terça-feira, 18 de agosto de 2015

A morte anunciada do amor



Escreveram nos jornais. Eu não sabia. O amor vai morrer.

Era o que dizia, em letras graúdas, na capa de todos os jornais. Abri um ao acaso. Logo à noite, dizia. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer.

Senti-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

A morte do amor virou manchete. Comenta-se por aí, à boca cheia. Ouço a notícia na voz de idosos que largam a mão da vida e na voz de crianças que sonham com contos de fadas. Ouço-a na voz de quem jura ter amado mil vezes e de quem acredita que o amor só acontece uma vez.

Houve quem marcasse uma vigília e, aleatoriamente, veem-se mantas negras nas janelas e lamparinas acesas à espera do cair da noite.

O conformismo apoderou-se da humanidade. O amor vai morrer. Dizem-no, como se falassem do tempo que faz lá fora. Do dia que avança. Da última novidade das revistas cor-de-rosa. O amor vai morrer. Organizou o seus afazeres. Assinou os documentos. Decidiu que não queria viver mais consigo próprio. Não explicou porquê. Há quem diga que é porque anda sempre de mãos dadas com o sofrimento. Há quem diga que tem mazelas impressas na alma, doenças de foro emocional e físico, crónicas e sem alívio possível. Mas ainda é o amor. Como pode o amor morrer? Como se mata um imortal?

Sinto-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

Onde quer que vá. Não há rua onde não se sinta o aroma pútrido da novidade. O amor vai morrer. Vê-se nos semáforos desligados e nas ruas despidas de carros e onde tão pouca gente caminha. O amor vai morrer. Fizeram cartazes de despedida. Eles gritam nas estruturas de metal. Adeus, amado amor. O cinismo do mundo. O amor não foi amado. Foi odiado, espezinhado, mal falado, mal tratado, usurpado e arrastado por aí como um trapo. Durante milénios, foi assim que trataram o amor do qual se despedem com tanta leviandade.

Todas as ruas têm o toque da morte do amor. Mas mais a tua. E caminho por ela, apenas para interiorizar o que já sei. O amor vai morrer. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Vai morrer.

Da tua janela pende um trapo negro. Dizes adeus ao amor. Talvez ao que me deste e que eu não quis devolver, na ânsia de chegar primeiro ao que era concreto e somente meu. Sinto as lágrimas penduradas nos recantos do olhar que se vidra. Sinto a saudade carregada no peito que acelera. Não vou encontrar o amor amanhã.

Escreveram nos jornais. Eu não sabia. Logo à noite, o amor vai morrer.

Devia ter-te amado ontem.


Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet 

1 comentário:

MIDTCLA disse...

A NÃO ACEITO COMO O AMOR VAI MORRER SE AMOR ELE EXISTE E UNIVERSAL VOU POR BANDEIRA ROSA...FAÇAMOS UMA GRANDE CORRENTE DE AMOR PORQUE NINGUEM VENCE O AMOR O AMOR FOI FEITO PRIMEIRO APOS AS FAMILIAS E ELE TUDO VENCE ELE E DE DEUS QUE POR AMOR NOS PRESENTEOU SEU FILHO AMADO A SERVIR DE CORDEIRO...AI AMO AMAR...COMO AMAREI MEU AMADO SEM O AMOR...MUITO BOM ESTE TEXTO NOS E DADO A REFLEXÃO...(ARRASOU)