quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Ameno



O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não. O amor não é para ser ameno.
O amor quer-se quente, desenfreado e louco. O amor quer-se nos intervalos entre a paixão, o medo, o encanto, a luxúria. O amor quer-se nos recantos ensurdecedores de um coração desaforado. O amor é para ser devasso, às vezes, para ser intempestuoso, quando calha. Para nos aquecer as almas no centro do corpo e o corpo no centro da cama, no centro do mundo, no centro da vida. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não.
O amor quer-se em beijos sem pudor e nas mãos dadas pela rua. O amor quer-se em folias desiguais e na seriedade infantil das horas. De vez em quando, quer-se que aqueça ao ponto do impossível, que ruborize o rosto e envergonhe. De vez em quando, quer-se frio, duro, ponderado. O amor é um tudo e nada instável. Um quente e frio em constante permuta. E é assim que deve ser. O tempo. Esse deve ser ameno. O amor não.
O amor quer-se por entre a multidão ou na falsa solidão do deserto. Quer-se à mesa, no sofá, na cama. Quer-se no chão e nas paredes. Quer-se no corpo vestido e na alma nua; quer-se na alma coberta e no corpo exposto. O amor quer-se, no temporal das paixões e no calor  das amarguras. O amor quer-se quando começa a ventania, para dar conforto e quando a serenidade pede pelo afago. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não.
O amor é para ser louco. O amor é para rebolar na areia da praia, para correr por entre as árvores da floresta, para cair nas colinas do tempo. O amor é para arrancar o riso, arrancar o choro, arrancar o que fica de permeio entre uma coisa e a outra. É mesmo assim: extremista e ponderado, instável e volúvel. O amor é para ser explosivo, para ser inteiro, para ser inconstantemente constante nas nossas vidas. É para ser quente, para ser frio, para ser cálido ou glacial, para ser soalheiro ou chuvoso. Às vezes umas coisas, outras vezes outras. Às vezes tudo ao mesmo tempo. Tanto faz. Mas ameno? O tempo lá fora, sim, deve ser ameno. O amor não!
O amor não nasce para ser insosso, intermédio, cómodo. O amor nasce invernoso nos Verões. E desafia, puxa os limites, acrescenta pontos, lima arestas, constrói mundos melhores com pessoas melhores. O amor estimula, afronta, busca o que fica atrás dos sentidos, constrói sentidos novos, luta contra os códigos e as convenções e até com as luas e as marés, se for preciso. O amor pode dar conforto, claro. Mas não pode, não deve, ser conformista, acomodar-se, amenizar-se. O tempo lá fora, quer-se ameno. O amor não.
O amor é feito de amizade e de paixão e de desejo. O amor é feito de companheirismo, de ardor, de afeição. E é feito de luta constante: por um, pelo outro, por ambos... por um lugar melhor, por ser melhor, por ter melhor. E, tão cheio de tudo, o amor é chama e arde e consome. É terra e céu. E às vezes, no amor, chove e faz frio. Às vezes faz sol e aquece até ao limiar da impossibilidade. O tempo, lá fora, quer-se ameno. O amor não. Um amor ameno seria amor a menos. E amor a menos não é amor. Por isso, embora o tempo se queira ameno, o amor não. Nunca o amor...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

2 comentários:

Bárbara Castro disse...

"Um amor ameno seria amor a menos." Concordo, se for assim nem vale a pena :)

Jennyfer Aguillar disse...

Adorei,o amor tem que ser sentido de forma intensa e verdadeira "O amor é para ser louco. O amor é para rebolar na areia da praia, para correr por entre as árvores da floresta, para cair nas colinas do tempo. O amor é para arrancar o riso, arrancar o choro, arrancar o que fica de permeio entre uma coisa e a outra. É mesmo assim: extremista e ponderado, instável e volúvel."
Parabéns querida
Beijinhos Jenny ♥ ♥