quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O imortal



Para o meu avô

O telefone tocou. E, deitada na minha cama, eu fingi que não sabia. Mas há momentos assim. Em que sabemos. Se o telefone toca, principalmente na noite caída, traz apenas consigo o aviso das lágrimas por devir.
O telefone tocou. Como uma respiração mecânica. E deixou de tocar. E eu chorei. Foi a única altura em que chorei. O meu choro não foi visto por ninguém. Das lágrimas que caíram na almofada, ninguém teve aviso ou vislumbre. Ninguém soube delas. Por isso, foi exactamente como se eu não tivesse chorado. Para todos os outros, foi assim: o telefone tocou e eu não chorei.

De mãos dadas com a ilusão, decidi, mais do que senti, que não ia chorar. Decidi que era uma escolha minha. Criei ao meu lado uma realidade diferente. Melhor. Mais concreta. Dela, fiz navio. Mas mais ninguém embarcou. E ninguém soube. Tomaram-me, certamente, o rosto que não chorava por outra coisa qualquer. Disse baixinho para mim que não importava. A ti, disse outra coisa. Disse que te faria imortal. E, se de todos os outros retirei a incapacidade da compreensão, de ti retirei a resposta, na forma do vento e uma presença que ainda hoje se senta ao meu lado e me apoia no melhor e no pior da vida.

Tornar-te imortal tornou-se a meta dos meus olhos que não choravam. Eu sabia. Só morre de verdade quem é esquecido. Não acreditei que tinhas partido e, talvez por isso, não foste a nenhum lugar senão aquele que permanece sempre em mim. A morte não é o que leva a alma e deixa o corpo. A verdadeira morte é o esquecimento que o tempo traz. O tempo não ameniza dores. Esbate memórias. Alguns, ficam felizes de as ver esbater, justamente porque lembrar magoa. Mas eu tinha as promessas. Não ia chorar. Havia de te tornar imortal. E, em alguns dias, doeu a memória que ficava e me fazia lembrar da ausência. Mas não estavas ausente. Não chorei. Procurei sempre lembrar-me.

Lembrar-me significou escrever-te. Escrever sobre ti. Contar ao mundo sobre o nosso chocolate quente, o nosso dominó, a nossa partilha no tempo das vindimas. Significou dizer que fui uma menina a pedir copos de água, noite após noite, e que foste uma figura paciente a cruzar o corredor para me fazeres as vontades. Foi aos pouquinhos. Deste conta? As pessoas souberam de ti. Subitamente, já não vivias apenas na memória de quem te amou. Vivias também no espaço das gentes que não te conheceram. E permanecias, nas linhas, intocado, pontuado por reticências e exclamações que não podem ser apagados. Aos poucos e poucos, a memória tornou-se história. A história tornou-se livro. Tu tornaste-te imortal.

Do telefone que toca, já só guardo nuances de memória. Mas de ti, de ti guardo as memórias concretas e que não deixo esbater. Cada memória é um fragmento das asas com as quais construo a vida que vivo na demanda pela tua imortalidade. E ficas vivo, em mim e no mundo que deixaste, justamente porque as lágrimas que não verti fazem sentido. É o dom e a maldição das palavras - têm o poder de roubar à morte o padrão irreverente do esquecimento que ameniza; têm o poder de roubar aos Deuses a decisão de um fim concreto e sem retorno.

Não chorei. Tu não morreste. Ainda não. Não até eu morrer e te levar comigo nessa viagem sem retorno. Porque escolhi tornar-te parte de mim. E viver-te nestas linhas que ficarão muito depois de eu própria ter cedido. Não chorei porque chorar seria dizer adeus. E eu não disse. Em vez disso, prometi a mim mesma. Prometi-te a ti, num silêncio só nosso. Não irias morrer nunca. Não te deixaria morrer.

Odiavas ver pessoas chorar. E há quem chore. Não leves a mal. As pessoas pensam que morreste. Eu sei que és imortal. Hoje, sorrio-te, embora não te veja. E sei que me sorris de volta. Eternamente.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Um texto que me deixou muito emocionada,lembrei de quando meu avô partiu,numa manhã até ensolarada em que o telefone também tocou e eu também chorei,mas hoje,quando lembro dele,é um sorriso que esboço no rosto,com a certeza que ele viverá em mim,mesmo quando o tiverem esquecido,ele ainda está aqui,dentro da parte que reservei somente a ele :D
Amei <3
Beijinhos Jenny ^.^