terça-feira, 13 de outubro de 2015

Poeira



"Somos poeira de estrelas." (Carl Sagan)

Poeira. Há apenas poeira no caminho. Memórias que se desintegram e vão no vento. Um passado desfiado, desfeito, reduzido a poeira.
O tempo. Andando sempre na mesma direcção. Fragmentado na sua plenitude. Incompreensível na sua linearidade. Parece que foi ontem. Parece que passaram mil anos. Respiro. Penso que morri. Será que morri? Poeira. Poeira lenta de ponteiros irrequietos. Poeira baça, tiquetaqueada, desajustada.
Fotografia. Sobre a mesa. Sob a camada densa de poeira que fica entre o olhar humedecido pela saudade e a incapacidade de estender a mão vazia. Os sorrisos. Poeira. Todos eles rasgados pelo adeus. E a fotografia. Poeira. Grão de poeira. Memória isolada de uma felicidade que não tem lugar.
O dia. Poeira. O nascer do sol por entre os buraquinhos ovais dos estores. Poeira. Cintilando como purpurina nos primeiros raios de sol. A minha insónia. O tempo. A fotografia. A luz do sol a rasgar-me a solidão acordada. Poeira.
Há apenas poeira. No chão, na cama, na mesa, na memória. No sono que não vem. No sonho que não vai. Poeira. Há apenas poeira.
Há perguntas sem resposta. Também elas são poeira. Ausências fugazes. Corações furtados na demora de tempos que não regressam. Instantes captados pela lente. Desfocados. Sorrisos empoeirados e vazios de sentido, abertos para dar a ideia de um mundo que nunca existiu fora da ilusão construída grão a grão. Com grãos de poeira.
Mentiras. Poeira. Atiram poeira para os olhos cegos. Tudo é ilusão. O tempo que passa. A memória que desvanece. O amor que cessou. A tua vida. A minha. Os sorrisos. O Universo. Poeira.
Fazemos todos parte de um tudo que não é nada. Não definimos o nada com medo das definições. Não concretizámos o tudo por mera incapacidade.
Poeira. Não há nada além de poeira no caminho que nos leva da vida à morte. E morrer é voltar para casa.
O tempo. O relógio. A fotografia. A memória. As perguntas. A mentira. A insónia que me faz ver a poeira esvoaçar no primeiro raio dourado do sol nascente.
Poeira. Há apenas poeira. Somos apenas poeira. Não significamos nada nos meandros da infinitude do Universo. Somos apenas poeira.
Não sou ninguém. Não és ninguém. Não somos nada. O tempo. A fotografia. A insónia. O coração que dói, macerado no peito. É apenas poeira. É tudo apenas poeira. Então, porque é que dói tanto?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Analúsia Rosa disse...

Poeira... adorei o que li .
Acredito sim em muita coisa que aqui li no seu blog, e adorei !!!