terça-feira, 8 de setembro de 2015

Com a saudade



Um aperto no peito no despontar do dia. E uma mágoa que nasce no abrir dos olhos.
Hoje acordei com a saudade. Uma saudade sóbria e sem sentido. Acordei com saudade do caos, da dor. Acordei com saudade das palavras duras, despidas, atiradas ao ar como punhais. Acordei com saudade das lágrimas e do som dos silêncios a permear a quietude dos gritos.
Hoje acordei com a saudade.
Dei por mim à procura, pela casa, de algo que pudesse trazer de volta o caótico de ti. Procurei nas gavetas e nas prateleiras. Folheei os livros, esperando que caísse, de dentro deles, um pedaço concreto que me fizesse sentir mais perto de ti. Nas gavetas, somente roupa. Nas prateleiras, somente pó. Nos livros, uma sabedoria ancestral que nada tem de tua.
Procurei na despensa, debaixo da cama, dentro dos baús. Procurei neles palavras por dizer, fragmentos de um nós rasgado, queimado, reduzido a poeira.
Hoje acordei com a saudade.
Uma saudade louca. Uma saudade consciente. Saudade do sofrimento, da amargura, da mentira que nos destruiu e de todas as outras.
Procurei pela casa. Procurei nas rachas das paredes, debaixo do colchão, dentro da caixa do correio e da máquina de lavar. Procurei por instantes perdidos. Aqueles que planeámos e esquecemos como se fossem um "para sempre" qualquer.
Procurei nos frascos, sob os tapetes, na gaveta dos medicamentos. Procurei pela mais pequena nuance de demência. Pela sobra. Pela poeira de estrelas de nós.
E, sem encontrar mais do que vazios, enterrei a cabeça na almofada para encontrar o teu cheiro. O teu perfume tem o doce da mentira. O amadeirado da traição. Um travo a desgosto. Mas ainda é o teu cheiro. E acordei com a saudade.
Tento encontrar algo de bom nesse passado que nos pertenceu. Talvez ainda acredite. Talvez porque não queira ser a louca que sente falta de sofrer. Tento apanhar memórias, como quem apanha borboletas. Mas a felicidade é poeira. Passa por entre os espaços da rede, deixando apenas o concreto de tudo o que não deve deixar saudades.
Mas, subitamente, a dor não parece dor. A mágoa não parece mágoa. A mentira não parece mentira. Tudo parece nada. Tudo se oculta na saudade. E a saudade insiste: insiste que te quer. Insiste que a dor e a mágoa moram na cama vazia onde acordo. Insiste que o sofrimento é a única mentira e que a digo a mim mesma quando penso estar melhor sem ti.
Tento mergulhar na banheira. Suster a respiração. Lembrar como me sentia quando me sufocavas. Lembrar como era não poder falar, nem respirar, nem ser eu...
A saudade insiste. Pergunta para quem vou falar agora, de qualquer forma. Pergunta se vale a pena respirar sem ti. Pergunta quem sou, agora que não estás.
Enlouqueço. Acordei com a saudade. Saudade do caos plantado na minha alma pela caridade das tuas mãos.
E vou perguntando se é loucura ou masoquismo esta vontade de encontrar até o pior de nós por entre a mobília da casa.
Acordava contigo. Para sofrer. Para sentir o peso do mundo nos ombros. Para sentir a alma fragmentada. Para ver o coração estilhaçar, esmagado sob o teu peso.
Hoje acordei com a saudade... saudade de acordar contigo. Saudade de acordar com o caos que trazias para a nossa casa e a nossa vida.
Acordei para a loucura. E não há nada teu entre as páginas dos livros.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Claudia disse...

Hoje e sempre envolvo-me em lindas palavras escritas e que comovem minha alma lindo o destilhar das palavras enchendo de sonhos onde existe so sonhos que se engaiola em nuvens do horizonte...