quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eles



Ele tinha aquele ar gingão de moço perdido na vida. Ela podia ter saído da capa de uma revista de moda. Ele usava um blusão roqueiro e botas de tropa. Ela andava de vestido e saltos altos. Ele tinha o semblante fechado, uma cor doentia, um sem-fim de traços negros na expressão. Ela sorria.
Andavam nas mesmas ruas. Ele não tinha medo de nada. Ela tinha medo de quase tudo. As pessoas desviavam-se dele e ficavam a olhar para ela. Aprovavam-na e reprovavam-no com a mesma rapidez. Ela era meiga. Ele era rude. Ela amava o sol na pele. Ele preferia a chuva.
Tinham  vidas diferentes. Ela morava na cobertura do prédio mais alto da cidade. Ele morava num quarto arrendado na baixa. Ela tinha os pais à espera, na hora do jantar. Ele jantava à frente dos videojogos. Ela estava na universidade. Ele tinha desistido dos estudos havia muito tempo.
Amanhecia. Ela acordava cedo. Ele ainda não se tinha deitado. Com um espreguiçar leve, ela comeu um croissant misto e bebeu um sumo natural de laranja. Ele tomou a ultima cerveja e deitou-se vestido sobre a cama. O dia começava para ela. O dia acabava para ele.
Era tarde quando ele acordou. Ela estava nas aulas. Ele tinha a pele marcada por dezenas de tatuagens, interligadas. Ela tinha a pele imaculada. Ele apanhou do chão a roupa  amarrotada e trocou a que tinha vestida por aquela. Ela tinha optado por usar calções e uma blusa passada a ferro, que ainda cheirava ao detergente de jasmim.
Saíram. Ele foi ter com um amigo e ficou a vê-lo grafitar a parede de um prédio, enquanto bebia uma cerveja. Ela correu para a aula de dança. Ele gostava de arte urbana. Ela era apaixonada por arte clássica. Ele também. Gostavam os dois particularmente de pintura. Ela amava a fase azul de Picasso. Ele preferia o surrealismo de Dali.
Naquele dia, ele estava a fumar na esquina. Ela estava a sair da aula de ballet. Cruzaram-se. Ele tinha olhos azuis. Ela tinha olhos verdes. Olharam um para o outro. Prenderam o olhar por um momento longo demais. Ele tinha tempo. Ela também. Deram as mãos. Falaram. Apaixonaram-se. As pessoas comentaram. Eles ensurdeceram para o mundo. Aproximaram os rostos. Escreveram um conto de fadas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Anónimo disse...

Gosto muito destas "histórias" que escreves. :) Devias continuar a apostar neste estilo!

MarianaLeal disse...

Tomara que fosse tudo tão fácil assim na vida real.. Vale a pena sonhar :)