quarta-feira, 2 de julho de 2014

Gavetas do pensamento



Os pensamentos perderam-se nos confins de mim. Misturaram-se, quebrados, com a realidade infalível e a ilusão sadia de uma qualquer utopia chamada felicidade.
As memórias baralharam-se com os sonhos, quais rostos distantes e indefinidos. Não há marcadores separando o que foi do que poderia ter sido. Não há indicações que tornem precisa a noção do que é real e do que nunca o foi.
Preciso de arrumar as gavetas da minha mente. Preciso de as esvaziar, de deitar fora o que não presta, de guardar somente aquilo que, olhando, me faz sorrir. Acima de tudo, preciso de encontrar razão para as coisas desnecessárias  e obsoletas que guardei, atiradas sem cuidado para o meio  de poemas tristes e de memórias desusadas de um ontem que ficou nos sonhos para amanhã.
Será que ainda mora na desarrumação dos meus desejos alguma esperança vã? Perdi a que trazia comigo e não a encontro em lado nenhum. Estará entre os livros e as fotografias da minha mente?
Preciso de arrumar as gavetas do meu pensamento. De as limpar até serem menos opacas, menos baças, menos tristes. Preciso de  as esvaziar um pouco, para que nelas possa entrar o que quer que seja.
Hei-de te avisar se encontrar a esperança, embora não tenha esperança de a encontrar. Mas, deixa-me arrumar as gavetas juvenis e caóticas do meu pensamento. No topo delas só se vê a desordem que ficou e a poeira amontoada pelos anos de desespero.
Preciso de arrumar as gavetas do meu pensamento. Quem sabe se, no fim, não fica um espaço livre para guardar um pouco de felicidade.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Eu ameii o texto Mah,é triste,porém é lindo. Eu adoro as palavras que usa e como se encaixam perfeita e suavemente.
Parabéns querida.
Beijinhos Jenny ♥