segunda-feira, 21 de julho de 2014

As velhas da praia

"Barco Negro", interpretado por Amália Rodrigues

As velhas da praia têm razão. Não voltas. O teu braço a acenar ao longe não é mais do que uma despedida eterna. O mar roubou-te de mim. Se não te levar a vida, vai levar-te a inocência. Mesmo que essa caravela retorne. Mesmo que atraque no mesmo porto. Mesmo que dela saia um homem com o teu semblante. Não voltas. As velhas da praia têm razão.
Tivemos a noite. Fui tua. Foste meu. Tivemos um amor de mar. Mas é na areia que o enterras, acenando levemente, não um "até breve" mas um "até nunca mais".
Silencio o coração, enquanto a minha mão dança, pelo ar, respondendo à tua. Mas as mãos que se despedem na distância têm já os espaços abertos entre os dedos. Nunca mais se darão uma à outra. Talvez a minha nunca mais se dê a ninguém. E as velhas, de traje negro, carpideiras de filhos e netos, insistem, num murmúrio chorado "não volta mais". Não falam de ti. Falam de todos os que, como tu, acenam no convés desse navio que vai além mar, cantar as glórias de um país em decadência.  Trarão tecidos caros, especiarias, boas novas sobre terras que ficam além do desconhecido. Mas o país estará pobre, por entre o ouro e as pedras finas. Porque, em troca, esta terra vende as mãos que antes se davam. É um preço indevido.
As velhas da praia têm razão. Por mais que grite, dentro do peito, que elas são loucas. Não são. Têm razão. O mar que te leva não poderá devolver mais do que a carcaça vazia do que foste. Abandonando o amor, verás a morte de perto. Vais achar consolo nos braços de outras moças, cuja carne saciará por instantes a fome da paixão. Passarás frio. Passarás fome. Desejarás a água pura, por entre um oceano que não te acalma a sede. E, no regresso, se a vida não te for roubada, trarás contigo tudo isto, entranhado na pele, cravado na alma. Não serás, já, o homem que esta noite me deu o mundo.
Odeio o lamurio triste destas anciãs. Essas, a quem chamo de loucas, em segredo. Mas elas estão certas. Trajam já o luto. Também eu devia fazê-lo. Não consigo. Então insisto. Insisto que, dentro de mim, ficará eternamente quem eras antes de embarcares, num aceno feito de promessas impossíveis de cumprir. Insisto que, no meu peito, serás sempre o homem pelo qual me apaixonei. Mas as velhas têm razão. Não voltas. E a louca sou eu.
As velhas da praia têm razão. Não voltas. Vais à procura da aventura. Cantarão a tua vida por muitos anos, à medida que o teu nome desaparece, no emaranhado das memórias de um país. Mas, mesmo sem nome, serás herói. Espero que valha a pena.
Vivemos um amor de mar. Acenas. E, à medida que desapareces na distância fica apenas o horizonte, que parece acenar também, na sua quietude eterna. Deixo cair o braço ao longo do corpo deserto que ontem tornaste teu. E chamo loucas às vozes intermináveis, enquanto elas se afastam, levando o seu luto e deixando o negro do sol posto. Fico, de lágrimas nos olhos. As velhas da praia têm razão. Não voltas. 

Marina Ferraz

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Simplesmente magnifico. Cada palavra,cada verso,cada emoção transmitida. Eu amei o texto todo.
Parabéns querida :)
Beijinhos Jenny ♥