terça-feira, 12 de agosto de 2014

Entre as ervas


Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Na simplicidade de um momento sem nome, ergueu-se da terra e subiu aos céus, abriu-se de beleza, deu-se ao mundo em tons plácidos e singelos, como se estivesse certa do seu destino. Como se o seu destino fosse ser flor entre as ervas daninhas.
Era pura, simples, bela. Pedaço intemporal da efemeridade do mundo, eternizada pela condição divina que a fez ser flor por entre as ervas e partilhar com elas o sol. Partilhar até esse beijo quente, qual irmã formosa dos seres mais vis.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Inesperadamente aguardada, não passou indiferente a ninguém. Todos a viram. Ali, destacando-se cada vez mais, por entre as folhas e os picos e as ervas secas e feias, ascendendo ao céu com uma simplicidade sem nome.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. À medida que o sol se erguia mais alto no céu, também ela se ergueu, espreguiçando-se para afastar os grãos e as máculas do solo onde nascera. E ergueu os braços no primeiro rebentar da alvorada. Feliz e leal, qual flor que não sabe que nasce nas imediações da morte. Qual flor que não se sabe rodeada pela inevitabilidade da mágoa.
Nasceu uma flor entre as ervas daninhas. Tomou, nessa condição, consciência de si e amou-se, na certeza de que, sem as ervas, não seria a mesma flor. Abençoou, na sua beleza pura, a envolvente verde e magoada que lhe dera cama. Flor entre as ervas, cresceu e fez-se melhor do que as flores que nascem na condição real de um jardim. E, quem passa e a nota, deseja-lhe melhor destino sem saber a sorte que é nascer uma flor entre as ervas daninhas.
Foi na simplicidade de um momento sem nome que se ergueu da terra e subiu aos céus. Foi entre as ervas e os espinhos que se deu ao mundo em tons plácidos e singelos, certa do seu destino: o seu destino que era ser flor, ainda que o fosse por entre ervas daninhas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Adorei,muito lindo,a flor que nasce qual nasce a esperança,por entre ervas daninhas. Perfeitamente lindo.
Parabéns querida.
Beijinhos Jenny ♥♥♥♥

Anónimo disse...

De todos que eu li esse é o meu preferido,tem tanta pureza e simplicidade que o torna o melhor para mim.

Mariah Silva disse...

Gostei muito do texto,vi a indicação da Jenny e foi ótimo parar para ler. :D :D
Ps:A professora Regina ia adorar ler.