terça-feira, 8 de julho de 2014

Primeiro amor



Disseram-me que o céu não era sempre azul. Assim. Com o jeito de aviso terno. Com a amargura de quem desejava dizer-me outra coisa. "O céu não é sempre azul, menina". Mas eu ripostei: "Talvez não seja, mas o sol brilha sempre...".
Explicaram-me, depois, que o sol amua sob as nuvens cinzentas. Que, por vezes, chora e chove. Que as ruas se inundam. Que faz frio. "O sol não brilha sempre", disseram. Não acreditei mas respondi. "Talvez o sol não brilhe, mas haverá sempre sorrisos quentes".
Disseram-me, num tom ainda mais triste, que estava errada. "Não, menina, por vezes o sorriso amua, como o sol e, não podendo chover, chora. A tristeza invade os recantos da alegria. A dor sobrepõe-se à vontade de sorrir...". Suspirei, num encolher de ombros. "Talvez os sorrisos escureçam, mas haverá sempre quem nos limpe as lágrimas". De novo me negaram.
"Como podes pensar assim?!", perguntaram, "As pessoas partem, desiludem, abandonam. Ficam as lágrimas e a solidão, companheiras de infância eternas e inseparáveis".
Assustei-me com a mágoa das vozes que me explicavam o mundo mas não deixei que me quebrassem. "Talvez a solidão venha", admiti, "mas haverá sempre um sonho". Abanaram veemente a cabeça, desiludidos, como se eu não entendesse a vida ou o mundo.
"Não, menina... quando a vida se move contra as vontades do mundo também o sonho se esvai, esbate e, nas entrelinhas da mágoa, desaparece". Bati o pé. Não acreditava na morte do sonho mas dei-lhes a dúvida. "Talvez", disse, enquanto acrescentava: "Mas haverá sempre o amor."
"O amor?!". A descrença das vozes fez quebrar o chão sob os meus pés. Interrompi-os: "Sim! Dirão que o amor faz sofrer, chorar, que leva à solidão. Que depois dele, nem silêncio nem azul, nem sol nem chuva. Mas o amor... o amor vai estar. Terei sempre o meu primeiro amor. Aquele que vem de dentro e me faz crer em céus azuis e sóis atrás das nuvens. Aquele que me faz saber que vou sorrir ou que, se chorar, alguém me limpará as lágrimas. Aquele que me faz lutar pelo meu sonho, mesmo quando a vida se volta contra as vontades do mundo e todos o julgam irreal. Aquele que me dá nuances de fantasia por entre os entraves da realidade. Terei sempre o meu primeiro amor. Aquele que me faz olhar ao espelho sem medo de encontrar o vazio e que me faz lutar pelas coisas em que acredito.
Não importa o que me digam. Terei sempre o meu primeiro amor. Um amor que vem de dentro, está em mim, vive e permanece nos recantos incontestáveis do meu corpo, da minha alma, da minha mente. Este é um amor maior que suplanta as vossas palavras. Um amor que suplanta os medos e as dúvidas. E é por isso que sei que haverá sempre céus azuis, sóis a brilhar, pessoas que valem a pena, sonhos reais e amores eternos. Porque podem vir as nuvens, as tempestades, as lágrimas, o abandono, a solidão, a guerra e a morte. Mas terei sempre, sempre o meu primeiro amor.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet 

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Amei esse texto,cada afirmativa rebatida e cada nova proposição,a amargura X a crença em belezas da vida e,finalmente o amor,o único sobre o qual sabemos muito e não o explicamos. Só o amor...
Parabéns querida :)
Beijinhos Jenny ♥