Vi todas as cores do céu.
Chegaste. Azul celeste. Azul claro, transparente. Tinhas nos passos a alegria. E, andando, os passos sorriam. Azul. Como estava azul o céu nessa manhã em que chegaste. Tinhas nas mãos uma promessa de juventude que se concretizava no olhar. Azul. Azul como o céu nessa manhã em que chegaste, cheio de promessas caladas. E ouvi-as, sorrindo. No teu silêncio. No azul claro do céu soalheiro que teimava em beijar-nos os rostos. Os rostos que sorriam.
Vi todas as cores do céu.
As palavras. Cinzentas. Porquê? No adensar claro das parcas nuvens. No adensar da neblina leve, junto ao rio. O cinzento claro do céu. O cinzento das tuas mãos jovens que se moviam com desconforto. As palavras. Cinzentas, essas palavras. Falavas. E eu não entendia. Então, falavas de novo. Continuava a não entender. Creio que poderia não compreender jamais. Talvez não quisesse compreender, por querer que continuasses ali, a repeti-las, tentando que eu entendesse o incompreensível. As tuas palavras cinzentas formavam frases pardacentas. Borrões de tinta no centro da conversa que cobriam o céu nesse cinza de bruma. E eu não entendia. Repetias. Mas era tudo cinzento. Então, não entendi.
Vi todas as cores do céu.
A raiva. Vermelho. Querias que eu compreendesse. À medida que a neblina se levantava e o sol descia sobre o horizonte. Gritavas. O vermelho rabiscado do céu. As palavras de ódio. As palavras de mágoa. "Chega!", dizias. Mas era tudo encarnado. O teu rosto. O céu. Esse sentimento de revolta pelas coisas que eu não podia saber. Pelas coisas que eu não queria saber. Pelas coisas. Que coisas? Não sei! Vermelho. O céu estava vermelho. E as palavras cinzentas eram agora rubras, ensanguentadas pela morte do nosso amor. Morte? Porquê? Não entendia. Não podia entender. Vermelho. A raiva. O desespero. A quase violência dos gestos soltos. As tuas mãos movendo-se no ar, desenhando pinturas abstractas sobre como tudo foi um erro no teu percurso.
Vi todas as cores do céu.
O silêncio depois da raiva. O negro. O negro da desistência. O céu que com ela enegrecia também. Com a noite. Com o silêncio. Com o adeus. Com o teu corpo a erguer-se e a afastar-se de mim, a levar o toque e as promessas. Negro. O negro da distância que se anunciou entre nós. O negro da rua, antes da iluminação pública bruxulear e acender naquele tom amarelado e doentio por entre o negro do céu. Negro. A incompreensão. A ausência. O silêncio. A solidão. O céu. Negro. Anoiteceu-me o olhar. Anoiteceu-me a alma. Anoiteceu-me o coração vazio de ti, quebrado por ti, levado por ti. Anoiteci. Fundi-me com o negro da noite. Desapareci nele.
Vi todas as cores do céu.
Vi todas as cores do céu antes de me perguntar se havia um céu. Antes de perguntar se merecia o céu. Antes de perceber que eras o meu céu e que eu estava acorrentada à terra.
Vi todas as cores do chão. Ele era negro. Como o céu. Fiquei nele. E nunca mais amanheci.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Entre as ervas


Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Na simplicidade de um momento sem nome, ergueu-se da terra e subiu aos céus, abriu-se de beleza, deu-se ao mundo em tons plácidos e singelos, como se estivesse certa do seu destino. Como se o seu destino fosse ser flor entre as ervas daninhas.
Era pura, simples, bela. Pedaço intemporal da efemeridade do mundo, eternizada pela condição divina que a fez ser flor por entre as ervas e partilhar com elas o sol. Partilhar até esse beijo quente, qual irmã formosa dos seres mais vis.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Inesperadamente aguardada, não passou indiferente a ninguém. Todos a viram. Ali, destacando-se cada vez mais, por entre as folhas e os picos e as ervas secas e feias, ascendendo ao céu com uma simplicidade sem nome.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. À medida que o sol se erguia mais alto no céu, também ela se ergueu, espreguiçando-se para afastar os grãos e as máculas do solo onde nascera. E ergueu os braços no primeiro rebentar da alvorada. Feliz e leal, qual flor que não sabe que nasce nas imediações da morte. Qual flor que não se sabe rodeada pela inevitabilidade da mágoa.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Tomou, nessa condição, consciência de si e amou-se, na certeza de que, sem as ervas, não seria a mesma flor. Abençoou, na sua beleza pura, a envolvente verde e magoada que lhe dera cama. Flor entre as ervas, cresceu e fez-se melhor do que as flores que nascem na condição real de um jardim. E, quem passa e a nota, deseja-lhe melhor destino sem saber a sorte que é nascer uma flor entre as ervas daninhas.
Foi na simplicidade de um momento sem nome que se ergueu da terra e subiu aos céus. Foi entre as ervas e os espinhos que se deu ao mundo em tons plácidos e singelos, certa do seu destino: o seu destino que era ser flor, ainda que o fosse por entre ervas daninhas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Se morrer amanhã


Se eu morresse amanhã. O que seria eu se morresse amanhã? Um emaranhado de memórias soltas na memória de poucos. Uma presença ondeando pelos corredores, na forma de fantasma triste. Se eu morresse amanhã? O que seria eu, se morresse amanhã?
As pessoas conheceram-me triste e chorosa. Com os olhos cheios de lágrimas e o coração preenchido por amores e ódios. Não vivi uma vida de parcos sentidos. Creio que me lembrariam assim, como se eu própria tivesse sido a reencarnação dos sentimentos. Dirão que fui amor e ódio. Dirão que fui mágoa, saudade, cepticismo, pessimismo, muitas outras palavras cheias de "ades" e "ismos". O que seria eu, se morresse amanhã?
Levei a vida a chorar. Ainda assim, sonhando, gosto de imaginar que, em morrendo, não sou lágrimas. Que não sou o choro inusitado de quem por mim passou e foi tocado por esta ou aquela razão. Gostava que me sorrissem, quando o corpo liberto de alma já não puder sorrir. Gostava que me sorrissem as lágrimas choradas e que cantassem as mais belas canções de embalar, nesse meu sono eterno. E, talvez, embalada por essas canções, nesse sono, eu sorrisse também. Afinal. O que seria? O que seria eu, se morresse amanhã?
Não fiz sempre o bem nos passos sem pegadas que dei pela vida. Em alguns momentos fui crua e cruel, em alguns momentos fui louca e loucura. Discuti com o vento sobre tudo e nada. Atirei ao ar punhais de palavras que feriram sempre, certeiros, muitas pessoas que não o mereciam. Feri sempre mais quem me amava. Feri sempre mais aqueles que, de uma forma distorcida, eu própria queria mais. E afastei, com gestos e palavras muitos daqueles com quem queria partilhar a efémera eternidade humana. Mas o que é que isso faz de mim? O que seria eu se morresse amanhã?
Na mente de muitos não passei, talvez, da tonta que tentou demais. E talvez o tenha sido, sim. Foram muitas as tentativas vãs pela perfeição. O corpo perfeito, a alma perfeita, o coração perfeito, as palavras perfeitas, os resultados perfeitos. De que valeria tudo isto se eu morresse amanhã? De que valeriam as perfeições se, depois de tudo, eu for apenas a tonta que tentou o inalcançável, caminhando pela loucura imperfeita do descontentamento?
Se eu morresse amanhã. O que seria eu se morresse amanhã? O que seria eu para aqueles a quem, de uma ou outra forma, marquei a vida? O que lembrariam de mim? Passaria de um emaranhado de memórias soltas, difusas, descontentes? Não quero ser uma presença ondeando pelos corredores, qual fantasma triste. Não quero ser esse espectro imperfeito de luta constante pelo inalcançável. Não quero ser a louca que chorava. Não quero sê-lo... mas talvez o fosse. Tanta luta, tanto sofrimento. E para quê?
Amanhã ou num dos muitos amanhãs da vida virá a hora desse adeus sem retorno. E, hoje... hoje importa-me viver. Rir. Sorrir. Brincar. Amar. Ser imperfeitamente eu. Só assim não importa saber o que seria se morresse amanhã. Assim, mesmo sem o saber, sei o que sou hoje... e, hoje, sou feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Pelas ruas

Foto de Sara Augusto

Pelas ruas aonde passo, já passaram outros. Com ou sem destino, não importa. Pelas ruas onde passo, passaram outras gentes. Deixaram-lhe impressa a memória esvanecente. Ninguém lhe lembra os passos ou o rosto. A sua memória foi-se com o sol quedado de ontem ou mil sóis quedados de há séculos atrás. E eu passo.
Nas ruas aonde passo, há pedras desgastadas de ver os pés de mil homens que se fizeram em milhões de pedaços de nada. Piso-as e sou mais uma. Não tenho nome nem identidade. Pelas ruas aonde passo passaram outros que, como eu, também não o tinham.
Aprendo, a andar pelas ruas, que não importa quem sou. Andando, caminho rumo ao esquecimento, deixando as fachadas das casas cruas e as pedras cinzentas do chão. A imortalidade não é de quem passa nas ruas. Mas não faz mal. Não quero ser imortal. Imagino que uma vida basta para quem não faz mais do que ir, sem rosto, em passos firmes sem nome.
Nas ruas onde hoje passo, passaram nobres e plebeus, doutores e sem abrigo. Passaram poetas e gentes sem inspiração. Pisaram pedras igualmente gastas. Todas encardidas e sujas. A rua não se fez melhor para ninguém.
Caminhando, imagino os seus rostos. Rostos fictícios, uns pintados de pó de arroz, outros de fuligem. Imagino-lhes as roupas caras e os trapos. Dou por mim a cumprimentá-los com acenos de mão e anuências leves. E a rua deserta. Mas para mim não.
Pelas ruas aonde passo, já passaram outros. Não sei quem eram ou se eram alguém. Mas passaram, nesta rua aonde passo. Partiram. Alguns morreram. Outros estão em casa, à espera de morrer. Outros não querem morrer. Mas a rua já os matou. Matou-os a todos, num auto de fé onde arderam as memórias. Matou-os porque não precisa deles para ser rua.
Passo. A rua onde passo não o sabe. Mas passo, rumo ao esquecimento de mim. E vou olhando aqueles que, como eu, passam.
Quero perguntar-lhes se sabem que não são ninguém. Se sabem que vão morrer, deixando a rua impávida e serena. Mas as perguntas perturbam as pessoas. As pessoas já não sabem responder ao que causa incómodo nas paredes do estômago e nas entranhas da alma.
Calo as perguntas. Levo-as comigo. Não sei aonde vou. Mas a cada passo, deixo o que eu fui. Se fui alguém além do que sou. Se sou alguém além do nada ao qual a rua me condena.

Marina Ferraz

segunda-feira, 21 de julho de 2014

As velhas da praia

"Barco Negro", interpretado por Amália Rodrigues

As velhas da praia têm razão. Não voltas. O teu braço a acenar ao longe não é mais do que uma despedida eterna. O mar roubou-te de mim. Se não te levar a vida, vai levar-te a inocência. Mesmo que essa caravela retorne. Mesmo que atraque no mesmo porto. Mesmo que dela saia um homem com o teu semblante. Não voltas. As velhas da praia têm razão.
Tivemos a noite. Fui tua. Foste meu. Tivemos um amor de mar. Mas é na areia que o enterras, acenando levemente, não um "até breve" mas um "até nunca mais".
Silencio o coração, enquanto a minha mão dança, pelo ar, respondendo à tua. Mas as mãos que se despedem na distância têm já os espaços abertos entre os dedos. Nunca mais se darão uma à outra. Talvez a minha nunca mais se dê a ninguém. E as velhas, de traje negro, carpideiras de filhos e netos, insistem, num murmúrio chorado "não volta mais". Não falam de ti. Falam de todos os que, como tu, acenam no convés desse navio que vai além mar, cantar as glórias de um país em decadência.  Trarão tecidos caros, especiarias, boas novas sobre terras que ficam além do desconhecido. Mas o país estará pobre, por entre o ouro e as pedras finas. Porque, em troca, esta terra vende as mãos que antes se davam. É um preço indevido.
As velhas da praia têm razão. Por mais que grite, dentro do peito, que elas são loucas. Não são. Têm razão. O mar que te leva não poderá devolver mais do que a carcaça vazia do que foste. Abandonando o amor, verás a morte de perto. Vais achar consolo nos braços de outras moças, cuja carne saciará por instantes a fome da paixão. Passarás frio. Passarás fome. Desejarás a água pura, por entre um oceano que não te acalma a sede. E, no regresso, se a vida não te for roubada, trarás contigo tudo isto, entranhado na pele, cravado na alma. Não serás, já, o homem que esta noite me deu o mundo.
Odeio o lamurio triste destas anciãs. Essas, a quem chamo de loucas, em segredo. Mas elas estão certas. Trajam já o luto. Também eu devia fazê-lo. Não consigo. Então insisto. Insisto que, dentro de mim, ficará eternamente quem eras antes de embarcares, num aceno feito de promessas impossíveis de cumprir. Insisto que, no meu peito, serás sempre o homem pelo qual me apaixonei. Mas as velhas têm razão. Não voltas. E a louca sou eu.
As velhas da praia têm razão. Não voltas. Vais à procura da aventura. Cantarão a tua vida por muitos anos, à medida que o teu nome desaparece, no emaranhado das memórias de um país. Mas, mesmo sem nome, serás herói. Espero que valha a pena.
Vivemos um amor de mar. Acenas. E, à medida que desapareces na distância fica apenas o horizonte, que parece acenar também, na sua quietude eterna. Deixo cair o braço ao longo do corpo deserto que ontem tornaste teu. E chamo loucas às vozes intermináveis, enquanto elas se afastam, levando o seu luto e deixando o negro do sol posto. Fico, de lágrimas nos olhos. As velhas da praia têm razão. Não voltas. 

Marina Ferraz

terça-feira, 15 de julho de 2014

Possessivos



Não é sobre o amor. É sobre mim. Sobre o que eu sinto. Sobre as coisas que posso abraçar como minhas. Sobre as pequenas contrariedades do meu dia. Sobre os grandes problemas. Sobre uma constante incerteza onde antes havia apenas fragmentos de dúvida.
Não é sobre o amor. É sobre os meus braços do teu corpo. Os braços que eram meus quando me envolviam no sabor amargo da palavra mentida que jurava, a cada momento, que era para sempre. É sobre os meus olhos e as minhas lágrimas vertidas, que percorriam o meu rosto e caíam nas minhas mãos vazias.
Não é sobre amor.  É sobre o meu sorriso. O meu sorriso dado na rua, eterno vagabundo de esquinas polidas por corpos sem vontade. O meu sorriso, comprado e vendido, nas minhas palavras corridas num "está tudo bem".
Não é sobre o amor. É sobre mim. Sobre quem eu sou. Sobre quem eu me tornei quando caí nos braços frios de um amor sem dó. Sobre a forma como o meu corpo foi abraçado apenas para ser apunhalado pelas costas. Sobre a forma como as minhas mãos se fecharam ao redor de outras apenas para descobrirem como é apertar o vazio de uma memória que não esbate, não ameniza, não desvanece...
Não é sobre o amor. É sobre o que é meu por entre esta vida onde, olhando, nada me pertence de facto. É sobre o possessivo constantemente negado pela vontade insaciável do desespero. É sobre o roubo completo e triste de tudo o que há de importante e válido num ser que vive.
Não é sobre o amor. Não é sobre a disposição calada de uma paixão ardente que gelou. É sobre o que ficou na minha memória quando tudo abandonou a minha vida.
Não é sobre amor. Acreditem! Não é! Sobre amor são os poemas frios e os textos insípidos de quem chega a casa e tem algo de seu. Isto não é sobre amor. É sobre o meu amor. Porque quando chego a casa não tenho nada além deste sentimento que é meu e não posso partilhar, a bater-me levemente no peito e a sair-me pelos dedos, impensado. E não são meus os dedos. Não é meu o papel que beija a ponta alada da caneta. Não é meu o coração que bate. Mas o amor? O amor é meu. Apenas meu. Porque foi só ele que ficou, quando eu perdi tudo o resto.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 8 de julho de 2014

Primeiro amor



Disseram-me que o céu não era sempre azul. Assim. Com o jeito de aviso terno. Com a amargura de quem desejava dizer-me outra coisa. "O céu não é sempre azul, menina". Mas eu ripostei: "Talvez não seja, mas o sol brilha sempre...".
Explicaram-me, depois, que o sol amua sob as nuvens cinzentas. Que, por vezes, chora e chove. Que as ruas se inundam. Que faz frio. "O sol não brilha sempre", disseram. Não acreditei mas respondi. "Talvez o sol não brilhe, mas haverá sempre sorrisos quentes".
Disseram-me, num tom ainda mais triste, que estava errada. "Não, menina, por vezes o sorriso amua, como o sol e, não podendo chover, chora. A tristeza invade os recantos da alegria. A dor sobrepõe-se à vontade de sorrir...". Suspirei, num encolher de ombros. "Talvez os sorrisos escureçam, mas haverá sempre quem nos limpe as lágrimas". De novo me negaram.
"Como podes pensar assim?!", perguntaram, "As pessoas partem, desiludem, abandonam. Ficam as lágrimas e a solidão, companheiras de infância eternas e inseparáveis".
Assustei-me com a mágoa das vozes que me explicavam o mundo mas não deixei que me quebrassem. "Talvez a solidão venha", admiti, "mas haverá sempre um sonho". Abanaram veemente a cabeça, desiludidos, como se eu não entendesse a vida ou o mundo.
"Não, menina... quando a vida se move contra as vontades do mundo também o sonho se esvai, esbate e, nas entrelinhas da mágoa, desaparece". Bati o pé. Não acreditava na morte do sonho mas dei-lhes a dúvida. "Talvez", disse, enquanto acrescentava: "Mas haverá sempre o amor."
"O amor?!". A descrença das vozes fez quebrar o chão sob os meus pés. Interrompi-os: "Sim! Dirão que o amor faz sofrer, chorar, que leva à solidão. Que depois dele, nem silêncio nem azul, nem sol nem chuva. Mas o amor... o amor vai estar. Terei sempre o meu primeiro amor. Aquele que vem de dentro e me faz crer em céus azuis e sóis atrás das nuvens. Aquele que me faz saber que vou sorrir ou que, se chorar, alguém me limpará as lágrimas. Aquele que me faz lutar pelo meu sonho, mesmo quando a vida se volta contra as vontades do mundo e todos o julgam irreal. Aquele que me dá nuances de fantasia por entre os entraves da realidade. Terei sempre o meu primeiro amor. Aquele que me faz olhar ao espelho sem medo de encontrar o vazio e que me faz lutar pelas coisas em que acredito.
Não importa o que me digam. Terei sempre o meu primeiro amor. Um amor que vem de dentro, está em mim, vive e permanece nos recantos incontestáveis do meu corpo, da minha alma, da minha mente. Este é um amor maior que suplanta as vossas palavras. Um amor que suplanta os medos e as dúvidas. E é por isso que sei que haverá sempre céus azuis, sóis a brilhar, pessoas que valem a pena, sonhos reais e amores eternos. Porque podem vir as nuvens, as tempestades, as lágrimas, o abandono, a solidão, a guerra e a morte. Mas terei sempre, sempre o meu primeiro amor.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet