terça-feira, 20 de outubro de 2015

Amo-te muito. Amo-me mais.


Amo-te muito. Amo-me mais.
São estas as palavras que falhamos em dizer. Temos medo. Medo da sociedade que diz que devemos olhar os nossos defeitos e odiá-los, numa busca constantemente insatisfeita pela perfeição. Medo de um Deus que nos aponte o divino dedo para nos acusar de sermos egoístas e egocêntricos. Medo do olhar reprovador do espelho que, de uma forma sempre crítica, nos censura o desejo de amar o ser que ali se reflecte.
Falhamos em dizer estas palavras: Amo-te muito. Amo-me mais. E talvez devêssemos dizê-las todos os dias. Pela manhã. No intervalo do café. Nos bocejos lentos do enfado quotidiano. Devíamos temperar as nossas refeições com sal, pimenta e estas palavras: amo-te muito, amo-me mais. E devíamos fazer ecoar, em cada passo, o som que elas fazem, à medida que deixam de ser só palavras e passam a ser premissas reais e cheias de sentido.
Amo-te muito. Amo-me mais.
Não é um arredondamento brusco do egotismo que permeia as ruas. É uma necessidade consciente de auto apreço que devia criar raízes claras e profundas dentro de nós. Devíamos deixar-nos saber que nos amamos. Que nos bastamos. Que estamos lá para nós próprios. Que, venha o que vier, somos a força que nos mantém de pé; a rocha que nos segura; o fogo que nos aquece; a água que nos embala. Precisamos de saber: não estamos sós enquanto tivermos de nós um amor puro e completo. E é apenas depois deste amor, profundo e para dentro, que devíamos deixar-nos olhar além da fronteira de nós para amar alguém.
Amo-te muito. Amo-me mais.
Devíamos dizê-lo! Amo a tua presença, o teu carinho, os teus gestos, as tuas palavras, a forma como completas o que havia em branco nas linhas de mim. Amo. Amo-te as cores e as tonalidades. Amo-te o perfume, o riso, a companhia. Amo até a falta que me fazes. Devíamos dizê-lo e acrescentar. Mas amo-me mais a mim. Amo a minha força, a minha perseverança, a minha crença, a minha capacidade. Amo a minha rotina, os meus sóis, as minhas luas, os meus ciclos. Amo a minha resmunguice, o meu bom humor, a minha ternura, a minha raiva. Amo-me. E devíamos dizê-lo para sabermos que podemos aguentar, da vida, o melhor e o pior. Não há nada de errado em precisar dos outros. Vivemos na dependência constante de tudo. Mas não devíamos precisar de ninguém para sermos amados. Não devíamos precisar do amor dos outros. Devíamos querê-lo, recebê-lo, acarinhá-lo e saber o seu valor. Mas não devíamos fazer dele necessidade, como se fosse água ou ar ou alimento. Esse amor que é necessário à vida, devíamos ter em nós. O amor que recebemos devia simplesmente complementá-lo. Só assim se pode andar lado a lado no amor, em vez de se ir de arrasto, cravando unhas e dentes no medo de perder alguém. A lição é essa: amarmo-nos primeiro.
 Desconfio sempre de quem ama e não se ama. O que se dá aos outros é um fragmento do que trazemos connosco. Pedaços feitos da matéria que vem de dentro. E é por isso que acredito: quem tem ódio, dá ódio; quem tem negrume, dá negrume; quem tem amor, dá amor. Não podemos dar o que não temos. E precisamos de ter amor para podermos dá-lo. É uma aprendizagem difícil mas necessária. Seja a quem for, é preciso dizer: é em mim que cultivo o amor que te dou. Por isso, amo-te muito mas amo-me mais. E espero que me ames e te ames mais. Para podermos ir, lado a lado, como iguais, felizes e cheios de um amor que durará até que a vida nos seja tomada.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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