terça-feira, 7 de junho de 2016

O monstro




Lembro-me concretamente das palavras que alguém disse à minha mãe: "Estás a criar um monstro."

O Monstro era eu.

Naqueles tempos, eu ainda era feliz. Não me lembro de não o ser. No canto poeirento da minha solidão, eu tinha castelos e amigos imaginários. Voava. Era uma sereia. Era uma fada. Era um universo tão cheio de coisas que não me apercebi. Não sabia que, por entre a fantasia e a ilusão, me podia estar destinada a mágoa. Não sabia que era um monstro.

Eu não sabia. Mas alguém soube. Disse-o à minha mãe. E ela, que me amava, discutiu mas não contradisse. Também sabia. Talvez soubesse porque, no fundo, éramos o mesmo tipo de monstro. Ou talvez o soubesse porque via em mim os traços que me afastavam do resto do mundo. Fosse como fosse, antes de eu saber, os outros já o diziam.

O Monstro era eu.

Nos lugares onde passei, ouvi-o. "Pareces um monstro", disseram-me alguns, em palavras que não estas. Disseram-mo enquanto troçavam da minha aparência, das minhas dificuldades, das minhas manias e dos traços que me faziam ser eu. As palavras mudavam mas a mensagem era essa. "Pareces um monstro". Atiravam-me as esperanças do amanhã para o fundo do poço. Varriam-nas para debaixo da cama. Tentei explicar mas troçaram também da explicação, por julgarem que o vazio morava nos traços das explicações. Ninguém ouve as palavras de um monstro.

Cresci. Crescer significou olhar ao espelho e ver o que me diziam que eu era. E tentei dizer a mim mesma: "Além de monstro, és pessoa. Não desistas de ti." Mas, em alguns momentos, desisti. Tentei loucamente ser como os outros. Tão loucamente que a loucura soou e se disse por aí que a minha estranheza me fazia ser um sem fim de coisas. Todas as coisas reduzidas, nos meus ouvidos, à mesma palavra de sempre. Monstro.

O Monstro era eu.

O meu coração tornou-se o meu melhor amigo. Disse ao meu coração, muitas vezes: "o amor vai resolver tudo." Acreditei profundamente nisso. Mas o amor não foi mais do que uma estrada para lugar nenhum. Apaixonei-me. Vezes sem fim. Na maioria das vezes, não houve quem retribuísse o que eu sentia. Houve apenas quem fizesse de mim criança outra vez e se risse no meu rosto.

Mas vivi o amor. Viver o amor significou cair. E imprimiu-se na minha pele. A dor. A mágoa. O abandono. A saudade. No espelho, devolvia-me o olhar alguém que não sabia sorrir. Alguém que não sabia sonhar. Alguém que não queria desistir do que sentia. Presa. Atada ao solo da realidade mais sórdida. O monstro precisava de amor.

O Monstro era eu.

Amanhece todos os dias, para toda a gente. Em alguns dias, o sol também nasceu para mim. Também me beijou. Fez-me sorrir. Descobri que há quem ame. Até os monstros.  Houve braços que me envolveram, mesmo sabendo quem eu era. Sim... algures, alguém descobriu. O monstro tem coração. Um coração que bate e sente e sofre. O monstro também é pessoa.

Toda a gente mo disse mas ninguém o sabe.

O Monstro sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

A descrição fez-me sentir monstro,mas creio que todos carregamos em nós um pouco disto.E as pessoas pensam que não sentimos,que não ligamos,quando isso nos corrói.O monstro é todos nós,e um pouco de cada um há um monstro esperando para aparecer.
Texto incrível,estou curiosa por saber a que se deve a mudança de nome no blogue,viu ;)
Amei <3
Beijinhos,Jenny ^.^

Ana Marques disse...

Já usei tantas vezes esta expressão :-(