terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sempre à mesma hora



Ele vinha sempre à mesma hora. Não tinha compromissos que o prendessem nem devaneios que o atrasassem. Vinha sempre à mesma hora. Enchia a sala, enchia-me o peito, enchia-me a vida. Todos os dias. Sempre à mesma hora. Não falhava nunca. Não me deixava sozinha, sem razão. Mudava tudo o que fosse necessário. Não se queixava disso. Não se aproximava com um mau humor tardio, como quem alterou tudo para estar ali. Vinha. Vinha e ficava. Sem mais delongas. Sem desculpas. Sem problemas. Mas eu nunca o amei.
Ele vinha sempre à mesma hora. Não trazia palavras escusadas. Sentava-se ao meu lado, olhando para mim, sem exigências. Não importava se eu queria ver um filme, se queria trabalhar, se queria escrever ou simplesmente deitar-me sobre a cama e ceder à preguiça ou ao sono. Não importava o que eu fizesse. Pacientemente, ele vinha. Vinha sempre à mesma hora. E ficava ali, junto a mim, a acompanhar-me, afastando a solidão das paredes com a sua presença quieta. Era mais calmo do que tudo o resto na minha vida. E estava mesmo ali. Mas, mesmo assim, eu não o amava.
Ele trazia consigo uma paz incomparável. Sentava-se. Sossegava. Não me interpelava com nenhuma ânsia pelo que eu não tinha para dar. Vinha, como uma respiração. Casualmente. Sem necessidades suplementares nem desejos excessivos. Trazia a calma. Uma eterna calma que se estendia pelas paredes brancas. Quando vinha, vinha também esse sossego incontestável. Mas, mesmo assim, eu não o amava.
Ele vinha sempre à mesma hora. Às vezes trazia consigo a voz cansada de um amanhã perdido no anteontem da vida. Mas não se deixava atrasar. Vinha. E, vindo, trazia com ele as memórias. Sempre, todos os dias. Tentava acarinhar-me o rosto. Tentava adentrar-me o peito. Tentava preencher-me a mente. Às vezes eu deixava. Deixava porque ele vinha sempre à mesma hora. Deixava porque ele não trazia palavras escusadas. Deixava pela paz que me trazia. Ainda assim, apesar de tudo, mesmo deixando, nunca o amei.
Nas voltas eternas da vida, ele cansou-se de vir. Um dia não chegou à hora certa. Um dia não se atrasou. Um dia não chegou de todo. Em vez dele, veio o descompasso dos tempos. Mas, como eu não o amava, quando ele não veio, não deixou saudade. Não senti a sua falta.
Ele vinha sempre à mesma hora. O silêncio. Enchia a casa, o quarto, a minha alma. Sim. Era um amante certo e complacente. Não me deixava só por entre as paredes de solidão. Mas eu nunca o amei. Porque eu amo o som. A música. E o amor que vem sem hora marcada, encher a casa com todos os sons de uma vida plena.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Muito bom mesmo,esse silêncio que insiste em se fazer presente,mas assim que some nem sentimos falta :)
"Ele vinha sempre à mesma hora. O silêncio. Enchia a casa, o quarto, a minha alma. Sim. Era um amante certo e complacente. Não me deixava só por entre as paredes de solidão. Mas eu nunca o amei. Porque eu amo o som. A música. E o amor que vem sem hora marcada, encher a casa com todos os sons de uma vida plena."
Parabéns querida
Beijinhos Jenny ♥ ♥