terça-feira, 19 de agosto de 2014

Todas as cores do céu



Vi todas as cores do céu.
Chegaste. Azul celeste. Azul claro, transparente. Tinhas nos passos a alegria. E, andando, os passos sorriam. Azul. Como estava azul o céu nessa manhã em que chegaste. Tinhas nas mãos uma promessa de juventude que se concretizava no olhar. Azul. Azul como o céu nessa manhã em que chegaste, cheio de promessas caladas. E ouvi-as, sorrindo. No teu silêncio. No azul claro do céu soalheiro que teimava em beijar-nos os rostos. Os rostos que sorriam.
Vi todas as cores do céu.
As palavras. Cinzentas. Porquê? No adensar claro das parcas nuvens. No adensar da neblina leve, junto ao rio. O cinzento claro do céu. O cinzento das tuas mãos jovens que se moviam com desconforto. As palavras. Cinzentas, essas palavras. Falavas. E eu não entendia. Então, falavas de novo. Continuava a não entender. Creio que poderia não compreender jamais. Talvez não quisesse compreender, por querer que continuasses ali, a repeti-las, tentando que eu entendesse o incompreensível. As tuas palavras cinzentas formavam frases pardacentas. Borrões de tinta no centro da conversa que cobriam o céu nesse cinza de bruma. E eu não entendia. Repetias. Mas era tudo cinzento. Então, não entendi.
Vi todas as cores do céu.
A raiva. Vermelho. Querias que eu compreendesse. À medida que a neblina se levantava e o sol descia sobre o horizonte. Gritavas. O vermelho rabiscado do céu. As palavras de ódio. As palavras de mágoa. "Chega!", dizias. Mas era tudo encarnado. O teu rosto. O céu. Esse sentimento de revolta pelas coisas que eu não podia saber. Pelas coisas que eu não queria saber. Pelas coisas. Que coisas? Não sei! Vermelho. O céu estava vermelho. E as palavras cinzentas eram agora rubras, ensanguentadas pela morte do nosso amor. Morte? Porquê? Não entendia. Não podia entender. Vermelho. A raiva. O desespero. A quase violência dos gestos soltos. As tuas mãos movendo-se no ar, desenhando pinturas abstractas sobre como tudo foi um erro no teu percurso.
Vi todas as cores do céu.
O silêncio depois da raiva. O negro. O negro da desistência. O céu que com ela enegrecia também. Com a noite. Com o silêncio. Com o adeus. Com o teu corpo a erguer-se e a afastar-se de mim, a levar o toque e as promessas. Negro. O negro da distância que se anunciou entre nós. O negro da rua, antes da iluminação pública bruxulear e acender naquele tom amarelado e doentio por entre o negro do céu. Negro. A incompreensão. A ausência. O silêncio. A solidão. O céu. Negro. Anoiteceu-me o olhar. Anoiteceu-me a alma. Anoiteceu-me o coração vazio de ti, quebrado por ti, levado por ti. Anoiteci. Fundi-me com o negro da noite. Desapareci nele.
Vi todas as cores do céu.
Vi todas as cores do céu antes de me perguntar se havia um céu. Antes de perguntar se merecia o céu. Antes de perceber que eras o meu céu e que eu estava acorrentada à terra.
Vi todas as cores do chão. Ele era negro. Como o céu. Fiquei nele. E nunca mais amanheci.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Milton Kennedy disse...

Bom dia,
vim conhecer seu trabalho por indicação do amigo Veloso.
Parabéns pela inspiração.
Cordial abraço e paz interior.

VELOSO disse...

Parabéns por seus Escritos! Eu fui o ganhador de um Textoseu no Sorteio da Página Galega e seus Livros! Postei ele esta semana numa Blogagem Coletiva com o tema Família estou vindo para agradecer e conhecer mais do seu trabalho postei seu trabalho com uma pequena Biografia se quiser que acrescente algo ou mesmo se tiver alguma restrição a publicação é só dizer!
Um abraço e felicidade em tudo e sempre.

Jennyfer Aguillar disse...

Adorei o texto,tem um tom de sombridade e um tom de lírico. Amo mesmo. Você sempre usa as palavras certas.
Beijinhos Jenny ♥