terça-feira, 15 de julho de 2014

Possessivos



Não é sobre o amor. É sobre mim. Sobre o que eu sinto. Sobre as coisas que posso abraçar como minhas. Sobre as pequenas contrariedades do meu dia. Sobre os grandes problemas. Sobre uma constante incerteza onde antes havia apenas fragmentos de dúvida.
Não é sobre o amor. É sobre os meus braços do teu corpo. Os braços que eram meus quando me envolviam no sabor amargo da palavra mentida que jurava, a cada momento, que era para sempre. É sobre os meus olhos e as minhas lágrimas vertidas, que percorriam o meu rosto e caíam nas minhas mãos vazias.
Não é sobre amor.  É sobre o meu sorriso. O meu sorriso dado na rua, eterno vagabundo de esquinas polidas por corpos sem vontade. O meu sorriso, comprado e vendido, nas minhas palavras corridas num "está tudo bem".
Não é sobre o amor. É sobre mim. Sobre quem eu sou. Sobre quem eu me tornei quando caí nos braços frios de um amor sem dó. Sobre a forma como o meu corpo foi abraçado apenas para ser apunhalado pelas costas. Sobre a forma como as minhas mãos se fecharam ao redor de outras apenas para descobrirem como é apertar o vazio de uma memória que não esbate, não ameniza, não desvanece...
Não é sobre o amor. É sobre o que é meu por entre esta vida onde, olhando, nada me pertence de facto. É sobre o possessivo constantemente negado pela vontade insaciável do desespero. É sobre o roubo completo e triste de tudo o que há de importante e válido num ser que vive.
Não é sobre o amor. Não é sobre a disposição calada de uma paixão ardente que gelou. É sobre o que ficou na minha memória quando tudo abandonou a minha vida.
Não é sobre amor. Acreditem! Não é! Sobre amor são os poemas frios e os textos insípidos de quem chega a casa e tem algo de seu. Isto não é sobre amor. É sobre o meu amor. Porque quando chego a casa não tenho nada além deste sentimento que é meu e não posso partilhar, a bater-me levemente no peito e a sair-me pelos dedos, impensado. E não são meus os dedos. Não é meu o papel que beija a ponta alada da caneta. Não é meu o coração que bate. Mas o amor? O amor é meu. Apenas meu. Porque foi só ele que ficou, quando eu perdi tudo o resto.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

3 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Esse é um texto que contém a mais perfeita beleza.Sobre o amor que você sente,não como qualquer outra pessoa sentiria,é pessoal e de forma profunda.Amei,muita gente vai identificar-se com ele,tenho certeza :)
Parabéns querida,beijinhos Jenny ♥

Love Bondage disse...

Lindo demais!

LIRIO DO CAMPO disse...

INCRIVEL COMO ESTES TEXTOS SÃO LINDOS E UM LIVRO COM UMA RIQUESA IMPAR AMO A TODAS PAGINAS... CONTINUE ESCREVENDO...