– Senha A57 ao balcão 3.
No balcão 3 aguardava uma menina de bata branca, com a caneta enfiada no bolso do peito e unhas pintadas de rosa. Não era a minha vez, mas, aguardando há mais de dez minutos, acabara por me render ao banco baixo e desconfortável mais próximo daquele guichê. A menina aguardou um pouco, sem chamar outra senha e, aproximando-se em passos vagarosos, um casal de idosos aproximou-se. Ambos soltaram o adequado boa tarde, ao qual a farmacêutica respondeu com tranquilidade, não denotando impaciência ou aspereza. Sorri. É bom encontrar humanidade nos balcões da vida, gente sem pressa que toma o tempo devido para agraciar os outros com a doçura de um gesto, de um sorriso. Pensava justamente nisto quando o senhor estendeu a receita, para aviar os medicamentos. Dois papéis sobrepostos, que a farmacêutica leu, batendo unhas no teclado que tinha à sua frente.
– Leva já tudo? – perguntou. Os idosos entreolharam-se brevemente.
– Só para este mês... – disse o senhor e notei que ela lhe apertava mais o braço.
– Pergunta, Zé... – ele anuiu.
– A menina sabe dizer-nos em quanto fica?
Ela respondeu. Não vou reproduzir aqui o valor que disse, que este blog não serve para obscenidades dessas. Direi apenas que o meu estômago se revolveu ao ver o rosto lívido de ambos perder, ali, ao balcão, alguns anos de vida.
– Desculpe? – perguntou o senhor. E ela respondeu o mesmo número, como se estas novas gerações farmacêuticas fossem instruídas a usar palavrões tristes, na forma de números megalómanos.
– Mas não são comparticipados? – a mulher deixou que a voz fina soasse, num tom que em pouco superava o murmúrio.
– Já com a comparticipação... – retorquiu a funcionária. Notei que, atrás da postura profissional que se forçava a manter, tinha na garganta o mesmo nó que eu. Os olhos eram densos e tristes.
Os idosos fizeram um compasso de espera. Ele tirou a carteira e espreitou o interior. Olhou a esposa, que lhe sorriu, despindo a preocupação do rosto de uma forma tão eficaz que eu acreditei que tivesse formação em teatro. Aclarou a voz, diva da farmácia, e disse-lhe jovialmente:
– Vá, leva os teus... deixa os meus. – e, quando ele tentou combatê-la com a pergunta então e tu?, continuou – No próximo mês levo eu os meus...
– Senha A59 ao balcão 1.
Levantei-me com o peso da empatia a prender-me ao solo. Cada perna pesava tanto como aquele casal e as suas escolhas. Arrastei-me ao balcão. Os mesmos cumprimentos. O pedido pelo medicamento de prevenção que me acabara e que gosto de ter em casa para garantir que não falte em caso de necessidade.
A farmacêutica entregou-mo.
– É só? – perguntou. E, olhando para mim, acrescentou – Está bem?
– Não, nem por isso... – uma resposta honesta que me foge, sem a pensar.
– Precisa de mais algum medicamento?
Olho para ela, negando com um abanar de cabeça. Isto não se resolve com medicamentos, resolve-se com balas. Penso. Apago este último pensamento porque não quero tê-lo... mudo-o. Isto não se resolve com medicamentos, resolve-se com cravos.
Mas, enquanto resolve e não resolve, a saúde daquele homem vale mais do que a daquela mulher este mês. E a dela valerá mais do que a dele no mês que vem. E o que fazia mesmo bem à saúde de todos era um governo que tomasse umas injeções de empatia.
Em suma, fui à farmácia. Entrei saudável. Saí doente. Tenho o peito apertado e os olhos a verter.
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