quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Segredos de um monstro


Vou contar-te um segredo. Deixa-me só fechar a porta e confirmar que mais ninguém me pode ouvir. E promete, promete aqui e agora, que não vais contar a ninguém! As promessas são sagradas, sabias? Então, promete. Acredito em ti, se me prometeres...
Está bem então. Dá-me as mãos e olha-me bem dentro dos olhos. Ouve com atenção. Não vou voltar a dizer estas palavras. E não fujas, está bem? Por favor...
É simplesmente isto: Sou sensível demais e rude, quando me magoam! Tenho as lágrimas sempre próximas dos olhos e não há nada de bonito no meu choro. Choro assim, literalmente baba e ranho, até ao nariz ficar vermelho e os olhos inchados. Sim, não digas a ninguém: mas é muito fácil magoarem-me. Também sou chata e vingativa. Não gosto que me firam de propósito. Não gosto que se aproximem de mim apenas para me beberem a paz. Não gosto que me tentem roubar os sonhos e não aceito que me digam que não existem contos de fadas.
Shiu! Não me repitas tão alto. Não quero que nos ouçam. Mas sim, eu acredito em contos de fadas e sim, em fadas também. Nunca as vi, é claro, mas gosto de acreditar que estão lá todas as noites, a aconchegarem-me as mantas e a rirem baixinho das minhas lágrimas para eu sorrir também e dormir melhor.
Mas é ainda pior do que isto! Eu também sou cruel. Choro, sofro, grito, respiro fundo. Porque não há nada de bom numa reacção apressada e, na maioria das vezes, não preciso de provocar a queda de ninguém. Mantenho-me simplesmente por perto, num lugar de honra, para aplaudir as quedas, quando as pessoas que me feriram caem por si só.
Além disto, acho que a Natureza é divina e por vezes, faço vénias às árvores e falo com elas. Podes chamar-me louca. Não serias o primeiro. Chama o que quiseres. Mas ficas a saber que às vezes, nem sempre, mas às vezes, elas respondem. E, quando o fazem, dizem coisas mais bonitas do que algum dia poderás ouvir.
Sou também uma escritora de alma. E isso não significa que tenho um dom mas que fiz uma escolha! Uma escolha que implicava seguir descalça por um caminho de espinhos, nua por entre desertos de gelo, sozinha por entre a multidão. Uma escolha que definiu o quanto seria capaz de amar, o quanto seria capaz de aguentar, o quanto seria capaz de esperar. Uma escolha que me fez olhar para dentro e procurar o melhor de todas as pessoas, confiar demais e demasiadas vezes. Uma escolha que definiu que a minha felicidade seria rara e que, quando existisse, seria privada das palavras. Sim: é verdade o que se diz por aí, os escritores são tristes. Só não dizem o fundamental... que vale a pena!
Por isso, sim! Eu sou cheia de segredos. Cada um deles feito em dor . Não contes a ninguém, está bem? Não contes porque não quero que tenham pena de mim. Não contes porque ninguém precisa de saber que, por entre tantos defeitos, ainda sou uma pessoa. Não contes a ninguém que eu sinto! Porque sim, é um segredo. Eu ser humana é um segredo. Se te perguntarem, conta apenas sobre o monstro. O monstro que não sofre e que não quer saber. O monstro que quer o mal de toda a gente. O monstro.
Contei-te o meu segredo. Eu sinto e sofro. E tu prometeste! Tu prometeste que não contavas. Então cumpre a tua promessa e segue a tua vida. Eu fico aqui. Monstro entre humanos. Porque só os monstros sentem a dor de ninguém querer saber da dor que sentem!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet (Yegin)

3 comentários:

Evelyn disse...

Lindo seu texto, na verdade, todos eles. Me identifiquei com muitos, e publicarei em minha página no facebook. Claro que sempre dando os créditos a você. Parabéns, és uma excelente escritora.

Tânia disse...

Acho que é o mais frequente nestes tempos... tentar esconder os sentimentos dos que estão perto para não sairmos magoados... e por isso mostramos apenas o monstro que existe em nós... Tem alturas em que também faço isso... é mais fácil assim...

"Porque só os monstros sentem a dor de ninguém querer saber da dor que sentem!"

Esta frase final diz tudo...

Continua... beijo grande*

Maite Nogueira disse...

Amei esse texto e adorei saber que não sou a unica "monstro" do planeta