quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Traição



Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. E soube, justamente por isso, que seria difícil encontrar quem aceitasse amar-me. Mas tinha tempo. Tempo para esperar por quem soubesse entender que, por mais que amasse a ideia do amor, não conseguiria ser a moça recatada que não se dá por aí. Eu nunca poderia estar numa relação de amor com quem não entendesse que as minhas necessidades me levavam de encontro a outros amores. E pode parecer errado em todas as formas, mas a verdade é esta: posso ser infiel mas não podem, ninguém pode, acusar-me de mentira.
A todos aqueles que quiseram amar-me, eu avisei. - Há noites em que me dou à escrita. Há dias em que permito que as palavras percorram a minha pele com as pontas dos dedos. Há dias em que conheço personagens e as deixo entrar em mim, à medida que me envolvo nos traços mais superficiais e mais profundos do seu eu. Por vezes, não vou querer estar contigo. Vou querer estar com ela. Com a escrita. E é com ela que vou adormecer. Em alguns dias, vou querer acordar nos abraços quentes que ela me dá. Vou beijá-la na boca, sentir-lhe o veneno doce da amargura e permitir que ela faça de mim o que quiser. - Sim, avisei-os a todos. E quase todos partiram. Não entenderam. Não souberam que essa traição ao amor fiel era a única forma de não trair quem eu sou. Até ele. Ele soube. Ele entendeu. Ele também não sabe estar numa relação sem trair. Dorme frequentemente com a música. Tem, com ela, quase uma segunda relação. E, de alguma forma, formamos os quatro uma família onde toda a gente se trai e ninguém se importa.
Houve um dia em que acordei sozinha. Percorri, com os pés nus, cada divisão da casa. Encontrei-os aos três. Amantes improváveis, conferenciando em frente ao piano da sala. Ele e a música e a escrita, falando-lhe na voz, cantada, insolente. Julguei, por momentos, que tinha acordado com o ciúme. Mas, olhando para a ternura daquele momento a três, não consegui sentir-me traída. Nesse dia, mais do que ele ou a escrita, aprendi a amar a música que os ligava, que nos ligava, que nos tornava um só. Não é coisa de menina de bons costumes, eu sei. Mas, nesse dia, convidei-os a fazerem parte de mim. Foi o último dia em que acordei sozinha. A minha cama ficou cheia. A minha vida também.
Há quem nasça para o amor singelo de um só e saiba amar sem ser amado. Há quem nasça para o amor a dois, sem espaço para mais nada, para mais ninguém. Há quem nasça sem amor para dar ou receber. Por todos, tenho respeito e aceitação. Mas eu não nasci para esses amores que acontecem no limite de paredes de ferro. Não nasci para os contratos. Não nasci para o espaço confinado da partilha. O amor que eu sei sentir não é somente humano. Não amo apenas o que vejo. Não amo apenas o que toco. Amo esta dimensão meio louca do que não é concreto mas toca, do que não é visível mas atormenta. E amo amar essa loucura incoerente. É um amor que trai. Trai as noções do que o amor deve ser. Trai as convenções, ditadas, escritas, impostas, tatuadas na sociedade. Mas não me trai a mim. Não o trai a ele. Não trai os nossos amores inconcretos. E faz de nós parte inegável um do outro.
Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. Ele também não. Precisámos de abrir espaço para amarmos os amores um do outro. Não queremos a fidelidade labiríntica de só estarmos nós e as paredes e os becos sem saída. Queremos dormir juntos e levar as nossas paixões para a cama, acordar do sono para o sonho. Acreditar nele. Fazer dele bandeira. Somos um do outro e da nossa arte e da nossa esperança. É impróprio e inadequado, indecoroso e lascivo. Mas é a maneira como devassamente nos propomos, todos os dias, a saber mais sobre o amor. Eu não o quero sem o seu outro amor. Ele não me quer sem o meu. E sabemos melhor do que ninguém que esta é uma traição à norma. Mas nós não amamos a norma. Amamo-nos um ao outro. E à música. E à escrita. Nunca poderíamos estar numa relação sem trair. É por isso que sabemos que seremos sempre fiéis a nós mesmos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

E se algum dia pedirem para escolher,escolha as palavras,porque elas permaneceram quando muito resolveram partir.
Muito incrível como suas palavras trazem a cena até meus olhos e me fazem percorrer essas ruas de sensações que transbordam dos textos,obrigada :D
Beijinhos Jenny ^.^