quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Reflexo



No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Então, demorei a perceber o que estava errado. Demorei a compreender porque é que, olhando, me parecia que a pessoa que me devolvia o olhar não era eu.
O meu reflexo tinha as mesmas feições. Talvez um pouco mais esguias. Talvez cobertas por uma camada mais espessa de maquilhagem. Talvez sobrepostas num corpo que trajava outras roupas. Mas o meu reflexo, aquele que me devolvia o olhar cheio de sonhos, ainda tinha o meu olhar, ainda vinha com os mesmos traços do rosto.
No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Mas, ao mesmo tempo, parecia que eu me faltava, naquela imagem reflectida com a qual eu me assemelhava tanto. Movi-me com desconforto. O meu reflexo imitou-me. Suspirei. O meu reflexo suspirou comigo.
Quem és tu? - perguntei à pessoa do espelho que, deliberadamente, como apenas eu sei fazer, repetiu a pergunta e não me respondeu. A ausência de resposta, impregnada de teimosia e enfado, foi, em si, a resposta que eu procurava quando perguntei "quem és tu". E cruzei os braços sobre o peito, erguendo o sobrolho, enquanto a imagem reflectida insistia em ridicularizar cada movimento, imitando-o.
No meu reflexo, eu ainda parecia eu. E, depois, compreendi o que estava errado. Como se a imagem que mostrava aquele rosto que, sem sombra de dúvidas me pertencia, fosse subitamente, não uma réplica de mim mas a verdade sobre tudo o que sou. E senti a vontade de me fundir na imagem do espelho, de desaparecer nela e de, juntas, nos anularmos mutuamente até eu não ser ninguém. Não precisei. Não precisei de adentrar os limites vítreos do espelho. Senti-me um reflexo de mim. Compreendi.
Não sou ninguém. - anunciei. Um pensamento que soou na minha voz. Uma voz que o espelho já não tinha e que eu me sentia perder cada vez mais. Não sou ninguém e não tenho voz. Emudeci nesse pensamento, pelo medo de que, se tentasse dizê-lo, ele soasse a nada e não houvesse som. Estou a desaparecer. E o pensamento, pelo medo de ser ouvido, soou baixinho, dentro de mim. Estou a desaparecer. Repetiu, num eco constante que me assustou e fez endurecer a expressão que o espelho reflectia.
Aproximei-me do espelho. Aproximei-me tanto que a minha respiração o embaciou e a imagem desfocada de mim se perdeu, no enevoado de um suspiro. Não quero morrer. Tentei dizê-lo mas a voz faltou-me. Ou talvez me faltasse apenas o desejo da voz. Ou tão somente a vontade de desejar o que quer que fosse. Entrei num mundo de silêncio. E de desassossego. E de apatia. E o espelho ia reflectindo o rosto, sempre igual, naquele reflexo de alma.
Quem és tu? - gritei, em desespero. Queria soltar as palavras. Estava farta de as prender. A imagem do espelho não moveu os lábios na minha pergunta. Em vez disso, retraiu-se e ficou com os olhos tristes e vidrados por lágrimas. Continuei a gritar, louca e loucura, por entre mundos de desassossego. Estava farta da apatia, do silêncio, da calma daquele reflexo de mim que eu já não queria ser. Quem és tu?
A imagem do espelho limpou o rosto. Encolheu os ombros. Eu sou o que tu escolheres fazer de mim.
Acordei. Acordei desse sonho. No meu reflexo, eu ainda parecia eu. Mesmo com o cabelo desgrenhado e o rosto marcado pela almofada e todos os traços desalinhados da manhã. Era uma escolha minha. Quis parecer feliz. Então sorri. E o meu reflexo sorriu comigo. 

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Adorei,esse "reflexo" de cada um de nós,místico e sensível
"No meu reflexo, eu ainda parecia eu. E, depois, compreendi o que estava errado. Como se a imagem que mostrava aquele rosto que, sem sombra de dúvidas me pertencia, fosse subitamente, não uma réplica de mim mas a verdade sobre tudo o que sou."
Parabéns querida
Beijinhos Jenny ♥ ♥

MIDTCLA disse...

gostei...vivi,reacenei...