terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Carta de um soldado



Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha os olhos verdes. Inclinava a cabeça para a direita quando se ria. Falava sempre de forma mais cortês e mais formal com aqueles de quem não gostava. Usava a ironia com frequência mas nunca como arma de arremesso. Usava-a em tom de brincadeira, qual insinuação tola de criança grande. E fazia sorrir toda a gente com quem se cruzava.
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha casado com uma mulher ruiva, franzina, cheia de sardas acastanhadas junto ao nariz. Todas as noites, junto à fogueira, tirava a fotografia dela do bolso e dizia: "Eis a mulher mais bonita do mundo". Nunca a achei particularmente bonita mas, noite após noite, olhando a fotografia, iluminada pelo fogo, aprendi que a beleza era apenas um dos nomes da paixão. "É por ela que ainda vou voltar vivo para casa", dizia-me. E eu anuía.
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo tinha uma fé mas nunca, nem por uma vez, o ouvi confessar o credo num tom de intolerância. Pouco falava de Deus. Era um homem, entre homens, na luta constante por ser um homem melhor. Dos céus, retirara a lição fundamental: o amor. E, desse amor, fizera crença. Dava-o a toda a gente. Mesmo àqueles que tomávamos por inimigos. Não odiava ninguém. Os nossos colegas diziam: "Estás no sitio errado". Eu nunca lho disse. Mas concordava. Podia ter-lhe dito: "Estás no mundo errado".
Eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. Um dia abriram fogo sobre o nosso campo. "Os outros". Era esse o nome que lhes davam. Tinham outra nacionalidade. Outra cor. Outra religião. Mas, à medida que se aproximavam, com armas nas mãos, eles não me pareciam "outros". Eram iguais a nós. Também tinham duas pernas, dois braços, dois olhos. E, nas mãos, como nós, tinham armas. Desde quando é que as armas eram uma parte de nós? Desde quando é que nós também eramos "os outros"? Questionei a violência. Bloqueei o instinto que me pedia para sobreviver. Baixei a arma. Dei o peito às balas.
Mas eu tinha um amigo.

Eu tinha um amigo. O meu amigo protegeu-me com o próprio corpo. Quando caiu, tinha os olhos verdes abertos e sangue nos lábios. Numa mão, agarrava a fotografia da mulher mais bonita do mundo. Na outra, segurava a arma que nunca disparou. Não voltou para casa. E vieram palavras cruas, cheias de ódio. "Os outros, os outros". Mas a culpa não foi d' "os outros". A culpa foi de quem julga que podem travar-se guerras de poder sob o disfarce da diferença. Nós também somos "os outros". Somos todos "os outros". E não há "outros". Não somos uma nacionalidade. Não somos uma crença. Não somos um tom de pele. Somos humanos. Somos homens. Eramos homens, até nos fazermos monstros, atrás de armas de fogo.

Eu tinha um amigo. Chamam-lhe herói. Não era um herói. Era um homem bom e forte. Completo e cheio de vida. Diz-se por aí que, na guerra, caem primeiro os mais fracos. Eu discordo. Os primeiros a tombar são os justos, os bons, aqueles que faziam do mundo um lugar melhor.
Eu tinha um amigo.

Hoje tenho memórias. Palavras por dizer. Saudades.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


Música e Letra de Helder Godinho
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2 comentários:

edvaldo.p.campos disse...

Texto magnífico! Caiu-me as lágrimas...

lirio do campo disse...

lindo viagei e chorei muito profundoo