terça-feira, 17 de novembro de 2015

Recordo-me dele


Recordo-me dele. Moço peculiar dos tempos modernos. Engravatadinho e com ar de senhor dos seus passos, com sola de couro paga pelo pai e roupa passada a ferro pela mãe que o via, certamente, pelo maternal filtro opaco e que se emocionava ao chamar-lhe doutor. Ainda não era doutor. Seria, mais tarde, quando o nariz, largando as nuvens, encontrou um equilíbrio paralelo ao chão e a sua atitude petulante amenizou.
Recordo-me dele. Era um moço com muitas opiniões. Tantas, que se formavam e desvaneciam na efemeridade dos momentos. Tinha, por exemplo, uma opinião ao pequeno-almoço, com os pais, mas outra surgia, na mesma temática, assim que lia o jornal matutino. Esta evoluía no caminho para a faculdade e mudava ou não, consoante a posição tomada pelo professor. No final do dia, tinha passado por três clubes de futebol e cinco partidos políticos. Mas sempre os defendia de forma igual. Irrepreensível. Cheia de opiniões concretas e justificadas com argumentos irrebatíveis.
Recordo-me dele. Moço galante. Durante o tempo em que o conheci, encontrou vinte vezes a sua alma gémea. Aquela que referia como "a tal", "a mais bonita do mundo", "aquela com quem havia de casar". Enfatizava-lhes sempre as características. Tinham os olhos mais belos. Da sua cor favorita que, em alguns dias, era azul; noutros verde; noutros castanho. Tinham gostos iguais aos seus, quer se dedicassem ao desporto ou à costura. E as meninas derretiam nas suas palavras. Acreditavam nelas com afecto e devoção.
Recordo-me dele. Moço de lida fácil e de simples trato. Tinha muitos amigos. E concordava sempre com todos, fosse qual fosse o tema ou a ideia. Parecia viver num equilíbrio perfeito com as mentes alheias. Nunca discordava de ninguém. Nem mesmo quando, no mesmo espaço, aqueciam os ânimos na enunciação bipolar das ideias geradoras de conflito. Nunca lhe faltavam argumentos amenizadores. Defendia, em simultâneo, todas as opções com palavras recheadas de confiança e convicção. E todos queriam o brinde das suas palavras, porque era nelas que depositavam derradeira confiança.
Recordo-me dele. Moço de educação cuidada. Dizia sempre "bom dia" ao entrar na sala. Pedia-me a bênção. E a sua mãe, minha mulher, dizia "estão-lhe destinadas grandes coisas". Estavam. Tinha a mente jovem e distorcida, maleável. Bons estudos pagos, a custo, do meu bolso, tantas vezes vazio. Tornou-se político. Anda por aí a pregar a importância da família e do trabalho. Vejo-o na televisão. Digo aos companheiros da casa de repouso que é o meu filho.
Recordo-me dele. Mas, de alguma forma, ele esqueceu. De alguma forma, ele já não se recorda de mim.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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