terça-feira, 14 de abril de 2026

Quanto vale...

 


– Quanto vale a sua casa?

A caixa do correio acordou curiosa, esta tarde. Quando a abri, num bocejo largo, cuspiu esta pergunta como quem cospe um folheto para as minhas mãos.

– Desculpa? – redargui. E, novamente, sem dúvidas, a mesma pergunta cuspida.

– Quanto vale a sua casa?

Achei esta pergunta muito parva.

– Ora... – Ora. Ora? Uma frase não deve acabar em “ora”, principalmente se assim começou. Parece-me que “ora” é uma resposta tão parva como a pergunta, o que, em termos de equilíbrio, deveria bastar para qualquer diálogo mundano.

Mas o que posso dizer mais? Digo só “ora” e rezo as outras verdades para dentro.

 

A minha casa é o que me separa da rua. É o meu ninho, mesmo sem ave. A minha toca, ainda que não tão ousada como a do Carlos da Maia e da Maria Eduarda. É o lugar onde a gata me procura com carência e resolve esta pobreza de afetos com mil mimos. Na minha cozinha, nascem sabores de todos os tipos: alguns com a mestria de um chef e outros às três pancadas, capazes de fazer corar por vergonha alheia até os influencers das receitas práticas. Há algumas rachas nas paredes. Penso que é da pressão interna, porque deve ser difícil conter todos os sonhos que aqui crio, pegando no computador e dedilhando textos como quem compõe ao piano. A sala guarda os meus livros e, por isso, tem lá dentro o Alentejo, o Ribatejo, Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu... Veneza e Paris e Londres e destinos fora do planeta... tantos, que enumerá-los seria impossível. Não sou grande fã de viagens... ou por outra, sou e não sou... mudar de rotina deixa-me exausta... mas aprecio que o meu sofá seja mais pródigo do que o avião a levar-me longe sem me tirar do lugar, permitindo-me jornadas que não faço por falta de capacidade económica e mental. No meu quarto, rendo-me ao cansaço inevitável da vida... que nem só as viagens cansam. Aqui me rendo, de lençol branco por bandeira, sentindo a maciez do tecido nas feridas inauditas da existência. Então, a minha casa vale muito. Tanto que o mercado, mesmo o mercado caótico que temos, não poderia apreçá-la de forma justa e inteira.

 

– Quanto vale a sua casa?

– Ora...

Esta é uma iterativa conversa, filha do folheto e da...

Reciclo o papel da imobiliária e fecho a bocarra da caixa do correio. Não sei nem quero saber quanto vale a minha casa.

 

Sei que a minha paz não tem preço...



Marina Ferraz



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