quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A dor que senti



A dor que senti lá atrás
Serviu-me de emenda
Aprendi a tratar a mágoa
Com respeito:
Abro-lhe as portas do peito,
Sorrio ao vê-la chegar.
Não sei quanto vai ficar
E, porque não sei, aceito.
Dou-lhe mesa, dou-lhe leito
No aconchego perfeito
De quem não a quer expulsar.

A dor serviu-me de emenda:
Aprendi que sou capaz
De andar com o peso alheio,
Arrastando as coisas más.
Trato a mágoa com respeito
E até lhe quero bem:
Foi nela que adormeci
Chorando em noites sem fim
Quando não estava ninguém.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Acho que prefiro a solidão



Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser crua, mas não é cruel.
Dar a mão ao vento ou dá-la a alguém que a aperta, que a larga. Que a recebe e a usa como guia na cegueira. Só. Sem que outro motivo se encontre nesse ato. O de dar as mãos. Seguir o vento. Antes o vento. Até ao abismo que leva ao mar. Até ao mar que não fere a alma.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ferir mas não infeta.
Sentir o corte. O frio cortante da água desse mar. E dar o corpo à sensação. Do toque das águas. Ou dá-lo na cama. Ao calor. De abraços que viram correntes e nos arrastam para baixo. Sempre. Afogar no fogo e morrer quando a perda de fôlego se transforma em sufoco e nos impede a vida. Uma dor que é oceano.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode doer mas não massacra.
O olhar do sol que nos faz rasgos argilosos na alma. Sentir o moldar do tempo, feito de barro, nos nós dos dedos que se apertam no vazio. Ou o olhar de alguém que um dia nos vê mundo e, no outro, nos vê no mundo. E depois nem nos cantos concretos do nada ou nas ilusões da plenitude.
Acho.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode matar, mas não tortura.
Sonhos cadentes nas estrelas que se alinham pelos traços da mão onde a sina cigana se leu. Eternidades de incontável desespero, que é galáxia sempre em torno de nós. Um desapego que se faz universo. Ou universos nas mãos do amor que se torna sonho maior. Alfa. E destrói o que fica fora dos meandros do seu controlo afetivo. Efetivo. Um medo que não se diz e que tem pernas e braços e lugares que nunca serão visitados. Além dos limites da vida. Além dos limites do tempo.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser triste, mas não é miserável.
Ela pode ser mácula mas não é rasgão.
Ela pode ser linha, mas não é rasura.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser sozinha. Mas não é só.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

(A)mar


Mar. Como a-mar. Um gelo que se desfaz e que tolhe sentidos. Que olha nos olhos e os mareja. De mágoa. E sal. De maresia.
São olhos marejados. De mar. Como a-mar. Um esmorecer do tempo e dos sentidos. Como vento. Como sombra. Como sobra.
Olhos magoados. Mágoa que se faz dor e mata. Mar. Maré. De ilusão poente, sob os raios do final da vida.
Mar. Como a-mar. Há mares no teu nome. E identidades frouxas entre os teus dedos por não os dares a ninguém. Como se os traços das mãos fossem desenhos criados pelos depojos do tempo e quisesses lê-los de trás para a frente, numa demanda por ouro e especiarias.
Mar. Como a-mar. Só que com ondas que se fazem espuma em vez de ansiedade. E agruras que dispersam. E algas em vez de alguéns. Algures. Além. Uma espécie de céu que se reflete e é só chuva e que se liberta apenas para se prender de novo nos enleios de insanidade.
Mar. Como a-mar. Uma infinitude desfeita. Que embate contra margens de concreto e nelas causa desgaste. O erodir da alma sob correntes frias de desolação. E nelas nadam promessas que não serão cumpridas, boatos que não serão verdade e opiniões que ninguém pediu. São corais secos, empetrecidos e cinzentos, que abrigam memórias e desalentos de tempos e histórias e tempos sem história e histórias sem tempo.
Mar. Como a-mar. Olho. Pergunto quem é. Mas não sei quem sou. E, como não há resposta, fico-me a perguntar se, lá no fundo do mar, há um espaço para mim. Para a-mar. Como em mar. Mas feliz.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Em nome da nossa Mãe




Caro Senhor Presidente,

Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. E afaga-me o rosto com a mão do vento, assegurando-me de que vai ficar tudo bem. Na sua suavidade primaveril, ela vai dizendo que nos ama. A mim e a si. E a todos os outros filhos, de forma igual.
Na noite, ela ainda me embala com a mesma canção lunar que também a si chega, sem cobranças nem palavras de ódio, nem ressentimentos. E, nos dias de sol, ela ainda nos beija a pele, dando-nos a dádiva dourada da felicidade estival.
A nossa mãe não deixou de o amar. Ainda é dela a respiração que lhe permite subir aos tronos onde se cultivam guindastes e se semeia betão. Ainda é dela o ar que faz vibrar as cordas vocais, permitindo que chovam torrentes de detrito orgânico que não servem nem os fins da fertilização dos campos agrícolas.
Ela não deixou de o amar. Mas eu disse-lhe: «Mãe, este homem que te ofende e te destrói não é meu irmão e não o amo». Pacientemente, ela fez-me olhar a distância. Perder as contas das estrelas e dos rasgos de luz no mar. Esquecer a mágoa nas clareiras das árvores. Aprender a cantar juntamente com as cotovias simplesmente porque amanhece. E, abrindo-me os olhos com uma suavidade só sua, respondeu. «Não semeies ódio, esperando que te cresça amor». E eu aprendi, aos pouquinhos, com uma paciência muito menor do que a da nossa mãe, a não o odiar.
Não lhe vou pedir que saia da sua mansão de pedra branca para visitar esta mãe que tanto o ama… porque sei que, provavelmente, lhe veria apenas o potencial rentável na destruição, qual filho que não quer mais do que herança que vem depois da morte. Mas escrevo, ainda assim. E faço-o porque a minha geração terá filhos, e os seus filhos terão filhos que serão também pais, mais tarde. E nesta história de nascimentos e vidas, a nossa mãe poderá começar a sentir a revolta que as suas mãos plantam – com ódio – esperando, não amor, mas lucro.
Não vou dizer para abrir os olhos. Não. Para quê? De olhos abertos, ainda será cego, no encadeamento desse ouro que não vai levar para a cova. Mas vou dizer que sei que, no final, no derradeiro final, vai cumprir o desejo da nossa mãe.
Senhor presidente. A terra que governa, têm-a por sua. Mas não o é. Não é a Terra que nos pertence. Somos nós que pertencemos à Terra. E a mãe que nos dá vida e nos abarca, recebe-nos num abraço que nos torna, também a nós Terra. Havemos de a fertilizar, com a nossa carne e os nossos ossos. Havemos ser unos com ela e uns com os outros.
Senhor presidente. Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. E gostaria de dizer que ela o condena. Mas não. Ela não precisa de si, nem do seu esforço, nem da sua redenção. Por mais que lhe tire, de forma abrupta e sem consideração, ela continuará a dar, sem pedir nada em troca.
Senhor presidente. Hoje planto palavras onde não quero silêncios. E falo em nome de uma mãe cuja voz soará muito depois de não se ouvirem os seus gritos no púlpito. Escute. Está em todo o lado. No sopro do vento. No toque da terra. No nascer do sol. E cada dia que nasce é uma vitória. Porque ela, que só lhe quer bem, fica um passo mais perto do abraço que, em medidas ilógicas, hoje não pode dar. Aquele abraço final que se dá na terra, à medida que nos arrefece o corpo e nos vinga alma. Aquele abraço que se dá quando nós próprios retornamos à origem e nos tornamos mais ricos do que a ganância humana.
Senhor presidente. Escrevo em nome da mãe. Da Natureza. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. Mas sei que anseia por o encontrar, para esse abraço final que vos tornará unos. Anseia. E todos nós, senhor presidente, talvez com um pouquinho mais de rancor no coração, ansiamos o mesmo.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O umbigo



Quando eu era pequena, os meus pais diziam-me, às vezes “não tens umbigo”. E eu, muito aborrecida, lá puxava para cima as camisolas interiores, exteriores, casacos e mais o que houvesse para puxar, apenas para provar que, no centro da minha barriga, estava esse buraquinho que eles diziam que não tinha.
Ser criança tem destas coisas.
De alguma forma, nessa fase, eu não dizia que tinha umbigo. Mostrava-o. Talvez porque a inteligência infantil nos faça saber que os adultos não acreditam em nada que não vejam. E, ao mostrá-lo, vinham risos e cócegas e mais risos. Que me distraíam daquela frase que me perturbava. “Não tens umbigo”.
Ser criança tem destas coisas.
Cresci a saber que o tinha – o umbigo. De alguma forma, assumi que, como eu, toda a gente tinha um, embora não fizesse muito caso disso. Era natural e pouco importante. Como quase tudo, na fase em que os sonhos – tão reais como o umbigo – se manifestam e traduzem em momentos de ilusão, fomentados pela televisão e aniquilados pelas escolas.
Ser criança tem destas coisas.
Talvez por não pensar muito nele, o umbigo nunca me incomodou. Até começar a perceber que ele podia, muito bem, ser o centro. Não o meu centro. O centro do mundo. E que, da mesma maneira, o umbigo dos outros podia ser, para eles, a mesma coisa.
Descobri com facilidade que, para muita gente, é mesmo assim. Nunca ninguém lhes tinha dito que não tinham umbigo. E, talvez por isso, exibiam com frequência e por necessidade demente essa parte de si.
Algumas pessoas que conheci passavam tanto tempo a olhar para o próprio umbigo que se esqueciam de tudo o resto. Até de quem estava perto. Até dos sonhos que deviam ter cultivado. Esqueciam. Olhavam apenas o próprio umbigo, com uma fascinação tão grande que era como se não soubessem antes que ele estava ali.
Encontrei dessas pessoas nas escolas, é verdade. Mas também no trabalho. Também nas filas dos supermercados. Até mesmo na tela da televisão, principalmente nos canais de discussão política.
Um verdadeiro programa do reino animal, com programação alargada e espetáculo ao vivo em cada recanto da rua. As pessoas fazem um reality show dos seus umbigos e é para eles que olham a tempo inteiro. Às vezes, sem mesmo precisarem de levantar as camisolas interiores e exteriores e os casacos. Descobrem-no e fascinam-se com ele. Torna-se um vício. Olhar para ele. E só.
Incapazes de viverem sem esse amor profundo que desenvolvem pelo próprio umbigo. Que, provavelmente, antes nem sabiam que tinham, as pessoas dedicam todos os seus passos ao mesmo. E todas as justificações são feitas em torno dele. Do umbigo.
Ser adulto tem destas coisas.
Fico feliz que me tenham dito que eu não tinha umbigo. Tornou-me consciente de que o tinha e livrou-me da necessidade de olhar constantemente para ele. Às vezes olho. E, num ou outro momento, também faço dele o centro do mundo. Mas não é sempre. Porque aprendi, em criança, que, provavelmente, não era só eu que tinha umbigo. E que o umbigo dos outros devia ser como o meu.
No olhar que às vezes lanço sobre o meu umbigo, sinto que perco paisagens do mundo e oportunidades. Então, faço por não olhar muitas vezes só para ele. Mas, quando os olhos me largam esse ponto epicêntrico da barriga, o cenário é simples: está toda a gente a olhar para o próprio umbigo.
Um fascínio que não se quebra com a constatação de que ele existe. O umbigo. E que move as pessoas. E que toma decisões pelas pessoas. E que faz as pessoas viver em torno de uma coisa só. O seu próprio umbigo.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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