terça-feira, 18 de outubro de 2016

Neuro B



São quatro paredes. E uma janela pequenina. Que dá para outra parede. E para o telhado. E para as árvores, lá ao longe, junto ao estacionamento. As árvores verdes. Todas menos uma. Vermelha. A anunciar o Outono. Chamando para si os olhos cansados das paredes e tetos. E dos sofrimentos. E das lágrimas que – como se quer – caem dentro da alma e não transparecem. Às vezes é preciso retardar o Outono em nós.
O suspiro nasce, entre os segundos de silêncio, sempre quebrados. Seja por um bip mecânico, por um grito ao longe, por uma conversa ocasional no corredor. E, lá ao fundo, orgulham-me os traços ciganos de dezenas de meninos e meninas, de senhores e senhoras, todos sentados à espera, com fé e sacos de comida. Nos olhos ciganos encontro algo de muito familiar. Como traços de uma mão que é minha. E sempre demoro a perceber porquê. É uma familiaridade reticente, de alguém que desviou o olhar. Mas sei. Sei onde vi aquele olhar cigano. Vi-o no espelho, pela manhã. Recheado da mesma preocupação, do mesmo medo, da mesma angústia. Cheio de rezas aos Deuses e de pedidos à Mãe. Cheios de desespero. Cheios de tudo o que me esvazia por dentro.
Encho-me de pontos finais. Para que, em vez de conclusos sejam apenas reticências, repetidas no limite louco da impaciência. E cada segundo é uma vitória. E cada vitória é um salto de fé. De um ponto para o outro. Sempre reticente. Sempre ali.
Da comida levada aos lábios. Da mão nas costas. Do beijo no rosto. Da palavra. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Acredita comigo. Monstro eu, que me debruço na cama, à procura de ver o que não se encontra senão no leito do amor que se deu toda a vida. E monstro a vida que me faz debruçar sobre os medos que me tingem o amor e o tornam dilacerante e atroz. O sumo pela palhinha. O lenço que pende. A voz que se arrasta num “ai”.
Ao lado, alguém que tem dores não tem família. Nem voz que diga mentiras alegres. Nem alguém que simplesmente se sente e olhe para as paredes e as árvores verdes e vermelhas. Ao lado, alguém morre só numa cama de hospital. Mas nunca importa verdadeiramente o quarto ao lado. Pois não? Os outros podem bem ser apenas o que não existe. Lembremos: para eles, os outros somos nós. Os fantasmas que povoam a assombração do quarto que não existe e no qual não fica deitada uma vida cheia de sentidos. Tão egoísta é o amor que nos perdemos a achar que o mundo começa e acaba na Sala 3, Cama 36. E, se não acaba o mundo inteiro, ao menos o meu permanece ali, deitado. Entre as paredes que me esmagam.
Sorrio. Por fora. Choro. Por dentro. Lá ao longe chamam-me as regras inusitadas e nauseabundas de um mundo que acha que as prioridades que me traçam a estrada não justificam os meios nem as causas. Também lá do longe quem olha vê “os outros”. A vida é mesmo assim. Querer que ela veja é querer que os olhos cegos das sepulturas mentais se abram ao mundo, libertando, não poeira, mas gotas de sanidade. Na sua falta, ficam os meus pés assentes. Entre quatro paredes. Junto à janela pequenina. Que dá para outra parede. E para o telhado. E para as árvores, lá ao longe, junto ao estacionamento.
E cada segundo é uma vitória. Cada colher de sopa é uma vitória. Cada palavra é uma vitória. Cada passo é uma vitória. Tenho visto a fé ganhar algumas batalhas. Saltos dados a custo. De um ponto para o outro. Sempre reticente. Não faz mal. Vamos devagar. Eu estou aqui. 


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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