terça-feira, 1 de setembro de 2015

É



É na promessa quebrada,
na curva da estrada
que fere o olhar.
É na alma macerada
de quem não diz nada
mas fica a chorar.

No momento sem aviso,
nesse improviso
de ir e não voltar.
É no segundo conciso
em que o paraíso
decide mudar.

É no estender de uma mão,
no toque sem chão
que teima em quebrar.
É no eterno senão
e tantos virão
para o confirmar.

É no adeus, na demora,
no que fica agora:
saudade a queimar.
É no que fica de fora,
que reza e implora
sem ninguém escutar.

É no que fica em final,
triste e desigual,
sem ninguém notar.
Na chegada triunfal
de um amor de sal
que morreu no mar.

É onde vive esta gente
de rosto dormente,
sem pão pra trincar.
É no olhar indolente,
pobreza inocente
que 'inda tenta dar.

Eis onde mora o meu povo,
sem nada de novo
para se agarrar,
preso ao passado
onde 'inda é narrado
um sonho d' encantar.

Eis onde fica o lugar
que insiste em ficar
preso ao que nem sente.
Aqui, quem tenta ficar,
sabe que o luar
é tecto de gente.

É na esmola caída
que se compra a vida
de quem quer morrer.
Beco sem saída
onde, entristecida,
eu vivo a escrever.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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