Mondego,
Esta carta é para ti, mas não é. Porque vens de um ciclo. E esse ciclo é maior do que tu. Então, embora me dirija às tuas águas, sabes que falo também do céu e das nuvens, dos ventos e das margens, das gentes e dos peixes. Falo-te como se fosses universo. Não te importes com isso! Não penses que, na tua pequenez de rio, não mereces essa condição infinita do que vai além do mundo. Acredita, já conheci pessoas infinitamente mais pequenas e que se julgam universo... Está tudo bem!
Algures, no fino fio do teu nascimento gelado, vieste correr país até te fazeres Atlântico. Eu venho da tua nascente e até à tua foz. Fiz-me gente neta de filhos do teu nascimento. Cresci na tua margem, nunca à margem de ti. Povoo ainda a tua foz, para me banhar na ideia de me corres dentro.
Da mesma forma que não és universo, mas rio... eu não sou humanidade, mas humana. Da mesma forma que te transformo no tanto que não és, deixo-me transformar no tanto que não sou... e que me parece tão pouco.
Devo-te, nessa condição de humanidade, um pedido de desculpas. Enquanto te domávamos e vilipendiávamos com a nossa ideia de superioridade. Enquanto engendrávamos caminhos que não tinhas, impúnhamos limites que não querias e travávamos o teu correr, tiranamente esquecemos a tua força.
À força quisemos ser mais do que tu. E elogiámos os nossos feitos, negando consequências que não víamos. Mas a tua força, infinitamente superior à nossa, é paciente: caraterística que tanto falta aos humanos, como eu. Diria que é o maior antagonismo entre Natureza e homem. A tua força demora, mas não falha. A nossa é rápida e só não falha em falhar.
Galgaste as margens e bebeste as casas. Lágrimas uniram-se ao teu leito e aumentaram-te o imenso caudal. Alguns dirão que nos deves um pedido de desculpas.
Mas não. Não é para cobrar essa dívida cogitada por gente que te escrevo. Escrevo porque nós te devemos um pedido de desculpa.
Por entre tanta dor e tanta destruição, não sei se alguém se lembrará de o fazer: de te pedir desculpa. Pelos olhos fechados, pela ambição excessiva, pelo jogo do humano divino que quer controlar até a Mãe. Não posso, como imaginas, ser humanidade a desculpar-me ao universo. Quem sou eu? Mas, agora entre mulher e rio, peço-te perdão pela cegueira e pela tirania.
Como tu, impõem-me caminhos e rotas, vedam-me passagens e determinam margens. Na maioria dos dias (sou) rio... e só me apetece chorar.
Se eu chorasse, tenho a certeza: também inundava o mundo.
Uma filha da tua margem
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