terça-feira, 11 de novembro de 2014

Amor cativo



Eu não sou o céu. Admirei-me, por isso, quando escolheste sentar-te a meu lado, em vez de voar. Perguntei-me se terias visto as minhas asas e ignorado as raízes que, feito correntes, me prendiam ao solo. Depois reparei que olhavas para elas, que sabias que eu não podia fugir da realidade para te dar um pouco desse céu que eu não sou.
Enquanto te sentavas, cada dia mais perto do meu coração, questionei-me se terias enlouquecido. E, cada vez que te aproximavas, confirmavas as suspeitas que eu guardava no peito. Mantinhas as asas fechadas e olhavas-me como se no meu rosto visses milhares de sóis, espelhados em pontinhos luminosos e incandescentes de luz. Tentei dizer-te eu não era o céu. Talvez fosse noite. Talvez fosse trevas. Mas não era céu. Não havia estrelas, nem galáxias, nem sonhos distantes em mim. Eu era prisioneira da terra onde criara raízes.
Cada vez mais perto, notaste-me por fim as asas. As asas negras e fechadas. As asas imperfeitas e  mirradas que já não sabiam abrir-se. Chorei, de te ver tocares-lhes com as pontas dos dedos. Perguntaste se me estavas a magoar. E, deixando as lágrimas cair no rosto triste, disse que não. Expliquei que não podia voar. Repeti que não era o céu. Que nunca poderia ser, para ti, essa imensidão de luas e luares.
Levantaste-te. Pensei que ias embora. Entendi que não me espantaria que fosses. Aceitei que o adeus era tudo o que podia morar nesse movimento leve, lento, subtil. E, sabendo o quanto magoam as raízes, aprendi a deixar que fosses, por mais que a saudade viesse ocupar o lugar que deixavas a meu lado. Não disse palavra que te indicasse que deverias ficar. Ainda assim, depois de te levantares, não partiste. Envolveste-me o corpo nos braços e disseste que me amavas.
Uma palavra de amor. Simples. Calma. Sem artifícios desnecessários. Sem avisos forçados. Senti quebrar as raízes que me prendiam ao solo e o negrume que me tornava escrava da noite. Abri as asas. Descobri que o seu negro se iluminava no calor do sol. Podia ser livre. Por fim. Mas também te amava. Então, acorrentei o meu coração ao teu. Vi-te abrir as asas também. E voámos juntos por aí.
Eu não sou o céu. Tu não és o céu. Mas sentaste-te a meu lado. E enquanto estivermos juntos não há céu que não possa ser nosso.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

6 comentários:

Patricia Campos disse...

gostei do texto :)

Sílvia Caseiro disse...

Adorei o texto :)

Elizabete disse...

Adorei o seu texto. Bastante apaixonante.

kassie disse...

Belíssimo texto, gostei muito!

Jennyfer Aguillar disse...

Adorei demais,é intenso,cada palavra dá uma sensação nova e especial.
Parabéns querida
Beijinhos Jenny ♥ ♥

MIDTCLA disse...

profundo, lindo viajo sempre em teu escritos...indescritivel esta semcibilidade